Lei Rouanet, debate sequestrado
O
debate público sobre a Lei Rouanet encontra-se sequestrado. De um lado, a
extrema-direita criou um espantalho moral para esconder sua própria
incompetência e reforçar seus preconceitos; de outro, setores da esquerda
entrincheiraram-se na defesa da ferramenta errada, confundindo a preservação da
lei com a defesa da própria Cultura, abandonando o avanço das políticas
públicas. Para superar esse impasse, precisamos olhar para a estrutura do
mecanismo, separando o joio do trigo e, principalmente, apresentar a
alternativa republicana capaz de devolver ao Estado e à sociedade o comando da
política cultural.
A
histrionia sobre a “mamata” cumpre uma função tática precisa: fabricar uma
cortina de fumaça moral para ocultar a perfeita adequação da extrema-direita ao
modelo de privatização cultural. Sob o barulho das acusações ideológicas, o
cinismo neoliberal opera silenciosamente para preservar o mecanismo que entrega
o orçamento público ao arbítrio do marketing corporativo.
A Lei
Rouanet materializa, na prática, o ideal de Estado mínimo. O dinheiro,
subtraído da arrecadação pública, flui diretamente para os departamentos de
marketing das grandes corporações, convertendo o financiamento estatal em verba
publicitária indireta. A definição da política cultural brasileira ocorre,
portanto, nas mesas de gerentes de bancos e empresas, subordinada
exclusivamente a interesses comerciais.
O
discurso vulgar contra a classe artística funciona como distração calculada.
Enquanto a militância digital ataca criadores, a estrutura de transferência do
poder decisório para o setor privado permanece intocada, blindada e funcional
ao projeto liberal-conservador. É a tática diversionista perfeita.
Por
outro lado, a tragédia de parte do campo progressista — e uma falha dos
governos democráticos anteriores — reside na incapacidade de superar o modelo
herdado da década de 1990. Ao defender a Rouanet de forma irrestrita como
sinônimo de política cultural, ignora-se que ela opera uma lógica de exclusão
inerente ao seu desenho.
Mesmo
com os avanços inegáveis de programas como o Cultura Viva e os Pontos de
Cultura durante as gestões Lula e Gil, a espinha dorsal do financiamento
permaneceu sendo a renúncia fiscal. Aceitou-se um pacto perverso onde o Estado
fomenta a experimentação na periferia com recursos escassos, enquanto o volume
massivo do orçamento segue para grandes espetáculos no eixo Rio-SP, legitimados
pelas grandes marcas. Defender a manutenção desse status quo equivale a aceitar
que a cultura só possui validade quando gera lucro ou visibilidade corporativa.
Da
intenção tática ao desastre estratégico, a trajetória do mecanismo exige um
exame honesto de sua gênese. Sob a gestão de Celso Furtado, a renúncia fiscal
possuía uma função estrita de suporte, desenhada para atuar como peça
complementar em um tripé institucional ao lado do Fundo Nacional de Cultura. A
proposta original visava mobilizar o capital privado para somar esforços à ação
do Estado diante da crise fiscal, sem jamais abdicar da soberania pública sobre
as diretrizes do fomento.
A
deformação estrutural ocorreu quando essa manobra de exceção se consolidou como
regra permanente, convertendo o auxílio emergencial na espinha dorsal de todo o
sistema. Instaurou-se um regime de “marketing travestido de mecenato”, onde
grandes corporações utilizam o orçamento público para fortalecer seu branding
institucional. A política cultural passou a obedecer aos critérios de retorno
de imagem exigidos pelas empresas, submetendo a produção artística à lógica
comercial.
Esse
arranjo produz uma brutal concentração geográfica e econômica, alijando o
Brasil profundo e as expressões populares do acesso aos recursos. O Estado,
neste cenário, reduz-se a um mero validador técnico encarregado de carimbar a
viabilidade burocrática, enquanto o mercado exerce o efetivo poder de veto e
escolha, definindo unilateralmente o que merece existir no imaginário cultural
do país.
Para o
efeito de uma cultura republicana, pública e soberana, superar o atual modelo
exige romper com a tutela do mercado sobre a imaginação pública. O caminho não
é por um ajuste técnico, é uma disputa de poder, com participação social para
retirar a decisão cultural dos escritórios da Faria Lima e devolvê-la à
soberania popular. Isso implica radicalizar o uso do Fundo Nacional de Cultura
(FNC), sobretudo do seu conselho, assegurando que o dinheiro público seja
arrecadado e gerido publicamente. O financiamento deve ser direto, livre do
pedágio ideológico das marcas, pautado exclusivamente pela relevância social,
pela ousadia estética e pela diversidade regional.
Para
evitar o risco de uma burocracia centralizada, a solução impõe-se através do
Federalismo Cultural. É imperativo que o recurso saia da União e irrigue
diretamente os Fundos Estaduais e Municipais, eliminando a humilhante
necessidade de peregrinação por patrocínios privados. Somente essa capilaridade
permite que o investimento chegue à ponta do sistema — na biblioteca
comunitária, no teatro de rua e no mestre de cultura popular — rompendo
definitivamente com a concentração histórica de recursos.
Finalmente,
a única blindagem efetiva contra o compadrio reside no Controle Social. A
alocação de verbas deve abandonar a lógica de balcão de negócios para se tornar
um processo regido por editais transparentes e fiscalizado por Conselhos de
Cultura deliberativos. A cultura deve ser compreendida como direito e
cidadania, jamais como mercadoria de troca fiscal. É hora de o Estado
brasileiro parar de terceirizar sua alma e assumir, junto com a sociedade, a
responsabilidade intransferível de fomentar um país plural.
Fonte:
Por Ricardo Queiroz Pinheiro, em Outras Palavras

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