sábado, 24 de janeiro de 2026

Pediculose: como tratar a infestação sem comprometer a saúde capilar

Você já sentiu a cabeça coçar e pensou que pudesse ser piolho? A sensação, comum principalmente entre crianças em idade escolar, costuma gerar preocupação imediata nas famílias e, muitas vezes, leva a tratamentos apressados e repetidos. Embora a pediculose seja encarada como um problema simples e passageiro, a infestação pode deixar o couro cabeludo sensibilizado, provocar feridas, comprometer a qualidade dos fios e até desencadear desconfortos emocionais quando não é tratada da maneira adequada.

Segundo a hairstylist e especialista em terapia capilar Letícia Figueiredo, muitos pacientes apresentam coceira persistente, vermelhidão, pequenas lesões provocadas pelo ato de coçar e até descamação e ardência. “Em alguns casos pode surgir inflamação e infecção secundária, principalmente quando há feridas abertas”, explica. Nos fios, os danos também aparecem: ressecamento, quebra e aspecto áspero são frequentes, sobretudo quando há uso repetido de produtos muito fortes sem orientação profissional.

Com a eliminação dos piolhos, o cuidado não deve cessar. A recuperação do couro cabeludo exige uma abordagem mais suave e restauradora. Letícia orienta a higienização com xampus delicados, evitando água muito quente e fricção excessiva, além de interromper o uso de antiparasitários quando o problema já foi resolvido. “Continuar usando esses produtos ‘por via das dúvidas’ pode piorar a irritação”, alerta. Hidratação leve no comprimento e atenção a sinais como dor, secreção ou coceira persistente são fundamentais, sendo necessária avaliação dermatológica em casos mais graves.

O uso inadequado de tratamentos antipiolho também pode gerar efeitos a médio prazo. Aplicações repetidas, mistura de produtos e até receitas caseiras irritantes podem comprometer a saúde do couro cabeludo e a qualidade dos fios. De acordo com Letícia, o trauma mecânico causado por coçar intensamente ou passar o pente fino com força pode aumentar a quebra e desencadear uma queda temporária do cabelo. “Na maioria das vezes, tratando a inflamação e cuidando corretamente, o crescimento se normaliza”, ressalta.

Na infância, a pediculose é ainda mais frequente por conta do comportamento social. A pediatra Alana Zorzan, co-fundadora da plataforma Mini Löwe, explica que o contato físico próximo e constante entre crianças, somado ao ambiente escolar, favorece a transmissão. “A maior parte dos casos ocorre por contato direto em brincadeiras, abraços e aproximação da cabeça, além do compartilhamento de objetos como pentes, escovas, bonés e elásticos”, afirma.

Apesar da preocupação dos pais, o afastamento prolongado da escola não é recomendado. Segundo Alana, tanto a Sociedade Brasileira de Pediatria quanto a Academia Americana de Pediatria orientam que a criança pode concluir o dia escolar, iniciar o tratamento em casa e retornar no dia seguinte. “Quando o piolho é identificado, geralmente ele já está presente há semanas. O afastamento causa prejuízo pedagógico e não controla o surto”, explica. Além dos sintomas físicos, a pediatra destaca os impactos emocionais, como bullying, isolamento e ansiedade, reforçando a importância de desmistificar a ideia de que piolho está ligado à falta de higiene. “O foco deve ser acolher, orientar e tratar, nunca culpar.”

<><> Para além da infância

Piolhos não são restritos apenas à infância. Adultos também podem apresentar casos de pediculose. Coceira intensa, vermelhidão e sensação de movimento no couro cabeludo, pescoço e nuca, com pequenos pontos brancos grudados nos fios são alguns dos indícios.

<><> Sintomas comuns

# Coceira intensa

# Pontos vermelhos (como picadas de mosquito)

# Irritação no couro cabeludo

# Presença de piolhos (nas cores cinzas, bege e/ou marrom do tamanho de uma semente de gergelim)

# Presença de lêndeas (ovos): pontos brancos ou amarelados grudados aos fios próximos ao couro cabeludo, que não caem como caspas

<><> Transmissão

# Contato direto com uma pessoa infestada

# Compartilhamento de itens pessoais: pentes, escovas, chapéus, toalhas, roupas de cama

# Qualquer pessoa pode ter, independentemente de higiene ou status social

<><> Estágios

# Ovo (lêndeas): sete a 10 dias para eclodir

# Ninfa: nove a 12 dias para atingir a fase adulta

# Adulto: vive cerca de 30 dias

<><> Tratamento

>>> Essenciais

# Pente fino: use diariamente em cabelo seco ou molhado, dividindo o cabelo em mechas para remover piolhos e lêndeas do couro cabeludo até as pontas.

# Água e vinagre branco: misture em partes iguais dos líquidos. Aplique nos fios para ajudaras soltar as lêndeas. Mergulhe o piolho e lêndeas removidos em álcool 70% ou na solução de vinagre para matá-los.

# Higiene: lave roupas de cama, toalhas e roupas usadas recentemente em água quente (acima de 60°C) e seque em alta temperatura para matar piolhos e ovos.

<><> Produtos (com prescrição médica)

# Cosméticos: xampus e loções com permetrina ou outros ativos. Aplique conforme a bula, geralmente no cabelo seco (se tiver silicone) ou molhado (se tiver químico), e enxágue. Pode ser necessário repetir o tratamento após sete dias.

# Medicação: a Ivermectina é uma opção oral, mas só deve ser usada com prescrição médica.

<><> Evite

Automedicação: não use inseticidas ou produtos sem orientação, pois são perigosos e tóxicos.

Soluções caseiras: evite o uso de produtos não comprovados como cola, querosene, etc.

<><> Problemas de longo prazo

# Infecções bacterianas

# Anemia ferropriva

# Danos no couro cabeludo e perdas de cabelo

# Dermatite

# Problemas psicossociais

<><> Outros tipos

# Piolho do corpo (muquirana): vive em lençóis, alimentando-se do corpo. É transmitido pelo contato com roupas ou roupas de camas contaminadas.

# Piolho pubiano (chato): vice em pelos pubianos, axilas, peito, barba e cílios. É transmitido principalmente pelo contato sexual, mas também por toalhas e roupas de cama.

<><> Palavra do especialista

 

•        Como o tipo de fio (liso, cacheado, crespo) interfere na remoção de piolhos e lêndeas?

O tipo de fio interfere bastante na remoção de piolhos e lêndeas. No cabelo liso, os piolhos se deslocam com mais facilidade, mas a remoção das lêndeas costuma ser um pouco mais simples. Já nos cabelos cacheados e crespos, o formato do fio e a maior densidade dificultam tanto a visualização quanto a retirada completa das lêndeas, o que aumenta o risco de sobrar algum ovo e ocorrer reinfestação. Nesses tipos de cabelo, é fundamental usar um pente fino adequado e separar o cabelo em mechas pequenas para facilitar a remoção.

•        Em atendimentos recorrentes, quais padrões você percebe em casos de reinfestação?

Os padrões mais comuns de reinfestação incluem: contato contínuo com pessoas infestadas (escola, creche, família), tratamento incompleto, sem remoção adequada das lêndeas, uso incorreto dos produtos, compartilhamento de objetos pessoais, como pentes, bonés, travesseiros e escovas. Muitas vezes, o problema não é o produto, mas, sim, o ambiente e o comportamento após o tratamento. É fundamental: tratar a criança, o ambiente e contatos próximo.

•        O uso de calor, como chapinha ou secador, interfere positiva ou negativamente no controle do piolho?

O calor não é um tratamento eficaz contra piolhos. Embora possa ressecar alguns ovos, não é suficiente para eliminar a infestação e não substitui o tratamento correto. Além disso, usar chapinha em cabelo de criança ou couro cabeludo já irritado pode causar lesões e piorar a inflamação. O controle do piolho depende de um tratamento completo, que inclui uso de produto adequado (xampu ou loção específica); pente fino para remover os piolhos e os ovos; repetição do processo para garantir a eliminação completa. Lembre-se: calor não resolve piolho!

 

Fonte: Correio Braziliense

 

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