segunda-feira, 26 de janeiro de 2026

Raul Noetzold: ‘A política dos problemas inexistentes’

A ascensão da extrema direita em diferentes países tem sido acompanhada por uma dinâmica recorrente no debate público: a centralidade conferida a problemas que possuem baixa ou nenhuma relevância empírica. Trata-se de uma estratégia política que desloca o foco das questões estruturais para conflitos simbólicos, frequentemente importados de outros contextos nacionais, com o objetivo de mobilizar afetos, produzir identidades rígidas e aprofundar divisões sociais.

No Brasil, esse fenômeno foi bastante claro na primeira campanha presidencial de Jair Bolsonaro, onde a fabricação intensa de fake news foi baseada em temas que dominaram a campanha de Donald Trump em 2016. Julgo que as análises sobre “mamadeiras de piroca” e “kit gay” já estão mais que feitas e proponho avançar para o presente. A política dos problemas inexistentes no presente pode ser observada com nitidez no debate artificialmente criado sobre imigração e costumes culturais. Apesar de o Brasil ser historicamente marcado pela emigração, com milhões de brasileiros vivendo no exterior, setores da extrema direita passaram a adotar um discurso alarmista sobre uma suposta ameaça migratória. Embora a imigração não seja (ainda) um tema que a extrema direita traga como fundamental, já existem debates internos sobre a possibilidade de este ser trazido à tona. Já circulam em grupos bolsonaristas montagens sobre “invasões” de imigrantes venezuelanos no Brasil e falsos dados sobre fluxos migratórios, apontando o Brasil como grande receptor de imigrantes.

É evidente que este é um não problema. Dados demográficos mostram que pessoas nascidas fora do país representam cerca de meio por cento da população brasileira, proporção insuficiente para sustentar a ideia de uma crise migratória. Ainda assim, a imigração já é apresentada como vetor de desordem social e perda identitária, em clara dissociação da realidade concreta.

O mesmo mecanismo se manifesta na insistência em temas ligados ao vestuário islâmico. A deputada estadual Ana Campagnolo (PL-SC), por exemplo, mantém em suas redes sociais um discurso recorrente sobre burcas, hijabs e a “ameaça cultural” associada ao islamismo. O curioso, do ponto de vista analítico, é que tal debate se desenvolve em um país onde a presença de mulheres que utilizam véu integral é estatisticamente irrelevante. O objeto do discurso não é uma prática social disseminada, mas um símbolo importado, capaz de condensar medos difusos e operar como marcador ideológico.

Essa lógica não é uma particularidade de Ana Campagnolo. Em Portugal, país onde resido atualmente, o debate público recente foi atravessado por uma intensa controvérsia sobre a eventual proibição da burca, impulsionada sobretudo pelo partido Chega, de extrema direita. O tema ganhou projeção política e midiática desproporcional à sua expressão social concreta. Estudos e dados oficiais indicam que o número de mulheres que utilizam burca ou niqab em Portugal é residual, não configurando um problema de ordem pública, segurança ou integração social. Ainda assim, a questão foi mobilizada como símbolo de uma suposta ameaça à identidade nacional.

O caso português revela de forma exemplar a importação de agendas simbólicas. O debate sobre o vestuário islâmico não emerge de uma experiência social cotidiana ou de conflitos concretos amplamente disseminados, mas da circulação transnacional de pautas já consolidadas em outros contextos europeus, sobretudo na França. Ao ser transplantado para realidades distintas, o tema perde qualquer lastro empírico, mas preserva sua utilidade política como instrumento de polarização.

Na França, esse processo é ainda mais antigo e sistemático. Desde o início dos anos 2000, o vestuário islâmico se tornou um eixo recorrente do debate público francês, com sucessivas leis, proibições e controvérsias envolvendo o hijab, o niqab e, mais recentemente, a abaya. O número reduzido de mulheres afetadas por essas medidas contrasta com a centralidade do tema no discurso político, evidenciando que sua função principal não é a resolução de um problema concreto, mas a construção de um conflito simbólico permanente.

Nos Estados Unidos, a fabricação de não problemas assume outras formas: temas como o uso de banheiros por pessoas trans, a presença de drag queens em bibliotecas ou a circulação de determinados livros em escolas são amplificados até se tornarem supostas crises nacionais, alimentando pânicos morais que desviam o debate de problemas estruturais como desigualdade, acesso à saúde e precarização do trabalho. Algo semelhante aconteceu no Brasil nas eleições de 2022, onde o tema “banheiro unissex” foi um dos mais citados nas redes sociais.

Um ponto central nesse contexto é que a dignidade de pessoas islâmicas, imigrantes e pessoas LGBTQIA+ frequentemente é sequestrada pelas estratégias discursivas da extrema direita. Não se trata de desvalorizar suas pautas, que envolvem problemas reais e urgentes como discriminação, violência, exclusão social e precarização, mas de mostrar que a instrumentalização dessas questões para criar crises imaginárias distorce a percepção pública sobre elas. A esquerda deve assumir uma postura proativa, determinando a agenda do debate com termos próprios, colocando no centro as demandas reais das pessoas e não os medos fabricados pelo conservadorismo. Um exemplo inspirador é o movimento VAT pelo fim da escala 6×1 no Brasil, liderado por Rick Azevedo e Erika Hilton, que conseguiu trazer a redução da carga de trabalho para o centro do debate, dialogando com trabalhadores e trabalhadoras de diferentes identidades sociais. Essa ação demonstra que é possível combinar luta por justiça social, direitos de grupos historicamente marginalizados e construção de solidariedade ampla, propondo soluções concretas para problemas reais da vida cotidiana.

Reconhecer a lógica da fabricação de problemas inexistentes, no entanto, é apenas o primeiro passo. O desafio político central consiste em formular respostas capazes de neutralizar essa estratégia sem reproduzir seus termos. A extrema direita prospera porque oferece narrativas simples e emocionalmente potentes. Combater essa tendência exige não apenas desmentir falsos problemas, mas disputar ativamente os significados de comunidade, futuro e projeto coletivo.

Nesse sentido, redes e plataformas internacionais progressistas são essenciais. Na América Latina, o Instituto Futuro busca articular pensamento político e prática social voltada à justiça social, democracia e direitos humanos. Entre seus membros estão líderes como Gabriel Boric, presidente do Chile, e Gustavo Petro, presidente da Colômbia, além de Guilherme Boulos, atual ministro-chefe da Secretaria-Geral da Presidência da República no governo Lula, contando ainda com diversas figuras acadêmicas, ativistas e representantes de movimentos sociais de diferentes países. O instituto atua na construção de alternativas para políticas públicas, debate democrático e estratégias de esquerda que conectem experiências regionais com pautas estruturais e inclusivas.

Na Europa, a European Left Alliance (ELA) reúne partidos de esquerda de diversos países, como Bloco de Esquerda (Portugal), Podemos (Espanha) e La France Insoumise (França). A ELA se compromete com direitos humanos, justiça social, proteção ambiental, igualdade de gênero, defesa de serviços públicos e combate à austeridade, promovendo cooperação transnacional entre forças progressistas europeias e fortalecendo a capacidade de ação política coordenada contra a extrema direita.

Mais do que reagir aos temas impostos pela extrema direita, a esquerda precisa recuperar a capacidade de determinar a agenda pública. Isso passa por recolocar no centro do debate a ideia de comunidade não como identidade excludente, mas como projeto compartilhado, combinando proteção social, reconhecimento e horizonte de futuro. Em sociedades marcadas por insegurança econômica, precarização do trabalho e erosão de vínculos sociais, a promessa de pertencimento oferecida pela extrema direita encontra terreno fértil. Disputar essa promessa exige oferecer uma alternativa que articule propostas concretas de transformação, como políticas de habitação, trabalho decente, transição ecológica justa e fortalecimento dos serviços públicos, apresentadas como partes de um projeto coletivo de sociedade.

A insistência da extrema direita em problemas inexistentes revela, paradoxalmente, sua incapacidade de oferecer respostas para os dilemas reais do presente. Cabe à esquerda ocupar esse vazio, não reagindo ao medo fabricado, mas propondo sentidos, vínculos e perspectivas que devolvam densidade ao debate democrático. Em um mundo atravessado por crises múltiplas, a disputa política decisiva não será apenas sobre quais problemas existem, mas sobre quem é capaz de oferecer um horizonte comum capaz de organizar o futuro.

¨      Dívida pública mundial e o verdadeiro poder no Brasil. Por José Álvaro de Lima Cardoso

Enquanto o governo dos EUA vai, sistematicamente, preparando um grande confronto em nível mundial, no ano fiscal de 2025 (out/2024–set/2025) o país gastou US$ 970 bilhões com juros da dívida pública. Apesar desse gasto monstruoso (quase metade do PIB brasileiro), a dívida cresceu US$ 2,23 trilhões no ano passado, chegando a US$ 38,4 trilhões (um ritmo de crescimento de aproximadamente US$ 6,12 bilhões por dia).

A dívida norte-americana, mesmo com a queda gradativa da hegemonia do dólar na economia mundial, dificilmente se tornará impagável por um problema de insolvência. Afinal, o Tesouro dos EUA emite dívida majoritariamente em dólar, e o governo opera com apoio do sistema monetário em sua própria moeda, o que torna muito baixo o risco de um “default involuntário”, típico do que aconteceu em tantos países endividados em dólar em todo o mundo.

Talvez o maior risco nos EUA seja o custo macroeconômico que o país terá de arcar, caso a dívida continue crescendo em proporção ao PIB. Ou seja, juros reais efetivos maiores que o crescimento por muito tempo e/ou déficits primários persistentes, aumento de impostos, inflação ou alguma combinação destes fatores. O risco não é de insolvência, por causa da posição privilegiada que têm os EUA na economia internacional, mas o rumo é arriscado, especialmente em uma situação de preparação para uma conflagração em larga escala. A pergunta-chave que os economistas americanos fazem refere-se à dinâmica da dívida: a relação dívida/PIB vai se estabilizar ou não? Isso depende do crescimento, do nível dos juros, do resultado primário e da demanda por títulos do Tesouro dos EUA.

A dívida pública se tornou um problema sistêmico global, especialmente depois da pandemia de 2020/21. A razão dívida pública global/PIB saiu de cerca de 84% em 2019 para algo em torno de 90% do PIB em 2022–2023, com projeção de se aproximar de 100% do PIB em pouco tempo. Em agosto de 2025, a razão dívida pública global/PIB estava estimada em aproximadamente 95,1%, segundo o FMI. Entre os países imperialistas, a maior relação dívida/PIB é a do Japão, acima de 200%, exigindo forte atuação do Banco do Japão para não sair de controle.

Há vários fatores para o aumento do endividamento dos países, como a mudança na estrutura demográfica, que pressiona previdência e saúde, choques de energia e alimentos etc. Mas é muito importante o ciclo de alta de juros, a partir de 2022, que elevou o serviço da dívida em todo o mundo. Em países onde o perfil da dívida é de curto e médio prazos, a deterioração da relação dívida/PIB ocorreu mais rapidamente. O aumento da economia informal e regimes tributários regressivos (como o do Brasil) dificultam muito o ajuste pelo lado da receita.

Os efeitos do aumento da dívida sobre a economia mundial são muito danosos. As dúvidas sobre a sustentabilidade fiscal das economias elevam os spreads (diferença de rendimento entre um título de dívida e uma taxa de referência considerada mais segura) soberanos e corporativos, produzindo um contágio regional. A dívida elevada dificulta as políticas públicas de forma geral, inclusive a capacidade do governo de realizar ações anticíclicas, o que reduz a capacidade de estabilização econômica e de investimento público.

Ao mesmo tempo em que uma dívida considerada impagável por alguns analistas é um sério problema para os EUA, a concentração de boa parte da dívida no país reforça o poder dos EUA. Os títulos do Tesouro norte-americano são o principal ativo seguro do sistema financeiro e referência da tendência global de juros. Isso provoca uma forte demanda por esses títulos, o que fornece uma garantia para o financiamento da dívida. Simultaneamente, a ainda predominância do dólar como instrumento de reservas e transações financeiras internacionais, e o monopólio da emissão dessa moeda, inclusive sem lastro, fornecem aos EUA um poder único no mundo.

Por isso, não deixa de ser surpreendente que a economia russa continue crescendo acima da média global, mesmo sendo o país mais sancionado da história do mundo (entre cerca de 16 mil e 20 mil medidas, com diferentes tipos de sanções). À distância, é impossível avaliar o que é sofrer amplos controles nas exportações, profundas sanções financeiras (bancos, bolsa etc.) e ser sancionado em áreas estratégicas como energia, defesa e tecnologia.

A maior parte dos pagamentos internacionais é realizada em dólar e com base em infraestrutura sediada nos EUA, como, por exemplo, os bancos correspondentes. Obviamente, os negócios realizados em dólar se submetem às leis e à regulação financeira norte-americanas. Como quase toda grande instituição no mundo necessita do dólar e de bancos americanos, o governo dos EUA impõe sanções que retiram o acesso de indivíduos, empresas e países.

Os EUA, inclusive, impõem sanções secundárias, ou seja, se um banco de outro país negociar com um sancionado, está sujeito a perder o acesso ao dólar, o que leva as instituições a não negociarem com empresas ou países sancionados. Os EUA são o único país do mundo que tem esse poder, o qual usa com muita frequência, sem se fazer de rogado: atualmente têm algo acima de 16.000 sanções ativas contra pessoas físicas, empresas e países.

Nesse momento, o que os países imperialistas estão operando, com a liderança dos EUA, é a construção das condições para uma grande conflagração mundial. Negociar com seus inimigos (principalmente China e Rússia) seria dar condições para fortalecê-los. Dadas as condições econômicas atuais, isso seria um perigo mortal para a existência do próprio imperialismo.

Politicamente, a China é um “péssimo exemplo” para os países oprimidos, porque, além de ter colocado em marcha um projeto de desenvolvimento nacional e soberano muito bem-sucedido, o fez com base em uma concepção de que é possível um país se desenvolver e melhorar a vida de seu povo sem fazer guerra e rejeitando a farsa da “democracia liberal”.

Para o Estado brasileiro, seria fundamental enfrentar o problema da dívida pública, pois os recursos atualmente roubados pelos serviços da dívida são essenciais para enfrentar os desafios internacionais e os grandes problemas nacionais. O Brasil segue preso ao papel de exportador de commodities, sem controle da cadeia de valor industrial, refém do sobe e desce dos preços das commodities. A ausência de uma perspectiva de desenvolvimento soberano de forma geral, além da ausência de política industrial, reforça a dominação de empresas multinacionais na economia brasileira.

Os bancos operam para que o Estado gaste cada vez menos com desenvolvimento e com as necessidades da população. O controle da dívida pública por parte das instituições financeiras não é apenas uma fonte caudalosa de dinheiro fácil e garantido; é também um instrumento de controle do Estado pelo capital financeiro. Os mecanismos de controle são vários. Por exemplo, os bancos e rentistas, de forma sistemática, estabelecem “critérios de mercado” que funcionam como vetos indiretos sobre políticas públicas, especialmente as mais importantes.

A conjuntura dos últimos anos mostrou de forma cabal quem manda verdadeiramente no país. Independentemente de quem esteja no governo (golpistas de 2016, extrema direita ou esquerda), os serviços da dívida continuam sendo regiamente pagos, comprometendo quase metade do orçamento público federal e condenando o país à condição semicolonial.

 

Fonte: Outras Palavras/Brasil 247

 

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