Roberto
Amaral: A política externa do império — projeção e produto de sua história
Nada do
que estamos assistindo é estranho à história da formação da sociedade
estadunidense, marcada pela violência da colonização, que é a semente de suas
relações com o mundo, dos tempos ingleses e espanhóis dos primeiros
aventureiros até aqui: animus de beligerância à beira da barbárie sem descanso,
que, aos olhos da humanidade de hoje, apenas se aprofunda, pragmaticamente
desapartada de limites éticos ou de cuidados semânticos, aposentado o vencido
cinismo liberal do discurso “politicamente correto”.
O big
stick permanece a postos; variável é tão-só a fala.
O far
west não é um só momento da saga dos pioneiros. É uma ideologia de expansão e
domínio. É o direito (ou a força que se transforma em direito) que se legitima
pela efetividade. Ou, para usar termos mais amenos, que se efetiva pela sua
naturalização. Frantz Fanon já nos falou sobre a alienação do colonizado,
reproduzindo como seus os interesses do colonizador.
Há
pouco nos foi dado conhecer as incursões mais ou menos bem-sucedidas de
políticos brasileiros de extrema-direita obrando junto à Casa Branca contra
interesses nacionais. Igualmente são públicas as tratativas de plantadores de
soja e exportadores de carne negociando, em nosso nome, em Washington, o
tarifaço de Trump.
O
direito das gentes é a força que se faz valer e respeitar, como antes se faziam
respeitar as legiões romanas, como hoje os marines (com o arsenal atômico de
Washington em seus espadares) ditam a “nova ordem mundial”. Tragédia ou farsa,
a “Conquista do Oeste” é a conquista do mundo, uma saga que começou quando os
primeiros hominídeos desceram das árvores.
O far
west não é um momento passado, vencido ou superado. É uma política vigente.
A
violência, insisto – porque está no eixo explicador da história presente – é o
traço formador da alma dos EUA: a ocupação do vasto território; a conquista do
Oeste; a deliberada destruição das civilizações nativas; a escravidão
luciferina; o racismo levado ao paroxismo; o macarthismo no século XX; e, em
pleno século XXI, a violência contra imigrantes em país construído por
imigrantes, e a sobrevivência da inominável Ku Klux Klan. As muitas guerras,
nenhuma em defesa de seu território (jamais ameaçado); todas elas guerras de
agressão, quase todas guerras de conquista territorial, de que é exemplar a
guerra contra o México (1848) e a usurpação de nada menos do que 55% de seu
território original.
Não há,
pois, por que cuidar do trumpismo — ainda que sua violência espante até os
súditos mais fiéis — como um fenômeno próprio. Jamais um surto pananoide.
Como
dizia Ernest Renan, “a nação é uma alma, um princípio espiritual”. A “alma
estadunidense” é filha e mãe de sua história.
E nada
mais estadunidense do que a índole do imperialismo — desnaturado ainda pela
explosão do capitalismo monopolista, desnaturado por necessidade de expansão
sem freios. O capitalismo é um Leviatã que não pode parar de crescer, de
expandir-se; romper limites é o determinismo de sua pantagruélica fome
cosmológica.
Lênin,
escrevendo em 1916 (Imperialismo: fase superior do capitalismo), ditava que “o
imperialismo é o capitalismo em sua fase superior, caracterizado pela dominação
dos monopólios e do capital financeiro, pela exportação de capitais, pela
partilha do mundo entre os grandes trustes internacionais e pela conclusão da
partilha territorial do globo entre as grandes potências capitalistas”.
Não foi
lido pelos estrategistas brasileiros. É pena, pois ainda é preciso dizer-se que
imperialismo não é apenas política externa, mas uma estrutura histórica do
capitalismo, resultante da fusão entre capital bancário e industrial e da
necessidade sistêmica de expansão, a que, antes, se referiu Marx: o capitalismo
depende de sua expansão, e esta expansão depende da conquista permanente de
mercados, da conquista de territórios e de riquezas, de matérias-primas e
insumos e, sempre de mercado consumidor.
Para
tudo isso, vale-se ainda da conquista ideológica do domínio da narrativa que
construirá o real.
O
imperialismo norte-americano, este de que cuidamos, começa a tomar o corpo
contemporâneo no encontro da explosão de seu alto desenvolvimento capitalista
com a decadência da Europa, despreparada para o fim da exploração colonial (a
irremovível decadência cíclica dos impérios).
A
autodepredação da I Guerra Mundial semeia o terreno para a emergência de
fenômenos siameses: a crise econômica continental; a recuperação
econômico-militar da Alemanha; o nazifascismo; o Eixo; a guerra; e, com a
guerra, a segunda morte da Europa.
Os
vitoriosos, antípodas, são os EUA e a URSS, que, aos trancos e barrancos,
arregaçam as mangas para construir o “novo” mundo em disputa, ora fatiado, ora
ceifado ao meio expondo os espaços nos quais as potências nucleares vão
exercer, sem peias, seu domínio.
Eram os
tempos da polaridade militar-ideológica entre capitalismo e socialismo. Cada um
cuida do seu quinhão, de sua área de influência. Sabe-se como tudo terminou.
Os EUA,
os grandes vitoriosos — campeões em todas as frentes: militar, econômica e
político-ideológica —, são o novo regente, guia e tutor do Ocidente. Cuidam de
arrumar a casa… para si (arrumar a casa é reorganizar o mundo segundo seus
interesses como líderes planetários).
Na
Conferência de Bretton Woods (1944, portanto antes da rendição da Alemanha e
das bombas atômicas sobre o Japão, em 1945), reuniram delegados de 44 países
aliados para definir o novo sistema monetário e financeiro. Estabeleceu-se uma
nova ordem monetária internacional, tornando o dólar a moeda central da
economia global, moeda de referência internacional, que os EUA poderiam emitir,
e podem até hoje, e emitem livremente, seguindo apenas como parâmetro
interesses políticos, econômicos ou estratégico-militares.
Para
seu suporte e intervencionismos sem conta, são criadas instituições de atuação
global como o BIRD, o FMI e o Banco Mundial e, em 1947, o GATT (semente da hoje
escanteada OMC). Passados 82 anos da histórica cúpula capitalista num bucólico
vilarejo nas montanhas de New Hampshire, esta é ainda a base
estrutural-financeira da hegemonia do imperialismo, a base material do que se
chamou de “século americano”, que igualmente se aplica às primeiras décadas
deste indócil século XXI.
Permanecem
globais e onipotentes as instituições inventadas para controlar e estabilizar o
sistema financeiro, que, controlando os grandes capitais, os grandes
investimentos e os grandes fluxos, transformam-se também em instrumentos de
reprodução da dependência.
Mesmo
perdendo força (coisa que os senhores da guerra não ignoram), o dólar segue
como principal moeda de reserva, e os EUA conservam o poder de financiar seus
déficits em sua própria moeda. Caso único.
Seguiram-se
os muitos anos de disputa entre o império americano e a URSS de então,
emergente e vitoriosa, inclusive militarmente. No contrapelo surge a “Cortina
de Ferro”; são os ventos da Guerra Fria, timbrados também pelos frustrados
esforços soviéticos tanto de concorrência quanto de “convivência pacífica”,
afinal sepultados com o fracasso da Perestroika.
A
polaridade Ocidente-Oriente, EUA-URSS, capitalismo-socialismo dissolve-se como
neve no verão com a simbologia da queda do Muro de Berlim (1989), mensageiro da
falência militar, política, econômica e ideológica do projeto soviético,
esgotamento político que traria consigo a frustração da experiência socialista,
que à humanidade não foi dado conhecer.
A
polaridade é substituída pela hegemonia do capitalismo monopolista, esta de
hoje, determinante do caráter do imperialismo dos EUA, sua locomotiva, seu
aríete, seu beneficiário.
Entra
em cena um terceiro personagem.
A China
é ator que construiu quase monopólios em terras raras: segundo dados
disponíveis, detém 25 mil patentes sobre esses elementos; garantiu acesso
preferencial a minerais na África e na América Latina; articulou financiamento,
infraestrutura e suprimento via a Nova Rota da Seda. Mas não só. Avançou
extraordinariamente em educação, ciência, tecnologia e inovação, e hoje é a
segunda potência econômica do globo, vis-à-vis a economia dos EUA, da qual se
aproxima. Por força desse desenvolvimento, tornou-se a “fábrica do mundo”.
Este é
seu poder, mas pode ser, igualmente, seu calcanhar de Aquiles: seus produtos
precisam ser vendidos (transformados em receita, divisas), o que depende de
mercados. Estudos desenvolvidos nos EUA indicam a concorrência econômica e
tecnológica com a China, apontando a superação dos EUA em algo como vinte anos.
Esta
prospecção não está, como não poderia estar, ausente dos gabinetes civis e
militares de estudos estratégicos em todo o mundo. O poderio militar dos EUA
continua de pé, e é nele que os avanços da política se assentam.
Mas o
poderio econômico dos EUA — nada obstante a evidência de serem ainda hoje a
maior potência do mundo — dá sinais, senão de esgotamento, de cansaço,
sugerindo a impossibilidade de manter a liderança mundial frente ao avanço
chinês, que, até aqui, parece não conhecer tropeços. O palpável é que a China
prossiga no desenvolvimento, proteção e sustentação de sua malha comercial
mundial, que inclui a Rota da Seda e seus investimentos de toda ordem, mas
inclui igualmente o mercado norte-americano.
Como
inclui o mercado europeu e o latino-americano. Não estamos fora disso.
A
tradição milenar do Império do Meio ensinou-lhe a consciência da grandeza
territorial e o isolamento (o auto bastar-se), que também o apartou da
necessidade de expansionismo. Isto está presente na geopolítica de hoje, mesmo
considerando a política de hostilidade dos EUA. Seu cinturão de segurança não é
o mundo, mas seu entorno, nomeadamente Taiwan e o Mar do Japão.
A
recuperação da antiga Formosa, província desgarrada por Chiang Kai-Shek, em sua
fuga ao perder o confronto com as tropas de Mao Zedong, pode ser transformada,
porém, em necessidade de guerra e, ao lado de tudo isso e por tudo isso, em
necessidade de consolidação estratégica, industrial e de segurança, em face de
seu alto desenvolvimento tecnológico, nomeadamente em chips.
Afora
esse nível de contingência, a China não se deslocará da China.
A
Rússia, sem dúvida o segundo arsenal atômico do mundo, não tem por que pensar
nas dores do mundo: cuida de sua soberania, e sua prioridade óbvia é a guerra
contra a Ucrânia e o enfrentamento às ameaças da OTAN, que visa à sua
sufocação. São óbvias suas prioridades, e é óbvia a necessidade de manter o
canal de interlocução com os EUA, onde, por sem dúvida, se negociam interesses.
A
China, porém, com seu comércio mundializado, e assim muito quedada na
dependência do desdobrar da política americana — aquela que se discute entre o
Departamento de Estado e o Pentágono — , pode ser levada a rever sua estratégia
militar, hoje defensiva.
À
ausência de contendores de seu peso, os EUA permanecerão no centro da arena
como digladiador, a um tempo único e imbatível.
A
história caminha suas pegadas. Sustentado pela mais poderosa máquina militar
jamais conhecida pela humanidade, e tanto onipresente no mundo de hoje quanto
as legiões romanas no pequeno mundo daquele então, permanentemente em busca da
conquista de mais espaços de presença, como de sempre na Europa, com a
ocidentalização e a otanização das antigas repúblicas soviéticas; no Oriente,
como na Síria, como na Líbia, como no Irã, como na Palestina; como na
Groenlândia; como na América Latina, o grande “quintal” a ser preservado. Nele,
talvez constituindo sua porção mais estratégica, entre o Caribe, a Amazônia e
os Pampas, entre o Pacífico e um Atlântico vastíssimo, a rota livre do
Ocidente. E sobre as riquezas naturais do subcontinente, que não se esgotam no
petróleo confiscado da Venezuela.
O
mundo, visto de hoje, é a “América” dos EUA. Mas a história não é um fato dado,
completo, morno, acabado; nos seus alicerces, quase sempre muito profundos, o
processo social é senhor de baraço e cutelo, sempre protegido de nossas
especulações, porque os cientistas políticos carecem de instrumentos objetivos
de captação do fato antes que ele salte à realidade.
A
crônica conta o diálogo entre dois sábios: Magalhães Pinto e José Maria Alkmin
contemplavam os céus das alterosas e filosofavam sobre a política mineira: os
fatos, como as nuvens, mudavam de rumo e de forma à mercê dos ventos.
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A encruzilhada e o inimigo principal
Enquanto
o império desabrido e o terror sionista dirigem sua guerra híbrida ao Irã,
governado a mão de ferro pelo islamismo xiita (em si, como uma teocracia,
irrecusável anacronismo), vozes progressistas de variados matizes ecoam esforço
comovente em busca de um lugar que a história, sobretudo em seus momentos mais
dramáticos, se nega a fornecer: o da neutralidade. O lema “fora todos”, mais
uma vez, exprime preocupações legítimas, que não devem ser abandonadas — mas, à
falta de concretude (não há terceira via no horizonte), resulta tão-só numa
proclamação de virtude, e uma envergonhada tomada de posição. Pode resolver
justos problemas de angústia existencial, sempre personalíssimos, mas não
enfrentará o cerne da questão: a leitura dialética do fato histórico.
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Amor à guerra
Artigo
do conselho editorial do The Washington Post, de propriedade do magnata Jeff
Bezos, publicado em 14/01, celebra o orçamento militar pretendido por Donald
Trump, de US$ 1.5 trilhão (aproximadamente 5% do PIB dos EUA). Ao final, o
texto menciona os custos envolvidos no recente ataque ao Irã (com mísseis
Tomahawk ao preço unitário de U$ 2.2 milhões), e pede que o leitor imagine o
custo de um conflito, possivelmente tanto necessário quanto prolongado, com a
China. O establishment vê à frente.
Fonte:
Viomundo

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