Jeferson
Tenório: a literatura permite uma avaliação mais lúcida da realidade
Estreou
esta semana, a sexta temporada do Pauta Pública, num ano que, desde os
primeiros dias, já se mostrou decisivo para a geopolítica, a democracia, a
tecnologia e a história. Em 2026, com o tema “Diálogos para entender o que é
real”, a jornalista Andrea Dip conduz conversas para nos situar num mundo em
que imagens fictícias parecem verdadeiras e narrativas se impõem como fatos, em
meio a disputas cada vez mais intensas sobre o real.
O
primeiro episódio da nova temporada
conta com a participação de um dos principais nomes da literatura brasileira
contemporânea: Jeferson Tenório, vencedor do Prêmio Jabuti em 2021 com O Avesso
da Pele (Companhia das Letras, 2020). Ao refletir sobre o momento atual,
Tenório afirma que “já temos dificuldade de identificar o que é informação, o
que é invenção”, o escritor alerta para os riscos desse cenário e destaca o
papel da literatura em nos fazer sair “do calor da hora”, convocando o
contraditório e a complexidade.
Tenório
também fala sobre seu livro mais recente, De Onde Eles Vêm (Companhia das
Letras, 2024), romance que acompanha a trajetória de um jovem negro e
periférico na universidade, um espaço marcado ao mesmo tempo por hostilidade e
por encantamento. Para o autor, trata-se de uma história sobre “o direito ao
encanto” e, sobretudo, sobre o direito de escolha, um privilégio historicamente
negado à população negra. Ao final, a literatura aparece como um gesto de
resistência à indiferença e um lembrete fundamental: “um dos papéis da
literatura é fazer com que a gente não esqueça que somos humanos”.
Leia os
principais pontos da conversa:
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Você escreve ficção com muitos elementos e dados de realidade. Como avalia este
momento que estamos vivendo?
A
ficção, na verdade, não é um espelhamento da realidade, mas uma reflexão sobre
a realidade e que a devolve de uma maneira mais lúcida, talvez mais honesta do
que está acontecendo. Justamente porque ela faz uma espécie de biografia dos
afetos, dos sentimentos. Mais do que uma análise fria e racional, a ficção e a
literatura vão fazer justamente uma
investigação que é mais subjetiva, e por isso ela se torna mais profunda.
No
momento que a gente vive, o real é posto em xeque, ou seja, já temos
dificuldade de identificar o que é uma informação, o que é uma invenção e o que
são coisas falsas. Cada vez mais isso tem aumentado, eu acho que é bastante
preocupante e devemos ficar bastante atentos para ver o caminho que estamos
seguindo.
[Em
relação aos conflitos geopolíticos nos primeiros dias de 2026], os mecanismos
da política são diferentes dos mecanismos da literatura. Isso não significa que
uma não esteja implicada na outra. Mas a política inicialmente foi criada, em
termos gregos, justamente para evitar a violência. Com o objetivo de usar o
argumento e a linguagem para evitar as vias de fato.
O que
temos visto hoje é uma escalada dessa violência em que a própria política é
violenta. Se a gente for usar os termos de pós-modernidade, essa é a política:
a política da violência, a política da invasão. É o que temos acompanhado desse
imperialismo que vem acontecendo.
[Neste
contexto], a literatura é uma possibilidade de enxergar a realidade saindo do
calor da hora, saindo da efervescência. Ela opera num outro tempo, e esse tempo
é importante para fazer uma avaliação mais lúcida da realidade. Acho
interessante porque a literatura convoca o contraditório, ela convoca uma
complexidade de visões, você vai encontrar ali sentimentos humanos,
subjetividades. Um dos papéis da literatura é fazer com que a gente não tenha
indiferença em relação ao sofrimento do outro.
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Sobre a violência da política, temos cada vez mais falado sobre como tem sido
difícil imaginar criar, encantar, ter ideias de novos futuros, quando a
realidade, além de violenta, vem com múltiplas crises e inseguranças. Como é
seu processo de escrita em meio a tudo isso?
Eu me
tornei um leitor tardio de ficção. Os livros não fizeram parte da minha
infância nem da minha adolescência.Quando eu descobri os livros, a literatura
passou a ser uma espécie de obsessão, uma doença, algo que me convocou, de tal
forma, que às vezes eu era intoxicado pelas palavras.
A
literatura fez com que eu conhecesse e tomasse consciência do mundo de maneira
muito visceral, e hoje até me pergunto como eu sobrevivi a essas leituras.
Imagina chegar próximo dos 30 anos, e só aí começar a se dar conta do porquê
você é pobre, do porquê ser sempre abordado pela polícia e porquê a sua família
não tem condições de entrar numa universidade. São leituras que vão me dando
uma consciência e que, de certo modo, é difícil lidar.
Depois
de saber tudo que você sabe, após tomar consciência das coisas, o meu processo
criativo vai um pouco nesse sentido de, primeiro, escolher, não um tema, mas
escolher uma boa história para ser contada. E as histórias surgem através de
relacionamentos. E toda literatura surge a partir do relacionamento de você com
o mundo. A partir disso começo a pensar nos personagens, que nascem a partir de
um específico e como ele vai irradiando
as suas relações com o mundo, com a vida, com a política, com a sua sexualidade
e assim por diante. O texto vai se montando na minha cabeça até que eu percebo
que chegou o momento de ir para frente do computador e começar a escrever. Mas
é um processo longo. Quem escreve ficção e romance tem que gostar justamente da
demora, da lentidão. Então esse é o meu processo, ele é mais devagar.
• Contar sobre o seu mais recente
lançamento, o De Onde Eles Vêm.
Este
livro vem de um desejo de fazer o que eu quis fazer (ao contrário do Avesso da
Pele que surgiu de uma necessidade social). Então [o De Onde Eles Vêm] foge da
ideia de necessidade por uma questão social, e passa por uma questão pessoal
mesmo, de escrever um texto dessa forma. Embora tenha ali elementos sociais: a
história é de um rapaz de vinte e poucos anos, negro, periférico, que entra na
universidade e se depara com um ambiente bastante hostil, que desconfia das
suas capacidades e, ao mesmo tempo, ele se sente encantado por esse espaço.
É uma
entrega existencialista, filosófica, muito mais do que uma questão sobre as
cotas, explora a universidade como um lugar de encantamento e um lugar em que se tem a possibilidade de ter
acesso a outros tipos de conhecimentos. Então é um livro que vai ficar nessa
corda bamba de ele ter que lidar com essa hostilidade e ao mesmo tempo se
sentir atraído por esse universo acadêmico e pelo universo também dos livros,
da literatura.
É um
livro que fala sobre o direito ao encanto, o direito que as pessoas negras e
periféricas têm de gostar de literatura, de gostar de arte e de não se sentirem
culpadas por isso. Acho que há um elemento nesse sentido de muitas famílias
pobres e negras se colocarem nesse questionamento.
No
fundo, o De Onde Eles Vêm é um livro sobre o direito de escolha. E o direito de
escolha é um privilégio. Geralmente a população negra acaba avançando na vida,
não porque escolheu, mas porque era o que tinha. E o personagem Joaquim está
numa situação em que por mais que a vida seja dura, ele tenta justamente
escolher. E escolha significa abrir mão de outras coisas. E abrir mão de outras
coisas significa, inclusive, até a própria sobrevivência dele.
Fonte:
Por Andrea DiP, Sofia Amaral, Ricardo Terto e Stela Diogo da Agencia Pública

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