Rui
Tavares: Trump preencheu o que faltava para ser considerado fascista
Uma
coluna no jornal The New York Times, de autoria de Michelle Goldberg, faz uma
admissão importante: a de que estiveram certos aqueles que durante todos estes
anos defenderam a tese de que Donald Trump representa um tipo de fascismo do
século 21.
O
argumento, que pode ser estendido a muitos dos aliados e imitadores de Trump,
repousa no fato de que os críticos da tese foram sempre argumentando que
faltavam dois elementos essenciais para poder considerar Trump fascista: a
existência de uma milícia violenta e a emergência de uma retórica internacional
agressiva expansionista.
Com o
ICE, corpo policial militarizado que persegue minorias e impõe o medo à
oposição, matando e prendendo sem culpa formada, e com o seu ataque à Venezuela
e os seus discursos sobre a anexação da Groenlândia e até do Canadá, Trump
preencheu os requisitos que lhe faltavam para poder ser considerado fascista.
Na
verdade, o debate já poderia ter ficado encerrado antes, quando os trumpistas
tentaram invadir o Capitólio. Depois desses acontecimentos, o historiador
Robert Paxton, um dos maiores especialistas mundiais na história do fascismo, e
até então circunspecto na utilização do termo, mudou de ideia.
Para
resumir, chegamos ao ponto em que negar que Trump seja fascista cria mais
problemas do que resolve, e em que entender o que significa um fenômeno
fascista de tipo novo no nosso século esclarece mais do que atrapalha a
análise.
Mas se
escrevo sobre esse assunto não é pelo prazer de resolver uma disputa
intelectual. O que é uma raridade. Como dizia Zygmunt Baumann, normalmente os
cientistas sociais não resolvem problemas: aborrecem-se e passam ao problema
seguinte. Mais importante do que isso é olhar mais longe e ver a que pistas nos
pode levar a realidade do segundo mandato de Donald Trump.
Como
defensor há longa data da tese de que estamos perante um fascismo do século 21,
pela primeira vez vejo-me a observar o trumpismo e a pensar que posso ter
errado por defeito, não por excesso. A mutação tem sido demasiado rápida,
demasiado brutal, demasiado bizarra. Por isso, recentemente, dei por mim a
pensar: e se a pulsão de Trump for totalitária, não apenas autoritária?
Faz
alguma diferença? Acho que sim, e que é enorme. Um modelo mental autoritário é
repressivo e força a população à concordância ou pelo menos à obediência, mas é
previsível e estável. Se a pulsão de Trump for totalitária, o que é verdade
hoje de manhã pode ser mentira amanhã à noite, ou até mesmo hoje ao fim da
manhã, e em cada vez tem de ser defendido com a mesma veemência. A experiência
é muito mais desestruturante.
Pensemos
assim. Para o autoritarismo, a verdade imposta pode ser que 2+2=5. Está errado,
mas toda a gente sabe o que dizer em público para se conformar com o regime.
Mas num modelo mental totalitário 2+2 pode 3 ou 5 ou 7. Ninguém sabe. A
resposta pode variar de acordo com os humores do homem forte.
Os EUA
ainda não são um regime totalitário. Mas a pulsão de Trump é totalitária. Se
acham que isso não tem consequência para o mundo, perguntem aos groenlandeses.
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DONALD TRUMP É FASCISTA? Por Gaudêncio Torquato
A
palavra fascismo voltou ao centro do debate político internacional — e, com
ela, a pergunta inevitável: Donald Trump é fascista? A resposta exige cautela.
Fascismo não é xingamento nem rótulo genérico para autoritarismo. É um conceito
histórico, com traços bem definidos, formulado a partir das experiências da
Itália de Mussolini, da Alemanha nazista e de regimes correlatos no século XX.
Para
avaliar a hipótese, é preciso confrontar o trumpismo com os critérios clássicos
do fascismo.
- Culto ao líder e
personalismo
O
fascismo se estrutura em torno de um líder carismático, apresentado como
salvador da nação. Nesse ponto, há convergência parcial. Trump construiu uma
relação direta com sua base, desprezando mediações institucionais, partidos
tradicionais e a imprensa. O slogan "Make America Great Again"
funciona como mito mobilizador, centrado na figura do líder que promete
restaurar uma grandeza perdida.
- Desprezo pelas
instituições democráticas
Aqui o
sinal de alerta se intensifica. O questionamento sistemático das eleições,
culminando na invasão do Capitólio em 6 de janeiro de 2021, não foi um episódio
trivial. Foi a mais grave afronta ao ritual democrático americano em mais de
dois séculos. Fascismos históricos florescem exatamente quando o líder passa a
tratar instituições como obstáculos à vontade popular — interpretada, claro,
por ele próprio.
- Nacionalismo
excludente e inimigos internos
O
fascismo opera pela lógica do "nós contra eles". Trump construiu
inimigos recorrentes: imigrantes, elites cosmopolitas, imprensa, juízes,
opositores políticos. Seu discurso associa identidade nacional a critérios
culturais e étnicos implícitos, ainda que sem a formulação racial explícita do
nazismo. Trata-se de um nacionalismo identitário, não totalitário, mas
agressivo.
- Violência
simbólica e tolerância à violência real
Regimes
fascistas glorificam a força. Trump não criou milícias estatais nem um partido
paramilitar, mas flertou retoricamente com a violência, relativizou ações de
grupos extremistas e demorou a condená-los com clareza. Essa ambiguidade não é
fascismo clássico, mas funciona como lubrificante da radicalização.
- Economia e
Estado
Aqui tá
um ponto decisivo de distinção. O fascismo histórico defendia um Estado forte,
corporativista e intervencionista. Trump, ao contrário, é um populista de
direita liberal, pró-mercado, anti-regulação e hostil ao Estado administrativo.
Não propôs uma reorganização autoritária da economia, nem um projeto
totalizante de sociedade.
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Então, é fascismo?
A
resposta mais precisa é: não no sentido histórico pleno, mas sim como um
fenômeno com traços fascistoides. Trump representa um autoritarismo populista,
eleitoral, que opera dentro da democracia para corroê-la por dentro. Não
pretendeu abolir eleições, mas tentou deslegitimá-las. Não implantou uma
ditadura, mas testou os limites institucionais ao máximo.
O
trumpismo se encaixa melhor na categoria de iliberalismo democrático — regimes
que mantêm a fachada eleitoral enquanto enfraquecem freios, contrapesos e
normas democráticas. É menos Mussolini e mais um sintoma contemporâneo de
democracias em crise, pressionadas pela desigualdade, pela polarização e pela
desinformação.
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O risco real
O
perigo não está apenas em Trump como indivíduo, mas no precedente que ele
inaugura: a normalização do ataque às regras do jogo. A História ensina que o
fascismo raramente chega com o nome que tem. Ele se disfarça, adapta-se, testa
o terreno. Quando percebido tarde demais, já trocou a exceção pela regra.
Trump
talvez não seja fascista clássico. Mas o ambiente político que o sustenta
contém os elementos que, em outros tempos, abriram caminho para experiências
autoritárias. E isso, para qualquer democracia, deveria ser motivo de séria
preocupação.
• Trump ataca. Há saída democrática? Por
Mauri Cruz
A
invasão da América Latina através do bombardeiro do território venezuelano, com
o sequestro de seu presidente e da primeira combatente, é a senha do governo
norte-americano dizendo ao mundo que nunca teve qualquer apreço pela
democracia. Logo depois, vieram as ameaças contra Colômbia, Cuba, Groelândia e
agora, a saída de todos os espaços de diálogos multilaterais das Nações Unidas.
É, inequivocamente, uma declaração de guerra contra toda América Latina.
Na
verdade, essa atitude não é uma surpresa. O imperialismo sempre foi um
instrumento do grande capital para dominar, explorar e empobrecer milhões de
seres humanos, enriquecendo uma pequena minoria. Por décadas, essa dominação se
deu através do controle das reservas de petróleo, do comércio internacional
centrado no dólar, da hegemonia militar e tecnológica e de um arranjo de
governança global tutelada através do sistema ONU.
A
mudança da estratégia do império é a prova que o mundo mudou. Os avanços
tecnológicos e econômicos da China alteraram a geopolítica global, abrindo uma
janela para um mundo multipolar, diverso e, talvez, até mais democrático. Com
um modelo econômico voltado a inclusão de milhões de pessoas, a experiência
chinesa tem se mostrado uma alternativa eficaz e eficiente ao modelo
capitalista neoliberal. Contraditoriamente, a China comunista, criou um
capitalismo de estado, com enorme capacidade de atuação em todo planeta.
Que
pese a questão ambiental ter se incorporado somente nos últimos anos, sua
concepção tem se demonstrado antagônica ao imperialismo norte-americano. Isto
porque, apesar de sua supremacia econômica, militar e tecnológica, a China,
pelo menos em relação a América Latina, não tem um comportamento de dominação,
e tem buscado construir relações de respeito entre as nações baseadas na
cooperação. A criação dos BRICS, uma iniciativa ousada e potente, é a prova
real de que a China pretende construir uma liderança global multipolar sem os
Estados Unidos. Frente a imposição deste novo cenário, o embate com os EUA era
previsível e inevitável. Por isso, a quinada na estratégia norte-americana tem
como principal motivação, não sua força, mas a decadência do modelo neoliberal
na qual toda sua política se centraliza.
Neste
novo contexto, os EUA têm duas armas poderosas. A primeira é, literalmente, seu
poderio militar, capaz de fazer frente a qualquer conflito armado. Soma-se a
sua capacidade bélica, a ausência de qualquer ética. Tenhamos certeza, em
matéria militar eles praticam qualquer atrocidade, sem nenhum pudor. A outra
arma, é a dominação político ideológica, em especial, nas sociedades da América
Latina. Essa capacidade de dominação se intensificou com as redes sociais
dominadas e instrumentalizadas pelas big techs norte-americanas e que estão nas
mãos de praticamente todo cidadão e cidadã latino-americana. Criando suas
próprias narrativas, organiza um exército interno, em cada um dos nossos
países, pronto para agir contra a democracia.
A crise
social e econômica decorrente do colapso neoliberal favorece a estratégia
norte-americana que aposta num ambiente de barbárie, desestruturação social,
crise institucional e deslegitimação dos Estados nacionais. Um ambiente onde a
regra é a lei do mais forte, com a proliferação de grupos paramilitares ou
milicianos, alimentando discursos de ódio, praticando violência contra a
juventude negra, como ocorreu no Rio de Janeiro, contra as mulheres, comunidade
LGBTQIAPN+ e, nos próprios EUA, através da violência do ICE contra imigrantes e
nacionais.
Neste
cenário, o combate ao narcotráfico é mera narrativa visando dar alguma
legitimidade social a tanta violação de direitos. Aliás, há poucos meses
escrevi que o projeto imperialista é alimentar guerras civis em todos os países
democráticos, desestabilizando sua institucionalidade e criando condições para
uma dominação externa com baixos níveis de resistência. E essa mensagem está
expressa em alto e bom som pelo Governo Trump em suas declarações oficiais,
como aquela feita em início de dezembro de 2025 quando apresentou a “Nova
Estratégia de Segurança Nacional dos EUA”. Para nós, latino-americanos, o
terrível é que estamos muito próximos ao colapso do império. Neste contexto, a
pergunta é o que fazer?
Desde
as primeiras edições do Fórum Social Mundial em Porto Alegre, as forças
progressistas e democráticas do mundo denunciavam os limites das democracias
burgueses capitalistas, indicando que era preciso a constituição de um outro
marco referencial de democracia, mais participativa, popular e, principalmente,
planetária, capaz de fazer frente a insanidade do neoliberalismo. Para
construir uma transição democrática ao neoliberalismo, as organizações e
movimentos sociais sempre defenderam a organização e mobilização massiva das
nossas sociedades em prol de pautas de defesa da democracia participativa, da
inclusão social, de controle do grande capital, dos direitos humanos e
ambientais. Essas seguem sendo as armas contra a potência militar e a dominação
ideológica norte-americana neste momento de agudização do conflito: organização
e mobilização social.
Passados
25 anos do primeiro FSM, ainda estamos aqui, resistindo. A dominação só
acontece quando nossos corpos e mentes cedem ao poder da força injusta, como se
ela fosse invencível. E não é. A força mobilizadora das sociedades civis é
capaz de deter o avanço do fascismo e do imperialismo. A América Latina é um
território de paz, solidariedade e desenvolvimento social. Em 2026 haverá
eleições em vários países latino-americanos, em especial, no Brasil, e o
ambiente de instabilidade política e social é arma nas mãos daqueles que
desejam acabar com a democracia e instalar um estado de dominação, medo e
terror.
Precisamos,
como sociedade civil plural e diversa, construir um novo pacto com os partidos
políticos de todos os matizes, na defesa do estado democrático de direito. Um
novo pacto político entre sociedade e governos, para que, as verdadeiras
democracias se levantem na defesa de sua autonomia, sua soberania, de seus
territórios e de seu povo. A resistência deve ser nas ruas, com mobilizações
massivas, em todas as cidades do continente. A América Latina precisa despertar
e levantar-se agora.
Por
mais que pareça que a ofensiva norte-americana é sinal de sua força, na
realidade, ela representa o oposto. Por isso, precisamos criar mecanismos para
que seja possível sobreviver a queda do império como indivíduos, coletivos,
nações e como humanidade. Precisamos imaginar como podemos, sociedade civil e
governos democráticos e progressistas de todo mundo, criar um ambiente para uma
nova fase histórica da humanidade. Essa guerra militar, política e cultural não
será vencida sem uma sociedade civil organizada, mobilizada e interconectada na
defesa da dignidade e dos direitos de todos os seres humanos. Finalizo dizendo
que a 1ª Conferência Internacional Antifascista e pela Soberania dos Povos que ocorrerá em Porto Alegre, em março de
2026, será um importante momento de reunir os partidos, organizações e
movimentos sociais e sociedade civil como um todo para dialogar sobre as
estratégias e iniciativas em cada um de nossos países. A realidade nos chama à
ação e, com certeza, estaremos à altura deste desafio.
¨
Trump: uma ameaça à paz mundial. Por Kakay
Normalmente
eu acordo pela manhã com 200 mensagens não lidas no celular. Aquele dia,
quando abri o WhatsApp, havia mais de 1000 mensagens. Descobri que um
zé ninguém, um blogueiro bolsonarista, tinha publicado no Instagram dele
que a Coreia do Norte, a China e eu tínhamos uma pasta capaz de ouvir
segredos, inclusive do Supremo Tribunal. Uma dessas sandices de seres
escatológicos que nunca merecem resposta.
Vários
jornalistas queriam uma manifestação minha — eu tenho uma lista
de transmissão com 900 jornalistas; seria fácil responder. Mas optei pelo
silêncio. Afinal, como disse à época ao pessoal do escritório, ele estava
me comparando a 2 potências nucleares! Eu ia fingir de morto, certo na
máxima que ouvi lá na minha Patos de Minas, quando era menino: “fama de
poderoso, comedor e valente, a gente não desmente”. Mesmo machista, a
frase contém uma verdade e não seria eu a questionar ter o
poder equivalente a duas potências nucleares.
Na
verdade, é assustador o que o mundo passa neste momento. A pretexto de
manter a paz e a liberdade, estamos vivenciando uma crescente força
dominadora, temerária, sem limites e concentrada nas mãos do Presidente
dos EUA. Um insano. Séculos de história de convivência entre os povos,
dezenas de tratados internacionais e de leis cuidadosamente preparadas,
estudadas e discutidas em fóruns e universidades,
inúmeros compromissos assumidos, enfim, nada, absolutamente nada, passa a ter
valor diante da força bruta e do autoritarismo cego de uma política
fascista de um líder que tem o poder do famoso botão vermelho que pode
explodir o mundo.
Contra
o arbítrio não existe limite. Contra a insanidade não se pode exigir diálogo.
A prepotência, calcada em uma visão econômica e de dominação, extrapola
qualquer pretensão de compromisso com a estabilidade política mundial. O
mundo passa por um momento de loucura coletiva. A decisão é política com
fundamento econômico. De dominação.
As
hipóteses são várias. O Presidente Trump estaria dobrando a aposta para desviar
a atenção do escândalo Epstein Files, que poderia levar a um impeachment.
Mesmo com todo o poder que um presidente norte-americano tem, a acusação
de pedofilia assusta até as hostes mais conservadoras. Há quem sustente
que ele não está no pleno gozo de suas faculdades, o que parece ser
arrematada tolice. O Trump é a cara e a representação do norte-americano médio.
Ele é a imagem exata dos EUA. E há, claro, uma análise política econômica.
Trump nunca foi um incentivador de guerras, e isso é um fato. Com o
debacle evidente do poder dos EUA, com o país perdendo espaço e
o norte-americano médio sofrendo uma queda significativa do seu estilo de
vida e do poder aquisitivo, restou ao Trump o discurso que mais agrada ao
cidadão do país: força, guerra e prepotência. Até mesmo uma inédita pressão em
cima do presidente do Banco Central americano ele se dispôs a fazer.
E a
escalada da violência não parece ter limites. Depois de sequestrar o ditador
Maduro, na Venezuela - com rara ousadia e em afronta direta, não só ao
direito internacional, mas desprezando o Congresso dos EUA -, já anunciou
que vai colocar o tal Marco Rubio para presidir Cuba, vai invadir a
Groenlândia, ameaçou sequestrar o presidente da Colômbia, incita a guerra
no Irã e deitou seus olhos doentios em Fernando de Noronha.
O
Brasil é uma nação pacífica. Não tem estrutura para suportar um ataque de um
país como os EUA. Nenhum desses apaixonados por Trump, que pedem a
intervenção no nosso país, acredito, pensa realmente em um bombardeio nas
nossas cidades. Mas é isso que está em jogo. Se a escalada de violência
promovida por Donald Trump voltar para nosso lado, é melhor nos
prepararmos para o pior.
Fonte:
Folha de S. Paulo/GT Política/Outras Palavras/O Dia

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