“Feminicídio
está sendo naturalizado”, critica vice-presidente do Instituto Maria da Penha
Uma das
principais vozes no combate aos feminicídios e na luta pelos direitos das
mulheres no Brasil, Regina Célia Barbosa, cofundadora e vice-presidente do
Instituto Maria da Penha, faz um alerta. Em 2026, quando chegamos aos 20 anos
da Lei Maria da Penha, principal instrumento legal de combate à violência de
gênero no país, considerada uma das mais avançadas do mundo, “o feminicídio
está chegando a um processo de naturalização”.
Os
dados confirmam a afirmação da professora e cientista política. A cada dia no
Brasil, quatro mulheres são assassinadas, em média. No ano passado,
ultrapassamos a marca de mil feminicídios no país. Não são apenas os números
que chocam, também os relatos. “Quando você tem uma mulher assassinada,
arrastada pelo carro, por quase um quilômetro. Quando você tem mulheres que são
ateadas fogo junto com seus filhos e queima também uma parte de uma comunidade,
entre outras questões, você observa que está havendo o quê? Está havendo uma
banalização da prática da violência dessa mulher”, afirma Barbosa.
As
mulheres estão sob ataque e a violência, inflamada pela cultura machista e
pelos discursos misóginos, também mira nas ativistas como Barbosa e na própria
Maria da Penha, que têm sido alvo de ataques online e de desinformação. No ano
passado, investigações apontaram que um documentário da produtora de extrema
direita, Brasil Paralelo, forjou documentos para desacreditar Maria da Penha e
a lei de proteção às mulheres.
Enquanto
a violência segue nos ambientes online e na vida real, os governos falham em
oferecer respostas rápidas. Há, na opinião de Barbosa, “um descompasso”. “As
mulheres estão denunciando mais, estão fazendo a parte delas, mas cadê o
feedback?”, pergunta. “A gente está lutando contra uma estrutura que
infelizmente não está dando prioridade na atenção à garantia dos direitos das
mulheres”, afirma, em entrevista para a Agência Pública.
• A Lei Maria da Penha completa 20 anos em
2026, mas infelizmente temos acompanhado uma escalada de violência de gênero no
país. Tivemos inclusive um aumento de pena para feminicídios, de 20 para 40
anos, em 2024, porém tudo isso parece não estar funcionando. Faltam leis mais
duras ou mais políticas públicas? Como você avalia as políticas públicas,
sobretudo do governo federal, para a prevenção de feminicídios no Brasil?
Bom,
infelizmente a avaliação é extremamente negativa na medida em que a gente vê o
aumento [dos casos]. Nós temos a inabilidade, a insuficiência também de uma
política pública mais comprometida com a causa da mulher, com os direitos da
mulher, em especial no que se refere à prevenção.
Eu
costumo dizer que a Lei Maria da Penha não é uma lei perfeita, mas é uma lei
completa. Ela é uma lei completa porque no artigo 8º da lei fala exatamente
sobre a criação e da articulação de uma política integrada. E o que seria essa
política articulada e integrada? Ter os três setores – primeiro, segundo e
terceiro setor – além de profissionais na área de segurança pública, saúde,
educação, integrados e articulados para o fortalecimento de uma rede de
atendimento, acolhimento e acompanhamento da mulher em situação de violência.
Quando
você fala do atual governo, observe o seguinte. Não é apenas a história de
estar lá com um presidente que, foi ele que, inclusive, que iniciou com a
implantação da Lei Maria da Penha, que é de 2006. Quando a antiga ministra,
Cida [Gonçalves] sai, deixa um plano de execução de 40 Casas da Mulher
Brasileira. Ela faz um trabalho de reestruturação dos organismos de políticas
públicas para as mulheres, que são os Organismos de Políticas para as Mulheres.
Ela
tenta também fortalecer os centros de referências. Faz conversas com gestores
públicos sobre orçamentos. Então, assume uma nova ministra que tem esse desafio
de se fazer conhecida na agenda da mulher porque ela é conhecida na agenda da
assistência social, e de dar continuidade à entrega dos projetos que já havia
anunciado e revigorar, junto aos parlamentares, a questão dessa atenção às
questões da mulher, aos desafios. Só que a gente tem um descompasso aí. A gente
tem um descompasso entre o que está, quem está no governo e quem está no
Senado, de quem está na Câmara e de quem também está nos gestores municipais.
• Eu entrevistei a atual ministra, Márcia
Lopes, recentemente, ela me falou desse descompasso. Ela assumiu em maio do ano
passado, e agora está liderando a pasta em ano eleitoral, que é um período
muito difícil para avançar nas ações. De acordo com ela, o governo tem
enfrentado resistências de opositores nos estados, municípios e também no
Congresso Nacional para avançar políticas públicas de gênero. Como você analisa
esse cenário?
Nós
fomos gravemente afetados pelo desafio [do discurso] da ideologia de gênero,
porque [foi[ uma onda que se passou, mas ainda não se exauriu. A discriminação,
o preconceito, alguns valores contribuíram para enfraquecer os investimentos
nos direitos da mulher. Uma das evidências relevantes é o que aconteceu nas
redes sociais, invalidando, inclusive e desqualificando, desvalorizando a
história da Maria da Penha.
Na
pandemia, nós tivemos praticamente três anos, de 2020 a 2021, de retirada dos
recursos [públicos]. Houve um arrefecimento de todo aquele empenho que nós
tínhamos. Infelizmente, ainda está sendo negligenciado. Estamos no ano
eleitoral e a gente precisa tomar muito cuidado porque as pessoas precisam
cobrar dos gestores e daqueles que vão pleitear novos mandatos o que se fez
para as mulheres. A situação de violência contra as mulheres só tem aumentado.
As
mulheres estão denunciando mais, estão fazendo a parte delas, mas cadê o
feedback? A gente está lutando contra uma estrutura que infelizmente não está
dando prioridade na atenção à garantia dos direitos das mulheres. E, mais uma
vez, eu digo, não vamos reduzir a causa da mulher apenas à questão da
violência. Nós temos muito mais para resolver.
Temos
uma política pública que não está conversando com as mulheres. Um descompasso
na gestão em relação das tramas partidárias, dos conflitos e isso está fazendo
com que essa mentalidade machista, a cultura machista, estabeleça que é melhor
matar.
• Além desses descompassos políticos e da
cultura de ódio contra as mulheres, quais são os gargalos hoje na rede de
combate à violência de gênero, que, na sua avaliação, atrapalham a prevenção de
feminicídios?
Eu
percebo agravos na atualização da qualificação dos profissionais. Também na
valorização salarial, da saúde e da segurança [das mulheres]. Nós temos
gestores que se sentem desobrigados de dar uma atenção especial à política de
mulheres porque são levados pela onda da discriminação, do preconceito, do tal
[discurso] da ideologia de gênero, que fez com que essas pessoas as pessoas não
dessem o devido valor de comprometimento, de aplicabilidade dos recursos da
política pública nos municípios.
Não
basta você ser mulher e ser gestora para você cuidar da questão da pauta da
mulher. Tem que ter, além da sua sensibilidade, uma visão técnica, compromisso,
planejamento.
Qual é
o nosso grande problema hoje? Hoje, nós precisamos ter atenção para que não se
naturalize o feminicídio. O feminicídio está chegando a um processo de
naturalização.
E como
é que você sabe disso? Por conta do tipo de morte que essas mulheres estão
tendo nos casos de feminicídio. Quando você tem uma mulher assassinada,
arrastada pelo carro, por quase um quilômetro. Quando você tem mulheres que são
ateadas fogo junto com seus filhos, você observa que está havendo o quê? Está
havendo uma banalização da prática da violência contra essa mulher. Entende?
• O que pode, na sua opinião, impedir que
se naturalize os feminicídios?
O que
nós precisamos? Nós precisamos do empoderamento. Que essas mulheres possam
trabalhar, que elas possam ter autonomia financeira, que elas possam ter
instrução.
A gente
precisa trabalhar a questão das escolas, com as meninas, para que elas possam
ir mais para áreas de Exatas, além das áreas de Humanas, por exemplo.
Nós
precisamos trabalhar a questão do enfrentamento da violência obstétrica,
precisamos ter creches, ter uma série de investimentos numa infraestrutura na
área de sustentabilidade, para que essa mulher possa ter uma condição de ter
essa independência econômica, e autonomia com relação às suas escolhas, às suas
decisões.
Então,
você vai para um parlamento onde um número significativo é de homens. Você vai
aos gestores de todas as políticas públicas, seja na área da economia, da
educação, da saúde, da tecnologia, da mobilidade urbana, tendo o homem como
protagonista e a mulher de forma terciária. Então é claro que você vai ter um
descompasso nessa política.
• Falta orçamento ou vontade e habilidade
política dos governos para superar esses descompassos?
Olha,
falta habilidade política para unir os atores e falta habilidade política para
a gente poder ter mais orçamento. A gente tem percebido que está havendo, entre
aspas aí, um desinteresse na política estratégica de enfrentamento à violência
para o fortalecimento e garantia dos direitos das mulheres em todos os
segmentos.
A
questão da mulher não se resume à questão da violência de gênero. Na vida dessa
mulher, existem a área da saúde, da educação, do trabalho, de geração de
emprego e renda, no cuidado dessa mulher, na mobilidade urbana. Essa mulher que
muitas vezes sai de quatro horas da manhã de casa, nas ruas são escuras, nos
lugares ermos, para pegar ônibus, metrô. Ela não tem uma infraestrutura que
garanta a segurança. Essa mulher também não tem onde deixar os filhos, não tem
uma creche que possa dar garantias.
• E, muitas vezes, as mulheres denunciam a
violência, mas não conseguem medidas protetivas, porque elas demoram ou porque
o atendimento não é feito como deveria.
Exato.
Tanto aquelas nas quais medida protetiva demora e, nesse ínterim, ela é
assassinada, ou aquelas que têm medida protetiva e infelizmente [o feminicídio]
acontece.
O
processo do enfrentamento à violência – não é só isso, mas eu vou resumir nos
três As: atender, acolher e acompanhar. Quando essa mulher solicitou a medida
protetiva, pela lei, ela deve receber em até 48 horas. Mas a gente também
precisa ter também as delegacias 24 horas. Apenas 12% de todas as delegacias no
Brasil, mais ou menos 400 e poucas delegacias, fazem o atendimento 24 horas.
E,
mesmo quando tem o atendimento, a mulher chega lá, faz a solicitação e ela não
sai com a medida protetiva. Precisamos saber qual é a qualidade desses
atendimentos.
Precisamos
saber como está o funcionamento dos centros de referência, onde temos três
profissionais fundamentais: a advogada, a psicóloga e a assistente social, que
vão orientar a mulher. Precisamos entender como cada um dos municípios
brasileiros estão estruturados para fazer uma rede fortalecida, consistente e
sustentável e capilar para atender essa mulher.
Eu
também preciso entender qual é o impacto da violência doméstica para as
crianças que estão nas escolas. Porque, para cada criança que tem uma mãe ou
responsável em situação de violência, essa criança ou adolescente pode ajudar a
identificar [a situação]. Temos mais de 209 mil escolas em todo o Brasil, temos
47 milhões de estudantes. Agora, a pergunta: o setor da educação está
articulado, integrado com o programa de políticas públicas para as mulheres no
sentido de enfrentamento à violência?
• Você acredita que, não apenas as
escolas, mas os atendimentos de saúde e também as igrejas poderiam trabalhar de
forma mais articulada com os governos na prevenção da violência de gênero?
Cada
mulher que faz o papanicolau, por exemplo, ginecologistas, sendo homem ou
mulher, estão conectados com a rede para nos informar a violência sexual que as
pacientes sofrem? E informando isso, de maneira que nós podemos trabalhar
preventivamente com orientações nas escolas, nas igrejas, sem dizer o nome, sem
apontar para aquela mulher? Que tipo de informação está chegando a essa mulher
para que ela possa fazer uma relação entre as dores, os problemas que ela tem,
e a questão da violência sexual?
Porque
as pessoas pensam que violência sexual é cometida por um estranho na rua – e
não é. Eu conheço mulher que diz pra mim: ‘olha, os meus três filhos são do
mesmo homem, é do mesmo marido, que eu estou casada há 35, mas todos os três
foram frutos de um estupro’ – consegue entender?
• Depois de 20 anos da Lei Maria da Penha,
por quais motivos tantas ainda têm tanta dificuldade em denunciar a violência?
Muitas
vezes, as mulheres entendem que a violência, para ser denunciada, é só
violência física. Mas por quê? Porque nem todas as mulheres, mesmo a gente
estando no ano dos 20 anos da lei Maria da Penha, não conseguem perceber a
violência moral e a violência psicológica.
E elas
falam que isso é o quê? É o jeito dele. Ele é assim, meio esquentado, mas
assim, ele é uma pessoa maravilhosa, mas é o jeitinho dele. Algumas podem até
dizer, “mas ele nunca me bateu”.
Só são
20 anos de lei. Ainda é pouco? É. Mas isso justifica o índice alto de
feminicídio? Não. Não justifica. E por que não justifica? Porque nós estamos
tendo outras ferramentas. Nós temos uma tecnologia avançada. A qualquer momento
que eu ou você quiser abrir uma live agora, para falar sobre direito das
mulheres, podemos. Temos séries, a comunicação sobre o tema. Mas como
transformar tudo isso numa prática que opere a favor da garantia integral da
vida das mulheres? É aí que está o grande desafio.
Fonte: Por Mariama Correia, da Agencia Pública

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