segunda-feira, 26 de janeiro de 2026

Rui Tavares: Trump preencheu o que faltava para ser considerado fascista

Uma coluna no jornal The New York Times, de autoria de Michelle Goldberg, faz uma admissão importante: a de que estiveram certos aqueles que durante todos estes anos defenderam a tese de que Donald Trump representa um tipo de fascismo do século 21.

O argumento, que pode ser estendido a muitos dos aliados e imitadores de Trump, repousa no fato de que os críticos da tese foram sempre argumentando que faltavam dois elementos essenciais para poder considerar Trump fascista: a existência de uma milícia violenta e a emergência de uma retórica internacional agressiva expansionista.

Com o ICE, corpo policial militarizado que persegue minorias e impõe o medo à oposição, matando e prendendo sem culpa formada, e com o seu ataque à Venezuela e os seus discursos sobre a anexação da Groenlândia e até do Canadá, Trump preencheu os requisitos que lhe faltavam para poder ser considerado fascista.

Na verdade, o debate já poderia ter ficado encerrado antes, quando os trumpistas tentaram invadir o Capitólio. Depois desses acontecimentos, o historiador Robert Paxton, um dos maiores especialistas mundiais na história do fascismo, e até então circunspecto na utilização do termo, mudou de ideia.

Para resumir, chegamos ao ponto em que negar que Trump seja fascista cria mais problemas do que resolve, e em que entender o que significa um fenômeno fascista de tipo novo no nosso século esclarece mais do que atrapalha a análise.

Mas se escrevo sobre esse assunto não é pelo prazer de resolver uma disputa intelectual. O que é uma raridade. Como dizia Zygmunt Baumann, normalmente os cientistas sociais não resolvem problemas: aborrecem-se e passam ao problema seguinte. Mais importante do que isso é olhar mais longe e ver a que pistas nos pode levar a realidade do segundo mandato de Donald Trump.

Como defensor há longa data da tese de que estamos perante um fascismo do século 21, pela primeira vez vejo-me a observar o trumpismo e a pensar que posso ter errado por defeito, não por excesso. A mutação tem sido demasiado rápida, demasiado brutal, demasiado bizarra. Por isso, recentemente, dei por mim a pensar: e se a pulsão de Trump for totalitária, não apenas autoritária?

Faz alguma diferença? Acho que sim, e que é enorme. Um modelo mental autoritário é repressivo e força a população à concordância ou pelo menos à obediência, mas é previsível e estável. Se a pulsão de Trump for totalitária, o que é verdade hoje de manhã pode ser mentira amanhã à noite, ou até mesmo hoje ao fim da manhã, e em cada vez tem de ser defendido com a mesma veemência. A experiência é muito mais desestruturante.

Pensemos assim. Para o autoritarismo, a verdade imposta pode ser que 2+2=5. Está errado, mas toda a gente sabe o que dizer em público para se conformar com o regime. Mas num modelo mental totalitário 2+2 pode 3 ou 5 ou 7. Ninguém sabe. A resposta pode variar de acordo com os humores do homem forte.

Os EUA ainda não são um regime totalitário. Mas a pulsão de Trump é totalitária. Se acham que isso não tem consequência para o mundo, perguntem aos groenlandeses.

¨      DONALD TRUMP É FASCISTA? Por Gaudêncio Torquato

A palavra fascismo voltou ao centro do debate político internacional — e, com ela, a pergunta inevitável: Donald Trump é fascista? A resposta exige cautela. Fascismo não é xingamento nem rótulo genérico para autoritarismo. É um conceito histórico, com traços bem definidos, formulado a partir das experiências da Itália de Mussolini, da Alemanha nazista e de regimes correlatos no século XX.

Para avaliar a hipótese, é preciso confrontar o trumpismo com os critérios clássicos do fascismo.

  1. Culto ao líder e personalismo

O fascismo se estrutura em torno de um líder carismático, apresentado como salvador da nação. Nesse ponto, há convergência parcial. Trump construiu uma relação direta com sua base, desprezando mediações institucionais, partidos tradicionais e a imprensa. O slogan "Make America Great Again" funciona como mito mobilizador, centrado na figura do líder que promete restaurar uma grandeza perdida.

  1. Desprezo pelas instituições democráticas

Aqui o sinal de alerta se intensifica. O questionamento sistemático das eleições, culminando na invasão do Capitólio em 6 de janeiro de 2021, não foi um episódio trivial. Foi a mais grave afronta ao ritual democrático americano em mais de dois séculos. Fascismos históricos florescem exatamente quando o líder passa a tratar instituições como obstáculos à vontade popular — interpretada, claro, por ele próprio.

  1. Nacionalismo excludente e inimigos internos

O fascismo opera pela lógica do "nós contra eles". Trump construiu inimigos recorrentes: imigrantes, elites cosmopolitas, imprensa, juízes, opositores políticos. Seu discurso associa identidade nacional a critérios culturais e étnicos implícitos, ainda que sem a formulação racial explícita do nazismo. Trata-se de um nacionalismo identitário, não totalitário, mas agressivo.

  1. Violência simbólica e tolerância à violência real

Regimes fascistas glorificam a força. Trump não criou milícias estatais nem um partido paramilitar, mas flertou retoricamente com a violência, relativizou ações de grupos extremistas e demorou a condená-los com clareza. Essa ambiguidade não é fascismo clássico, mas funciona como lubrificante da radicalização.

  1. Economia e Estado

Aqui tá um ponto decisivo de distinção. O fascismo histórico defendia um Estado forte, corporativista e intervencionista. Trump, ao contrário, é um populista de direita liberal, pró-mercado, anti-regulação e hostil ao Estado administrativo. Não propôs uma reorganização autoritária da economia, nem um projeto totalizante de sociedade.

<><> Então, é fascismo?

A resposta mais precisa é: não no sentido histórico pleno, mas sim como um fenômeno com traços fascistoides. Trump representa um autoritarismo populista, eleitoral, que opera dentro da democracia para corroê-la por dentro. Não pretendeu abolir eleições, mas tentou deslegitimá-las. Não implantou uma ditadura, mas testou os limites institucionais ao máximo.

O trumpismo se encaixa melhor na categoria de iliberalismo democrático — regimes que mantêm a fachada eleitoral enquanto enfraquecem freios, contrapesos e normas democráticas. É menos Mussolini e mais um sintoma contemporâneo de democracias em crise, pressionadas pela desigualdade, pela polarização e pela desinformação.

<><> O risco real

O perigo não está apenas em Trump como indivíduo, mas no precedente que ele inaugura: a normalização do ataque às regras do jogo. A História ensina que o fascismo raramente chega com o nome que tem. Ele se disfarça, adapta-se, testa o terreno. Quando percebido tarde demais, já trocou a exceção pela regra.

Trump talvez não seja fascista clássico. Mas o ambiente político que o sustenta contém os elementos que, em outros tempos, abriram caminho para experiências autoritárias. E isso, para qualquer democracia, deveria ser motivo de séria preocupação.

•        Trump ataca. Há saída democrática? Por Mauri Cruz

A invasão da América Latina através do bombardeiro do território venezuelano, com o sequestro de seu presidente e da primeira combatente, é a senha do governo norte-americano dizendo ao mundo que nunca teve qualquer apreço pela democracia. Logo depois, vieram as ameaças contra Colômbia, Cuba, Groelândia e agora, a saída de todos os espaços de diálogos multilaterais das Nações Unidas. É, inequivocamente, uma declaração de guerra contra toda América Latina.

Na verdade, essa atitude não é uma surpresa. O imperialismo sempre foi um instrumento do grande capital para dominar, explorar e empobrecer milhões de seres humanos, enriquecendo uma pequena minoria. Por décadas, essa dominação se deu através do controle das reservas de petróleo, do comércio internacional centrado no dólar, da hegemonia militar e tecnológica e de um arranjo de governança global tutelada através do sistema ONU.

A mudança da estratégia do império é a prova que o mundo mudou. Os avanços tecnológicos e econômicos da China alteraram a geopolítica global, abrindo uma janela para um mundo multipolar, diverso e, talvez, até mais democrático. Com um modelo econômico voltado a inclusão de milhões de pessoas, a experiência chinesa tem se mostrado uma alternativa eficaz e eficiente ao modelo capitalista neoliberal. Contraditoriamente, a China comunista, criou um capitalismo de estado, com enorme capacidade de atuação em todo planeta.

Que pese a questão ambiental ter se incorporado somente nos últimos anos, sua concepção tem se demonstrado antagônica ao imperialismo norte-americano. Isto porque, apesar de sua supremacia econômica, militar e tecnológica, a China, pelo menos em relação a América Latina, não tem um comportamento de dominação, e tem buscado construir relações de respeito entre as nações baseadas na cooperação. A criação dos BRICS, uma iniciativa ousada e potente, é a prova real de que a China pretende construir uma liderança global multipolar sem os Estados Unidos. Frente a imposição deste novo cenário, o embate com os EUA era previsível e inevitável. Por isso, a quinada na estratégia norte-americana tem como principal motivação, não sua força, mas a decadência do modelo neoliberal na qual toda sua política se centraliza.

Neste novo contexto, os EUA têm duas armas poderosas. A primeira é, literalmente, seu poderio militar, capaz de fazer frente a qualquer conflito armado. Soma-se a sua capacidade bélica, a ausência de qualquer ética. Tenhamos certeza, em matéria militar eles praticam qualquer atrocidade, sem nenhum pudor. A outra arma, é a dominação político ideológica, em especial, nas sociedades da América Latina. Essa capacidade de dominação se intensificou com as redes sociais dominadas e instrumentalizadas pelas big techs norte-americanas e que estão nas mãos de praticamente todo cidadão e cidadã latino-americana. Criando suas próprias narrativas, organiza um exército interno, em cada um dos nossos países, pronto para agir contra a democracia.

A crise social e econômica decorrente do colapso neoliberal favorece a estratégia norte-americana que aposta num ambiente de barbárie, desestruturação social, crise institucional e deslegitimação dos Estados nacionais. Um ambiente onde a regra é a lei do mais forte, com a proliferação de grupos paramilitares ou milicianos, alimentando discursos de ódio, praticando violência contra a juventude negra, como ocorreu no Rio de Janeiro, contra as mulheres, comunidade LGBTQIAPN+ e, nos próprios EUA, através da violência do ICE contra imigrantes e nacionais.

Neste cenário, o combate ao narcotráfico é mera narrativa visando dar alguma legitimidade social a tanta violação de direitos. Aliás, há poucos meses escrevi que o projeto imperialista é alimentar guerras civis em todos os países democráticos, desestabilizando sua institucionalidade e criando condições para uma dominação externa com baixos níveis de resistência. E essa mensagem está expressa em alto e bom som pelo Governo Trump em suas declarações oficiais, como aquela feita em início de dezembro de 2025 quando apresentou a “Nova Estratégia de Segurança Nacional dos EUA”. Para nós, latino-americanos, o terrível é que estamos muito próximos ao colapso do império. Neste contexto, a pergunta é o que fazer?

Desde as primeiras edições do Fórum Social Mundial em Porto Alegre, as forças progressistas e democráticas do mundo denunciavam os limites das democracias burgueses capitalistas, indicando que era preciso a constituição de um outro marco referencial de democracia, mais participativa, popular e, principalmente, planetária, capaz de fazer frente a insanidade do neoliberalismo. Para construir uma transição democrática ao neoliberalismo, as organizações e movimentos sociais sempre defenderam a organização e mobilização massiva das nossas sociedades em prol de pautas de defesa da democracia participativa, da inclusão social, de controle do grande capital, dos direitos humanos e ambientais. Essas seguem sendo as armas contra a potência militar e a dominação ideológica norte-americana neste momento de agudização do conflito: organização e mobilização social.

Passados 25 anos do primeiro FSM, ainda estamos aqui, resistindo. A dominação só acontece quando nossos corpos e mentes cedem ao poder da força injusta, como se ela fosse invencível. E não é. A força mobilizadora das sociedades civis é capaz de deter o avanço do fascismo e do imperialismo. A América Latina é um território de paz, solidariedade e desenvolvimento social. Em 2026 haverá eleições em vários países latino-americanos, em especial, no Brasil, e o ambiente de instabilidade política e social é arma nas mãos daqueles que desejam acabar com a democracia e instalar um estado de dominação, medo e terror.

Precisamos, como sociedade civil plural e diversa, construir um novo pacto com os partidos políticos de todos os matizes, na defesa do estado democrático de direito. Um novo pacto político entre sociedade e governos, para que, as verdadeiras democracias se levantem na defesa de sua autonomia, sua soberania, de seus territórios e de seu povo. A resistência deve ser nas ruas, com mobilizações massivas, em todas as cidades do continente. A América Latina precisa despertar e levantar-se agora.

Por mais que pareça que a ofensiva norte-americana é sinal de sua força, na realidade, ela representa o oposto. Por isso, precisamos criar mecanismos para que seja possível sobreviver a queda do império como indivíduos, coletivos, nações e como humanidade. Precisamos imaginar como podemos, sociedade civil e governos democráticos e progressistas de todo mundo, criar um ambiente para uma nova fase histórica da humanidade. Essa guerra militar, política e cultural não será vencida sem uma sociedade civil organizada, mobilizada e interconectada na defesa da dignidade e dos direitos de todos os seres humanos. Finalizo dizendo que a 1ª Conferência Internacional Antifascista e pela Soberania dos Povos  que ocorrerá em Porto Alegre, em março de 2026, será um importante momento de reunir os partidos, organizações e movimentos sociais e sociedade civil como um todo para dialogar sobre as estratégias e iniciativas em cada um de nossos países. A realidade nos chama à ação e, com certeza, estaremos à altura deste desafio.

¨      Trump: uma ameaça à paz mundial. Por Kakay

Normalmente eu acordo pela manhã com 200 mensagens não lidas no celular. Aquele dia, quando abri o WhatsApp, havia mais de 1000 mensagens. Descobri que um zé ninguém, um blogueiro bolsonarista, tinha publicado no Instagram dele que a Coreia do Norte, a China e eu tínhamos uma pasta capaz de ouvir segredos, inclusive do Supremo Tribunal. Uma dessas sandices de seres escatológicos que nunca merecem resposta.

Vários jornalistas queriam uma manifestação minha — eu tenho uma lista de transmissão com 900 jornalistas; seria fácil responder. Mas optei pelo silêncio. Afinal, como disse à época ao pessoal do escritório, ele estava me comparando a 2 potências nucleares! Eu ia fingir de morto, certo na máxima que ouvi lá na minha Patos de Minas, quando era menino: “fama de poderoso, comedor e valente, a gente não desmente”.  Mesmo machista, a frase contém uma verdade e não seria eu a questionar ter o poder equivalente a duas potências nucleares.

Na verdade, é assustador o que o mundo passa neste momento. A pretexto de manter a paz e a liberdade, estamos vivenciando uma crescente força dominadora, temerária, sem limites e concentrada nas mãos do Presidente dos EUA. Um insano. Séculos de história de convivência entre os povos, dezenas de tratados internacionais e de leis cuidadosamente preparadas, estudadas e discutidas em fóruns e universidades,
inúmeros compromissos assumidos, enfim, nada, absolutamente nada, passa a ter valor diante da força bruta e do autoritarismo cego de uma política fascista de um líder que tem o poder do famoso botão vermelho que pode explodir o mundo.

Contra o arbítrio não existe limite. Contra a insanidade não se pode exigir diálogo. A prepotência, calcada em uma visão econômica e de dominação, extrapola qualquer pretensão de compromisso com a estabilidade política mundial. O mundo passa por um momento de loucura coletiva. A decisão é política com fundamento econômico. De dominação.

As hipóteses são várias. O Presidente Trump estaria dobrando a aposta para desviar a atenção do escândalo Epstein Files, que poderia levar a um impeachment. Mesmo com todo o poder que um presidente norte-americano tem, a acusação de pedofilia assusta até as hostes mais conservadoras. Há quem sustente que ele não está no pleno gozo de suas faculdades, o que parece ser arrematada tolice. O Trump é a cara e a representação do norte-americano médio. Ele é a imagem exata dos EUA. E há, claro, uma análise política econômica. Trump nunca foi um incentivador de guerras, e isso é um fato. Com o debacle evidente do poder dos EUA, com o país perdendo espaço e o norte-americano médio sofrendo uma queda significativa do seu estilo de vida e do poder aquisitivo, restou ao Trump o discurso que mais agrada ao cidadão do país: força, guerra e prepotência. Até mesmo uma inédita pressão em cima do presidente do Banco Central americano ele se dispôs a fazer.

E a escalada da violência não parece ter limites. Depois de sequestrar o ditador Maduro, na Venezuela - com rara ousadia e em afronta direta, não só ao direito internacional, mas desprezando o Congresso dos EUA -, já anunciou que vai colocar o tal Marco Rubio para presidir Cuba, vai invadir a Groenlândia, ameaçou sequestrar o presidente da Colômbia, incita a guerra no Irã e deitou seus olhos doentios em Fernando de Noronha.

O Brasil é uma nação pacífica. Não tem estrutura para suportar um ataque de um país como os EUA. Nenhum desses apaixonados por Trump, que pedem a intervenção no nosso país, acredito, pensa realmente em um bombardeio nas nossas cidades. Mas é isso que está em jogo. Se a escalada de violência promovida por Donald Trump voltar para nosso lado, é melhor nos prepararmos para o pior.

 

Fonte: Folha de S. Paulo/GT Política/Outras Palavras/O Dia

 

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