Sobre
os ombros das mulheres
A
soberania de uma nação não é um conceito abstrato restrito a gabinetes
diplomáticos ou tratados internacionais; ela é a pele que reveste a autonomia
de um povo e, para nós, mulheres inseridas nos movimentos sociais da América
Latina, é o território fundamental onde nossas lutas ganham corpo.
A
urgência deste debate se acentua diante do cenário global atual. Já nos
primeiros dias do novo governo de Donald Trump, em 2025, testemunhamos ataques
frontais e sistemáticos às questões de gênero e aos direitos sexuais e
reprodutivos. Não é coincidência: a história nos ensina que, em quaisquer
circunstâncias, as mulheres são as primeiras a perderem direitos sob regimes de
face fascista. O autoritarismo necessita do controle sobre nossos corpos para
se consolidar, utilizando a pauta moral como cortina de fumaça para o saque das
soberanias nacionais.
Quando
discutimos a hipótese do sequestro da autoridade máxima do presidente da
Venezuela – ou qualquer tentativa de destituição forçada de um mandatário
eleito na região – não estamos falando apenas de um jogo de xadrez geopolítico
entre potências. Estamos falando da iminência de fratura social que recai, com
violência desproporcional, sobre os ombros das mulheres.
A
história do nosso continente é marcada por cicatrizes de intervenções externas
que, sob o pretexto de “restaurar a democracia”, invariavelmente instauraram o
caos, a militarização e o retrocesso de direitos duramente conquistados pelas
bases populares.
O risco
de invasão na América Latina, alimentado pela retórica de confronto e pela
demonização das identidades diversas, projeta uma sombra autoritária que atinge
primeiro as casas e o corpo das mulheres. No movimento social, aprendemos que a
guerra e a intervenção estrangeira são as expressões máximas do patriarcado
colonial. A invasão não traz liberdade; ela traz o deslocamento forçado, o
aumento da exploração sexual, a precarização extrema do trabalho e a destruição
das redes de cuidado que sustentam a vida comunitária.
Precisamos
ter nítido que somos todas vítimas desse ataque à soberania. A ameaça que hoje
paira sobre uma fronteira vizinha é o laboratório de uma invasão que pode se
estender por todo o Continente, padronizando a retirada de direitos e o
silenciamento das dissidências.
Quando
a soberania de um país é desrespeitada, o estado de exceção se torna a norma e,
nesse cenário, as vozes femininas que lideram associações de moradores,
cozinhas solidárias e sindicatos são as primeiras a serem silenciadas pela bota
militar ou pela violência das milícias que florescem no vácuo do poder
legítimo.
A
implicação direta do desrespeito à soberania dos povos na vida das mulheres é a
perda da autodeterminação sobre o próprio cotidiano. Sem um Estado soberano que
possa gerir seus recursos e proteger suas fronteiras das investidas do capital
transnacional e da ideologia conservadora importada, as políticas públicas de
saúde reprodutiva, educação e combate à violência de gênero são as primeiras a
serem sacrificadas no altar da “segurança nacional” ou do ajuste fiscal imposto
por forças externas.
Este é
um chamado à resistência. Não podemos recuar enquanto o fascismo tenta
redesenhar o mapa da nossa autonomia. O desrespeito à soberania é um ataque
frontal à nossa capacidade de organizar a esperança. Por isso, a luta feminista
na América Latina é intrinsecamente anti-imperialista. Entendemos que a defesa
da autodeterminação de qualquer povo vizinho é a defesa da integridade de
nossas próprias vidas.
Além
disso, o clima de instabilidade política e a ameaça de conflito armado
alimentam a masculinidade tóxica e agressiva, que se traduz em um aumento
vertiginoso dos índices de feminicídio e violência doméstica. Onde impera o
fuzil e o autoritarismo imposto de fora, a autonomia das mulheres é vista como
ameaça à ordem estabelecida.
O
desrespeito à soberania é, portanto, um ataque frontal à nossa capacidade de
organizar a esperança. É a tentativa de nos devolver ao ambiente privado, ao
silêncio e à submissão. Entendemos que a defesa da autodeterminação da
Venezuela e de qualquer povo vizinho é, em última instância, a defesa da
integridade de nossas próprias vidas e da possibilidade de construir um futuro
onde o destino da nossa terra seja decidido por quem nela caminha e trabalha.
Nossa
resistência é feita de solidariedade internacionalista e da clareza de que a
paz é fruto da justiça e do respeito às diferenças políticas internas, sem a
interferência de botas estrangeiras (muitos menos as internas). A defesa da
autoridade máxima eleita, independentemente de alinhamentos ideológicos
conjunturais, é a defesa do pacto democrático que impede que a barbárie se
instale.
Para
nós, mulheres do movimento social, a pátria é o chão onde plantamos nossa
resistência, e a soberania é o ar que nos permite respirar e lutar por um mundo
onde nem a terra, nem nossos corpos, sejam territórios de conquista.
Seguimos
em marcha e convocamos todas as mulheres a permanecerem unidas contra a invasão
de nossos territórios e contra o sequestro de nossos direitos, afirmando que a
integração latino-americana deve ser o nosso escudo contra a prepotência
daqueles que nunca souberam o que é cuidar de um povo.
Fonte:
Por Cidinha Santos, em A Terra é Redonda

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