Paulo
Kliass: Acordo Mercosul-EU - Dependência descarada?
As
primeiras rodadas de negociação do Acordo Comercial entre a União Europeia e o
Mercosul começaram a ser realizadas há mais de 30 anos, em 1995. Naquele
momento, o Brasil tinha um novo presidente da República e o mundo vivia o auge
do ideário neoliberal. Além disso, no mesmo período, o então presidente dos
Estados Unidos, George Bush, lançava em dezembro de 1994 a proposta de uma Área
de Livre Comércio das Américas (ALCA). A estratégia estadunidense não prosperou
e foi sendo paulatinamente abandonada, inclusive por pressão de governos da
região, dentre eles o Brasil. O processo de acerto do entendimento entre os
europeus e os sul-americanos teve muitas idas e vindas ao longo destas três
décadas. Um ponto de virada relevante na dinâmica das negociações foi a eleição
de Lula em 2002 e a definição de uma política de relações exteriores bastante
distinta da vigente anteriormente. Com a caracterização de uma “diplomacia
ativa e altiva” e a busca de alianças no plano sul-sul e o reforço da
integração regional na América Latina, o acordo com a União Europeia entrou em
uma espécie de banho-maria. A partir dali, tudo indica que os sucessivos
governos tenham percebido que os termos propostos até então eram lesivos aos
interesses dos países do Mercosul e ao Brasil. Prevaleceu a dinâmica do
compasso de espera. Os responsáveis pela política de relações exteriores do
Brasil se manifestavam claramente contra a ideia de um entendimento que
rebaixasse as condições dos países menos desenvolvidos, criticando a iniciativa
de um acordo entre os dois blocos econômicos. Samuel Pinheiro Guimarães e Marco Aurélio
Garcia, por exemplo, não esconderam suas opiniões a respeito do tema. O
primeiro afirmava mesmo que “o acordo vai ser uma desgraça”. Além disso, a
estrutura interna das regiões também foi se tornando mais complexa, com
ingresso de novos atores e implicando maiores dificuldades de avançar em algum
entendimento comum. Em 1995, a União Europeia contava com 15 membros e
atualmente são 27 países. O Mercosul mantém os mesmos quatro países iniciais
(Brasil, Argentina, Uruguai e Paraguai), mas tentou incorporar a Bolívia e a
Venezuela — processos suspensos.
Mais à
frente, na sequência do golpeachment contra Dilma Rousseff,
tem início um processo profundo de reversão dos avanços obtidos na esfera da
diplomacia e da inserção do Brasil no cenário internacional até então. Sob
Temer e Bolsonaro, o Itamaraty é obrigado a recuar em quase todos os processos
de integração regional, em especial a Unasul. No que se refere ao acordo com os
europeus, os governos pós-2016 tentaram deixar uma marca de mudança em relação
ao período anterior e retomaram as tratativas com Bruxelas. Datam daí as novas
versões dos textos que passaram a circular nas mesas de negociação entre
representantes dos dois blocos. Pelo lado argentino, a gestão do liberal
direitista Mauricio Macri (2015-2019) à frente da Casa Rosada também colaborou
para que os obstáculos colocados pelos desenvolvimentistas à adesão comercial
fossem retirados. Em 2023, com a posse de Lula para exercer seu terceiro
mandato, imaginava-se que o acordo voltaria a tramitar em passos mais lentos.
Ao menos estas eram as indicações que poderiam ser derivadas a partir das
gestões anteriores. Mas, de forma algo surpreendente, o novo governo brasileiro
agiu na direção contrária e passou a acelerar o ritmo das tratativas no
interior do Mercosul e deste bloco com a União Europeia. Ao que tudo indica,
Lula enxergou no processo uma forma de capitalizar algo como indicador de
“sucesso” nas relações internacionais. E, para isso, contou com a boa vontade
do dirigente da extrema direita, Javier Milei, que se tornou presidente da
vizinha Argentina em dezembro de 2023. Uma loucura!
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Temer, Bolsonaro, Macri e Milei — os grandes artífices da assinatura
O
Acordo é muito prejudicial para os países do Mercosul, em especial para o
Brasil. Ele congela por longas décadas futuras as condições de submissão e
subalternidade existentes atualmente no comércio internacional. Ao apontar para
a redução de tarifas de importação e de exportação entre os países membros dos
dois blocos, o texto tende a eternizar as condições de cada um dos atores na
situação atual. Assim, os países sul-americanos permanecem na posição de
especializados na exportação de produtos primários e de baixo valor agregado.
Já os países europeus se valerão ainda mais de sua condição de exportadores de
produtos industrializados de alto valor agregado. Tanto que a grande
resistência ao acordo pela parte do Velho Continente está localizada nos
setores de produtores agrícolas, especialmente na França. A eventual
continuidade da vigência do acordo no tempo impedirá que o Brasil e os países
vizinhos lancem mão de políticas tarifárias e outras medidas de política
econômica para recuperar e fortalecer seu parque industrial. Não existe nenhuma
possibilidade de trilhar o caminho da neoindustrialização, tal como pretende o
governo com o Programa Nova Indústria Brasil (NIB), em tais
condições. A opção pela estratégia liberalóide de abrir totalmente o nosso
mercado para importação de bens de países mais desenvolvidos nos manterá na
condição de inferioridade nas relações de troca. O Brasil, inclusive, se
compromete a abrir para os produtores europeus o nosso valioso mercado de
compras públicas e governamentais, instrumento de soberania que pode muito bem
ser utilizado para um projeto de desenvolvimento social e econômico interno.
Outro
aspecto a ser levado em consideração diz respeito aos possíveis efeitos
positivos para o crescimento das atividades econômicas de forma geral. Isso
pelo fato de que, apesar de estimular apenas a exportação de bens do
agronegócio e minerais, poderia ser argumentado que a economia em geral seria
estimulada pelo tratado. No entanto, nem por esse argumento, a coisa se
sustenta. Um estudo realizado pelo IPEA, como uma espécie de
encomenda para ressaltar o lado positivo do acordo, demonstra que a entrada em
vigor do protocolo traria um crescimento de 0,45% do PIB brasileiro em um
horizonte de 15 anos. Ou seja, exatos 0,028125% ao ano. Ridículo! O texto fala em
um crescimento do Produto da ordem de R$ 9,3 bilhões ao longo de todo esse
período, equivalentes a raquíticos R$ 580 milhões a cada ano. Apenas a título
de comparação, durante o bimestre outubro/novembro passado, o Brasil gastou R$
200 bilhões a título de pagamento de juros da dívida pública. Assim, todo este
esforço de 16 anos, derivado do Acordo Comercial seria consumido em apenas dois
dias de pagamento de tais obrigações financeiras pelo Tesouro Nacional.
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Acordo perpetua desigualdade e subalternidade
Ora, se
o Acordo não promove crescimento econômico e, ao contrário, impede o nosso
desenvolvimento industrial atual e futuro, por que ele está sendo assinado e
comemorado de forma tão efusiva pelo governo Lula? É inegável que os setores
exportadores do campo e dos minérios têm tudo a celebrar. Mas, infelizmente,
nossos representantes do setor industrial não se manifestam como deveriam.
Afinal, as perdas de nossa capacidade exportadora de manufaturas são mais do
que evidentes e a ilusão de uma adesão liberal com tarifas tendendo a zero deve
colaborar ainda mais para a inundação de nosso mercado com bens industriais
importados. Mais um grande golpe contra nossa já fragilizada indústria
nacional. Como escreveu o economista e especialista no assunto Paulo Nogueira Batista Jr., “o que era ruim
ficou ainda pior”. Já o atual assessor especial de Lula para relações
internacionais e ex-chanceler nos governos anteriores, Celso Amorim, também
tinha uma visão crítica do Acordo em 2019, durante o governo Bolsonaro. No
entanto, quando tem início o terceiro mandato, ele muda subitamente de opinião.
Vejamos o que ele dizia à época em entrevista concedida à BBC: (…)
“O momento é o pior possível em termos da capacidade negociadora do
Mercosul, porque os dois principais negociadores, Brasil e Argentina, estão
fragilizados política e economicamente” (…) “Acho que por isso a União
Europeia teve pressa. Porque sabe que estamos em uma situação muito
frágil. E quando se está em uma situação frágil, se negocia qualquer coisa.
Isso me deixa preocupado. Eu temo que tenham sido feitas concessões
excessivas” (…) O fato concreto é
que, de lá para cá, muito pouca coisa mudou na essência do Acordo. A tendência
é que as relações de dependência e desigualdade sejam mantidas e mesmo
aprofundadas. Ao contrário das impressões que Lula e sua equipe tentam
transmitir para nossa sociedade, este Acordo é um verdadeiro tiro no pé da grande
maioria da população brasileira. Trata-se de um enorme retrocesso, que pode
comprometer toda e qualquer capacidade de retomada futura de um projeto de
soberania e independência nacional.
¨
O mito da integração Mercosul–UE e a reprodução das
hierarquias coloniais
O Acordo entre o Mercosul e a União
Europeia está
sendo apresentado, em geral, como um sucesso comercial e de integração
econômica. Contudo, uma leitura crítica amparada pelo pensamento decolonial e
pela sociologia histórica brasileira revela que essa associação é um mecanismo
contemporâneo de reprodução da colonialidade, reatualizando (sob novas formas
institucionais) a lógica estrutural do Pacto Colonial. Este, que organizou a
economia em termos de exclusividade comercial, que instituiu uma relação
predatória com o território, profundamente hierarquizada com a população
colonizada. A exploração intensiva da terra, dos recursos naturais e do
trabalho escravizado constituía o núcleo do processo de acumulação de riqueza
pelas metrópoles.
O Pacto
Colonial estabeleceu regras econômicas impostas pelas metrópoles europeias às
suas colônias durante o período colonial, determinando que estas existissem
para beneficiar exclusivamente a metrópole. No caso do Brasil, isso significava
a proibição de comércio com outros países, a obrigatoriedade de vender
matérias-primas a Portugal e a compra dos produtos manufaturados pela
metrópole, além do controle sobre a produção e os impostos. Esse monopólio
metropolitano do comércio externo foi um dos fundamentos centrais do Pacto
Colonial, assegurando preços desfavoráveis à colônia — tanto na exportação
quanto na importação — e limitando seu desenvolvimento econômico e industrial.
Consequentemente, o mecanismo garantia o enriquecimento da metrópole, que se apropriava
sistematicamente do excedente econômico.
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Hierarquias globais
Outro
fundamento essencial residia na especialização produtiva compulsória. Isso
significa dizer que à colônia cabia produzir gêneros primários de interesse do
mercado europeu — açúcar, ouro, algodão, tabaco, entre outros —, enquanto lhe
era vedado o desenvolvimento de atividades manufatureiras que pudessem competir
com a produção metropolitana. Essa proibição (explícita ou implícita) bloqueava
a diversificação econômica e impedia a formação de uma base produtiva autônoma,
consolidando uma inserção subordinada no sistema internacional. O Pacto
Colonial também se sustentava na organização coercitiva do trabalho,
particularmente por meio da escravidão africana. O trabalho escravizado reduzia
custos de produção e constituía um elemento estrutural da acumulação primitiva
de capital. A desumanização do trabalhador escravizado (e sua redução à
condição de mercadoria) permitiam taxas extremas de exploração, o que
viabilizava a produção em larga escala voltada à exportação — e reforçava a
hierarquização racial como princípio organizador da economia colonial.
A
colonialidade do poder — conceito muito trabalhado pelo sociólogo peruano
Aníbal Quijano — nos permite compreender a persistência dessa lógica. Conforme
o autor, a consolidação do padrão mundial de poder capitalista ocorreu a partir
da racialização das relações sociais, que estruturou hierarquias globais de
trabalho, de autoridade e de apropriação da Natureza. Essa classificação
organizou o trabalho, além de definir quais territórios seriam destinados à
extração intensiva de recursos e quais seriam preservados como centros de
decisão e consumo. Assim, a colonialidade articula raça, natureza e economia em
um mesmo sistema hierárquico.
No
contexto do Acordo Mercosul–União Europeia, essa dinâmica se expressa na
consolidação de um padrão primário-exportador ambientalmente intensivo. A
ampliação das exportações de commodities agrícolas e minerais
implica maior pressão sobre biomas, terras indígenas e comunidades
tradicionais. Trata-se de uma forma de colonialidade ambiental, na qual os
custos ecológicos do consumo europeu são externalizados para territórios
periféricos, reproduzindo o que o também autor latino-americano Enrique Dussel
denomina “transferência ecológica desigual”. A expansão da fronteira extrativa
frequentemente se dá por meio da expropriação de terras, da flexibilização de
normas ambientais e da violação de direitos de povos indígenas, quilombolas e
comunidades tradicionais, aprofundando conflitos territoriais e desigualdades
socioeconômicas.
Nesse
sentido, a noção de “colonialidade ambiental” permite compreender o acordo como
continuidade de relações coloniais sob novas formas. A Europa, ao
importar commodities ambientalmente intensivas, preserva seus
próprios territórios de atividades degradantes, ao mesmo tempo em que impõe
exigências ambientais assimétricas que pouco alteram a lógica estrutural do
intercâmbio desigual. Como argumenta Enrique Dussel ao tratar da “transferência
ecológica desigual”, há uma apropriação sistemática de energia, de
matéria-prima e de trabalho da periferia pelo o centro, sem a correspondente
compensação pelos danos ecológicos e sociais gerados. Portanto, o Acordo
Mercosul–União Europeia, longe de representar uma parceria equilibrada para o
desenvolvimento sustentável, tende a aprofundar a dependência econômica e a
vulnerabilidade socioambiental dos países do Mercosul. Ele consolida um regime
de acumulação que transforma natureza e territórios em variáveis de ajuste do
comércio global, reforçando hierarquias históricas e limitando as
possibilidades de transição ecológica justa e soberana na América Latina.
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Reprodução de desigualdades sistêmicas
A
retórica ambiental presente no acordo, em vez de romper essa lógica, tende a
reforçá-la, porque as exigências ambientais impostas aos países do Mercosul são
formuladas a partir de parâmetros definidos no Norte Global, desconsiderando
trajetórias históricas desiguais de industrialização e degradação ambiental.
Dussel argumenta que a pretensão universal da Modernidade opera como um
mecanismo de legitimação de desigualdades históricas, porque dissimula as
assimetrias de poder e a distribuição desigual das responsabilidades no
processo de constituição do sistema mundial moderno. Dessa forma, países que
historicamente devastaram seus próprios ecossistemas passam a atuar como
árbitros morais da sustentabilidade.
Achille
Mbembe também contribui para essa análise quando demonstra que o capitalismo
contemporâneo mantém uma lógica necropolítica, na qual determinadas populações
e territórios são considerados descartáveis. Para o autor, a lógica racial
continua estruturando a economia política global, ao distribuir, de forma
desigual, a exposição à violência, à precariedade e à morte entre diferentes
grupos sociais. No caso brasileiro, a expansão do agronegócio voltado à
exportação incide, de forma desproporcional, sobre populações negras, indígenas
e camponesas, intensificando conflitos fundiários, violência ambiental e
precarização da vida.
O
historiador brasileiro Clóvis Moura nos fornece uma
chave interpretativa fundamental para entendermos essa questão. Ao conectar
dependência econômica e racismo estrutural, o autor afirma que o capitalismo
dependente no Brasil mantém-se por meio da superexploração do trabalho racializado
e da marginalização contínua das populações negras, constituindo um mecanismo
estrutural de reprodução da desigualdade racial. Assim, a reprimarização da
economia, incentivada por acordos como esse do Mercosul com a União Europeia,
reforça setores produtivos que, historicamente, se apoiam em trabalho
precarizado, informal e racialmente marcado. Nesse contexto, a colonialidade
ambiental não pode ser dissociada da colonialidade racial. A destinação do
Brasil ao papel de fornecedor de commodities implica, para
além da degradação ambiental, a reprodução de uma estrutura social
profundamente desigual. Ao restringir políticas industriais e tecnológicas, o
acordo limita a possibilidade de ruptura com esse padrão. Nesse contexto,
normas comerciais, regras de propriedade intelectual e exigências regulatórias
assimétricas, contidas no acordo, limitam a possibilidade de ruptura com esse
padrão histórico. Ao reduzir o espaço de atuação do Estado na promoção da
industrialização, da inovação, compromete-se a construção de um projeto de
desenvolvimento nacional mais autônomo e inclusivo.
Acordos
como esse funcionam como instrumentos de tutela estrutural, compatíveis com o
que afirma Samir Amin, para quem as relações
centro-periferia são
estruturadas para assegurar que os países periféricos ajustem (permanentemente)
suas economias às demandas do centro, reproduzindo desigualdades sistêmicas no
comércio e na acumulação global. Desse modo, o comércio internacional deixa de
ser um espaço de trocas equilibradas e transforma-se em um mecanismo de
reprodução de desigualdades sistêmicas — tanto no fluxo de mercadorias quanto
na apropriação do excedente econômico. Assim, tais acordos não promovem
convergência entre centro e periferia, mas consolidam uma hierarquia
internacional na qual o crescimento dos países centrais se sustenta (em grande
medida) na adaptação permanente e na vulnerabilidade econômica dos países
periféricos, reafirmando os padrões históricos de desigualdade na acumulação global.
Historicamente, o Pacto Colonial garantiu à metrópole acesso privilegiado aos
recursos naturais da colônia, ao mesmo tempo em que impediu a diversificação
produtiva e tecnológica desta. O Acordo Mercosul–União Europeia reproduz essa
lógica porque institucionaliza uma inserção internacional dos países do
Mercosul baseada na exportação de Natureza e na importação de tecnologia. A
diferença reside, apenas, na forma, porque a coerção militar dá lugar a
instrumentos jurídicos, normativos e técnicos que limitam a capacidade de
industrialização e inovação dos países periféricos. Mas o resultado estrutural
permanece semelhante.
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Forma contemporânea de colonialidade
Ainda
que estabelecido sob a égide do “livre comércio” e da “cooperação entre blocos
soberanos”, o acordo tende a reforçar uma divisão internacional do trabalho
desigual. De um lado, países do Mercosul especializam-se
na exportação de matérias-primas; de outro, a União Europeia exporta bens
industriais, serviços e tecnologia de maior valor agregado. Exemplo emblemático
dessa relação desigual pode ser observado no setor automobilístico. A União
Europeia adota rigorosos padrões de segurança e de controle ambiental — como os
testes de colisão (crash tests) do Euro NCAP, que exigem altos níveis de
proteção aos ocupantes e o uso de tecnologias avançadas. Muitos veículos
produzidos por montadoras europeias não podem mais circular em seus próprios
mercados por não atenderem a essas normas. No entanto, essas mesmas empresas
transferem para países do Mercosul (a exemplo do Brasil) plataformas produtivas
defasadas, que fabricam automóveis com menor conteúdo tecnológico e padrões de
segurança inferiores — que seriam inaceitáveis no território europeu. Dessa
forma, o Mercosul converte-se em mercado para tecnologias ultrapassadas,
enquanto a Europa preserva para si os segmentos mais inovadores da cadeia
produtiva. Como resultado, mantém-se uma estrutura econômica em que o
desenvolvimento tecnológico e industrial permanece concentrado nos países
centrais, enquanto aos periféricos cabe o papel de fornecedores de recursos
naturais e consumidores de bens industriais. Essa dinâmica limita a capacidade
de agregação de valor e restringe a autonomia produtiva e tecnológica, ao tempo
em que reforça a dependência externa, dificultando a formulação de políticas
industriais fortes e soberanas. Além disso, impede (ou ao menos reduz) o
desenvolvimento de um parque industrial capaz de reduzir a vulnerabilidade econômica
da região. Assim, a dominação econômica substitui a coerção direta,
reproduzindo, em essência, mas sob novas roupagens, a lógica histórica do Pacto
Colonial. Em segundo lugar, reproduz-se uma distribuição desigual da riqueza e
da renda, porque são mantidas estruturas de exploração que beneficiam elites
econômicas historicamente alinhadas aos interesses externos (como diz Clóvis
Moura), o que reflete a herança social do período colonial. Essas elites —
formadas ainda no período colonial e escravocrata — atuam como intermediárias
entre o capital internacional e as economias periféricas, apropriando-se dos
benefícios da inserção externa subordinada, enquanto a maioria da população
permanece excluída dos ganhos do desenvolvimento. Tal processo evidencia que a
dependência deixa de ser apenas econômica e passa a ser também social e
política, pois preserva relações de poder internas marcadas pela concentração
de renda e pela fragilidade dos direitos sociais. Assim, a inserção subordinada
é, ao mesmo tempo, econômica, social e racialmente hierarquizada.
Do
ponto de vista ambiental, o resultado é a expropriação ecológica. A expansão do
agronegócio e da mineração voltada à exportação aumenta a pressão sobre biomas
estratégicos (como a Amazônia e o Cerrado) e sobre territórios indígenas e
tradicionais. O padrão de produção voltado ao mercado externo deixa os custos
ambientais para os países do Mercosul, enquanto os países europeus consomem os
recursos sem arcar com os impactos de sua extração. Essa dinâmica constitui uma
forma de colonialidade ambiental, a partir da qual a Natureza é subordinada às
necessidades do mercado global, reproduzindo um padrão de dominação territorial
semelhante ao colonial. Em termos globais, os resultados estruturais incluem a
reprodução da dependência periférica, a vulnerabilização social e racial das
populações historicamente marginalizadas, a concentração de riqueza e o
aprofundamento das desigualdades ambientais. Por isso, embora a forma da
dominação tenha mudado — da coerção militar e do monopólio explícito para a
normatização jurídica e técnica —, a lógica fundamental permanece (os países do
Mercosul continuam subordinados aos interesses do centro, exportando natureza,
trabalho e vulnerabilidade, enquanto importam tecnologia, produtos
industrializados e normas definidas por outros). Por esses e outros motivos —
que não expresso aqui para não tornar o texto muito enfadonho —, o Acordo
Mercosul–União Europeia expressa uma forma contemporânea de colonialidade,
principalmente porque reforça a especialização primário-exportadora e externaliza
custos ecológicos e aprofunda desigualdades sociais racializadas.
Fonte:
Diálogos do Sul Global/Outras Palavras

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