Os
dilemas de Lula com convite de Trump para Conselho da Paz de Gaza
O
presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, aproveitou sua
passagem pelo Fórum Econômico de Davos, na Suíça, nesta
quinta-feira (22/01), para fazer o lançamento oficial do "Conselho de Paz".
Trata-se
de um grupo de países sob o comando do governo norte-americano que,
inicialmente, tinha com o objetivo promover a reconstrução e a desmilitarização
da Faixa de Gaza após mais de dois anos de conflitos entre o Hamas e
Israel.
A
criação do grupo está prevista em uma resolução do Conselho de Segurança
da Organização das Nações Unidas (ONU) endossada
em novembro de 2025 e que prevê que ele atue na administração transitória da
Faixa de Gaza até que a Autoridade Palestina finalize um processo de
"reforma".
Durante
o lançamento do Conselho, nesta quinta-feira, Trump estava acompanhado de
líderes e representantes de 19 países que aderiram à iniciativa, entre eles os da Arábia
Saudita, Indonésia e Argentina.
O
Brasil também foi convidado pelo governo norte-americano para fazer parte do
novo órgão.
"Eu
convidei. Eu gosto dele. Lula terá um grande papel no conselho da paz de
Gaza", disse Trump na terça-feira (20/01).
Até
agora, porém, o governo brasileiro não se manifestou oficialmente sobre o
assunto.
Diplomatas
com conhecimento do assunto confirmaram à BBC News Brasil que o governo recebeu
o convite e que o país está realizando consultas internas e junto aos seus
aliados sobre se irá ou não aceitar o convite do presidente Trump, mas que
ainda não há prazo para que o Brasil se manifeste sobre o tema.
Apesar
de endossada pelo Conselho de Segurança da ONU, a proposta vem gerando
desconfiança entre analistas e governos sobre os reais objetivos do órgão
criado por Trump.
As
dúvidas sobre se o conselho seria exclusivamente para tratar da reconstrução de Gaza aumentaram nos
últimos dias depois que o conteúdo da carta fundadora do grupo foi divulgado
por veículos de imprensa.
Um dos
pontos que chamou atenção no documento foi a falta de uma menção específica à
Faixa de Gaza, o que levantou questões sobre se o Conselho existiria apenas
para lidar com a questão palestina ou se seria uma tentativa de substituir a
ONU, entidade que é frequentemente criticada por Trump.
A carta
prevê, por exemplo, que Trump será o presidente do Conselho e que o grupo terá
um conselho executivo composto, em grande maioria, por integrantes do governo
norte-americano como o secretário de Estado norte-americano Marco Rubio, o enviado especial
do presidente, Steve Witkoff, e o genro e conselheiro de Trump, Jared Kushner.
Em maio
às incertezas sobre o Conselho, especialistas ouvidos pela BBC News Brasil
apontam que o convite feito por Trump coloca o governo brasileiro diante de
alguns dilemas que dificultam uma decisão rápida sobre integrar ou não o grupo
proposto por Trump.
O
primeiro deles é resultado da falta de clareza, até agora, sobre como
funcionará e qual a abrangência do conselho.
O
segundo está relacionado a uma possível retaliação norte-americana caso o
Brasil recuse participar da iniciativa.
O
terceiro é sobre os riscos de perda de influência regional em caso de recusa do
Brasil em participar do grupo uma vez que países vizinhos da América do Sul já
anunciaram sua adesão ao Conselho.
<><>
Multilateralismo 'à la Trump'?
Para o
professor de Relações Internacionais da Universidade Internacional da Flórida,
Guilherme Casarões, o principal dilema enfrentado pelo governo brasileiro neste
momento é avaliar o quanto o Conselho de Paz proposto por Trump enfraquece ou
não o papel da ONU.
Ele
explica que historicamente, o Brasil vem se posicionado a favor de reformas das
estruturas de governança global tais como a própria ONU e o Fundo Monetário Internacional (FMI).
Uma das
pautas mais recorrentes da diplomacia brasileira, por exemplo, tem sido o
acesso do país a um assento permanente no Conselho de Segurança da ONU.
Em seus
discursos mais recentes, Lula vem criticando
a falta de representatividade da ONU e o fato de que parte das decisões tomadas
pelo órgão não serem cumpridas, principalmente, por superpotências como os
Estados Unidos.
Por
outro lado, o governo brasileiro mantém a postura de recorrer aos órgãos do
sistema ONU em momentos de tensão internacional.
Para
Casarões, a principal dúvida em relação ao grupo proposto por Trump é se, ao
aderir ao grupo, o Brasil não estaria diluindo a relevância da ONU.
"Algo
que foi pensado como uma resposta a um conflito específico acabou virando um
grande guarda-chuva para a resolução de conflitos internacionais, em
contradição direta com as funções da ONU", disse Casarões.
Em
Davos, Trump disse que o Conselho trabalhará "em conjunto com a ONU",
mas voltou a criticar a entidade e comemorou o poder que o grupo sob seu
comando poderá ter no futuro.
"Quando
o conselho estiver formado, nós podemos fazer, basicamente, qualquer coisa que
queiramos. E nós vamos fazer isso em conjunto com a ONU. Vocês sabem, eu sempre
disse que a ONU tem um tremendo potencial que não é usado", disse o líder
norte-americano.
Por um
lado, o governo Lula se coloca a favor da reforma das estruturas de governança
global como a ONU e o Fundo Monetário Internacional (FMI).
Entre
as pautas históricas da diplomacia brasileira está o acesso do país um assento
permanente no Conselho de Segurança da ONU.
Por
outro, o fato de que o presidente Trump terá, aparentemente, poderes ilimitados
sobre o conselho, faz com que o Brasil seja reticente a aderir ao grupo.
Em
entrevista ao jornal O Globo publicada nesta quinta-feira (22/1), o assessor
para assuntos internacionais da Presidência da República, embaixador Celso
Amorim, disse que a proposta de Trump é confusa e que pode representar uma
ameaça à ONU.
"Representa,
na prática, uma revogação da ONU, sobretudo na área de paz e segurança. Essa
parte, com certeza, eu não vejo como aceitar. Não dá para considerar uma
reforma da ONU feita por um país (...) Seria como um Conselho de Segurança, só
que com um presidente praticamente permanente.", disse Amorim.
Casarões
avalia que o convite cria um cenário difícil para o Brasil.
"É
uma situação difícil porque ficar de fora do Conselho impede que esses países
participem de qualquer decisão de reconstrução de Gaza, tema fundamental para
nações com interesses geopolíticos no Oriente Médio. Entrar no Conselho, por
sua vez, confere legitimidade a um agrupamento personalista, sem objetivos
claros ou qualquer perspectiva de resultados".
<><>
Retaliação à vista?
Um
outro dilema apontado pelos especialistas ouvidos pela BBC News Brasil é sobre
o risco envolvido em uma eventual recusa do governo brasileiro ao convite de
Trump.
Nesta
semana, esse temor ficou visível depois que o presidente francês, Emmanuel
Macron, criticou a proposta de Trump. "Eu acho que aceitar essa nova
abordagem colonialista não faz sentido".
Como
resposta, Trump disse que estaria disposto a impor tarifas sobre a França. "Eu
vou impor tarifas de 200% sobre os seus vinhos e champagne e ele vai se juntar
(ao Conselho)", disse Trump. As tarifas, no entanto, não foram anunciadas
até o momento.
A
possibilidade de um novo embate tarifário com os Estados Unidos é
particularmente sensível ao governo brasileiro após a crise criada no ano
passado, quando Trump impôs tarifas de 40%
sobre produtos brasileiros em razão do processo criminal contra o
ex-presidente Jair Bolsonaro (PL).
Nos
últimos meses, porém, as relações entre Trump e Lula começaram a se estabilizar
com dois encontros pessoais e trocas de elogios e telefonemas que resultaram na
queda de parte das tarifas a produtos brasileiros.
Para o
diretor do programa de Direito Internacional da Chatham House, Marc Weller, a
possibilidade de um novo "tarifaço" demanda ação coordenada de países
como o Brasil. A Chatham House é um dos principais think tanks britânicos, com
sede em Londres.
"Todos
os países que estão hesitantes em se juntar ao Conselho da Paz deveriam atuar
juntos. Os europeus por meio da União Europeia e os países da América Latina
por meio dos seus organismos regionais para que nenhum país seja atingido de
forma individual pelos Estados Unidos", diz o professor à BBC News Brasil.
Para
Weller, a proposta de Trump pode prejudicar ou diminuir a relevância da ONU,
algo que, em sua avaliação, vai na contramão da atuação histórica do Brasil.
Por isso, o Brasil terá que escolher entre dois caminhos.
"Por
um lado, o país já viu que há consequências negativas em recusar uma oferta dos
Estados Unidos. Por outro, o país desempenha um papel de liderança nas
tentativas de reformar as instituições internacionais como a ONU para que ela
funcione melhor. O Brasil terá que decidir que caminho tomar".
Já o
professor de Relações Internacionais da Fundação Getúlio Vargas (FGV), Oliver
Stuenkel, diz acreditar que o "custo" de uma eventual recusa do
Brasil ao convite de Trump tende a não ser tão alto.
"Acho
que o Brasil não vai aceitar o convite e o custo disso será menor porque duvido
que todo mundo aceite, vários países não vão topar uma iniciativa sem nenhuma
transparência como essa", afirma o professor em entrevista à BBC News
Brasil.
<><>
Competição regional
O
terceiro dilema criado pelo convite de Trump ao Brasil é a possibilidade de que
isso possa fragilizar a posição de liderança regional do Brasil na América do
Sul.
Isso
aconteceria porque, além de convidar o Brasil, Trump também chamou para o
Conselho os governos da Argentina e do Paraguai.
O
presidente argentino, Javier Milei, e o do Paraguai, Santiago Peña, ambos de
direita e ideologicamente alinhados a Trump, participaram do lançamento do
Conselho, em Davos.
"A
entrada imediata de Argentina e Paraguai coloca pressão sobre a decisão
brasileira, já que o país possui ambições regionais e não quer se ver alijado
do processo", diz Casarões.
O
professor explica que o momento geopolítico na América do Sul é delicado para o
Brasil.
Apesar
das tentativas brasileiras de reativar mecanismos de integração regional
surgidas durante os seus dois primeiros mandatos, Lula viu seus esforços dando
pouco resultado em meio a uma guinada à direita na América do Sul.
Nos
quatro anos, países antigamente governados pela esquerda como Argentina,
Paraguai, Bolívia e Equador, passaram a ser liderados por políticos de direita
mais alinhados a Trump, neste momento.
Para
Casarões, a melhor estratégia para o Brasil neste momento é colocar o convite
em "banho maria".
"Para
o Brasil, a melhor estratégia é manter o convite em compasso de espera (...)
Seria uma oportunidade para a afirmação da relevância brasileira, mas se, e
somente se, a configuração do conselho permitir a participação ativa de países
como o Brasil e não se resuma a uma iniciativa personalista de captação de
recursos para a reconstrução de Gaza".
¨
Quem é quem no conselho executivo de Trump que vai
reconstruir Gaza
O
governo de Donald Trump anunciou na sexta-feira (16/1) os nomes do secretário
de Estado dos EUA, Marco Rubio, e do ex-primeiro-ministro britânico Tony Blair
como dois dos membros fundadores do Conselho Executivo para Gaza.
O
enviado de Trump para o Oriente Médio, Steve Witkoff, e o genro do presidente,
Jared Kushner, também farão parte do "conselho executivo fundador",
disse a Casa Branca em um comunicado.
Trump
atuará como presidente do conselho, que faz parte de seu plano de 20 pontos
para encerrar a guerra entre Israel e o Hamas.
Também
fazem parte do conselho executivo fundador Marc Rowan, chefe de uma empresa de
private equity; o diretor-geral do Banco Mundial, Ajay Banga; e o conselheiro
de segurança nacional dos EUA, Robert Gabriel.
Cada
membro terá uma área de atuação "crucial para a estabilização e o sucesso
a longo prazo de Gaza", disse o comunicado da Casa Branca.
A
estrutura de governança para Gaza proposta pela Casa Branca inclui um Conselho
de Paz composto por líderes mundiais — para o qual o presidente Luiz Inácio
Lula da Silva foi convidado a participar; um "Conselho Executivo
fundador" para operacionalizar a visão do Conselho de Paz; e um
"Conselho Executivo de Gaza" para supervisionar um grupo de
tecnocratas que vão gerir Gaza efetivamente, o Comitê Nacional para a
Administração de Gaza (NCAG, na sigla em inglês).
Trump
havia dito na quinta-feira (15) que o Conselho de Paz havia sido formado,
chamando-o de "O Maior e Mais Prestigiado Conselho já reunido em qualquer
época e lugar".
Outros
membros do conselho serão anunciados nas próximas semanas, informou a Casa
Branca.
Tony
Blair foi primeiro-ministro do Reino Unido de 1997 a 2007 e liderou a entrada
do país na Guerra do Iraque em 2003.
Após
deixar o cargo, atuou como enviado para o Oriente Médio do Quarteto de Paz para
o Oriente Médio (formado pelos EUA, Rússia, União Europeia e Nações Unidas).
A
divulgação dos nomes na sexta-feira ocorreu após outro anúncio, o de um comitê
tecnocrático palestino composto por 15 membros.
O NCAG
será encarregado de gerenciar o dia a dia de Gaza no pós-guerra.
Quem
chefiará esse novo comitê será Ali Shaath, ex-vice-ministro da Autoridade
Palestina (AP), que governa partes da Cisjordânia ocupada que não estão sob
controle israelense.
Nickolay
Mladenov, político búlgaro e ex-enviado das Nações Unidas (ONU) para o Oriente
Médio, será o representante do Conselho de Paz em Gaza.
O plano
de Trump prevê que uma Força Internacional de Estabilização (FIE) seja enviada
a Gaza para treinar e apoiar forças policiais palestinas.
A Casa
Branca afirmou que o major-general americano Jasper Jeffers chefiará essa força
para "estabelecer segurança, preservar a paz e estabelecer um ambiente
duradouro livre de terrorismo".
O plano
de paz dos EUA entrou em vigor em outubro e desde então iniciou sua segunda
fase — mas ainda há muitas dúvidas sobre o futuro de Gaza e dos 2,1 milhões de
palestinos que vivem lá.
Na
primeira fase do plano, o Hamas e Israel concordaram com um cessar-fogo em
outubro, bem como a troca de reféns israelenses e prisioneiros palestinos, uma
retirada parcial de Israel do território e o aumento da ajuda humanitária.
No
início desta semana, Witkoff afirmou que a segunda fase contemplaria a
reconstrução e a desmilitarização completa de Gaza, incluindo o desarmamento do
Hamas e de outros grupos palestinos.
"Os
EUA esperam que o Hamas cumpra integralmente suas obrigações", alertou
ele, afirmando que tal compromisso inclui a devolução do corpo do último refém
israelense morto. "O não cumprimento acarretará sérias
consequências."
No
entanto, o cessar-fogo é frágil, com ambos os lados acusando-se mutuamente de
violar seus termos.
Quase
450 palestinos foram mortos em ataques israelenses desde que o cessar-fogo
entrou em vigor, de acordo com o Ministério da Saúde de Gaza, controlado pelo
Hamas.
Já as
forças israelenses afirmam que três de seus militares foram mortos em ataques
conduzidos por grupos palestinos durante o mesmo período.
As
condições humanitárias no território permanecem críticas, segundo a ONU, que
enfatizou a necessidade do fluxo irrestrito de suprimentos essenciais.
A
guerra em Gaza foi desencadeada pelo ataque liderado pelo Hamas ao sul de
Israel em 7 de outubro de 2023, no qual cerca de 1.200 pessoas foram mortas e
251 foram feitas reféns.
Desde
então, mais de 71.260 pessoas foram mortas em ataques israelenses em Gaza, de
acordo com o Ministério da Saúde no território.
Fonte:
BBC News Brasil

Nenhum comentário:
Postar um comentário