Raul
Noetzold: ‘A política dos problemas inexistentes’
A
ascensão da extrema direita em diferentes países tem sido acompanhada por uma
dinâmica recorrente no debate público: a centralidade conferida a problemas que
possuem baixa ou nenhuma relevância empírica. Trata-se de uma estratégia
política que desloca o foco das questões estruturais para conflitos simbólicos,
frequentemente importados de outros contextos nacionais, com o objetivo de
mobilizar afetos, produzir identidades rígidas e aprofundar divisões sociais.
No
Brasil, esse fenômeno foi bastante claro na primeira campanha presidencial de
Jair Bolsonaro, onde a fabricação intensa de fake news foi
baseada em temas que dominaram a campanha de Donald Trump em 2016. Julgo que as
análises sobre “mamadeiras de piroca” e “kit gay” já estão mais que feitas e
proponho avançar para o presente. A política dos problemas inexistentes no
presente pode ser observada com nitidez no debate artificialmente criado sobre
imigração e costumes culturais. Apesar de o Brasil ser historicamente marcado
pela emigração, com milhões de brasileiros vivendo no exterior, setores da
extrema direita passaram a adotar um discurso alarmista sobre uma suposta
ameaça migratória. Embora a imigração não seja (ainda) um tema que a extrema
direita traga como fundamental, já existem debates internos sobre a
possibilidade de este ser trazido à tona. Já circulam em grupos bolsonaristas
montagens sobre “invasões” de imigrantes venezuelanos no Brasil e falsos dados
sobre fluxos migratórios, apontando o Brasil como grande receptor de
imigrantes.
É
evidente que este é um não problema. Dados demográficos mostram que pessoas
nascidas fora do país representam cerca de meio por cento da população
brasileira, proporção insuficiente para sustentar a ideia de uma crise
migratória. Ainda assim, a imigração já é apresentada como vetor de desordem
social e perda identitária, em clara dissociação da realidade concreta.
O mesmo
mecanismo se manifesta na insistência em temas ligados ao vestuário islâmico. A
deputada estadual Ana Campagnolo (PL-SC), por exemplo, mantém em suas redes
sociais um discurso recorrente sobre burcas, hijabs e a “ameaça cultural”
associada ao islamismo. O curioso, do ponto de vista analítico, é que tal
debate se desenvolve em um país onde a presença de mulheres que utilizam véu
integral é estatisticamente irrelevante. O objeto do discurso não é uma prática
social disseminada, mas um símbolo importado, capaz de condensar medos difusos
e operar como marcador ideológico.
Essa
lógica não é uma particularidade de Ana Campagnolo. Em Portugal, país onde
resido atualmente, o debate público recente foi atravessado por uma intensa
controvérsia sobre a eventual proibição da burca, impulsionada sobretudo pelo
partido Chega, de extrema direita. O tema ganhou projeção política e midiática
desproporcional à sua expressão social concreta. Estudos e dados oficiais
indicam que o número de mulheres que utilizam burca ou niqab em Portugal é
residual, não configurando um problema de ordem pública, segurança ou
integração social. Ainda assim, a questão foi mobilizada como símbolo de uma
suposta ameaça à identidade nacional.
O caso
português revela de forma exemplar a importação de agendas simbólicas. O debate
sobre o vestuário islâmico não emerge de uma experiência social cotidiana ou de
conflitos concretos amplamente disseminados, mas da circulação transnacional de
pautas já consolidadas em outros contextos europeus, sobretudo na França. Ao
ser transplantado para realidades distintas, o tema perde qualquer lastro
empírico, mas preserva sua utilidade política como instrumento de polarização.
Na
França, esse processo é ainda mais antigo e sistemático. Desde o início dos
anos 2000, o vestuário islâmico se tornou um eixo recorrente do debate público
francês, com sucessivas leis, proibições e controvérsias envolvendo o hijab, o
niqab e, mais recentemente, a abaya. O número reduzido de mulheres afetadas por
essas medidas contrasta com a centralidade do tema no discurso político,
evidenciando que sua função principal não é a resolução de um problema
concreto, mas a construção de um conflito simbólico permanente.
Nos
Estados Unidos, a fabricação de não problemas assume outras formas: temas como
o uso de banheiros por pessoas trans, a presença de drag queens em bibliotecas
ou a circulação de determinados livros em escolas são amplificados até se
tornarem supostas crises nacionais, alimentando pânicos morais que desviam o
debate de problemas estruturais como desigualdade, acesso à saúde e
precarização do trabalho. Algo semelhante aconteceu no Brasil nas eleições de
2022, onde o tema “banheiro unissex” foi um dos mais citados nas redes sociais.
Um
ponto central nesse contexto é que a dignidade de pessoas islâmicas, imigrantes
e pessoas LGBTQIA+ frequentemente é sequestrada pelas estratégias discursivas
da extrema direita. Não se trata de desvalorizar suas pautas, que envolvem
problemas reais e urgentes como discriminação, violência, exclusão social e
precarização, mas de mostrar que a instrumentalização dessas questões para
criar crises imaginárias distorce a percepção pública sobre elas. A esquerda
deve assumir uma postura proativa, determinando a agenda do debate com termos
próprios, colocando no centro as demandas reais das pessoas e não os medos
fabricados pelo conservadorismo. Um exemplo inspirador é o movimento VAT pelo
fim da escala 6×1 no Brasil, liderado por Rick Azevedo e Erika Hilton, que
conseguiu trazer a redução da carga de trabalho para o centro do debate,
dialogando com trabalhadores e trabalhadoras de diferentes identidades sociais.
Essa ação demonstra que é possível combinar luta por justiça social, direitos
de grupos historicamente marginalizados e construção de solidariedade ampla,
propondo soluções concretas para problemas reais da vida cotidiana.
Reconhecer
a lógica da fabricação de problemas inexistentes, no entanto, é apenas o
primeiro passo. O desafio político central consiste em formular respostas
capazes de neutralizar essa estratégia sem reproduzir seus termos. A extrema
direita prospera porque oferece narrativas simples e emocionalmente potentes.
Combater essa tendência exige não apenas desmentir falsos problemas, mas
disputar ativamente os significados de comunidade, futuro e projeto coletivo.
Nesse
sentido, redes e plataformas internacionais progressistas são essenciais. Na
América Latina, o Instituto Futuro busca articular pensamento político e
prática social voltada à justiça social, democracia e direitos humanos. Entre
seus membros estão líderes como Gabriel Boric, presidente do Chile, e Gustavo
Petro, presidente da Colômbia, além de Guilherme Boulos, atual ministro-chefe
da Secretaria-Geral da Presidência da República no governo Lula, contando ainda
com diversas figuras acadêmicas, ativistas e representantes de movimentos
sociais de diferentes países. O instituto atua na construção de alternativas
para políticas públicas, debate democrático e estratégias de esquerda que
conectem experiências regionais com pautas estruturais e inclusivas.
Na
Europa, a European Left Alliance (ELA) reúne partidos de esquerda de diversos
países, como Bloco de Esquerda (Portugal), Podemos (Espanha) e La France
Insoumise (França). A ELA se compromete com direitos humanos, justiça social,
proteção ambiental, igualdade de gênero, defesa de serviços públicos e combate
à austeridade, promovendo cooperação transnacional entre forças progressistas
europeias e fortalecendo a capacidade de ação política coordenada contra a
extrema direita.
Mais do
que reagir aos temas impostos pela extrema direita, a esquerda precisa
recuperar a capacidade de determinar a agenda pública. Isso passa por recolocar
no centro do debate a ideia de comunidade não como identidade excludente, mas
como projeto compartilhado, combinando proteção social, reconhecimento e
horizonte de futuro. Em sociedades marcadas por insegurança econômica,
precarização do trabalho e erosão de vínculos sociais, a promessa de
pertencimento oferecida pela extrema direita encontra terreno fértil. Disputar
essa promessa exige oferecer uma alternativa que articule propostas concretas
de transformação, como políticas de habitação, trabalho decente, transição
ecológica justa e fortalecimento dos serviços públicos, apresentadas como
partes de um projeto coletivo de sociedade.
A
insistência da extrema direita em problemas inexistentes revela,
paradoxalmente, sua incapacidade de oferecer respostas para os dilemas reais do
presente. Cabe à esquerda ocupar esse vazio, não reagindo ao medo fabricado,
mas propondo sentidos, vínculos e perspectivas que devolvam densidade ao debate
democrático. Em um mundo atravessado por crises múltiplas, a disputa política
decisiva não será apenas sobre quais problemas existem, mas sobre quem é capaz
de oferecer um horizonte comum capaz de organizar o futuro.
¨
Dívida pública mundial e o verdadeiro poder no Brasil.
Por José Álvaro de Lima Cardoso
Enquanto
o governo dos EUA vai, sistematicamente, preparando um grande confronto em
nível mundial, no ano fiscal de 2025 (out/2024–set/2025) o país gastou US$ 970
bilhões com juros da dívida pública. Apesar desse gasto monstruoso (quase
metade do PIB brasileiro), a dívida cresceu US$ 2,23 trilhões no ano passado,
chegando a US$ 38,4 trilhões (um ritmo de crescimento de aproximadamente US$
6,12 bilhões por dia).
A
dívida norte-americana, mesmo com a queda gradativa da hegemonia do dólar na
economia mundial, dificilmente se tornará impagável por um problema de
insolvência. Afinal, o Tesouro dos EUA emite dívida majoritariamente em dólar,
e o governo opera com apoio do sistema monetário em sua própria moeda, o que
torna muito baixo o risco de um “default involuntário”, típico do que aconteceu
em tantos países endividados em dólar em todo o mundo.
Talvez
o maior risco nos EUA seja o custo macroeconômico que o país terá de arcar,
caso a dívida continue crescendo em proporção ao PIB. Ou seja, juros reais
efetivos maiores que o crescimento por muito tempo e/ou déficits primários
persistentes, aumento de impostos, inflação ou alguma combinação destes
fatores. O risco não é de insolvência, por causa da posição privilegiada que
têm os EUA na economia internacional, mas o rumo é arriscado, especialmente em
uma situação de preparação para uma conflagração em larga escala. A
pergunta-chave que os economistas americanos fazem refere-se à dinâmica da
dívida: a relação dívida/PIB vai se estabilizar ou não? Isso depende do
crescimento, do nível dos juros, do resultado primário e da demanda por títulos
do Tesouro dos EUA.
A
dívida pública se tornou um problema sistêmico global, especialmente depois da
pandemia de 2020/21. A razão dívida pública global/PIB saiu de cerca de 84% em
2019 para algo em torno de 90% do PIB em 2022–2023, com projeção de se
aproximar de 100% do PIB em pouco tempo. Em agosto de 2025, a razão dívida
pública global/PIB estava estimada em aproximadamente 95,1%, segundo o FMI.
Entre os países imperialistas, a maior relação dívida/PIB é a do Japão, acima
de 200%, exigindo forte atuação do Banco do Japão para não sair de controle.
Há
vários fatores para o aumento do endividamento dos países, como a mudança na
estrutura demográfica, que pressiona previdência e saúde, choques de energia e
alimentos etc. Mas é muito importante o ciclo de alta de juros, a partir de
2022, que elevou o serviço da dívida em todo o mundo. Em países onde o perfil
da dívida é de curto e médio prazos, a deterioração da relação dívida/PIB
ocorreu mais rapidamente. O aumento da economia informal e regimes tributários
regressivos (como o do Brasil) dificultam muito o ajuste pelo lado da receita.
Os
efeitos do aumento da dívida sobre a economia mundial são muito danosos. As
dúvidas sobre a sustentabilidade fiscal das economias elevam os spreads
(diferença de rendimento entre um título de dívida e uma taxa de referência
considerada mais segura) soberanos e corporativos, produzindo um contágio
regional. A dívida elevada dificulta as políticas públicas de forma geral,
inclusive a capacidade do governo de realizar ações anticíclicas, o que reduz a
capacidade de estabilização econômica e de investimento público.
Ao
mesmo tempo em que uma dívida considerada impagável por alguns analistas é um
sério problema para os EUA, a concentração de boa parte da dívida no país
reforça o poder dos EUA. Os títulos do Tesouro norte-americano são o principal
ativo seguro do sistema financeiro e referência da tendência global de juros.
Isso provoca uma forte demanda por esses títulos, o que fornece uma garantia
para o financiamento da dívida. Simultaneamente, a ainda predominância do dólar
como instrumento de reservas e transações financeiras internacionais, e o
monopólio da emissão dessa moeda, inclusive sem lastro, fornecem aos EUA um
poder único no mundo.
Por
isso, não deixa de ser surpreendente que a economia russa continue crescendo
acima da média global, mesmo sendo o país mais sancionado da história do mundo
(entre cerca de 16 mil e 20 mil medidas, com diferentes tipos de sanções). À
distância, é impossível avaliar o que é sofrer amplos controles nas
exportações, profundas sanções financeiras (bancos, bolsa etc.) e ser
sancionado em áreas estratégicas como energia, defesa e tecnologia.
A maior
parte dos pagamentos internacionais é realizada em dólar e com base em
infraestrutura sediada nos EUA, como, por exemplo, os bancos correspondentes.
Obviamente, os negócios realizados em dólar se submetem às leis e à regulação
financeira norte-americanas. Como quase toda grande instituição no mundo
necessita do dólar e de bancos americanos, o governo dos EUA impõe sanções que
retiram o acesso de indivíduos, empresas e países.
Os EUA,
inclusive, impõem sanções secundárias, ou seja, se um banco de outro país
negociar com um sancionado, está sujeito a perder o acesso ao dólar, o que leva
as instituições a não negociarem com empresas ou países sancionados. Os EUA são
o único país do mundo que tem esse poder, o qual usa com muita frequência, sem
se fazer de rogado: atualmente têm algo acima de 16.000 sanções ativas contra
pessoas físicas, empresas e países.
Nesse
momento, o que os países imperialistas estão operando, com a liderança dos EUA,
é a construção das condições para uma grande conflagração mundial. Negociar com
seus inimigos (principalmente China e Rússia) seria dar condições para
fortalecê-los. Dadas as condições econômicas atuais, isso seria um perigo
mortal para a existência do próprio imperialismo.
Politicamente,
a China é um “péssimo exemplo” para os países oprimidos, porque, além de ter
colocado em marcha um projeto de desenvolvimento nacional e soberano muito
bem-sucedido, o fez com base em uma concepção de que é possível um país se
desenvolver e melhorar a vida de seu povo sem fazer guerra e rejeitando a farsa
da “democracia liberal”.
Para o
Estado brasileiro, seria fundamental enfrentar o problema da dívida pública,
pois os recursos atualmente roubados pelos serviços da dívida são essenciais
para enfrentar os desafios internacionais e os grandes problemas nacionais. O
Brasil segue preso ao papel de exportador de commodities, sem controle da
cadeia de valor industrial, refém do sobe e desce dos preços das commodities. A
ausência de uma perspectiva de desenvolvimento soberano de forma geral, além da
ausência de política industrial, reforça a dominação de empresas multinacionais
na economia brasileira.
Os
bancos operam para que o Estado gaste cada vez menos com desenvolvimento e com
as necessidades da população. O controle da dívida pública por parte das
instituições financeiras não é apenas uma fonte caudalosa de dinheiro fácil e
garantido; é também um instrumento de controle do Estado pelo capital
financeiro. Os mecanismos de controle são vários. Por exemplo, os bancos e
rentistas, de forma sistemática, estabelecem “critérios de mercado” que
funcionam como vetos indiretos sobre políticas públicas, especialmente as mais
importantes.
A
conjuntura dos últimos anos mostrou de forma cabal quem manda verdadeiramente
no país. Independentemente de quem esteja no governo (golpistas de 2016,
extrema direita ou esquerda), os serviços da dívida continuam sendo regiamente
pagos, comprometendo quase metade do orçamento público federal e condenando o
país à condição semicolonial.
Fonte:
Outras Palavras/Brasil 247

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