Riscos
e contradições sob o governo José Antonio Kast
O
governo de José Antonio Kast representa riscos para o sistema científico e
tecnológico do Chile, a partir de sua agenda de austeridade fiscal e
reestruturação estatal. Ao estabelecer um paralelo com o “cienticídio” em curso
na Argentina sob Javier Milei. A ofensiva ultraliberal na região promove um
desmonte deliberado da ciência pública, tratando-a como custo e não como bem
comum. A defesa da ciência como pilar da soberania e do desenvolvimento social
exige mobilização política e a construção de um projeto alternativo, articulado
às lutas democráticas mais amplas na periferia do capitalismo...
A
vitória de José Antonio Kast na eleição à presidência do Chile, em dezembro de
2025, inaugura um novo ciclo político cujos impactos ultrapassam os campos
tradicionais da segurança pública e da imigração, alcançando diretamente a
organização do sistema científico e tecnológico do país. Conforme reportado
pela ScienceInsider América Latina, a comunidade científica chilena
manifesta crescente apreensão diante das promessas de austeridade fiscal e de
reestruturação administrativa anunciadas pelo novo governo.
A vitória de Kast, com 58,30% dos
votos contra 41,70% de sua adversária de esquerda, Jeannette Jara, insere-se em um
movimento mais amplo de ascensão de forças conservadoras e ultraliberais na
América do Sul, frequentemente associadas à redução do papel do Estado nas
políticas sociais, educacionais e científicas.
Nesse
sentido, não é casual que pesquisadores chilenos estabeleçam paralelos entre a
agenda de Kast e as políticas incrementadas por Javier Milei na Argentina,
marcadas por cortes orçamentários e pela deslegitimação institucional da
ciência.
Um dos
pontos centrais de tensão reside na promessa de cortar cerca de US$ 6 bilhões
dos gastos públicos nos primeiros 100 dias de governo, sem a apresentação de um
plano detalhado que esclareça quais áreas serão afetadas. Para Claudio Acuña Castillo,
bioquímico da Universidade de Santiago, experiências anteriores demonstram que, em
governos com esse perfil ideológico, educação e ciência tendem a figurar entre
os primeiros alvos dos ajustes fiscais, comprometendo projetos de médio e longo
prazo essenciais ao desenvolvimento nacional.
A
eventual subordinação do Ministério da Ciência ao Ministério da Educação,
aventada durante a campanha, é vista por especialistas como um sinal de
rebaixamento institucional da política científica. Carolina Gainza,
ex-subsecretária de Ciência, Tecnologia, Conhecimento e Inovação, alerta que
tal medida pode reduzir ainda mais o já baixo investimento público em ciência e
tecnologia, atualmente estimado em apenas 0,41% do PIB chileno, aliás, um
patamar inferior ao de países com níveis de desenvolvimento semelhantes. O
enfraquecimento do ministério, nesse contexto, não representa apenas uma
reorganização administrativa, mas uma redefinição do lugar da ciência no
projeto nacional.
Outro
elemento crítico refere-se à ênfase excessiva na pesquisa aplicada e na
produtividade econômica. Embora a vinculação entre ciência e inovação seja
fundamental, Gainza adverte que uma orientação estritamente mercantil tende a
aprofundar desigualdades sociais, criando uma “sociedade de duas velocidades”,
na qual os benefícios do progresso científico não alcançam os setores mais
vulneráveis.
Áreas
como meio ambiente, saúde pública, educação e combate à pobreza, historicamente
dependentes de pesquisas de base e de políticas públicas robustas, correm o
risco de serem marginalizadas.
As
preocupações estendem-se ainda à liberdade acadêmica e à proteção ambiental.
Durante a campanha, Kast criticou a chamada “ideologização” das universidades e
defendeu a desregulamentação ambiental como estratégia de desenvolvimento
econômico. Para Cristina Dorador, ecologista microbiana da Universidade de
Antofagasta, tais posições não apenas fragilizam as instituições de pesquisa,
mas também ameaçam a autonomia intelectual necessária à produção científica
crítica e socialmente comprometida.
Paradoxalmente,
Kast conquistou apoio pontual de setores da comunidade científica ao se
posicionar contra um megaprojeto energético no Deserto do Atacama, que poderia
comprometer a observação astronômica em uma das regiões mais estratégicas do
mundo para essa área do conhecimento. Esse episódio revela as ambiguidades de
sua plataforma: ao mesmo tempo em que critica regulações ambientais, reconhece,
em casos específicos, o valor estratégico do patrimônio científico nacional.
Também
é importante considerar os limites institucionais à implementação de sua
agenda. A ausência de maioria do Partido Republicano no Congresso chileno pode
dificultar mudanças estruturais mais profundas, ao menos no curto prazo. Ainda
assim, a posse prevista para março de 2026 inaugura um período de incertezas,
no qual o futuro da ciência chilena dependerá tanto da correlação de forças
políticas quanto da capacidade de mobilização da comunidade acadêmica e
científica.
Em
síntese, conforme evidenciado pelas análises reunidas por ScienceInsider
América Latina, o governo José Antonio Kast representa um ponto de inflexão
para a política científica no Chile. Mais do que uma disputa orçamentária, está
em jogo a concepção de ciência como bem público, instrumento de desenvolvimento
social e elemento constitutivo da soberania nacional. O desfecho desse processo
terá implicações não apenas para os pesquisadores, mas para o conjunto da
sociedade chilena.
<><>
Austeridade, desmonte estatal e cienticídio: a experiência argentina em
perspectiva comparada
As
preocupações manifestadas pela comunidade científica chilena diante da ascensão
de um projeto político de orientação ultraliberal ganham maior densidade
analítica quando observadas à luz de experiências recentes na América Latina. O
caso argentino, sob o governo de Javier Milei, constitui um exemplo emblemático
dos impactos concretos que políticas de austeridade radical podem produzir
sobre os sistemas nacionais de ciência e tecnologia, funcionando como
advertência regional.
Do
ponto de vista da história social da ciência e da economia política do
conhecimento, tal processo pode ser interpretado como uma forma de
“cienticídio”: isto é, a destruição sistemática das condições materiais,
institucionais e simbólicas que sustentam a produção científica.
Autores
como Robert K. Merton, ao enfatizar a ciência como instituição social, e Pierre
Bourdieu, ao analisar o campo científico como espaço relativamente autônomo,
permitem compreender como o ataque às bases estatais de financiamento
compromete não apenas projetos isolados, mas a própria lógica de reprodução do
campo científico.
Na
tradição marxista, a crítica à subordinação da ciência às exigências imediatas
do mercado encontra eco em autores como John D. Bernal e, mais recentemente,
David Harvey, ao analisarem os efeitos do neoliberalismo sobre as instituições
públicas. A experiência argentina evidencia que a austeridade não se limita a
uma política fiscal, mas constitui um projeto político de reconfiguração do
papel do Estado, no qual a ciência deixa de ser concebida como bem público e
passa a ser tratada como custo dispensável.
Os
efeitos desse processo manifestam-se de forma concreta na intensificação da
fuga de cérebros, na descontinuidade de políticas de formação científica e na
fragilização da soberania nacional. Assim, ao dialogar com o cenário chileno, o
caso argentino reforça a necessidade de compreender a política científica como
parte integrante de um projeto de desenvolvimento social, democrático e
soberano.
<><>
Considerações finais
A
análise comparativa entre Chile e Argentina permite afirmar que os rumos da
política científica não podem ser dissociados das disputas mais amplas em torno
do papel do Estado, da democracia e do desenvolvimento – especialmente no
contexto das formas de organização e da capacidade de mobilização da classe
trabalhadora nos países periféricos do capitalismo.
O
conceito de cienticídio, longe de ser mero recurso retórico, revela-se uma
categoria analítica indispensável para interpretar processos de desmonte
estrutural da ciência em contextos de ofensiva ultraliberal. Ele expõe não
apenas a redução de verbas ou o desmantelamento institucional, mas
a destruição deliberada das condições sociais, materiais e simbólicas que
permitem a existência de um sistema científico autônomo e voltado ao interesse
público.
Nos
países periféricos, a burguesia nacional, em sua adesão subordinada ao projeto
global do capital financeiro, tem abandonado progressivamente a defesa das
universidades, da ciência, da tecnologia, da cultura e da educação como pilares
imprescindíveis para a construção e a consolidação da soberania nacional.
Como
demonstram os casos chileno e argentino, essa renúncia abre espaço para que a
ciência seja reconfigurada como mercadoria ou custo ajustável, aprofundando
desigualdades e fragilizando a capacidade de desenvolvimento endógeno.
Diante
desse cenário, a tarefa de defender a ciência como bem público e
instrumento de emancipação social impõe-se de maneira imperiosa. Essa
bandeira, historicamente negligenciada pelas elites locais, recoloca-se hoje
como ponto nevrálgico na agenda política da classe trabalhadora e de suas
organizações. A resistência à austeridade científica e a construção de um
projeto alternativo dependem da capacidade de mobilização da comunidade
acadêmica, mas também de sua articulação com movimentos sociais, sindicatos
e forças políticas comprometidas com um modelo de desenvolvimento includente,
democrático e soberano.
O
desfecho dessa disputa, no Chile, definirá não apenas o destino dos
pesquisadores, mas o tipo de sociedade que seremos capazes de construir. Em
última instância, a defesa do sistema público de ciência e tecnologia
configura-se como trincheira estratégica na luta mais ampla pela
transformação social.
Nos
programas de transição que se levantarem nos países que almejam um futuro
socialista, a ciência deve ocupar lugar central, não como apêndice técnico, mas
como prática social coletiva, orientada pela solidariedade humana, pela
justiça cognitiva e pelo cuidado com a preservação da vida no planeta.
¨
O Que Esperar do Governo de José Antonio Kast
(2026-2030)?
O Chile
elegeu José Antonio Kast, líder da ultradireita, como seu novo presidente,
encerrando o ciclo de quatro anos da esquerda no Palácio La Moneda. Com a
vitória no segundo turno contra a candidata governista Jeannette Jara, Kast
assumirá o cargo em março de 2026, prometendo uma guinada radical na política
chilena, focada em segurança, imigração e economia liberal.
<><>
As Três Principais Expectativas
A
vitória de Kast, um admirador declarado da ditadura de Augusto Pinochet,
reflete o crescente descontentamento da população com a criminalidade, a
imigração irregular e a instabilidade política dos últimos anos. O mandato de
2026 a 2030 será marcado pela tentativa de implementar uma agenda conservadora,
mas enfrentará desafios consideráveis, especialmente no Congresso.
>>>>
1. Segurança e Imigração: A “Mão Dura” em Ação
O cerne
da plataforma de Kast é o discurso de “ordem e segurança”. Espera-se que o novo
governo adote medidas linha-dura:
- Imigração: Promessas
de deportação em massa de imigrantes em situação irregular
(cerca de 340 mil, em sua maioria venezuelanos) e o uso de recursos como
militares e drones para fechar as fronteiras.
- Combate ao
Crime: Foco em endurecer o combate ao crime organizado e ao
narcotráfico, com planos para a construção de prisões de segurança máxima.
>>>>
2. Economia Pró-Mercado com Cortes de Gastos
Na
esfera econômica, Kast e sua equipe defendem uma agenda
de livre-mercado e redução do Estado:
- Redução de
Gastos: Proposta
de corte de gastos públicos em cerca de US$ 6 bilhões nos
primeiros 18 meses (equivalente a 7% do orçamento anual), sem, no entanto,
impactar a previdência social.
- Incentivo
Empresarial: Ações para desburocratização e redução de impostos
corporativos, visando estimular o crescimento econômico e a produtividade.
>>>>
3. Desafios de Governança em um Congresso Dividido
O
principal obstáculo para a agenda de Kast será o Congresso Nacional. O
novo presidente não possui maioria absoluta em nenhuma das câmaras.
- Necessidade de
Acordos: Para
aprovar suas reformas, Kast precisará costurar alianças com a direita
tradicional, que, apesar de ideologicamente próxima, não faz parte de sua
coalizão.
- Polarização: O Chile
emerge de um período de intensa polarização e tentativas fracassadas de
reforma constitucional (tanto à esquerda quanto à direita). O governo Kast
terá o desafio de provar que pode governar de forma democrática e
institucional em meio a um ambiente político tão dividido.
<><>
Geopolítica: Novo Alinhamento
No
plano internacional, espera-se que Kast realinhe a política externa chilena.
Embora a China seja o principal parceiro comercial, o novo presidente deve
buscar um fortalecimento dos laços com os Estados Unidos e com
líderes de direita e ultradireita na América Latina, como o presidente
argentino Javier Milei.
A
eleição de Kast não apenas reposiciona o Chile no espectro ideológico regional,
mas também marca a ascensão da ultradireita ao poder desde o fim da ditadura. O
Chile se prepara para um período de profundas mudanças, cujo sucesso dependerá
da capacidade do novo presidente de negociar e aplicar suas promessas em um
cenário de forte oposição e grandes expectativas de mudança por parte da
população.
¨
Entenda os principais desafios que Kast enfrentará
Em
2021, Kast havia perdido a disputa presidencial para o presidente de esquerda
Gabriel Boric. Mas agora, suas propostas encontraram ressonância entre os
eleitores, em sua maioria preocupados com a criminalidade e a imigração.Ele
prometeu fechar as fronteiras para imigrantes irregulares, combater o crime
organizado e acabar com as longas filas de espera nos hospitais.
<><>
Como o Congresso do Chile está dividido?
O
cenário após as eleições — em que os chilenos votaram para deputados e
senadores, além da presidência — mostra que nenhuma força política terá maioria
absoluta na Câmara ou no Senado, o que forçará negociações parlamentares. Para
Kast, fundador do Partido Republicano, o cenário de uma eventual negociação
poderia ser mais favorável, já que recebeu apoio de outros candidatos que
perderam no primeiro turno: Evelyn Matthei, da direita tradicional, e Johannes
Kaiser, do Partido Nacional Libertário, de ultradireita. Com o apoio dessas
figuras, o bloco de
forças de direita estaria
próximo da maioria absoluta nas duas câmaras.
No
Senado, nestas eleições os cidadãos votaram pela renovação de 23 dos 50
assentos. Sendo 11 dessas vagas tenso sido conquistadas pela aliança de
esquerda, Unidad por Chile. Cinco assentos foram conquistados pela aliança
Chile Grande y Unidos, alinhado à direita tradicional de Evelyn Matthei. Seis
foram para a aliança Cambio por Chile, da ultradireita alinhada com Kast e
Kaiser, enquanto o restante foi para o aliança Verdes, Regionalistas e
Humanistas. Desta forma, o Senado ficará configurado da seguinte forma: 20
cadeiras para Unidad por Chile, 18 para Chile Grande y Unidos, sete para Cambio
por Chile, três para Verdes, Regionalistas e Humanistas, e duas para
legisladores independentes. Assim, o bloco de forças de direita ficaria com 25
vagas, apenas metade do Senado.
Enquanto
isso, na Câmara dos Deputados, onde foram renovadas as 155 cadeiras, a situação
é semelhante. A esquerda da Unidad por Chile conquistou 61 vagas, seguida pela
ultradireita do Cambio por Chile com 42, a direita tradicional do Chile Grande
y Unidos com 34, o Partido Popular do candidato presidencial Franco Parisi com
14, os Verdes, Regionalistas e Humanistas com três e, finalmente, um deputado
independente. Neste caso, embora a aliança de esquerda tenha saído na frente, o
bloco de forças de direita formado por Chile Grande y Unidos e Cambio por Chile
possui 76 assentos, precisando apenas de mais dois para obter a maioria
absoluta.
<><>
Negociar é a única saída
Com
estes números, fica claro que Kast, como vencedor, terá que negociar, analisou
a especialista Mónica Ríos Tobar, diretora para a América Latina e Caribe da
organização não governamental International IDEA. Em uma entrevista ao “E isto
não é tudo”, o podcast em espanhol da Universidade de Georgetown, Ríos explicou
que as reformas da Constituição chilena, por exemplo exigem quatro sétimos de
cada câmara, uma margem que nem o bloco de Jara nem o de Kast alcançarão
sozinhos.
Neste
contexto, acrescentou Ríos, os 14 votos do Partido Popular serão fundamentais
na Câmara dos Deputados. "O partido de Franco Parisi, o Partido Popular,
conseguiu obter 14 cadeiras, pouco menos de 10% (do total da câmara), mas se
tornará um partido essencial, um pivô para a governabilidade do país daqui para
frente", explica.
Cristóbal
Huneeus Lagos, analista e economista, expressou um ponto de vista semelhante.
Em entrevista ao jornal El País, ele disse que Kast “terá que mudar o foco”,
porque precisa do apoio da centro-direita.
<><>
Prioridades elegidas por Kast
José
Kast se inspirou nos Estados Unidos para sua abordagem de linha dura nas
fronteiras e, no ano passado, visitou as megaprisões salvadorenhas construídas
pelo presidente Nayib Bukele, um modelo que sua plataforma defende, juntamente
com uma zona de fronteira militarizada. Ele também elogiou o ex-presidente
brasileiro Jair Bolsonaro (PL), e o presidente dos EUA, Donald Trump,
prometendo construir uma força policial especializada nos moldes do ICE
(Serviço de Imigração e Alfândega dos EUA), encarregada de rastrear imigrantes
irregulares e deportá-los rapidamente.
O plano
econômico dele inclui leis trabalhistas mais flexíveis, cortes nos impostos
corporativos e menos regulamentação (embora se espere que ele modere os cortes
de gastos considerados irreais) à medida que reformula sua plataforma para
incorporar as de seus principais rivais de direita. Kast já afirmou que
revogaria os direitos limitados ao aborto no Chile e proibiria a venda da
pílula do dia seguinte.
Durante
a campanha ele se concentrou em outras questões, mas disse que não mudou de
opinião. "Eu apoio a vida desde a concepção até a morte natural",
declarou o presidente eleito quando questionado sobre o assunto durante o
último debate televisionado.
Fonte:
Por Carlos Bauer, no Le Monde/Nacashovi News/CNN Brasil

Nenhum comentário:
Postar um comentário