A
campanha internacional para salvar o campo de futebol usado por crianças
palestinas que Israel ameaça demolir
Um
clube de futebol infantil palestino na Cisjordânia (ocupada por Israel)
enfrenta uma demolição iminente, apesar de uma campanha internacional para
salvá-lo. Os seus apoiadores afirmam que o clube oferece uma oportunidade
esportiva única para os jovens jogadores palestinos.
No
entanto, Israel insiste que o clube foi construído sem as permissões
necessárias.
Nesta
terra profundamente dividida, são muitos os motivos de disputa: desde a
identidade e as crenças das pessoas que vivem aqui até cada centímetro do
território que pisam.
Recentemente,
isso passou a incluir um pequeno campo de futebol de grama sintética instalado
à sombra do gigantesco muro de concreto que isola Israel de grande parte da
Cisjordânia ocupada.
Dois
meninos de 10 anos jogam futebol juntos. Ambos vestem camisas vermelhas; um
está prestes a chutar a bola enquanto o outro observa. Eles jogam em um campo
de grama verde, logo diante de um grande muro de concreto que se ergue
imponente sobre eles
Legenda
da foto,As autoridades israelenses ordenaram ao clube de futebol que desmonte o
campo; caso contrário, ele será demolido
No
contexto dos ataques de 7 de outubro de 2023, da guerra de dois anos em Gaza e
da fragilidade do atual cessar-fogo, sem dúvida há problemas muito mais
urgentes.
Mas
esta é uma história carregada de simbolismo, que atraiu atenção internacional
desproporcional devido à conexão que tem com outra religião universal: o
futebol.
No dia
da nossa visita, um grupo de crianças palestinas formava fila para cobrar
pênaltis sob o sol do inverno.
A
construção do campo de futebol começou aqui, nos arredores de Belém, em 2020, e
hoje oferece um local de treino para mais de 200 jovens jogadores do campo de
refugiados de Aida, nas proximidades.
As ruas
estreitas e lotadas abrigam casas de descendentes de famílias palestinas que
foram obrigadas a deixar seus lares ou que fugiram durante a guerra
árabe-israelense de 1948.
Em 3 de
novembro de 2025, as crianças, enquanto caminhavam do campo de refugiados para
o treino diário, encontraram um aviso pregado na porta do campo de futebol
declarando sua ilegalidade.
Pouco
depois, o aviso foi seguido por uma ordem de demolição.
"Não
temos outro lugar para jogar", me disse Naya, de 10 anos, vestindo uma
camiseta do Brasil com o nome de Neymar nas costas.
"Aqui
construímos nossos sonhos", afirmou. "Se eles demolirem nosso campo,
demolirão nossos sonhos."
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O problema do muro
Perguntei
a outro jovem jogador, Mohammed, qual foi sua reação ao saber que o clube
estava prestes a ser demolido.
"Eu
fiquei muito mal", me disse. "Este é um campo pelo qual tenho muito
carinho".
A
comunidade reagiu, publicando vídeos nas redes sociais, lançando uma petição
que já reuniu centenas de milhares de assinaturas e recebendo mensagens de
apoio internacional.
O clube
afirma que, após a intervenção de um advogado, recebeu recentemente uma
prorrogação de sete dias.
Mas
essa prorrogação expirou na segunda-feira (19/01), deixando a todos ali diante
de uma decisão difícil.
Como é
habitual nesses casos, os proprietários do clube devem demolir o campo por
conta própria ou esperar que as autoridades israelenses o façam à força, sendo
que depois eles receberão a conta.
A
proximidade do muro, que percorre um dos lados do campo, é apenas uma das
muitas complexidades da ocupação israelense do território que os palestinos
reivindicam como base para um futuro Estado.
Militarmente,
Israel exerce controle sobre toda a Cisjordânia.
Mas o
controle administrativo, a sua governança diária, está dividido entre áreas
administradas por palestinos e outras por israelenses.
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Acordos de Oslo
Os
mapas que servem de base para essas distinções foram elaborados como parte
central dos Acordos de Oslo, assinados na década de 1990 por Israel e pela
Organização para a Libertação da Palestina (OLP).
A
Cisjordânia foi dividida em três categorias de território.
As
Áreas A e B eram zonas sob controle civil da Autoridade Palestina (AP).
Nas
áreas marcadas como Área A, os palestinos também tinham controle de segurança
nominal.
A Área
C — mais de 60% do total — deveria permanecer temporariamente sob controle
total israelense.
A ideia
era que, com o tempo, o território fosse gradualmente transferido ao
autogoverno palestino à medida que as negociações avançassem.
Embora
isso nunca tenha acontecido, e ambas as partes se culparam mutuamente pelo
fracasso do processo de paz, os mapas continuam sendo a base de grande parte da
administração atual da Cisjordânia.
Belém
está designada como Área A.
Mas os
mapas mostram que Israel exerce autoridade civil sobre a Área C em grande parte
do território ao redor, até os limites da cidade.
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A vida atrás do muro
Israel
começou a construir seu muro de concreto no início dos anos 2000, diante de uma
onda de atentados suicidas e outros ataques perpetrados por palestinos, que
causaram a morte de centenas de israelenses.
Críticos
afirmam que, à medida que se expandiu, o muro se tornou uma ferramenta para
punir milhares de palestinos comuns, os separando de seus locais de trabalho,
dividindo suas comunidades e anexando de fato partes de seu território.
Um
grupo de crianças vestindo uniforme de futebol está parado no meio do campo, em
círculo, enquanto ouve o treinador falarCrédito,Getty Images
Legenda
da foto,O muro de concreto que Israel construiu em meados dos anos 2000 marca a
vida cotidiana de milhares de palestinos que vivem na Cisjordânia
Mas o
que agora está em disputa em Belém é uma pequena e estreita faixa de terreno do
lado palestino do muro.
Para os
moradores do campo de Aida, que buscavam um espaço para construir um campo de
futebol, era grande o suficiente para atender às suas necessidades.
Mas,
para Israel, continua sendo, e assim aparece nos mapas, parte da Área C, apesar
de a construção do muro tê-lo deixado isolado no lado de Belém.
Imagens
de satélite mostram que o espaço estava vazio em 2019 e, ano após ano, é
possível observar como o campo de futebol começou a tomar forma, encaixando-se
perfeitamente ao lado do muro.
A ordem
de demolição alega que ele foi construído sem as permissões necessárias em um
terreno sobre o qual Israel ainda exerce controle civil total.
Para os
palestinos, é irônico que lhes seja negado o direito de construir um pequeno
campo de futebol na periferia de sua cidade, dentro do muro que os confina.
Enquanto
rejeita os pedidos de licença e segue demolindo construções existentes, Israel
continua aprovando a construção de vastos assentamentos israelenses na Área C,
considerados ilegais segundo o direito internacional.
Em
setembro passado, o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, assinou um
acordo para impulsionar um assentamento grande e altamente controverso, que
abrigará 20 mil israelenses.
Localizado
entre Jerusalém Oriental ocupada e o assentamento já existente de Maale Adumim,
se concluído, dividiria de fato a Cisjordânia em dois, o que, segundo os
palestinos, praticamente aniquilaria suas aspirações de ter um Estado próprio.
Israel
concorda.
"Não
haverá um Estado palestino", disse Netanyahu na cerimônia de assinatura.
"Este lugar nos pertence."
Alguns
de seus ministros falam abertamente sobre a anexação total da Cisjordânia.
Em
Belém, o clube de futebol, que afirma ter recebido permissão verbal em 2020
para o campo, acredita que a ameaça de demolição vai muito além da
regulamentação urbana.
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'Dificultar a vida de propósito'
"Os
israelenses não querem que tenhamos qualquer esperança, não querem que tenhamos
qualquer oportunidade", disse Mohammad Abu Srour, um dos membros do
conselho do Centro Juvenil Aida.
A
ideia, disse Srour, é tornar a vida deles deliberadamente difícil.
"No
momento em que perdermos a esperança e as oportunidades, iremos embora. Essa é
a única explicação para nós."
Entramos
em contato com o órgão israelense que administra os assuntos civis na
Cisjordânia para obter comentários.
Embora
a ordem de demolição tenha sido emitida em nome deles, nos encaminharam ao
Exército israelense, que supervisiona suas atividades.
As
Forças de Defesa de Israel (FDI) forneceram a seguinte declaração:
"Ao
longo da cerca de segurança, existe uma ordem de confisco e uma proibição de
construção; portanto, a construção na área foi realizada ilegalmente", diz
o comunicado.
Enquanto
aguardam os desdobramentos, as crianças de Aida confiam que a atenção
internacional seja suficiente para fazer as autoridades mudarem de ideia.
Mas,
por enquanto, enquanto o conflito continua, o futuro de um pequeno campo de
futebol está por um fio.
Fonte:
BBC News de Belém, Cisjordânia

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