Ciclos
de desmatamento – calor e seca no Sudeste
A seca
no Sudeste é a fatura climática do desmatamento amazônico, impulsionado por
ciclos de políticas que privilegiam o agronegócio em detrimento dos rios
voadores e do equilíbrio ambiental...
A
Amazônia desempenha papel fundamental no equilíbrio climático da América do
Sul, especialmente na regulação das chuvas no Brasil. O desmatamento não afeta
apenas os ecossistemas locais, mas provoca impactos atmosféricos de grande
escala, capazes de alterar padrões de circulação do ar e de precipitação em
regiões distantes, como o Sudeste. A intensificação das secas em estados como
São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro tem sido associada à perda da
cobertura florestal, somada às mudanças climáticas globais.
Um dos
principais mecanismos dessa conexão é a evapotranspiração. As árvores liberam
grandes volumes de vapor d’água na atmosfera, formando os chamados “rios
voadores”, que transportam umidade para o Centro-Oeste, Sudeste e Sul do país.
Com o desmatamento, a liberação de vapor diminui, enfraquecendo esses fluxos e
reduzindo a formação de nuvens e chuvas em regiões distantes da Amazônia.
A
derrubada da floresta também altera o balanço de energia da superfície. Áreas
desmatadas aquecem mais rapidamente, elevando a temperatura do ar e favorecendo
a formação de massas de ar mais secas e estáveis. Isso pode dificultar o avanço
de frentes frias e sistemas de chuva, prolongando os períodos de estiagem no
Sudeste.
Além
disso, a liberação de CO₂ pela queima e derrubada da floresta intensifica o
aquecimento global, aumentando a frequência de eventos climáticos extremos. No
Sudeste, isso se reflete em chuvas mais concentradas em curtos períodos e
estiagens mais longas, afetando o abastecimento de água, a energia hidrelétrica
e a agricultura.
Embora
fenômenos naturais como El Niño e La Niña influenciem o clima, a perda da
cobertura florestal reduz a resiliência do sistema climático regional, tornando
o Sudeste mais vulnerável a secas. A fumaça das queimadas também interfere na
formação de nuvens e na regularidade das chuvas. As regiões situadas na mesma
latitude do sudeste brasileiro são desérticas, desde o deserto de Atacama, no
Chile, o deserto de Kalahari na Namíbia, ao grande deserto da Austrália
(Outback). São os rios voadores provenientes da Amazônia que garantem o
equilíbrio climático no Sudeste.
Em
síntese, a Amazônia é um componente essencial do sistema climático e
hidrológico brasileiro. O desmatamento enfraquece os fluxos de umidade,
contribui para o aquecimento e intensifica as secas. Romper esse ciclo exige
políticas integradas de combate ao desmatamento, restauração florestal, redução
de emissões e gestão sustentável da água, fundamentais para a segurança
climática e hídrica do país.
Houve
três grandes momentos políticos que, neste século, agravaram o desmatamento na
Amazônia e em todos os biomas brasileiros. São decisões que abriram ou vão
abrir ciclos de desmatamento no Brasil.
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O código florestal
O
primeiro deles foi a aprovação do Código Florestal pelo Congresso Nacional. O
neoliberal e ex-comunista deputado Aldo Rebelo articulou o Novo Código
Florestal Brasileiro (Lei nº 12.651/2012) como Relator da proposta na Câmara
dos Deputados entre 2009 e 2011. A atuação de Aldo Rebelo foi marcada pela
busca de conciliação com a bancada ruralista, o que gerou críticas de
ambientalistas e elogios do setor agropecuário.
Logo
após a aprovação do texto na Câmara, ele se tornou Ministro do Governo Dilma
Rousseff cuja bancada na Câmara apoiou esse desastroso Código Florestal. Como o
grande vilão do desmatamento é a agropecuária, o agronegócio é o maior
beneficiário do desmatamento. Ganham dinheiro destruindo a natureza e o futuro
do Brasil.
Uma
análise das séries históricas de uso e cobertura da terra feita pelo MapBiomas
indica: 2008–2012 (antes do novo Código Florestal): ~ 5,8 milhões de hectares
de vegetação nativa perdida. 2013–2018 (primeiros cinco anos após o Código): ~
8 milhões de hectares perdidos. 2018–2022 (anos mais recentes): ~ 12,8 milhões
de hectares perdidos – o que representa um aumento de cerca de 120% em
comparação com o período 2008–2012.
Esses
números mostram que a taxa de perda de vegetação se acelerou significativamente
após a implementação do novo Código Florestal, mesmo considerando décadas
anteriores. No período de agosto de 2012 a julho de 2013, a taxa anual de
desmatamento na Amazônia aumentou cerca de 28% em comparação com os 12 meses
anteriores, interrompendo anos de queda contínua registrados antes da aprovação
do novo Código Florestal.
Em
síntese, depois da aprovação do novo Código Florestal em 2012, o desmatamento
no Brasil manteve-se em patamares mais elevados do que no período imediatamente
anterior à lei, com a perda de vegetação nativa total aumentando de cerca de
5,8 milhões de hectares (2008-2012) para cerca de 12,8 milhões de hectares nos
cinco anos mais recentes (2018-2022) – um crescimento de mais de 100% em termos
acumulados.
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O PL da devastação
O PL
2.159/2021 (Projeto de Lei do Licenciamento Ambiental), apelidado de “PL da
devastação” flexibiliza e desmantela o licenciamento ambiental no Brasil,
permitindo licenças automáticas (LAC) para muitos empreendimentos, dispensando
licenciamento para agropecuária e fragilizando órgãos ambientais. Isso abre
caminho para destruição ambiental e impactos em povos indígenas e comunidades
tradicionais. O projeto foi aprovado no Congresso, teve vetos presidenciais
derrubados em 27/11/2025 e segue como uma das maiores ameaças socioambientais
recentes. Seguem abaixo seus principais pontos.
(i) Licença por Adesão e Compromisso
(LAC):Empreendimentos de baixo e médio risco ambiental (e até alguns de alto
risco) podem ser licenciados por autodeclaração, sem análise técnica prévia.
(ii) Dispensa de Licenciamento: Isenta
atividades como agricultura, pecuária, manutenção de infraestrutura e
saneamento básico da necessidade de licença ambiental.
(iii) Enfraquecimento de Órgãos: Reduz a
participação e poder de fiscalização de órgãos como Ibama, ICMBio, Funai e
Conama.
(iv) Licença Ambiental Especial (LAE): Permite
ao governo federal acelerar licenciamentos de projetos estratégicos, ignorando
potenciais impactos.
Evidentemente,
as consequências são desastrosas. Os especialistas alertam para o aumento do
desmatamento, contaminação de água e solo, e a repetição de tragédias
ambientais. Os povos indígenas, quilombolas e comunidades tradicionais são os
mais afetados, pois o projeto ameaça seus territórios e modos de vida. O PL da
devastação é considerado o maior retrocesso na legislação ambiental brasileira
em décadas, ignorando a ciência e o debate público.
A taxa
de desmatamento na Amazônia em 2025 mostrou uma queda significativa de 11,08%
em relação ao ano anterior, atingindo 5.796 km² (período agosto/24 a julho/25),
sendo a terceira menor desde 1988, segundo dados do INPE, com ações de
fiscalização e retomada de políticas ambientais impulsionando a redução.
Apesar
da queda no desmatamento, a degradação ambiental (incêndios) aumentou
drasticamente (recorde de 38% de áreas afetadas). Mas o recém aprovado PL da
Devastação ameaça a política de combate ao desmatamento e aponta para uma maior
degradação florestal.
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Acordo União Europeia-Mercosul
Do lado
do Mercosul, o grande beneficiário do Acordo é o agronegócio que vai aumentar a
produção, ou seja, vai aumentar o desmatamento e os incêndios florestais,
contribuindo para as secas no Sudeste.
O
Acordo foi negociado com base na premissa neoliberal de que a liberdade de
comércio garante o desenvolvimento socioeconômico e a proteção ambiental. Na
realidade, mantém os países do Mercosul na condição países exportadores de
produtos primários, a partir de uma produção agropecuária e de minérios que
agrava o desmatamento, amplia o uso de agrotóxicos e aumenta a contaminação de
solos e águas.
Em seu
artigo “Colonialismo Verde”, na revista Carta Capital, Adilson Vieira e Pedro
Ivo Batista demonstram que o avanço da fronteira agroextrativista acarreta
perda da biodiversidade e aumenta a violência contra os povos indígenas e
comunidades tradicionais. O Acordo União Europeia-Mercosul vai acelerar esse
processo.
Florestas
viram pastagens, rios são contaminados pela mineração, comunidades são expulsas
de seus territórios, a agricultura familiar e a agroecologia ficam ameaçadas. E
é bom não esquecer que o agronegócio exporta, não produz para o mercado
interno, como faz a agricultura familiar. Mais adiante, o artigo citado afirma
que “uma verdadeira parceria precisa ser construída sobre outras bases.
Cooperação
tecnológica para energias renováveis, apoio à industrialização sustentável,
fortalecimento da agricultura familiar, proteção efetiva dos territórios
indígenas e tradicionais e reconhecimento das dívidas ecológicas históricas”.
O
Acordo União Europeia-Mercosul, tal como está configurado, vai aumentar o lucro
do agronegócio à custa do desmatamento e incêndio de florestas, envenenamento
dos rios, destruição da biodiversidade, redução dos “rios voadores” e aumento
da seca no Sudeste. O Acordo vai impulsionar um novo ciclo de degradação
ambiental no Brasil. Mas está sendo festejado em prosa e verso, à direita e à
esquerda, por todos aqueles que, por ignorância, sempre desprezaram a questão
ambiental no Brasil.
Fonte:
Por Liszt Vieira, em A Terra é Redonda

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