segunda-feira, 26 de janeiro de 2026

Ricardo Nêggo Tom: Por que a igreja e a maioria dos cristãos se identificam com ditadores?

O título do artigo pode até parecer polêmico, mas o conteúdo a ser apresentado, inevitavelmente, o levará a uma reflexão. Primeiro, faço uma pergunta bem direta ao ponto que quero chegar: Constantino I, o legalizador, e Teodósio, o imperador que tornou o cristianismo religião oficial de Roma, lideravam um regime democrático? Aprofundo a questão com outro questionamento: O que havia em comum entre Jesus Cristo e o Império Romano? Se você respondeu negativamente às duas perguntas, é porque estamos caminhando juntos rumo ao céu da plena existência, aceitando o nosso cérebro como salvador da nossa alma. Voltando a Constantino, o motivo que o levou a parar de perseguir os cristãos da época é um tanto quanto inusitado, sem deixar de ser oportunista e questionável: Eu tive um sonho. Neste sonho, o imperador romano viu o sinal de uma cruz, ou o Monograma Chi Rho (), que é um dos cristogramas mais antigos da história da humanidade, formado pela sobreposição das duas primeiras letras gregas (Chi: Χ e Rho: Ρ), que formam a palavra "Χριστός", Cristo em grego.

Constantino teria visto uma inscrição na cruz que dizia: "In hoc signo vince" ("Neste sinal vencerás"), e entendeu como uma mensagem de proteção divina às vésperas da batalha da Ponte Mílvia. Jesus Cristo também teria aparecido no sonho e dado instruções ao imperador sobre como vencer a batalha. Isso fez com que ele mandasse pintar a cruz e a inscrição vistas em sonho nos escudos dos soldados do seu exército que, por coincidência, venceu a tal batalha, levando Constantino a parar com a perseguição aos cristãos e legalizar a sua religião. Supondo que o sonho de Constantino tenha mesmo acontecido, observem como ele não aceitou a Jesus por amor, mas por interesse em conquistar mais território para o império romano. É possível fazer uma comparação com as conversões de hoje em dia, onde o sujeito aceita Jesus de olho na prosperidade financeira que ele o pode dar. O caráter bélico atribuído a Deus através da Bíblia também se faz presente nesta história, quando Cristo aparece em sonho prometendo dar a Constantino – um inimigo da sua doutrina - o sangue dos seus inimigos numa batalha, ao invés de lhe prometer a salvação da alma e a vida eterna, como prevê a sua missão na terra.

Refletindo sobre a origem do cristianismo legalizado, tendo Roma como o seu berço, e a Igreja Católica como a administradora do novo sistema religioso, começamos a entender o porquê de, até os dias de hoje, a Igreja e os cristãos se identificarem tanto com ditadores e regimes de exceção, ao ponto de clamarem a Deus para que os estabeleça na terra quando algo está fugindo do seu controle sócio religioso. Foi assim na idade média com a Santa Inquisição, um movimento político-religioso que tinha o objetivo de combater o que a igreja julgava como heresias e preservar a fé católica ortodoxa. Uma dessas “heresias” era a negação da Santíssima Trindade, e a crítica aos inúmeros bens materiais da Igreja, o que para alguns movimentos da época, como os Cátaros, representava uma ameaça à fé, e contrassenso ao evangelho de Cristo. Eles estavam errados? Sob ameaça do uso do cérebro dos descontentes como arma de guerra, Igreja e Estado julgavam crimes, pecados e “heresias” de forma similar, justificando como grave ameaça à fé cristã e à ordem social.

Como já podemos imaginar, o apoio popular à tais medidas foi massivo, defendendo como “vontade de Deus” a queima de pessoas vivas na fogueira santa da inquisição para evitar a proliferação do “mal” na sociedade. Claro que os “hereges” tinham direito a um julgamento onde eles poderiam se redimir pedindo perdão e prometendo não mais disseminar tais heresias. Punições como prisão, penitências e até confisco de bens, eram adotadas contra os hereges. Em alguns casos, a tortura era utilizada para se obter confissões de interesses da Igreja e do Estado. Tudo isso com a aprovação de uma maioria cristã que não via nenhum mal em saber que um ser humano ia virar churrasco após a missa de domingo. Joana D’arc foi uma das vítimas da Inquisição sob acusação de heresia e bruxaria. Tendo sua condenação revertida anos depois, é levada a canonização pela mesma igreja que ateou fogo ao seu corpo. Acelerando um pouco mais o passo chegamos a Alemanha nazista de Hitler, onde o ditador e a Igreja viveram uma relação amistosa e sem grandes embates. Em alguns momentos, a cumplicidade quase foi estabelecida, uma vez que Hitler também se dizia cristão e até sugeriu uma fusão entre nazismo e cristianismo.

O Movimento Cristão Alemão, ao qual Hitler aderiu após romper com o seu catolicismo de formação, tinha um viés racista e antissemita inspirado nos escritos de Martinho Lutero – o papa da reforma protestante – que nunca escondeu o seu ódio pelos judeus e o manifestava em textos, pregações e livros como “Sobre os Judeus e suas mentiras”, onde sugere a sua prisão e escravização sob trabalhos forçados. É sempre bom lembrar que Hitler não deu um golpe na Alemanha, e nem tomou o poder na marra. Ele foi eleito pela maioria esmagadora da população, sobretudo, pelos cristãos, que enxergaram nele um enviado de Deus para resolver os problemas políticos, econômicos e sociais que o país enfrentava naquele momento. Mas por que os alemães – assim como os cristãos da idade média -- enxergaram uma mensagem de Deus em políticas ditatoriais? Porque o Deus bíblico nunca foi democrático, e sempre resolveu as questões políticas, sociais e religiosas dos povos daquela época, através de guerras, mortes, muita violência e imposição de ditaduras. Se não me adorares, vai pra vala! Assim diz o Senhor na maioria dos textos bíblicos.

Saindo da Alemanha nazista e chegando ao Brasil bolsonarista (com o perdão do pleonasmo), encontramos mais uma vez a igreja e a maior parte dos cristãos do país adorando a um projeto ditatorial, cuja capilaridade social se infiltra através das paredes do conservadorismo, do preconceito, do ódio às diferenças e da violência como meio de pacificação. Por que será, hein? As cenas protagonizadas por esses cristãos, agora bolsonaristas, nos remete ao que de pior aconteceu na história da humanidade sob a égide da moral, dos bons costumes, da família tradicional e da palavra de Deus. Lula é o líder dos “hereges” e a esquerda o movimento a ser combatido, sob acusação de querer destruir a família, os valores cristãos e a ordem social. E tome “mamadeira de piroca” para alimentar tais narrativas. Eles querem transformar o Brasil num grande banheirão unissex, onde nossas crianças serão introduzidas à homossexualidade com o ensino de ideologia de gênero nas escolas, as igrejas serão fechadas e o cristianismo será perseguido. Só um ditador “enviado por Deus” poderá nos salvar dessa tribulação. E as ideias do deus bíblico enviou Jair Bolsonaro para libertar o seu povo.

É incrível como Deus tem enviado criminosos para combater o crime, e malfeitores para eliminar os pecados do mundo. Talvez, ele já esteja de saco cheio mesmo de tudo o que ele criou, por ter chegado à conclusão de que não deu certo. Neste caso, quanto pior para Deus, melhor. Esse também é o lema do bolsonarismo aqui no Brasil. É preciso que estejamos bem atentos aos movimentos, porque esse tipo de “projeto de Deus” para a humanidade sempre se renova ao longo dos tempos na figura de um novo ditador que ele envia para salvar o seu povo. A igreja segue ensinando que só é possível obter a paz e a salvação através da dor, do sofrimento e da anulação da própria existência. O mesmo sacrifício que Jesus Cristo experimentou na cruz para salvar a humanidade, segundo a fé cristã. O Deus das batalhas, o Cristo como General de guerra, e os seus “ungidos” aqui na terra como representantes legítimos do seu exército, é o que faz cristãos se identificarem com ditadores e autocratas que usam o nome de Deus para promover guerras, alienar mentes e manipular massas. Uma prova de que, quanto mais cristãos com este pensamento tivermos na política e nos parlamentos, mais a democracia seguirá em risco.

•        Igrejas e ditadura no Brasil. Por Tales Pinto

A relação entre as igrejas e a ditadura militar no Brasil pode se tornar mais clara depois da chegada ao país de uma série de documentos do Projeto Brasil: Nunca Mais.

Um dos eventos que impulsionaram o golpe militar de abril de 1964 foi a Marcha da Família com Deus pela Liberdade, composta em sua maioria por senhoras católicas, que percorreu as ruas de São Paulo dias antes do golpe, em 19 de março de 1964, e ofereceu um argumento a favor dos militares e dos grupos políticos e econômicos conservadores para a deposição do governo de João Goulart. Segundo os organizadores da marcha, Jango, como era conhecido o presidente, seria o representante dos interesses do comunismo a ser implantado no Brasil, principalmente depois das Revoluções Chinesa (1949) e Cubana (1959).

Os cartazes pediam respeito à democracia e às instituições, tais como: “Deputados patriotas, o povo está com vocês"; “Basta de palhaçada, queremos Governo honesto"; "A melhor reforma é o respeito à lei"; "Senhora Aparecida iluminai os reacionários". Dessa forma, eles criavam uma situação contraditória, já que os manifestantes da Marcha pela Família apontavam com seus slogans para a quebra do regime democrático, pois pediam impeachment de Goulart e se colocavam contra as medidas do presidente, inicialmente eleito vice-presidente, mas que assumiu o posto maior do Estado após a renúncia de Jânio Quadros em 1961.

A argumentação religiosa de defesa da família e dos valores cristãos exposta na Marcha, contra o suposto comunismo do presidente, foi uma resposta ágil e direta ao comício feito por João Goulart e os seus partidários, realizado na estação Central do Brasil, no centro do Rio de Janeiro, em 13 de Março de 1964. Neste comício Goulart apresentou seu plano econômico chamado de Reformas de Base, em que indicava a necessidade da reforma agrária e a intenção de estatizar as empresas de petróleo particulares, dentre outras medidas de cunho popular.

Mas a ação da Igreja católica e de seus fiéis não se resumiu a estas manifestações de ruas, pois durante a vigência do regime ditatorial ocorreu a mesma situação que atingiu outros espaços institucionais, com uma forte polarização política interna. O resultado foi uma ação de denúncias de participantes das igrejas ao governo militar, cujos resultados em muitos casos foi a prisão e tortura.

A situação não era exclusiva da Igreja católica, ocorrendo também em algumas Igrejas evangélicas, como mostram as primeiras investigações realizadas pela Comissão da Verdade, instaurada pelo Governo Federal no final da década de 2000. Segundo Paulo Sérgio Pinheiro, a Comissão da Verdade irá investigar tanto os casos de delações de militantes políticos ao regime quanto os casos de resistência em todas as igrejas que constam nos documentos.

Um dos casos de delação investigados pela Comissão da Verdade e que vieram a público é o de Anivaldo Pereira Padilha, membro da Igreja Metodista em São Paulo. Segundo reportagem da ISTOÉ Independente, Anivaldo era estudante de ciências sociais da Universidade de São Paulo (USP) e foi denunciado às forças policiais pelos irmãos José Sucasas Jr. e Isaías Fernandes Sucasas, pastor e bispo metodista da igreja que frequentava, devido aos seus posicionamentos políticos.

Os jovens batistas, metodistas e presbiterianos, principalmente, que professavam ideais liberais eram perseguidos internamente nas igrejas por líderes conservadores que ligavam o conflito da Guerra Fria às questões religiosas. Este motivo levou o pastor batista Enéas Tognini a convocar um dia de jejum e oração dos evangélicos para evitar que o Brasil se tornasse um país comunista. Ele se alinhou aos militares, não se arrependendo posteriormente: “Eles salvaram o Brasil do comunismo”.

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Este e outros casos tornaram-se de conhecimento público devido, principalmente, aos documentos coletados pelo Projeto Brasil: Nunca Mais, encaminhados para a Suíça, para evitar sua destruição no Brasil. Eles ficaram arquivados no Conselho Mundial das Igrejas, em Genebra, mostrando que não eram apenas a favor dos militares as posições existentes dentro das igrejas. Entretanto, desde 14 de junho de 2011, encontram-se novamente no Brasil para esclarecer fatos obscuros do período.

•        Quando o fascismo bate à porta: lições ignoradas da história. Por Oliveiros Marques

O fascismo não surge como um raio em céu azul. Ele se insinua, pouco a pouco, normalizando o inaceitável, testando limites e se alimentando da indiferença coletiva. A ascensão de Adolf Hitler é um dos exemplos mais claros desse processo. Antes das invasões, antes dos campos de extermínio, antes da guerra total, houve a escolha de um inimigo interno. Os judeus foram transformados em ameaça moral, econômica e cultural. A propaganda os desumanizou, e leis aparentemente “administrativas” passaram a excluí-los da vida pública. Muitos contemporâneos minimizaram esses atos, dizendo que eram exageros retóricos ou medidas temporárias. A história mostrou o preço dessa complacência.

O discurso nazista se sustentava na ideia de que a Alemanha precisava “se purificar” internamente para depois recuperar seu espaço no mundo. A lógica era simples e perversa: primeiro, eliminar os “inimigos de dentro”; depois, expandir fronteiras para garantir segurança e prosperidade. Quando a Áustria foi anexada e a Tchecoslováquia invadida, ainda houve quem defendesse a contemporização, acreditando que concessões evitariam algo pior. O resultado foi exatamente o oposto.

Guardadas as diferenças históricas, é impossível ignorar as similaridades estruturais com o fenômeno político representado por Donald Trump. Seu discurso sistemático contra imigrantes - tratados como criminosos, invasores ou parasitas do Estado - cumpre a mesma função simbólica: criar um inimigo interno que justifique o endurecimento do regime, a erosão de direitos e o enfraquecimento das instituições democráticas. Quando parte da população passa a ser vista como ameaça existencial, abre-se o caminho para exceções permanentes à legalidade.

No plano externo, o padrão se repete. A invasão da Venezuela, apresentada sob o pretexto de segurança e estabilidade, mas de fato uma intervenção por conta do petróleo, revela uma lógica imperial clássica: a soberania alheia torna-se descartável diante dos interesses estratégicos do mais forte. Da mesma forma, a obsessão em controlar a Groenlândia - ainda que pertença a outro país - revela uma mentalidade expansionista que ignora o direito internacional e trata territórios como ativos negociáveis. Foi exatamente assim que regimes autoritários do século XX testaram a passividade do mundo.

O mais perigoso nesses processos não é apenas o líder, mas o ambiente que o permite prosperar. Hitler avançou porque seus primeiros passos foram relativizados. Trump avança porque muitos ainda acreditam que se trata apenas de retórica, bravatas ou estratégias eleitorais. A história demonstra que o fascismo não se anuncia como tal: ele se disfarça de patriotismo, ordem e segurança.

Isolar politicamente projetos autoritários não é histeria nem radicalismo - é aprendizado histórico. O mundo falhou quando escolheu ignorar os sinais nos anos 1930. Repetir esse erro hoje seria uma escolha consciente. Quando percebemos o fascismo claramente, os danos já são profundos. A única resposta responsável é agir antes que seja tarde demais.

 

Fonte: Brasil 247/Brasil Escola

 

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