'Chavismo
3.0': o círculo de confiança de Delcy Rodríguez e quem ganhou poder com a queda
de Maduro na Venezuela
Delcy
Rodríguez não tem um mês como mandatária da Venezuela, mas seu poder vem
se fortalecendo há anos.
A
atual presidente em exercício assumiu o cargo
no dia 5 de janeiro, depois que os Estados Unidos atacaram seu país, capturando Nicolás Maduro e sua esposa,
Cilia Flores.
Desde
então, Rodríguez alterou boa parte dos responsáveis pelos ministérios e funções
próximas, como o gabinete presidencial e o responsável pela Guarda de Honra
Presidencial; retirou aliados de Maduro da primeira linha da política;
reuniu-se em Caracas com o diretor da CIA, Jon Ratcliffe; e assinou um acordo
segundo o qual os Estados Unidos comercializarão até 50 milhões de barris de petróleo
venezuelano.
Ela
chegou até mesmo a receber elogios do presidente americano, Donald Trump.
Paralelamente,
ela denuncia o "sequestro de dois heróis que temos como reféns nos Estados
Unidos da América do Norte", como declarou no seu discurso de posse, em
referência a Maduro e Flores.
Ainda é
cedo para determinar o rumo que irá seguir Delcy Rodríguez, considerando as
dinâmicas internas, tanto da Venezuela quanto do próprio chavismo, além da
natureza instável de Donald Trump.
Mas é
possível sugerir uma linha, considerando seu histórico, o círculo de confiança
que a rodeia e as pessoas a quem ela vem concedendo protagonismo.
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'Dragão de duas cabeças'
Delcy
Rodríguez não foi uma figura relevante no governo do ex-presidente Hugo Chávez
(1954-2013).
Ela
teve rápida passagem pela Secretaria da Presidência, "mas não teve as
melhores relações possíveis com ele", conta à BBC News Mundo (o serviço em
espanhol da BBC) Mariano de Alba, pesquisador venezuelano associado ao
Instituto Internacional para Estudos Estratégicos, no Reino Unido.
Quem
conseguiu construir fortes vínculos no chavismo desde o princípio foi seu
irmão, Jorge Rodríguez. De um dia para outro, ele deixou de atender pacientes
no seu consultório de psiquiatria para ser reitor do Conselho Nacional
Eleitoral (CNE).
Jorge
Rodríguez chegou a ser presidente do Conselho e, posteriormente,
vice-presidente executivo e prefeito do Município Libertador, onde se localiza
Caracas. E seu currículo inclui ainda o Ministério das Comunicações, o cargo de
deputado e, agora, presidente da Assembleia Nacional.
"Jorge
sempre foi mais público, o que se mobilizou, que dirigiu campanhas para
Chávez", segundo o jornalista César Bátiz, diretor do portal jornalístico
venezuelano El Pitazo.
"Também
é mais beligerante. Sua irmã mais nova [Delcy] é mais quieta, mas esta
comparação é injusta. Não é possível compreendê-los separadamente",
explica ele.
Bátiz
define a relação entre Jorge e Delcy Rodríguez com as palavras do pesquisador
russo Daniel Estulin: "um dragão de duas cabeças".
"O
maior aliado de Delcy Rodríguez é seu irmão. Eles têm uma agenda", segundo
ele.
"Os
dois passaram quase pelos mesmos cargos, exceto que Jorge não tem experiência
com economia. Ambos sabem e conhecem como tudo funciona, por dentro e por fora.
Você não pode considerá-los separadamente."
Andrés
Izarra foi ministro de Chávez e de Maduro. Ele deixou o cargo dias depois da
prisão do opositor Antonio Ledezma, padrasto de sua esposa, em 2015. Ele
compartilha a mesma visão.
"Jorge
acumulou o controle legislativo e os canais de negociação", explica ele.
"Delcy ficou com a vice-presidência, a economia e as relações exteriores.
Quando era preciso abrir as portas do lado de dentro, eles tinham as
chaves."
Com a
captura de Maduro, os principais poderes do país estão nas mãos dos Rodríguez.
Ela é a chefe do Executivo e ele, do Legislativo.
Izarra
classifica os irmãos como "os Fouché desta história". Ele faz
referência ao político francês Joseph Fouché (1759-1820), que sobreviveu à
Revolução Francesa (1789-1799), ao império de Napoleão (1804-1815) e à
Restauração que se seguiu (1815-1830).
"A
lealdade dos Rodríguez é ao poder em si, qualquer poder. Eles não teorizam
sobre como exercê-lo, só como sobreviver a ele."
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Círculo leal, técnico e com enfoque econômico
Existem
diversos desafios à frente para Delcy Rodríguez.
"A
elite autoritária tem diversos dilemas. Entre eles, manter o controle,
satisfazer as exigências dos Estados Unidos e conseguir uma reconfiguração rumo
a um 'chavismo 3.0', que permita sobreviver a esta conjuntura após a captura de
Maduro", segundo Maryhen Jiménez, doutora em Ciências Políticas da
Universidade de Oxford, no Reino Unido.
Paralelamente,
a presidente enfrenta um paradoxo, pois "o chavismo se identificou como
anti-imperialista e, agora, precisa conviver com a tutela dos Estados
Unidos", declarou Jiménez.
A
reorganização entre os participantes, com Trump, as diferentes facções do
chavismo e as bases chavistas "é um equilíbrio muito frágil".
"É
possível pensar que serão priorizados perfis com lealdade pessoal, a quem se
possa delegar tarefas complexas e que permitam atravessar este momento",
afirma Jiménez.
A
especialista em autoritarismo e democratização explica que "é necessário
fazer concessões para os Estados Unidos, sobretudo no setor econômico; existem,
por sua vez, inúmeras demandas sociais acumuladas, causadas pelo colapso do
Estado; e exigências de liberalização política, ou seja, o fim da repressão da
sociedade e da oposição".
Mariano
de Alba destaca que o círculo mais próximo de Delcy Rodríguez, além do seu
irmão, é formado por "pessoas com vínculo técnico e econômico [...] mais
tecnocrata, mas que têm como ponto de referência que este é o governo mais
tecnocrata que se poderia esperar dentro do chavismo".
Um dos
primeiros nomes é Félix Plasencia, atual Embaixador da Venezuela no Reino
Unido.
Na
semana passada, diversos órgãos de imprensa noticiaram que Caracas enviou
Plasencia para Washington, a fim de mediar e fazer "avançar a reabertura
da Embaixada da Venezuela", segundo o jornal The New York Times.
"Plasencia
é um homem de Delcy e Jorge, você não pode separá-lo, sobretudo dela",
explica César Bátiz.
"Ele
tem um perfil mais limpo, não tem acusações contra ele e, onde está, não pode
ser responsável por violações de direitos humanos. É fiel aos irmãos e fará o
que lhe disserem. Se tiver que ser moderado, será."
"Não
é um chavista tradicional, não tem uma posição tão forte", destaca ele.
Sobre
Plasencia, Mariano de Alba afirma que é "uma pessoa com conexões no mundo
empresarial e internacional".
Delcy
Rodríguez foi encarregada da política econômica nos últimos tempos do governo
Maduro. A ela se atribuiu a liberalização que aliviou parcialmente a situação
crítica do país.
A
economia parece ser tema prioritário nesta nova etapa.
Neste
sentido, outro membro do seu círculo é Calixto Ortega Sánchez, nomeado como
vice-presidente setorial da Economia. Antes, ele foi presidente do Banco
Central da Venezuela (BCV).
De Alba
destaca que ele "estudou fora da Venezuela, é uma pessoa com muito boas
conexões, conhece bem o tema econômico e o dirige com certa destreza".
O
pesquisador destaca outros nomes no setor econômico. Um deles é o pouco
conhecido Héctor Silva, "advogado especialista em negócios internacionais
que vem dirigindo o tema da mineração no sul da Venezuela".
Román
Maniglia, "presidente da Pequiven, a corporação estatal encarregada de
produzir e comercializar produtos petroquímicos, foi presidente do Banco da
Venezuela e um dos principais aliados de Delcy Rodríguez".
Outro
nome é o da advogada e economista Anabel Pereira, vice-presidente do BCV e
ministra da Economia e Finanças. Ela assumiu o cargo com Maduro "porque
Delcy Rodríguez o convenceu da nomeação".
"Observando
os nomes em conjunto, eu diria que são pessoas bem preparadas, profissionais,
concentradas não tanto no lado ideológico do chavismo (embora sejam chavistas),
mas em conseguir resultados econômicos", analisa De Alba.
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Nomes não tão novos
Entre
as últimas nomeações feitas por Delcy Rodríguez nos últimos dias, encontra-se
Gustavo González como Comandante-Geral da Guarda de Honra Presidencial e
principal responsável pela Direção Geral de Contrainteligência Militar (DGCIM).
César
Bátiz explica que ele, "agora, é a mão militar mais forte de Delcy".
O
jornalista ressalta que, anteriormente, González "era reconhecido como
pessoa fiel e grande amigo de Diosdado Cabello", ministro do Interior.
"Mas, agora, ele joga fechado com ela."
González
foi responsável pelo Serviço Bolivariano de Inteligência Nacional (Sebin) e
recebeu sanções dos Estados Unidos em 2015, durante o governo Barack Obama
(2009-2017). Ele foi acusado de ser "responsável ou cúmplice de atos
significativos de violência ou conduta que constituem abuso ou grave violação
dos direitos humanos".
Outro
nome que não é novo é o de Juan Escalona. Ele foi assistente de Chávez e membro
próximo do círculo de Maduro.
Acreditou-se,
em um primeiro momento, que ele havia sido morto nos ataques americanos do dia
3 de janeiro. Mas, agora, ele assume o Gabinete Presidencial.
"Não
é um cargo pequeno", destaca Bátiz. "Tem muito acesso e isso é muito
estranho. Pode ser um prêmio de consolação ou para manter a aparência."
"Eu
o incluo como um dos possíveis traidores de Maduro, pois conhecia muitos
detalhes sobre ele."
Outra
nomeação recente foi a de Miguel Pérez Pirela como ministro das Comunicações,
considerado "um dos funcionários afrancesados". A própria Delcy se
formou na França e no Reino Unido.
"Uma
escolha que pode ter sido tomada, por um lado, por terem poucos quadros no
setor de comunicação e, por outra, para Delcy tentar se mostrar mais
moderada", explica Bátiz. "Ela está em campanha e talvez esteja
buscando ideias novas."
Cabe
recordar que, além da presidência, Delcy Rodríguez ainda ocupa a
vice-presidência executiva e é ministra de Hidrocarbonetos. E, ao controle do
Executivo, some-se a aliança no Legislativo, comandado pelo seu irmão Jorge.
Mas, a
julgar pelos cargos ocupados anteriormente por Jorge Rodríguez, eles também têm
aliados em outro poder fundamental: o eleitoral.
A ONG
Transparência Venezuela publicou um relatório detalhando os vínculos da atual
presidente. Ela destaca, como seu principal aliado, o reitor e vice-presidente
do CNE, Carlos Quintero Cuevas, "que ingressou no órgão eleitoral em
setembro de 2004, quando Jorge Rodríguez era o reitor principal".
Nestas
movimentações, uma das quedas que se destacam é a de Álex Saab, controvertido
empresário que esteve preso nos Estados Unidos, acusado de lavagem de dinheiro.
Ele foi devolvido em um intercâmbio de prisioneiros e, até agora, era ministro
das Indústrias e Produção Nacional.
Bátiz
destaca a saída desta figura "muito vinculada a Maduro e protegida por
ele" como uma mensagem para o ex-presidente.
"Se
eu fosse Maduro e tivesse a esperança de que Delcy e Jorge fossem me tirar da
situação em que ele está, esta movimentação seria uma mensagem muito
ruim."
Para
Izarra, esta saída "pode ser lida como uma concessão aos Estados Unidos,
mas também como uma bomba-relógio, que Washington pode detonar quando quiser.
Saab solto também é Saab que sabe demais."
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'Chavismo 3.0'
Estas
mudanças "feitas em muito pouco tempo" buscam "uma certa
reacomodação, com muita ênfase no setor econômico, sem subestimar a questão
militar e ideológica", segundo De Alba.
"Estamos
frente a um 'chavismo 3.0'?", questiona Jiménez.
"Não
sabemos que rumo irá tomar, mas podemos antecipar uma adaptação a esta nova
realidade, que eles tentarão navegar para manter o controle e resistir. O
chavismo pretende seguir existindo para dar continuidade histórica."
Para
Izarra, o objetivo da nova formação de Delcy Rodríguez é "sobreviver"
e, por isso, ela "não se pode dar ao luxo de se rodear de pessoas leais a
Maduro ou com agenda própria".
Mariano
de Alba destaca que existe uma diferença em relação à velha guarda militar
chavista neste círculo de poder.
Para
ele, o objetivo é "conseguir resultados, oferecer maior garantia de um
melhor governo, maior eficiência, melhoria econômica e, com isso, usar os
ganhos para fins políticos, recuperar a popularidade e ficar em melhor posição
eleitoral".
Izarra
destaca que, entre os desafios que precisarão ser enfrentados nesta nova etapa,
destacam-se "manter o equilíbrio com Diosdado Cabello, que controla o
aparato de segurança e pode provocar o caos, se decidir que convém para ele;
satisfazer Washington sem perder a fachada de soberania de que necessita para
sobreviver internamente; e evitar a pressão do povo ou da oposição, se
encontrarem um espaço para desafiá-la."
Ainda
que de forma diferente, De Alba não rotula Delcy Rodríguez de moderada.
"Nós
que a conhecemos sabemos que ela tem um perfil bastante combativo",
segundo ela.
"Agora,
dentro do chavismo, ela representa uma ala que não é a mais ideológica e sua
facção é mais aberta a negociar certas concessões. Ela quer se concentrar na
estabilização da economia."
Rodríguez
ainda está sob sanções da União Europeia por atos contra a democracia e o
Estado de Direito, violações dos direitos humanos e repressão à sociedade civil
e à oposição no país.
A nova
presidente parece ter dado início a mudanças que satisfazem a Donald Trump. E,
paralelamente, afirma que defende o regresso do "sequestrado" Maduro.
É um
equilíbrio difícil, que demonstra, nas palavras de Jiménez, que a Venezuela
está em "um momento incerto, também para o governo".
Fonte:
BBC News Mundo

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