A
tecnologia pode fazer cérebro funcionar melhor?
Você
tem uma longa lista de compras que precisa recordar? Ou os nomes dos convidados
para uma reunião importante?
Existem
truques de memória que usamos para treinar o cérebro, para que ele funcione
melhor. É o chamado método "software", para melhorar nossa capacidade
mental.
Mas
será que poderíamos também usar o hardware, ou seja, dispositivos que fornecem
impulsos elétricos ao cérebro?
Até o
momento, esta tecnologia foi desenvolvida para ajudar a restaurar as funções
cerebrais em certas condições neurológicas.
Um
exemplo é a estimulação cerebral profunda (ECP), uma técnica complexa,
utilizada por muitos anos para tratar de pessoas com transtornos de movimento,
como o mal de Parkinson.
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Marca-passo para o cérebro
A
professora Francesca Morgante, da Universidade City St George de Londres,
observou o impacto da ECP em seus pacientes.
"Ela
é considerada para pessoas cuja medicação não consegue controlar os
sintomas", declarou a professora ao programa de rádio CrowdScience, do
Serviço Mundial da BBC.
O mal
de Parkinson causa a morte das células produtoras do mensageiro químico
dopamina.
A
dopamina é necessária para sinalização nas partes do cérebro que controlam os
movimentos corporais. Sem dopamina em quantidade suficiente, as pessoas que
sofrem do mal de Parkinson podem ter sintomas como tremores, rigidez e lentidão
de movimentos.
A
doença piora com o tempo e, até o momento, não tem cura.
A ECP
consiste em implantar cirurgicamente um gerador de pulsos embaixo da pele,
geralmente pouco abaixo da clavícula. Ele é conectado a cabos ou eletrodos que
são inseridos nas regiões do cérebro afetadas, para estimulá-las com uma
pequena corrente elétrica.
O
dispositivo age como um marca-passo do cérebro, segundo Morgante, ajudando a
restabelecer a sinalização cerebral normal.
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Não há uma solução única para todos
A
estimulação cerebral profunda pode ajudar a aliviar alguns dos sintomas de
Parkinson, mas nem sempre é eficaz.
As
formas em que a vasta rede de neurônios envia sinais elétricos entre si são
complexas e, até o momento, não são totalmente compreendidas.
"Existem
muito mais sintomas do que apenas tremores e problemas de mobilidade",
explica Lucia Ricciard, também da Universidade City St George de Londres.
"Eles
incluem sintomas como depressão, ansiedade, falta de motivação, problemas de
memória e dificuldades para dormir."
Ela
destaca que os estudos indicam que a estimulação cerebral profunda também pode
ajudar a aliviar alguns destes sintomas, como a depressão e a ansiedade, mas é
preciso realizar mais pesquisas a respeito.
Existem
também considerações individuais. Cada cérebro é altamente complexo e único e,
por isso, não existe uma solução única que sirva para todos.
Os
cabos implantados e empregados na ECP consistem de diversos segmentos
independentes, conectados a diferentes neurônios. Os especialistas precisam
determinar quais segmentos devem ser estimulados para conseguir maior impacto
sobre os sintomas do paciente.
"Para
tomar a decisão de qual segmento ativar e com qual parâmetro em termos de
frequência, amplitude e pulso, existem muitos aspectos que devem ser
considerados", afirma Ricciard.
Este
processo de calibragem personalizada, tradicionalmente realizado por meio de
tentativa e erro, vem melhorando constantemente, ainda mais agora que a
inteligência artificial pode sugerir quais combinações são as melhores para
cada cérebro.
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Reforço para a memória?
Ainda
não está muito claro se a estimulação cerebral serve para melhorar outras
funções, como a memória. Mas este ponto, atualmente, é objeto de investigação.
A
memória humana está concentrada em uma região do cérebro chamada hipocampo.
Ela
recebe informações de outras partes do cérebro, como o odor, o som e a imagem
de uma experiência, e a converte em um código que é armazenado a curto ou longo
prazo, explica o especialista em memória Robert Hampson, da Universidade Wake
Forest, nos Estados Unidos.
Há
vários anos, sua equipe realizou experimentos com pequenos roedores, que
receberam uma tarefa que exigia o uso da memória, e observou o surgimento de
padrões elétricos específicos antes que o animal decidisse o que fazer.
"Se
o rato de laboratório girar para a esquerda, obtenho um padrão que chamo de
'esquerda'. Se ele girar para a direita, obtenho um padrão que chamo de
'direita'", explica Hampson.
"Descobrimos
que existem padrões associados ao funcionamento correto da memória e suas
possíveis falhas."
Hampson
começou a se perguntar se seria possível influenciar esses padrões e
"reparar a memória quando ela falhar".
Sua
equipe foi pioneira nos primeiros testes em seres humanos de um dispositivo
denominado prótese neural hipocampal, descrito por Hampson como "mais
parecido com uma muleta ou gesso" do que com uma prótese.
De
forma similar à ECP, ele exige a implantação cirúrgica de diversos eletrodos,
estes dirigidos ao hipocampo.
A
tecnologia ainda não está totalmente desenvolvida. Por isso, no lugar da
implantação de um marca-passo, os eletrodos são atualmente conectados a um
grande computador externo, que pode enviar e receber sinais do cérebro.
"Tentamos
restaurar a função quando ela fica debilitada ou se perde", detalhou
Hampson.
Em
testes com pessoas com epilepsia, os resultados são promissores.
"Observamos
uma melhora de 25% a 35% da capacidade de reter informações por cerca de uma a
24 horas. Isso foi observado em pacientes que apresentavam maiores problemas de
memória no início do teste."
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Possibilidades para o futuro
Esta
tecnologia, algum dia, poderá ajudar pessoas que sofrem de problemas de memória
como Alzheimer, segundo Robert Hampson.
Mas
será que ela poderia melhorar o cérebro de qualquer pessoa, não só das que
sofrem de doenças degenerativas?
Hampson
acredita que ainda temos muito o que aprender sobre os motivos que levam a
memória de algumas pessoas a funcionar melhor do que outras.
"Não
temos necessariamente informações suficientes para dizer 'podemos melhorar o
cérebro além do normal'", segundo ele.
E é
claro que existem obstáculos éticos a considerar, além dos riscos da própria
cirurgia cerebral.
"A
memória é a essência que nos define e a única coisa que não queremos é
alterá-la", conclui Hampson.
Fonte:
Serviço Mundial da BBC

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