segunda-feira, 26 de janeiro de 2026

Henry Boisrolin: As ações insanas de Donald Trump

O dia 3 de janeiro de 2026 já entrou para a história da América Latina e do Caribe como uma data que ficará marcada na história, servindo de referência para as novas gerações refletirem sobre os meios para o enfrentamento ao imperialismo. Neste momento, os americanos não apenas atacaram quartéis, bairros operários e bases militares com toda a sua força militar e tecnológica, como também sequestraram o presidente legítimo e constitucional da República Bolivariana da Venezuela e sua esposa.

Depois, de pouco tempo após esse ataque vil e criminoso feito pelo imperialismo estadunidense, a mando do governo de Donald Trump, que custou a vida de cem pessoas – civis e militares venezuelanos e cubanos, tentar explicar todas as motivações seria imprudente, além de desrespeitoso à memória desses mártires, já que muitas coisas ainda não foram reveladas.

Esta lista de vítimas, ainda provisória, deve incluir outras cem pessoas mortas pelos americanos no Mar do Caribe, perto da Venezuela, desde setembro de 2025, a maioria pescadores. Nesse sentido, acredito ser o momento de prestar uma sincera homenagem a todos eles, aos militares por sua bravura e por terem cumprido seu dever patriótico e revolucionário.

Em relação aos cubanos que tombaram em combate desigual, enfrentando e infligindo sérios danos ao inimigo invasor, esses filhos de Martí, Fidel e Che demonstraram que o internacionalismo revolucionário continua a correr nas veias de todo cubano verdadeiramente patriota. Honra e glória a todos!

<><> Imperialismo – uma ameaça à vida

Após esta breve introdução, e em uma situação altamente volátil onde muitos se sentem derrotados, desorientados e oprimidos pelo cinismo, arrogância, prepotência e crueldade daqueles indivíduos desequilibrados que atualmente comandam a Casa Branca, gostaria de salientar que o único caminho que nos resta é resistir e lutar até vencermos. Felizmente, este é o caminho que o povo venezuelano, suas autoridades e suas organizações populares têm trilhado desde o início.

Os objetivos definidos são claros: alcançar a libertação, o mais breve possível, do presidente bolivariano Nicolás Maduro e de sua esposa, a primeira-dama e deputada Cilia Flores; manter a paz interna, a governança e o funcionamento do país, com base na unidade; e preservar a soberania da Venezuela.

Neste processo de resistência temos tarefas complexas e difíceis, especialmente quando o país está sitiado e atacado por uma força militar poderosa num quadro decadência de sua hegemonia frente à expansão chinesa. Alertamos que este quadro de potência em decadência é capaz de cometer qualquer loucura, como acabamos de presenciar nas primeiras horas de 3 de janeiro na Venezuela.

Além disso, para completar esse comportamento típico de um indivíduo mentalmente instável, Donald Trump deixou claro que o petróleo da Venezuela lhe pertence, ou seja, pertence aos EUA. Ele afirmou, então, que exercerá controle exclusivo sobre esse petróleo e que a Federação Russa, a China, o Irã e Cuba devem ser excluídos da Venezuela, apesar dos acordos existentes entre a República Bolivariana da Venezuela e esses países. Tudo tem que ser de acordo com a vontade do valentão da Casa Branca que pretende transformar a Venezuela em uma nova colônia estadunidense, por meio de bombas e mísseis e muita desinformação na mídia imperialista.

Donald Trump sem hesitar, sabendo que havia perpetrado um ataque terrorista, operando fora de todas as estruturas legais estabelecidas, acrescentou cinicamente que o direito internacional não lhe dizia respeito; seus únicos limites eram sua mente e sua moral. Neste caso específico, ele convenientemente se esqueceu de mencionar que sua moral é a de um pedófilo.

Tais delírios de Donald Trump e seus funcionários são claramente inaceitáveis. Na inexistência de movimentos que o derrotem dentro dos EUA e a continuidade de seus ataques por outros territórios temos um cenário de uma possível grande guerra com confrontação nuclear.

Aliás, vale lembrar que as ações insanas de Donald Trump não são novidades, mas uma constante na história dos EUA. Sem recuar muito no tempo, as intervenções americanas no Iraque, na Líbia e no Afeganistão ainda estão frescas na memória coletiva, assim como o sequestro do presidente haitiano Jean-Bertrand Aristide por um comando militar americano em fevereiro de 2004, seguido pelo sequestro do presidente hondurenho Manuel Zelaya nas primeiras horas de 28 de junho de 2009, por 200 soldados hondurenhos mascarados apoiados pelos EUA.

Por outro lado, o genocídio em curso em Gaza, perpetrado pelo governo sionista israelense, liderado pelo assassino Benjamin Netanyahu por pouco mais de dois anos, totalmente apoiado pelo imperialismo americano sob a administração democrata de Joe Biden e agora de Donald Trump, constitui outro exemplo significativo de como a história da humanidade está repleta dessas ações políticas beligerantes e desastrosas para grande parte da humanidade, colocando em risco a vida na Terra.

<><> Exemplos históricos de lutas

É a partir dessa realidade perigosa que ouso mencionar o exemplo do meu país, o Haiti. Claro que, como as circunstâncias são diferentes, não pretendo fazer nenhuma comparação mecânica. No entanto, um elemento permanece válido: com a submissão é impossível resistir, muito menos esperar a vitória. Isso porque, se durante tantos séculos sob a escravidão os escravizados tivessem se resignado, jamais teriam conseguido derrotar três impérios: o espanhol, o inglês e o francês.

Uma resistência que começou com o sequestro de africanos em seu continente e que continuou de diferentes formas até a proclamação da independência do Haiti em 1º de janeiro de 1804, pelo nosso libertador Jean-Jacques Dessalines. Não só a escravidão foi abolida, como também foi fundada a primeira república negra independente do mundo. Um triunfo que rompeu com a ordem, ou melhor, com a desordem mundial da época, já que a revolução haitiana foi antiescravista, anticolonial, antirracista, anticapitalista e internacionalista.

Estou me referindo a um evento liderado e dirigido pelos próprios escravizados. Algo impensável para os fundadores e beneficiários exclusivos da chamada civilização moderna, eurocêntrica e ocidental. Neste processo, o lema “liberdade ou morte” foi fundamental para permitir que todos os escravizados, apesar do sofrimento e do isolamento, encontrassem clareza em uma luta tão desigual que durou quase três séculos. Uma revolução que estabeleceu a primeira e única rebelião bem-sucedida de escravizados na história da humanidade.

Lembra, de certa forma, a luta de Zumbi dos Palmares no Brasil. Ele liderou e lutou com inteligência e coragem durante a segunda metade do século XVII como líder supremo do Quilombo do Palmares. Sua resistência contra uma milícia comandada por sanguinários Bandeirantes a serviço do governo imperial, começou por volta de 1680, alcançando vitórias significativas até sua morte em uma emboscada em 20 de novembro de 1695. Ele foi decapitado.

Sobrinho de Ganga Zumba, com sua resistência inabalável aos colonialistas portugueses, Zumbi transformou os quilombos em símbolos da luta pela liberdade dos escravizados no Brasil. Além disso, apesar de ter sido capturado e executado, seu exemplo se tornou um tributo à independência e autonomia de seu povo. Sem dúvida, ele é o símbolo máximo da luta afro-brasileira pela liberdade.

O mesmo pode ser dito de José Leonardo Chirinos, um zambo livre que, em maio de 1795, se tornou um dos principais líderes da insurreição de negros escravizados e zambos livres na Serra do Coro, na Venezuela, buscando a abolição da escravatura.

A história nos conta que os colonialistas enforcaram Chirinos na Plaza Mayor de Caracas em 10 de dezembro de 1796. Seu corpo foi esquartejado, sua cabeça exposta na saída para a estrada de Coro e suas mãos nas montanhas. Sua esposa e filhos foram então vendidos como escravos. Contudo, apesar de sua derrota, Chirinos, assim como Zumbi no Brasil, representa um símbolo da luta afro-venezuelana pela liberdade.

Daí a importância de compreender e explorar a continuidade histórica entre as lutas de Zumbi, Chirinos e as dos escravizados no Haiti, neste momento de mais um ataque a um estado e sua população. Um povo sem conhecer seu passado é um povo que não pode entender seu presente, não podendo pensar seu futuro.

•        Trump ditador: a face autoritária do império em declínio. Por Paulo Cannabrava Filho

Há cada vez menos espaço para dúvidas: Donald Trump governa como um ditador. Despreza as leis internas, ignora o direito internacional e aciona forças militares sem qualquer autorização do Congresso. Se a democracia estadunidense estivesse minimamente em funcionamento, esse comportamento reiterado já teria levado a um processo de impeachment. Não se trata de retórica exagerada, mas de fatos concretos.

Trump se arroga o direito de decidir sobre outros países como se fossem extensões de seu poder pessoal. Afirma que “governa” a Venezuela, ameaça abertamente Cuba e declara que não deseja ver China ou Rússia atuando em território venezuelano. Mais grave ainda: faz essas declarações em reuniões com executivos da indústria petroleira, deixando explícito que sua política externa está diretamente subordinada aos interesses do capital energético. Não é diplomacia — é coerção imperial.

Como corolário desse avanço autoritário, revive-se a Doutrina Monroe, agora atualizada pela lógica do Big Stick: “Fale suavemente, mas leve um grande porrete”. No caso de Trump, nem mesmo o eufemismo se sustenta. O “porrete” se traduz na mobilização ostensiva de forças navais e aéreas, na intimidação direta e na chantagem econômica. O império abandona qualquer disfarce liberal e assume sua face bruta.

É nesse contexto que, no dia 17, em Assunção, será firmado o acordo entre o Mercosul e a União Europeia. Ainda dependente da aprovação do Parlamento Europeu, trata-se do maior acordo comercial da história, envolvendo cerca de 720 milhões de pessoas, um PIB estimado em 22 trilhões de dólares e a perspectiva de zerar as tarifas do setor industrial em até dez anos. O acordo se insere num cenário de reorganização geopolítica que ocorre sob a pressão direta da ofensiva imperial dos Estados Unidos.

Trump deixou isso claro ao advertir China e Rússia de que não as quer na Venezuela e ao exigir que Caracas rompa relações com China, Rússia, Irã e Cuba. Trata-se de uma tentativa explícita de recolonização, agora sem mediações, sem pudor e sem respeito às regras mínimas da convivência internacional.

O que está em jogo não é apenas a Venezuela, Cuba ou a América Latina. É a própria ideia de democracia, corroída no centro do sistema que sempre se apresentou como seu guardião. Trump não é um desvio. É a expressão nua e crua de um império em declínio, que já não consegue governar pelo consenso e recorre, cada vez mais, à força.

No Brasil, não há com o que se preocupar. Petróleo? Já está controlado pelas empresas. Minérios? Já estão controlados pelas empresas. Política econômica? Vigora o pensamento único imposto pelo capital financeiro.

O enfrentamento desse avanço autoritário não virá das instituições capturadas nem das elites comprometidas com a submissão. Ele só pode nascer da mobilização popular. Cabe ao povo ocupar as ruas, organizar-se e exigir um projeto nacional que recoloque no centro a soberania, o controle dos recursos estratégicos, a independência política e o direito de decidir seu próprio destino. Sem pressão popular, não há democracia possível nem país verdadeiramente livre.

•        Crimes de guerra e violações ao Pentágono: os escândalos do secretário de Guerra de Trump

Há cerca de um ano no cargo e os escândalos já se acumulam sobre Pete Hegseth. O secretário de Guerra dos EUA está lidando com informações que apontam para um possível crime de guerra ao mandar executar sobreviventes indefesos no Caribe depois que sua embarcação foi afundada. Em 28 de novembro, o Washington Post publicou que Hegseth deu a ordem para matar todos os ocupantes das supostas lanchas do narcotráfico, e em 3 de dezembro soube-se que o Pentágono sabia que havia sobreviventes após o ataque inicial de 2 de setembro — mas, ainda assim, o Exército realizou um segundo ataque.

A justificativa para o segundo ataque foi a necessidade de afundar a embarcação, segundo fontes da Associated Press. O governo Trump afirma que as 11 pessoas a bordo morreram.

O que ainda não está claro é quem ordenou os ataques e se o secretário de Defesa, Pete Hegseth, esteve envolvido. Os detalhes são fundamentais, pois o Congresso abriu investigações para determinar se os EUA agiram conforme a lei nessas operações militares — algo cada vez mais questionado no Capitólio.

Muitas dessas perguntas foram feitas em 4 de dezembro, durante uma sessão informativa secreta no Congresso com o comandante que, segundo o governo Trump, ordenou o segundo ataque: o almirante Frank “Mitch” Bradley.

Continua após o anúncio

As comissões das Forças Forças Armadas, tanto da Câmara quanto do Senado, anunciaram investigações sobre os ataques, enquanto parlamentares de ambos os partidos levantam questionamentos.

Pete Hegseth vem sendo alvo de crescente escrutínio pelas execuções extrajudiciais que, até o momento, resultaram na morte de ao menos 115 pessoas em 36 ataques contra supostos narcotraficantes no Caribe e no Pacífico Oriental — especialmente pelo ataque em que sobreviventes foram executados em 2 de setembro, o que configuraria violação das leis vigentes em tempo de paz e das normas que regem conflitos armados.

Hegseth defendeu o segundo ataque como algo surgido da “névoa da guerra”, afirmando durante uma reunião do Gabinete em 2 de dezembro, na Casa Branca, que não viu sobreviventes, mas que também não testemunhou o restante da missão.

Continua após o anúncio

O secretário de Defesa também disse que Bradley, como almirante no comando, “tomou a decisão correta” ao ordenar o segundo ataque, para o qual “tinha plena autoridade”.

Em 3 de dezembro, perguntaram a Donald Trump se ele divulgaria o vídeo do segundo ataque, como exigem os democratas, e ele respondeu: “Não sei o que eles têm, mas seja o que for, certamente vamos divulgar. Sem problema”.

Um ataque posterior, no fim de setembro, levou a família de um colombiano a apresentar uma denúncia formal ao principal órgão de direitos humanos do continente americano. A petição da família de Alejandro Carranza afirma que o Exército bombardeou seu barco pesqueiro em 15 de setembro, violando convenções de direitos humanos.

<><> “Signalgate”: risco para o pessoal dos EUA

O órgão de controle do Pentágono concluiu que o secretário de Defesa, Pete Hegseth, colocou em risco o pessoal estadunidense e suas missões ao usar o aplicativo Signal para transmitir informações confidenciais sobre um ataque militar contra milícias hutis no Iêmen, segundo a Associated Press.

O relatório conclui que Hegseth violou a política do Pentágono ao usar seu dispositivo pessoal para assuntos oficiais e recomendou melhor treinamento para todos os funcionários do Departamento de Defesa.

Pete Hegseth se recusou a falar com o inspetor-geral do Pentágono, mas apresentou uma declaração escrita na qual afirma que tinha autorização para desclassificar informações conforme julgasse apropriado, e que só comunicou detalhes que, segundo ele, não colocariam a missão em perigo.

“A avaliação do Inspetor-Geral absolve o secretário Hegseth e demonstra o que sabíamos desde o início: nenhuma informação classificada foi compartilhada”, afirmou Sean Parnell, porta-voz principal do Pentágono, em comunicado. “Este assunto está resolvido e o caso está encerrado.”

O presidente Donald Trump “apoia” Hegseth, afirmou por sua vez a secretária de imprensa da Casa Branca, Karoline Leavitt, em comunicado à AP, acrescentando que a investigação confirma que “nenhuma informação classificada vazou e que a segurança operacional não foi comprometida”.

 

Fonte: A Terra é Redonda/Diálogos do Sul Global

 

Nenhum comentário: