Nuno
Vasconcellos: O risco do petróleo barato
Há pelo
menos duas explicações para o apoio quase solitário do governo brasileiro à
ditadura do Irã — um regime que há quase meio século submete o próprio povo a
normas medievais de conduta e nega a seus cidadãos os direitos mais
elementares. Uma dessas explicações é deplorável. A outra está relacionada com
o preço do petróleo e, vista pela ótica exclusiva dos interesses econômicos do
Brasil, tem até uma ponta de virtude.
Seja
como for, a situação no Irã é terrível e qualquer apoio àquele regime é uma
decisão difícil de se explicar. Comparado com os aiatolás iranianos, que mandam
açoitar mulheres pelo uso incorreto do véu muçulmano e arremessam gays do alto
de edifícios apenas pelo fato de serem gays, o ex-caudilho e atual presidiário,
Nicolás Maduro, por mais atrocidades que tenha cometido quando era ditador da
Venezuela, pode perfeitamente se candidatar ao Nobel da Paz.
Ainda
assim, o Brasil insiste em manter com o Irã uma relação para lá de amistosa.
Tão importante que é preciso tentar saber o que há por trás dessa posição. O
rompimento da parceria teria impacto na balança comercial brasileira? Não. A
parceria entre os dois países é modesta demais para valer qualquer sacrifício.
Soma apenas US$ 3 bilhões entre exportações e importações, valor irrisório para
um país, como o Brasil, que movimentou US$ 629 bilhões no ano passado. Se o
rompimento não gera grandes prejuízos, a insistência nesse relacionamento pode
gerar prejuízos consideráveis para o Brasil.
Na
semana passada, o presidente Donald Trump, ameaçou impor tarifas adicionais de
25% nos negócios com os Estados Unidos aos países que insistirem no comércio
com o Irã. A intenção de Trump é sufocar a economia iraniana e, assim, abalar
os alicerces da ditadura que gerou uma crise humanitária monumental ao receber
a bala a população foi às ruas protestar contra a situação econômica e a
inflação. Com um detalhe cruel: o preço das balas que matam os manifestantes é
cobrado das famílias das vítimas!
Visto
como um problema mesmo pelos vizinhos do mundo árabe, o regime dos aiatolás
financia o terrorismo e não esconde a intenção de varrer Israel da face da
terra. Os líderes se referem aos Estados Unidos como o “ Grande Satã” e não se
cansam de lançar ameaças de atentados contra a população americana. Num
ambiente como esse, o Brasil insiste em apoiar a ditadura. A pergunta é: o que
pode explicar essa atitude?
CREDIBILIDADE
MORAL
A
primeira explicação para o apoio do governo ao regime iraniano está nas
afinidades ideológicas, no antiamericanismo e no antissemitismo que,
infelizmente, vem se encastelando no Itamaraty desde o primeiro mandato do
presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Numa diplomacia que trocou a conduta
técnica e profissional por motivações ideológicas, as manifestações de apoio ao
Irã, tomadas sob influência do Assessor para Assuntos Internacionais, Celso
Amorim, tornaram-se recorrentes e já expuseram o Brasil a dezenas de situações
vexatórias. Duas merecem ser relembradas.
A
primeira foi a presença do vice-presidente da República, Geraldo Alckmin, ao
lado de um bando de líderes terroristas, na posse do presidente do Irã, Masoud
Pezeshkian, no dia 30 de julho de 2024. Detalhe: naquele momento, reféns eram
mantidos em calabouços e o exército de Israel combatia o Hamas na Faixa de
Gaza. Alckmin ocupou um assento a poucos metros do chefão do grupo, Ismail
Haniyeh. Uma das raras autoridades do Ocidente na posse, Alckmin ainda estava
no Irã no momento em que, poucas horas depois do evento, Haniyeh foi alvo de
uma ação precisa dos órgãos de inteligência de Israel. No ataque, o terrorista
que foi um dos idealizadores dos atentados de 7 de outubro de 2023 foi
“neutralizado” e saiu definitivamente de cena.
O outro
caso é menos famoso, mas igualmente constrangedor. No dia 18 de julho de 2024,
Celso Amorim, participou, em Washington, de um evento promovido por uma ONG
pacifista americana. Em certa altura, o diplomata ultrapassou todos os limites
de civilidade ao atribuir às agressões sistemáticas sofridas por mulheres no
Irã o mesmo peso da pena de morte que ainda é prevista em alguns estados
americanos.
“Não
concordo com o tratamento que as mulheres recebem no Irã. Mas não concordo com
a pena de morte que ainda existe nos Estados Unidos”, disse o brasileiro. O
americano Dan Baer, que é ligado ao Partido Democrata e já foi embaixador dos
Estados Unidos junto à Organização para a Segurança e Cooperação na Europa
(OSCE), reagiu de forma desconcertante.
Depois
de criticar a pena de morte, Baer mencionou o aparato jurídico e realçou o
sólido direito de defesa que vigora nos estados que ainda executam autores de
crimes hediondos. Então, encarou Amorim e disparou: “Traçar um equivalente
entre a aplicação da pena de morte e o regime iraniano não é moralmente
respeitável. E acho que mina a credibilidade moral daqueles que fazem esse tipo
de equivalência”.
EM
CENTENAS OU EM MILHARES
A
afinidade ideológica de Brasília com a ditadura teocrática do Irã, por mais
rejeitada que seja pelos brasileiros que não pretendem renunciar à própria
“credibilidade moral”, é, sim, o principal motivo por trás da nota vergonhosa
emitida pelo Itamaraty em resposta à repressão que vem acontecendo no Irã desde
o dia 28 de dezembro. A ordem dada à “guarda revolucionária” de atirar para
matar deixou as ruas cobertas de cadáveres.
Diante
da violência extrema, e para tentar esconder a carnificina, o regime mandou
cortar a internet e obstruir toda a comunicação do Irã com o mundo. O saldo foi
tão macabro que o mundo, até agora, não sabe se os mortos devem ser contados em
centenas, em milhares ou em dezenas de milhares. Dados mais ou menos oficiais
dão conta de aproximadamente 700 mortos. Uma ONG instalada na Noruega, que
monitora os direitos humanos no Irã, fala em mais de 3.000 corpos empilhados
nos necrotérios. Algumas fontes apontam números ainda mais elevados, de mais de
20 mil pessoas assassinadas e mais de 30 mil manifestantes arrastados para as
prisões — alguns, inclusive, sentenciados sem direito a defesa à pena de morte
que Amorim condena nos Estados Unidos.
Esses
números tão discrepantes, por si só, já dão a dimensão da anormalidade que toma
conta do país. Como a censura é pesada e impede a coleta de dados confiáveis, a
verdade se torna relativa e cada um pode acreditar no que bem entender...
E o
Brasil? Bem... o Brasil guardou silêncio obsequioso nos primeiros dias da
caçada que a ditadura promoveu contra seu próprio povo. Depois, o Itamaraty se
limitou a emitir uma das notas mais patéticas que já soltou em apoio a
ditaduras: “O Brasil lamenta as mortes e transmite condolências às famílias
afetadas. Ao sublinhar que cabe apenas aos iranianos decidir, de maneira
soberana, sobre o futuro de seu país, o Brasil insta todos os atores a se
engajarem em diálogo pacífico, substantivo e construtivo”, diz o texto.
Teria
sido melhor o silêncio. A nota só foi emitida depois que circularam informações
de que, para conter o massacre desenfreado de civis, o governo dos Estados
Unidos cogitou atacar o Irã e dar o empurrão final para expulsar os aiatolás do
poder (possibilidade que, até o momento, não foi descartada). Para o Itamaraty,
no entanto, o povo desarmado, que é alvo das balas da ditadura, tem força
suficiente para dialogar de igual para igual com os aiatolás que só entendem a
linguagem da violência...
Na
quarta-feira, o presidente Lula telefonou para o ditador russo Vladimir Putin
para tratar da situação internacional. No final, ao invés de condenar a
violência, os dois saíram em defesa da soberania da Venezuela e do Irã. A
escolha desse interlocutor para uma conversa importante como essa é
sintomática. Quatro anos atrás, as tropas de Putin invadiram a Ucrânia e, desde
então, a Rússia move contra o vizinho uma guerra que já deixou cerca de 1,5
milhão de mortos.
Isso
tira de Putin a autoridade para falar de “soberania”. Mas, nas circunstâncias
atuais, e diante da rejeição internacional ao Irã, seria difícil para Lula
encontrar outra autoridade mundial que não fosse o ditador russo que estivesse
disposto a compartilhar seu apoio ao governo dos aiatolás. E que tivesse
disposição e coragem de defender o diálogo com um regime que não quer saber de
conversa e que subjuga o próprio povo desde 1979.
É
lamentável que, ao invés de se isolar no apoio aos aiatolás, o Itamaraty não
tenha condenado o Irã com a mesma indignação que demonstra nas notas frequentes
contra os Estados Unidos e Israel. Essa comparação torna a posição tíbia do
Brasil diante do massacre ordenado pelos aiatolás contra seu próprio povo, mais
inaceitável do que já é.
Mas,
calma! Foi dito no início deste texto que há duas razões que podem estar por
trás da posição brasileira em relação ao Irã. A primeira delas é a afinidade
ideológica que Brasília cultiva com as ditaduras mais abjetas do mundo. A outra
se baseia em argumentos até razoáveis caso seja vista sob o ponto de vista
estritamente econômico. E chama atenção para um fato impactante: o Brasil tem
muito a perder, e pode até mergulhar numa crise de grandes proporções, caso a
queda das ditaduras da Venezuela e do Irã provoque uma baixa acentuada nos
preços internacionais do petróleo!
EFEITO
DESASTROSO
A
questão de fundo é que, no momento em que as ditaduras caírem em Teerã e em
Caracas, e forem suspensas as sanções que restringem a presença do Irã e da
Venezuela no comércio internacional, os dois países aumentarão a oferta de
petróleo. E isso, como é evidente, derrubará o preço do barril. A redução no
preço internacional do petróleo poderá causar um tremendo estrago na economia
brasileira e, acredite, afetar as contas federais.
Isso
não acontecerá de uma hora para outra, mas acontecerá! A semana passada começou
com o barril cotado a US$ 61 e terminou com o preço em mais ou menos US$ 64 —
uma alta discreta provocada justamente pela demora em resolver a situação
política na Venezuela e no Irã. Esses dois países, como se sabe, detêm a
primeira e a terceira maior reserva de petróleo do planeta. Alguns analistas
dizem que o aumento da oferta de óleo que se seguirá à volta da Venezuela do
Irã ao mercado pode derrubar o preço do barril para um valor abaixo de US$ 45.
Boa
parte do desastre que essa queda pode ocasionar no Brasil será consequência da
demora que o país teve para ampliar sua própria capacidade de produção de
petróleo, nos campos da chamada Foz do Amazonas — que, na verdade, ficam a mais
de 500 quilômetros do ponto em que o rio deságua no mar. Os primeiros pedidos
formais da Petrobras para levar adiante as pesquisas de petróleo na região (que
conta com reservas estimadas em pelo menos 25 milhões de barris) datam do ano
de 2014 — e, convenhamos, as mudanças que houve no mundo ao longo dos doze anos
que se passaram desde então nos obrigam a refletir sobre os motivos que levaram
o Ibama a gastar tanto tempo para expedir a licença para o início dos trabalhos
de prospecção.
Muita
gente acredita que a recusa do órgão ambiental brasileiro em autorizar as
pesquisas, justificadas por razões ideológicas, foram motivo de festa entre os
concorrentes internacionais da Petrobras. Enquanto a estatal brasileira estava
imóvel, sem poder explorar suas jazidas, as empresas internacionais que operam
nos vizinhos Guiana, Suriname e, principalmente, Guiana Francesa perfuraram
poços, acharam petróleo e se firmavam como produtores relevantes no mercado
mundial.
Pois
bem... Finalmente autorizadas, as pesquisas da Petrobras se iniciam num momento
em que a oferta diária de petróleo tem se mantido ligeiramente acima da demanda
mundial — o que provoca a queda natural dos preços. Um estudo da Goldman Sachs,
que ainda não considera os efeitos do aumento da oferta de petróleo pela
Venezuela e pelo Irã, prevê uma queda dos preços, para cerca de US$ 50 ao longo
deste ano. Com as duas potências petrolíferas de volta ao jogo, a previsão de
preços abaixo de US$ 45.
O valor
baixíssimo afasta investidores e cria dificuldades para financiar a pesquisa de
novos poços. E mais: torna proibitiva a exploração em águas muito profundas —
como é o caso das reservas do Pré-Sal. E praticamente inviabiliza o
desenvolvimento de áreas que dependem da construção de uma infraestrutura de
reservatórios, atracadouros e outras benfeitorias para começar a produzir —
como é o caso da Foz do Amazonas.
FALTA
DE DINHEIRO
Uma das
questões que fazem o governo torcer para que o barril fique mais ou menos onde
está — ou seja, em torno de US$ 60 — é o impacto da queda dos preços do
petróleo e, portanto, dos combustíveis nas contas públicas. O governo
brasileiro, isso não é segredo, vive atrás de dinheiro e não parece disposto a
dispensar um único centavo da arrecadação. A menos, é claro, que a renúncia ao
imposto se reverta em votos nas eleições deste ano.
A busca
pela simpatia eleitoral foi o motivo que levou o Palácio do Planalto a se
empenhar para livrar do Imposto de Renda os assalariados que ganhem até R$
5.000 por mês. Conforme dados da Receita Federal, essa isenção terá sobre os
cofres federais um impacto de pelo menos R$ 15,5 bilhões ao longo deste ano.
Pois
bem... se já está sendo difícil encontrar novas receitas tributárias para
cobrir esses R$ 15,5 bilhões, impedir o descontrole das contas públicas e
evitar que a inflação tire os votos que o governo procurou buscar com a
isenção, imagine o Deus nos acuda que haverá em Brasília se a necessidade de
recursos extraordinários para cobrir perdas de arrecadação alcance o dobro
desse valor! Pois isso pode acontecer ao longo deste ano caso os preços do
petróleo caiam — como todo analista do mercado acredita que cairão daqui por
diante.
De
acordo com um cálculo apressado, que leva em conta os critérios de reajuste dos
combustíveis adotados pela Petrobras, uma redução no valor do barril dos atuais
US$ 61 para cerca de US$ 50 poderá tirar mais de R$ 16 bilhões da arrecadação
tributária da União. Se o preço do barril ficar abaixo desse valor, o impacto
será maior ainda.
A
questão é que a arrecadação direta dos tributos cobrados sobre a produção e
comercialização de combustíveis é apenas uma das formas pelas quais o
bilionário mercado de óleo e gás injeta dinheiro nos cofres públicos. Nos
últimos anos, os dividendos pagos pela Petrobras a seu principal acionista, a
União, passaram a fazer parte do orçamento federal. O cálculo de dividendos se
baseia, entre outras variáveis, na cotação do petróleo. Quanto mais alto o
preço, maior a transferência. Simples assim. No ano passado, os dividendos
somaram quase R$ 9 bilhões. Para este ano estão previstos R$ 12 bilhões. Uma
queda na projeção de lucros para os anos seguintes poderá ter impacto imediato
nas expectativas do mercado e dificultar novas transferências.
Some-se
ao valor da arrecadação tributária e aos dividendos o dinheiro que a Petrobras
e as demais empresas que exploram petróleo no Brasil pagam a título de
royalties — que são calculados com base na cotação do barril. Em resumo, a
queda nos preços do petróleo prevista para os próximos anos terá um efeito
devastador sobre a arrecadação federal. Mas também afetará os estados
produtores e as dezenas de municípios beneficiados. Todos perderão dificuldade
para honrar os compromissos que assumiram contando com esse dinheiro.
Pois
bem... numa situação como essa, o governo chega até a ter razão de torcer para
que as ditaduras persistam e a volta da Venezuela e do Irã ao mercado seja
lenta e o preço do petróleo não caia tão depressa assim.
Fonte:
O Dia

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