sábado, 24 de janeiro de 2026

Riscos e contradições sob o governo José Antonio Kast

O governo de José Antonio Kast representa riscos para o sistema científico e tecnológico do Chile, a partir de sua agenda de austeridade fiscal e reestruturação estatal. Ao estabelecer um paralelo com o “cienticídio” em curso na Argentina sob Javier Milei. A ofensiva ultraliberal na região promove um desmonte deliberado da ciência pública, tratando-a como custo e não como bem comum. A defesa da ciência como pilar da soberania e do desenvolvimento social exige mobilização política e a construção de um projeto alternativo, articulado às lutas democráticas mais amplas na periferia do capitalismo...

A vitória de José Antonio Kast na eleição à presidência do Chile, em dezembro de 2025, inaugura um novo ciclo político cujos impactos ultrapassam os campos tradicionais da segurança pública e da imigração, alcançando diretamente a organização do sistema científico e tecnológico do país. Conforme reportado pela ScienceInsider América Latina, a comunidade científica chilena manifesta crescente apreensão diante das promessas de austeridade fiscal e de reestruturação administrativa anunciadas pelo novo governo.

A vitória de Kast, com 58,30% dos votos contra 41,70% de sua adversária de esquerda, Jeannette Jara, insere-se em um movimento mais amplo de ascensão de forças conservadoras e ultraliberais na América do Sul, frequentemente associadas à redução do papel do Estado nas políticas sociais, educacionais e científicas.

Nesse sentido, não é casual que pesquisadores chilenos estabeleçam paralelos entre a agenda de Kast e as políticas incrementadas por Javier Milei na Argentina, marcadas por cortes orçamentários e pela deslegitimação institucional da ciência.

Um dos pontos centrais de tensão reside na promessa de cortar cerca de US$ 6 bilhões dos gastos públicos nos primeiros 100 dias de governo, sem a apresentação de um plano detalhado que esclareça quais áreas serão afetadas. Para Claudio Acuña Castillo, bioquímico da Universidade de Santiago, experiências anteriores demonstram que, em governos com esse perfil ideológico, educação e ciência tendem a figurar entre os primeiros alvos dos ajustes fiscais, comprometendo projetos de médio e longo prazo essenciais ao desenvolvimento nacional.

A eventual subordinação do Ministério da Ciência ao Ministério da Educação, aventada durante a campanha, é vista por especialistas como um sinal de rebaixamento institucional da política científica. Carolina Gainza, ex-subsecretária de Ciência, Tecnologia, Conhecimento e Inovação, alerta que tal medida pode reduzir ainda mais o já baixo investimento público em ciência e tecnologia, atualmente estimado em apenas 0,41% do PIB chileno, aliás, um patamar inferior ao de países com níveis de desenvolvimento semelhantes. O enfraquecimento do ministério, nesse contexto, não representa apenas uma reorganização administrativa, mas uma redefinição do lugar da ciência no projeto nacional.

Outro elemento crítico refere-se à ênfase excessiva na pesquisa aplicada e na produtividade econômica. Embora a vinculação entre ciência e inovação seja fundamental, Gainza adverte que uma orientação estritamente mercantil tende a aprofundar desigualdades sociais, criando uma “sociedade de duas velocidades”, na qual os benefícios do progresso científico não alcançam os setores mais vulneráveis.

Áreas como meio ambiente, saúde pública, educação e combate à pobreza, historicamente dependentes de pesquisas de base e de políticas públicas robustas, correm o risco de serem marginalizadas.

As preocupações estendem-se ainda à liberdade acadêmica e à proteção ambiental. Durante a campanha, Kast criticou a chamada “ideologização” das universidades e defendeu a desregulamentação ambiental como estratégia de desenvolvimento econômico. Para Cristina Dorador, ecologista microbiana da Universidade de Antofagasta, tais posições não apenas fragilizam as instituições de pesquisa, mas também ameaçam a autonomia intelectual necessária à produção científica crítica e socialmente comprometida.

Paradoxalmente, Kast conquistou apoio pontual de setores da comunidade científica ao se posicionar contra um megaprojeto energético no Deserto do Atacama, que poderia comprometer a observação astronômica em uma das regiões mais estratégicas do mundo para essa área do conhecimento. Esse episódio revela as ambiguidades de sua plataforma: ao mesmo tempo em que critica regulações ambientais, reconhece, em casos específicos, o valor estratégico do patrimônio científico nacional.

Também é importante considerar os limites institucionais à implementação de sua agenda. A ausência de maioria do Partido Republicano no Congresso chileno pode dificultar mudanças estruturais mais profundas, ao menos no curto prazo. Ainda assim, a posse prevista para março de 2026 inaugura um período de incertezas, no qual o futuro da ciência chilena dependerá tanto da correlação de forças políticas quanto da capacidade de mobilização da comunidade acadêmica e científica.

Em síntese, conforme evidenciado pelas análises reunidas por ScienceInsider América Latina, o governo José Antonio Kast representa um ponto de inflexão para a política científica no Chile. Mais do que uma disputa orçamentária, está em jogo a concepção de ciência como bem público, instrumento de desenvolvimento social e elemento constitutivo da soberania nacional. O desfecho desse processo terá implicações não apenas para os pesquisadores, mas para o conjunto da sociedade chilena.

<><> Austeridade, desmonte estatal e cienticídio: a experiência argentina em perspectiva comparada

As preocupações manifestadas pela comunidade científica chilena diante da ascensão de um projeto político de orientação ultraliberal ganham maior densidade analítica quando observadas à luz de experiências recentes na América Latina. O caso argentino, sob o governo de Javier Milei, constitui um exemplo emblemático dos impactos concretos que políticas de austeridade radical podem produzir sobre os sistemas nacionais de ciência e tecnologia, funcionando como advertência regional.

Do ponto de vista da história social da ciência e da economia política do conhecimento, tal processo pode ser interpretado como uma forma de “cienticídio”: isto é, a destruição sistemática das condições materiais, institucionais e simbólicas que sustentam a produção científica.

Autores como Robert K. Merton, ao enfatizar a ciência como instituição social, e Pierre Bourdieu, ao analisar o campo científico como espaço relativamente autônomo, permitem compreender como o ataque às bases estatais de financiamento compromete não apenas projetos isolados, mas a própria lógica de reprodução do campo científico.

Na tradição marxista, a crítica à subordinação da ciência às exigências imediatas do mercado encontra eco em autores como John D. Bernal e, mais recentemente, David Harvey, ao analisarem os efeitos do neoliberalismo sobre as instituições públicas. A experiência argentina evidencia que a austeridade não se limita a uma política fiscal, mas constitui um projeto político de reconfiguração do papel do Estado, no qual a ciência deixa de ser concebida como bem público e passa a ser tratada como custo dispensável.

Os efeitos desse processo manifestam-se de forma concreta na intensificação da fuga de cérebros, na descontinuidade de políticas de formação científica e na fragilização da soberania nacional. Assim, ao dialogar com o cenário chileno, o caso argentino reforça a necessidade de compreender a política científica como parte integrante de um projeto de desenvolvimento social, democrático e soberano.

<><> Considerações finais

A análise comparativa entre Chile e Argentina permite afirmar que os rumos da política científica não podem ser dissociados das disputas mais amplas em torno do papel do Estado, da democracia e do desenvolvimento – especialmente no contexto das formas de organização e da capacidade de mobilização da classe trabalhadora nos países periféricos do capitalismo.

O conceito de cienticídio, longe de ser mero recurso retórico, revela-se uma categoria analítica indispensável para interpretar processos de desmonte estrutural da ciência em contextos de ofensiva ultraliberal. Ele expõe não apenas a redução de verbas ou o desmantelamento institucional, mas a destruição deliberada das condições sociais, materiais e simbólicas que permitem a existência de um sistema científico autônomo e voltado ao interesse público.

Nos países periféricos, a burguesia nacional, em sua adesão subordinada ao projeto global do capital financeiro, tem abandonado progressivamente a defesa das universidades, da ciência, da tecnologia, da cultura e da educação como pilares imprescindíveis para a construção e a consolidação da soberania nacional.

Como demonstram os casos chileno e argentino, essa renúncia abre espaço para que a ciência seja reconfigurada como mercadoria ou custo ajustável, aprofundando desigualdades e fragilizando a capacidade de desenvolvimento endógeno.

Diante desse cenário, a tarefa de defender a ciência como bem público e instrumento de emancipação social impõe-se de maneira imperiosa. Essa bandeira, historicamente negligenciada pelas elites locais, recoloca-se hoje como ponto nevrálgico na agenda política da classe trabalhadora e de suas organizações. A resistência à austeridade científica e a construção de um projeto alternativo dependem da capacidade de mobilização da comunidade acadêmica, mas também de sua articulação com movimentos sociais, sindicatos e forças políticas comprometidas com um modelo de desenvolvimento includente, democrático e soberano.

O desfecho dessa disputa, no Chile, definirá não apenas o destino dos pesquisadores, mas o tipo de sociedade que seremos capazes de construir. Em última instância, a defesa do sistema público de ciência e tecnologia configura-se como trincheira estratégica na luta mais ampla pela transformação social.

Nos programas de transição que se levantarem nos países que almejam um futuro socialista, a ciência deve ocupar lugar central, não como apêndice técnico, mas como prática social coletiva, orientada pela solidariedade humana, pela justiça cognitiva e pelo cuidado com a preservação da vida no planeta.

¨      O Que Esperar do Governo de José Antonio Kast (2026-2030)?

O Chile elegeu José Antonio Kast, líder da ultradireita, como seu novo presidente, encerrando o ciclo de quatro anos da esquerda no Palácio La Moneda. Com a vitória no segundo turno contra a candidata governista Jeannette Jara, Kast assumirá o cargo em março de 2026, prometendo uma guinada radical na política chilena, focada em segurança, imigração e economia liberal.

<><>  As Três Principais Expectativas

A vitória de Kast, um admirador declarado da ditadura de Augusto Pinochet, reflete o crescente descontentamento da população com a criminalidade, a imigração irregular e a instabilidade política dos últimos anos. O mandato de 2026 a 2030 será marcado pela tentativa de implementar uma agenda conservadora, mas enfrentará desafios consideráveis, especialmente no Congresso.

>>>> 1. Segurança e Imigração: A “Mão Dura” em Ação

O cerne da plataforma de Kast é o discurso de “ordem e segurança”. Espera-se que o novo governo adote medidas linha-dura:

  • Imigração: Promessas de deportação em massa de imigrantes em situação irregular (cerca de 340 mil, em sua maioria venezuelanos) e o uso de recursos como militares e drones para fechar as fronteiras.
  • Combate ao Crime: Foco em endurecer o combate ao crime organizado e ao narcotráfico, com planos para a construção de prisões de segurança máxima.

>>>> 2. Economia Pró-Mercado com Cortes de Gastos

Na esfera econômica, Kast e sua equipe defendem uma agenda de livre-mercado e redução do Estado:

  • Redução de Gastos: Proposta de corte de gastos públicos em cerca de US$ 6 bilhões nos primeiros 18 meses (equivalente a 7% do orçamento anual), sem, no entanto, impactar a previdência social.
  • Incentivo Empresarial: Ações para desburocratização e redução de impostos corporativos, visando estimular o crescimento econômico e a produtividade.

>>>> 3. Desafios de Governança em um Congresso Dividido

O principal obstáculo para a agenda de Kast será o Congresso Nacional. O novo presidente não possui maioria absoluta em nenhuma das câmaras.

  • Necessidade de Acordos: Para aprovar suas reformas, Kast precisará costurar alianças com a direita tradicional, que, apesar de ideologicamente próxima, não faz parte de sua coalizão.
  • Polarização: O Chile emerge de um período de intensa polarização e tentativas fracassadas de reforma constitucional (tanto à esquerda quanto à direita). O governo Kast terá o desafio de provar que pode governar de forma democrática e institucional em meio a um ambiente político tão dividido.

<><> Geopolítica: Novo Alinhamento

No plano internacional, espera-se que Kast realinhe a política externa chilena. Embora a China seja o principal parceiro comercial, o novo presidente deve buscar um fortalecimento dos laços com os Estados Unidos e com líderes de direita e ultradireita na América Latina, como o presidente argentino Javier Milei.

A eleição de Kast não apenas reposiciona o Chile no espectro ideológico regional, mas também marca a ascensão da ultradireita ao poder desde o fim da ditadura. O Chile se prepara para um período de profundas mudanças, cujo sucesso dependerá da capacidade do novo presidente de negociar e aplicar suas promessas em um cenário de forte oposição e grandes expectativas de mudança por parte da população.

¨      Entenda os principais desafios que Kast enfrentará

Em 2021, Kast havia perdido a disputa presidencial para o presidente de esquerda Gabriel Boric. Mas agora, suas propostas encontraram ressonância entre os eleitores, em sua maioria preocupados com a criminalidade e a imigração.Ele prometeu fechar as fronteiras para imigrantes irregulares, combater o crime organizado e acabar com as longas filas de espera nos hospitais.

<><> Como o Congresso do Chile está dividido?

O cenário após as eleições — em que os chilenos votaram para deputados e senadores, além da presidência — mostra que nenhuma força política terá maioria absoluta na Câmara ou no Senado, o que forçará negociações parlamentares. Para Kast, fundador do Partido Republicano, o cenário de uma eventual negociação poderia ser mais favorável, já que recebeu apoio de outros candidatos que perderam no primeiro turno: Evelyn Matthei, da direita tradicional, e Johannes Kaiser, do Partido Nacional Libertário, de ultradireita. Com o apoio dessas figuras, o bloco de forças de direita estaria próximo da maioria absoluta nas duas câmaras.

No Senado, nestas eleições os cidadãos votaram pela renovação de 23 dos 50 assentos. Sendo 11 dessas vagas tenso sido conquistadas pela aliança de esquerda, Unidad por Chile. Cinco assentos foram conquistados pela aliança Chile Grande y Unidos, alinhado à direita tradicional de Evelyn Matthei. Seis foram para a aliança Cambio por Chile, da ultradireita alinhada com Kast e Kaiser, enquanto o restante foi para o aliança Verdes, Regionalistas e Humanistas. Desta forma, o Senado ficará configurado da seguinte forma: 20 cadeiras para Unidad por Chile, 18 para Chile Grande y Unidos, sete para Cambio por Chile, três para Verdes, Regionalistas e Humanistas, e duas para legisladores independentes. Assim, o bloco de forças de direita ficaria com 25 vagas, apenas metade do Senado.

Enquanto isso, na Câmara dos Deputados, onde foram renovadas as 155 cadeiras, a situação é semelhante. A esquerda da Unidad por Chile conquistou 61 vagas, seguida pela ultradireita do Cambio por Chile com 42, a direita tradicional do Chile Grande y Unidos com 34, o Partido Popular do candidato presidencial Franco Parisi com 14, os Verdes, Regionalistas e Humanistas com três e, finalmente, um deputado independente. Neste caso, embora a aliança de esquerda tenha saído na frente, o bloco de forças de direita formado por Chile Grande y Unidos e Cambio por Chile possui 76 assentos, precisando apenas de mais dois para obter a maioria absoluta.

<><> Negociar é a única saída

Com estes números, fica claro que Kast, como vencedor, terá que negociar, analisou a especialista Mónica Ríos Tobar, diretora para a América Latina e Caribe da organização não governamental International IDEA. Em uma entrevista ao “E isto não é tudo”, o podcast em espanhol da Universidade de Georgetown, Ríos explicou que as reformas da Constituição chilena, por exemplo exigem quatro sétimos de cada câmara, uma margem que nem o bloco de Jara nem o de Kast alcançarão sozinhos.

Neste contexto, acrescentou Ríos, os 14 votos do Partido Popular serão fundamentais na Câmara dos Deputados. "O partido de Franco Parisi, o Partido Popular, conseguiu obter 14 cadeiras, pouco menos de 10% (do total da câmara), mas se tornará um partido essencial, um pivô para a governabilidade do país daqui para frente", explica.

Cristóbal Huneeus Lagos, analista e economista, expressou um ponto de vista semelhante. Em entrevista ao jornal El País, ele disse que Kast “terá que mudar o foco”, porque precisa do apoio da centro-direita.

<><> Prioridades elegidas por Kast

José Kast se inspirou nos Estados Unidos para sua abordagem de linha dura nas fronteiras e, no ano passado, visitou as megaprisões salvadorenhas construídas pelo presidente Nayib Bukele, um modelo que sua plataforma defende, juntamente com uma zona de fronteira militarizada. Ele também elogiou o ex-presidente brasileiro Jair Bolsonaro (PL), e o presidente dos EUA, Donald Trump, prometendo construir uma força policial especializada nos moldes do ICE (Serviço de Imigração e Alfândega dos EUA), encarregada de rastrear imigrantes irregulares e deportá-los rapidamente.

O plano econômico dele inclui leis trabalhistas mais flexíveis, cortes nos impostos corporativos e menos regulamentação (embora se espere que ele modere os cortes de gastos considerados irreais) à medida que reformula sua plataforma para incorporar as de seus principais rivais de direita. Kast já afirmou que revogaria os direitos limitados ao aborto no Chile e proibiria a venda da pílula do dia seguinte.

Durante a campanha ele se concentrou em outras questões, mas disse que não mudou de opinião. "Eu apoio a vida desde a concepção até a morte natural", declarou o presidente eleito quando questionado sobre o assunto durante o último debate televisionado.

 

Fonte: Por Carlos Bauer, no Le Monde/Nacashovi News/CNN Brasil

 

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