George
Monbiot: A espantosa vitória da desigualdade
Há um
problema político do qual todos os outros derivam. É a principal impulso a
Donald Trump e seus iguais, e a causa central da chocante fraqueza de seus
oponentes, da polarização que dilacera as sociedades, da devastação do mundo
natural. Numa frase: a riqueza extrema concentrada em um pequeno número de
pessoas.
O
fenômeno pode ser quantificado. O Relatório Mundial sobre a Desigualdade (WIR)
de 2026 mostra que cerca de 56.000 pessoas – 0,001% da população mundial –
detêm três vezes mais riqueza do que a metade mais pobre da humanidade. Isso se
dá em quase todos os países. No Reino Unido, por exemplo, 50 famílias possuem
mais riqueza do que 50% da população junta.
É
possível acompanhar o crescimento de suas fortunas. Em 2024, segundo dados da
Oxfam, a riqueza dos 2.769 bilionários do mundo aumentou em US$ 2 trilhões . O
gasto global total com ajuda internacional no ano passado foi projetado em, no
máximo US$ 186 bilhões – menos de um décimo do aumento em suas riquezas. Os
governos nos dizem que “não podem arcar” com mais investimentos públicos. No
Reino Unido, os bilionários ficaram, em média mais de 1.000% mais ricos desde
1990. A maior parte de sua riqueza deriva de imóveis, heranças e finanças. Em
outras palavras, eles ficaram tão ricos às nossas custas.
A
questão afeta todos os aspectos da política. Trump não está se apropriando da
riqueza petrolífera da Venezuela em benefício dos pobres dos EUA. Ele não se
importa com eles, como revelou seu Orçamento para 2026 (“big, beautiful bill”)
– que rouba dos pobres para dar aos ricos. Ele cobiça a Groenlândia em nome dos
mesmos interesses da elite, da qual é o avatar.
Quando
o homem mais rico do mundo, Elon Musk, ajudou a destruir a vida dos mais pobres
ao desmantelar a USAID, ele o fez em nome de sua classe. O mesmo se aplica aos
ataques de Trump à democracia e à sua guerra contra o mundo natural. São os
ultrarricos que mais se beneficiam da destruição, tanto ao ganhar quanto ao
gastar dinheiro. O WIR mostra que o 1% mais rico da população mundial é
responsável por 41% das emissões de gases de efeito estufa provenientes da
propriedade de capital privado: quase o dobro da porcentagem emitida pelos 90%
mais pobres. E, por meio de seu consumo, outro estudo demonstra que esse 1%
produz tantos gases de efeito estufa quanto os dois terços mais pobres.
A
desigualdade prejudica todos os aspectos de nossas vidas. Décadas de pesquisa
de Kate Pickett e Richard Wilkinson mostram que uma maior desigualdade ,
independentemente dos níveis absolutos de riqueza, está associada a mais
criminalidade, pior saúde pública, maior incidência de vícios, menor nível de
escolaridade, maior ansiedade por status (levando a um maior consumo de bens
posicionais), maior poluição e destruição e uma série de outros problemas.
A
desigualdade extrema cria uma “classe Epstein” de predadores globais, que
exploram o resto da população financeiramente — e de outras maneiras. Ela cria
uma mentalidade que não reconhece mais nossa humanidade comum; que vê outras
pessoas, nas palavras de Musk, como “personagens sem importância” e acredita
que “a fraqueza fundamental da civilização ocidental é a empatia”…
Esta é
a métrica pela qual você pode distinguir seus aliados e inimigos na política:
se apoiam ou se opõem à concentração extrema de riqueza. Na verdade, a questão
deveria ser definidora. Aqueles que a apoiam (vamos chamá-los de Grupo 1) são
de direita. Aqueles que se opõem a ela (Grupo 2) são de esquerda.
Ao
compreender a política sob essa perspectiva, você percebe algo extraordinário.
Quase toda a população do planeta pertence ao Grupo 2. Uma pesquisa realizada
pelo Pew Research Center em 36 países revelou que 84% consideram a desigualdade
econômica um grande problema, e 86% veem a influência política dos ricos como
uma das principais causas. Em 33 desses países, a maioria acredita que o
sistema econômico precisa de “grandes mudanças” ou de uma “reforma completa”.
No Reino Unido, uma pesquisa da YouGov revelou que 75% apoiam um imposto sobre
a riqueza acima de 10 milhões de libras [R$ 7,2 milhões], enquanto apenas 13%
se opõem. Mas – e aqui está o ponto surpreendente – quase toda a classe
política pertence ao Grupo 1. Você pode pesquisar os programas dos principais
partidos que antes pertenciam à esquerda e não encontrará nenhum apelo para
acabar com a elite bilionária.
Na
verdade, é exatamente o oposto. Mesmo quando os políticos são forçados a
responder aos apelos por um imposto sobre a riqueza, eles o rejeitam, como
fizeram os ministros do Reino Unido, com duas desculpas. A primeira é o tributo
que não arrecadará muita receita. Talvez sim, talvez não: há uma ampla gama de
estudos, contraditórios, sobre o assunto. Mas a arrecadação é o menor dos
benefícios. Muito mais importantes são outras duas questões. Uma é a justiça.
Como relata o WIR, “As taxas efetivas de imposto de renda sobem constantemente
para a maior parte da população, mas caem drasticamente para bilionários e
centimilionários”. Isso mina a confiança no sistema tributário e na política em
geral. A outra é a redução do poder dos ultrarricos sobre nossas vidas. Para
restaurar a democracia e criar um mundo mais justo, seguro e sustentável,
devemos conter os ultrarricos, reduzindo suas fortunas até que não possam mais
nos oprimir .
A
segunda desculpa é que os super-ricos fugirão do país. Há três respostas
possíveis para essa afirmação. A primeira é que não há evidências que a
sustentem. A segunda é que, se for verdade, que bom que vão embora: eles nos
fazem muito mais mal do que bem. A terceira é dizer: então a solução óbvia é
uma medida global contra a evasão fiscal. E adivinhem? Embora 125 nações
apoiassem essa abordagem, o governo britânico, de Keir Starmer, foi um dos nove
que se opuseram a ela. Ele não tributa os ultra-ricos o suficiente não porque
não possa – mas porque não quer.
Não são
apenas os políticos. Quase toda a mídia pertence ao Grupo 1. À medida que a
riqueza e o poder da classe dominante aumentam cada vez mais e se tornam mais
difíceis de justificar, as opiniões expressas nos veículos de comunicação se
tornam cada vez mais insanas. Imigrantes, requerentes de asilo, muçulmanos,
mulheres, pessoas transgênero, pessoas com deficiência, estudantes,
manifestantes: todos e qualquer um devem ser culpados por nossas disfunções,
exceto aqueles que as causam. Guerras culturais cada vez mais extremas (um
eufemismo para “divide e governa”) precisam ser travadas.
É
também por isso que ameaças imaginárias (Venezuela, “marxistas culturais”,
“terroristas domésticos”) precisam ser constantemente inventadas. Não se pode
ter, ao mesmo tempo, livre mercado livre na propriedade dos meios de
comunicação e livre mercado de informação e ideias. Os oligarcas que dominam o
setor sufocam pensamentos incômodos e promovem políticas que protegem suas
fortunas.
Ninguém
diria que enfrentar a extrema riqueza é fácil. Mas a batalha começa quando os
partidos políticos definem esse objetivo de forma clara e inequívoca. Ou
representam a grande maioria, ou representam a ínfima minoria: não podem
representar ambas as coisas. Então, onde estão os nossos representantes?,
podemos perguntar
• Veto, paralisia institucional e as
demandas do Sul Global. Por Kimberly
Alves Digolin e Giovanna Ayres Arantes de Paiva
O ano
de 2026 será marcado pelo processo de escolha do próximo Secretário-Geral da
Organização das Nações Unidas (ONU). A pessoa que assumir essa função passará a
ser o representante máximo da maior organização intergovernamental
internacional, um sistema complexo formado por múltiplas agências, fundos e
organismos que perpassam campos interligados que vão desde o político e
econômico até o securitário. Embora o cargo não possua poder de mando sobre os
Estados, ele detém a capacidade de pautar prioridades globais e conferir
legitimidade política a determinadas agendas. Paralelamente, a função também
reflete todas as contradições e desafios da organização.
O atual
Secretário-Geral, António Guterres, ocupa o cargo desde 2017 e buscou sobretudo
priorizar a agenda climática e ampliar a participação da sociedade civil. Por
vezes, defendeu a reforma do Conselho de Segurança das Nações Unidas (CSNU) em
busca de maior representatividade para países em desenvolvimento. Ao mesmo
tempo, cobrou responsabilidade dos Estados-membros em relação ao cumprimento da
Carta da ONU, enfatizando o multilateralismo e iniciativas como o Pacto para o
Futuro.
No
entanto, sua atuação não fugiu de desafios que já vinham sendo evidenciados em
mandatos anteriores e revelou, ainda mais, os limites do cargo diante de um
Conselho de Segurança amplamente paralisado. Em um dos momentos mais críticos
da organização em décadas, o desafio é evitar que a próxima liderança atue
apenas na gestão da inércia institucional, em um cenário no qual a alegada
“falta de utilidade” da ONU decorre diretamente da polarização entre as grandes
potências com poder de veto.
Longe
de funcionar apenas como uma salvaguarda contra decisões precipitadas, o poder
de veto no CSNU se consolidou como um instrumento estrutural de dominação
política. Ao permitir que interesses nacionais de cinco Estados (China, Estados
Unidos, França, Reino Unido e Rússia) se sobreponham sistematicamente a
consensos mais amplos, o veto não apenas paralisa respostas a crises
humanitárias e ambientais, como também delimita, de forma rígida, os contornos
do que é politicamente aceitável no sistema internacional.
Após 80
anos de mandatos exclusivamente masculinos, há uma demanda crescente para que a
próxima liderança seja uma mulher, preferencialmente da América Latina e do
Caribe, respeitando a regra não escrita de rotação regional. Essa demanda não é
apenas simbólica ou decorativa; ela sinaliza a necessidade de atualização da
instituição diante das novas dinâmicas internacionais. Neste momento, uma
liderança oriunda do Sul Global no comando da ONU permitiria lançar luz sobre
concepções alternativas de segurança e desenvolvimento que não se limitem à
lógica militar. Ou seja, permitiria expandir o olhar para visões que melhor
incorporem a participação de grupos marginalizados e a reparação de
desigualdades históricas – temas que a noção abstrata de paz que orientou a
criação da ONU, em 1945, frequentemente falhou em endereçar.
Entre
os principais nomes aventados para ocupar o cargo, Michelle Bachelet (Chile) e
Rebeca Grynspan (Costa Rica) se destacam. Bachelet possui uma trajetória em
direitos humanos que encarna valores centrais da Carta da ONU, mas enfrenta
resistência de Rússia e China, que a percebem como uma liderança mais propensa
à intervenção em questões consideradas sensíveis à soberania estatal. Já
Grynspan, atual Secretária-Geral da Conferência das Nações Unidas sobre
Comércio e Desenvolvimento (UNCTAD), é vista como uma candidata pragmática e
técnica, com foco na reforma da arquitetura financeira internacional e no
desenvolvimento econômico – um perfil potencialmente mais “aceitável” para os
países com assento permanente e poder de veto no CSNU.
Outros
nomes, como o do argentino Rafael Grossi, diretor-geral da Agência
Internacional de Energia Atômica (AIEA), trazem o peso da agenda de segurança
nuclear, mas enfrentam o desgaste decorrente de atritos diplomáticos diretos
com atores sensíveis nesse campo. A primeira-ministra de Barbados, Mia Mottley,
também desponta como uma voz poderosa contra o “falso humanismo” do sistema
financeiro internacional, defendendo a centralidade da justiça climática e da
responsabilidade histórica dos países centrais.
O
cenário ganha contornos adicionais de incerteza quando consideramos variáveis
de política doméstica. A recente eleição de José Antonio Kast no Chile, por
exemplo, pode comprometer a viabilidade de Bachelet, uma vez que o apoio
diplomático do governo de origem é o combustível essencial de qualquer campanha
em Nova York. Sem esse engajamento ativo, nomes que aparentam favoritismo podem
perder espaço para candidaturas mais alinhadas ao status quo internacional.
Nesse contexto de fragmentação geopolítica, a próxima liderança da ONU
precisará atuar como uma ponte capaz de conectar as demandas urgentes do Sul
Global às estruturas de poder das grandes potências.
Historicamente,
o cargo de Secretário-Geral foi ocupado por pessoas advindas de países do Sul
Global – como Mianmar, Peru, Egito, Gana e Coreia do Sul – ou de nações do
Norte com menor peso geopolítico – como Noruega, Suécia, Áustria e Portugal.
Diferentes
perfis, enfoques e propostas podem ser notados nas atuações dos
Secretários-Gerais, influenciados também pelas diversas conjunturas
geopolíticas que impactavam a ONU, porém isso não significa um completo
rompimento entre uma liderança e outra. Por exemplo, o egípcio Boutros
Boutros-Ghali, secretário-geral de 1992 a 1996, destacou-se por formular e
apresentar o relatório “Uma Agenda para a Paz” que reúne propostas para a
prevenção de conflitos e ações para evitar a escalada de violências no pós-conflito.
Guterres, de certa forma, deu continuidade a esse trabalho ao propor o
documento “Nova Agenda para a Paz”, que abarca desafios contemporâneos como a
reforma do Conselho de Segurança e o impacto da ação climática no contexto de
paz e segurança.
Entretanto,
nenhuma dessas atuações foi suficiente para impedir os impasses geopolíticos
que hoje desafiam o funcionamento do Conselho de Segurança e para garantir uma
paz duradoura e sustentável. O mundo enfrenta hoje feridas abertas que a noção
tradicional de segurança não consegue estancar: endividamento externo
sufocante, crises migratórias prolongadas, racismo ambiental, injustiça
climática, uso irresponsável da Inteligência Artificial, entre outras. Uma
liderança oriunda da América Latina por si só seria politicamente
significativa, mas também precisaria ter clareza sobre as causas estruturais
dessas desigualdades e saber articular mudanças nas estruturas do tabuleiro,
navegando pelos jogos de poder que permeiam a maior organização internacional.
A próxima – ou o próximo – Secretária-Geral deverá ser capaz de demonstrar que
a estabilidade global depende, necessariamente, da inclusão efetiva das
periferias do sistema internacional.
Os
passos seguintes do processo de escolha envolvem votações informais no Conselho
de Segurança ao longo do primeiro semestre de 2026. No entanto, o desafio
central não é reunir bons candidatos, mas encontrar nomes que consigam
sobreviver ao filtro do veto sem perder seu potencial transformador. Para que o
próximo aniversário da Declaração Universal dos Direitos Humanos, em 2028, não
se limite a uma celebração simbólica de um soft law cada vez mais esvaziado, a
sucessão de 2026 precisa resultar em uma liderança atenta às feridas ainda
abertas do sistema internacional e comprometida com a construção de uma
infraestrutura multilateral que seja, de fato, funcional, inclusiva e justa.
Fonte:
Outras Palavras/Le Monde

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