Adivinhação
esportiva e relação com a fé
A
relação do povo brasileiro com a religião é complexa, rende histórias cômicas e
também notícias preocupantes. No futebol brasileiro, por exemplo, são comuns
expressões de fé por parte dos jogadores, torcedores e dirigentes. Não são
raros os registros em que jogadores pedem proteção antes de entrar em campo ou
dedicam o gol a Deus; há dirigentes que pedem para padres ou pastores
abençoarem os atletas e o clube quando estão em situação difícil, etc.
Recentemente,
uma das imagens mais marcantes do futebol brasileiro foi proporcionada pelo
Clube do Remo, time do Pará que, ao conseguir o acesso à série A do futebol
brasileiro, estendeu uma imagem gigantesca de Nossa Senhora de Nazaré, em
agradecimento ao feito conquistado, mostrando como a religião é um elemento
bastante vivo nesse universo.
Nos
últimos anos, o futebol brasileiro vem sendo bombardeado pela pressão
financeira (controle de gasto e aumento de investimentos para conquistar
títulos), disciplina tática e controle sobre os corpos dos jogadores com
emprego de ciência e tecnologia desenvolvida para extrair deles a melhor
performance possível, o que gera uma espécie de mecanização do jogo e uma
produção fordista de atletas.
A
imprensa esportiva também é afetada por essa dinâmica. Seja nas transmissões ao
vivo, seja em programas ou textos, transbordam informações a respeito da
relação entre o tempo em campo e os gols feitos, quantidade de desarmes,
defesas dos goleiros e uma série de estatísticas que tentam apresentar o atleta
a partir de números.
Apesar
disso, ainda há espaço no futebol para que a crença no mistério, para que – de
alguma forma algo – o sobrenatural possa intervir em favor do time A, do
jogador B ou da torcida C, mas não são somente jogadores, dirigentes e
torcedores de futebol que são influenciados por uma lógica religiosa; parte da
imprensa esportiva brasileira também é afetada por isso.
Para
além das demonstrações mais explícitas de crença, como nos casos citados, há
também outras que, a princípio, podem passar despercebidas, pois não carregam
uma intenção religiosa, mas sua prática se origina de uma referência religiosa.
Refiro-me especificamente ao uso de inteligência artificial para a previsão do
desempenho esportivo das equipes de futebol.
É
importante ressaltar que prever resultados esportivos não é uma novidade, menos
ainda a utilização de recursos não humanos para tal. Numa breve pesquisa sobre
a Copa do Mundo, serão encontradas notícias em que animais são utilizados para
adivinhar o vencedor de uma partida ou o campeão de um torneio.
A
novidade nessa questão consiste no uso de uma nova ferramenta para essa ação: a
inteligência artificial. A inteligência artificial ainda é um recurso novo, em
fase inicial de desenvolvimento e de popularização, sendo utilizada para
diversas aplicações, desde pesquisas escolares até conselhos sentimentais,
passando por usos que têm como pano de fundo certas práticas religiosas.
O “pano
de fundo” a que me refiro neste texto é uma atividade antiga chamada de
divinação. Por divinação, entenda-se uma ação realizada com o objetivo de obter
respostas ou previsões sobre determinada coisa a partir de uma ação
mágico-religiosa. Tarô, Ifá, leitura de mãos, interpretação sobre a borra de
café no fundo da xícara, horóscopo, oráculo de Delfos, etc. são exemplos de
artes divinatórias que foram ou são praticadas pela humanidade.
Nem
toda religião possui um recurso divinatório, assim como as pessoas podem
acreditar e fazer uso de práticas divinatórias sem que esses elementos façam
parte da denominação religiosa à qual elas são filiadas, bem como é
perfeitamente possível acreditar em práticas divinatórias sem necessariamente a
pessoa se reconhecer como atrelada a alguma denominação religiosa.
A
divinação é um elemento religioso bastante difundido na história humana. A
respeito da divinação, comenta Guerriero (2022, p. 247) que, “como forma de dar
conta do aleatório, dar sentido ao fluxo dos acontecimentos e buscar orientação
para as ações, a humanidade cria estratégias de divinação e oráculos”. Ainda
Guerriero (2022, p. 247) completa: “A divinação é lida, também, como a
descoberta dos acontecimentos humanos: presente, passado e futuro”.
Parece-me
que, no Brasil, a inteligência artificial, ao menos nas matérias jornalísticas
de esportes, tem sido utilizada como recurso divinatório. Acredito que de forma
inconsciente, com isso quero dizer que as pessoas que produziram matérias nas
quais o recurso da inteligência artificial foi utilizado para fazer previsões
não o fizeram com intencionalidade religiosa, mas aplicaram um comportamento
religioso (ainda que sem se dar conta disso) para a produção de uma atitude não
religiosa (a matéria jornalística).
Ao
menos no Brasil, é possível que determinadas ações e comportamentos sem
intenções religiosas possam ser uma derivação de comportamentos e ações
religiosas, como no caso das matérias do jornalismo esportivo que usam
inteligência artificial para prever os campeões das próximas edições de
torneios de futebol.
A
inteligência artificial, independente da intenção primária de seu uso ou das
suas potencialidades e perigos para a educação, segurança, etc., parece que
encontrou por partes de alguns brasileiros uma função religiosa de divinação,
ao menos na imprensa esportiva brasileira, a (IA)divinação encontrou terreno
fértil para a sua operação.
Fonte:
Por Manoel Vitor Barbosa Neto, em A Terra é Redonda

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