Pochmann:
Os dados do Brasil em mãos privadas
A Era
Digital inaugurou um novo regime informacional. Diferentemente das sociedades
agrárias e da sociedade urbano-industrial, onde o Estado media a realidade
principalmente por censos, registros administrativos e pesquisas amostrais,
hoje grande parte dos sinais sobre comportamento, consumo, mobilidade e
operação econômica é produzida continuamente, em alta granularidade, e
capturada por empresas privadas.
Isso
reorganiza a forma de governar populações e territórios, pois quem mede melhor,
decide melhor. O ponto central é a diferença entre dados desenhados para medir
(estatística oficial) e dados extraídos por plataformas e infraestruturas
pertencentes a oligopólios de grandes empresas estrangeiras.
A
estatística oficial é construída com conceitos estáveis, documentação
metodológica, desenho amostral, deveres de sigilo e padrões profissionais que
garantem comparabilidade e confiança pública. Já os dados digitais nascem como
subproduto de serviços: cliques, transações, geolocalização, logística,
reputação, cadastro e metadados que são altamente escaláveis e interoperáveis,
porém, orientados por incentivos de interesses estritamente privados.
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De onde vêm os sinais do novo ecossistema de dados
Hoje,
uma fração relevante dos registros sobre pessoas, governo, estabelecimentos e
negócios passa a existir como rastros digitais. As fontes são diversas como as
plataformas e redes sociais que indicam preferências, relações e padrões de
engajamento (curtidas, interações, conteúdo geolocalizado), bem com da
telefonia móvel e GPS de aplicativos que permitem inferir mobilidade, densidade
populacional e fluxos internos quase em tempo real.
Também
os sistemas de pagamentos e consumo, como cartões, carteiras digitais,
programas de fidelidade e bancos digitais passam a descrever o perfil do
consumo e comportamento da atividade econômica em nível micro. Assim, a
internet das coisas (IoT) e dispositivos inteligentes registram rotinas,
hábitos e, em alguns casos, dados sensíveis (wearables, TVs, sensores), ao
passo que a navegação e publicidade por meio de cookies, histórico de busca e
perfis de anúncios capturam interesses e padrões de atenção.
A
transformação digital no setor público informatizou rotinas, passando a gerar
dados de processo e de interação (logs, trilhas de serviço, registros
transacionais e documentos nativamente digitais) em escala antes impraticável.
No Executivo, avançam sistemas e serviços digitais com grande capacidade
transacional e interfaces (API’ s), como os ecossistemas fiscais/contábeis e
obrigações trabalhistas/previdenciárias, além de portais de transparência e
dados abertos.
Nos
serviços digitais, o rastro da jornada do cidadão (etapas, tempos, taxas de
resolução, requisições) cria uma base valiosa para gestão e avaliação de
políticas públicas, mas também eleva os riscos de uso indevido, reidentificação
e vigilância.
O
processo de digitalização também se estendeu aos demais Poderes. No caso do
Judiciário, por exemplo, os processos eletrônicos e bases estatísticas
ampliaram a produção e a abertura de dados, com painéis e serviços de consulta,
enquanto no Legislativo, os dados abertos sobre deliberação, fiscalização,
orçamento e processo legislativo fortalecem o acompanhamento em tempo real.
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O descompasso que redefine a desigualdade informacional
Nos
dias de hoje prevalece um profundo desequilíbrio estrutural no interior do
padrão de governança de população e território. De um lado, os sinais
granulares e contínuos, concentrados em plataformas e infraestruturas privadas
e, de outro, a estatística oficial que preserva o rigor, a representatividade e
comparabilidade operada em ciclos mais lentos e com instrumentos concebidos por
outro regime tecnológico.
O risco
não é falta de dados, mas a perda de capacidade estatal legítima de medir e
explicar, quando a informação mais detalhada passa a estar fora do Estado e,
muitas vezes, fora de arranjos robustos de transparência e auditabilidade. A
distinção entre dados para medir e dados para operar ajuda a entender porque a
abundância informacional pode piorar, e não melhorar, o debate público.
A
estatística oficial se apoia em princípios reconhecidos internacionalmente:
profissionalismo, métodos científicos, transparência sobre fontes e limitações,
e proteção de confidencialidade. Isso não é detalhe técnico, mas o contrato que
sustenta a legitimidade da mensuração dos dados oficiais.
Quando
dados extraídos do setor privado são importados diretamente para inferir
emprego, preços, mobilidade, consumo ou dinâmica de estabelecimentos, surgem
duas crises, a de comparabilidade e a de legitimidade.
Nos
dados extraídos em plena Era Digital, prevalece a mudança inerente às
aletrações de produtos e os processos, pois respondem a interfaces, regras de
negócio, algoritmos, políticas de privacidade e incentivos comerciais. O que
entra e sai do dado pode variar sem aviso, quebrando séries históricas e
confundindo fenômenos no mundo da intransparência e fake news.
Além
disso, a cobertura raramente coincide com a população-alvo da estatística. Ao
se observar o universo de usuários de uma plataforma, clientes de um meio de
pagamento ou participantes de um marketplace não se encontra necessariamente
residentes, trabalhadores ou firmas, conforme definições oficiais. Sem o
tratamento explícito de vieses, estabilidade e harmonização conceitual, o risco
é substituir estatística por telemetria operacional que pode ser útil para
gestão privada, porém frágil como evidência pública de longo prazo e
orientadora de políticas públicas.
A
pergunta deixa de ser apenas o que o dado mostra para quem mede, com qual
finalidade, sob quais salvaguardas e com que possibilidade de escrutínio
público? No Brasil, esse debate é moldado por duas exigências simultâneas.
De uma
parte, a finalidade, necessidade (minimização), transparência e
responsabilização no tratamento de dados pessoais contempladas pela Lei Geral
de proteção de Dados (LGPD). De outra pelo direito de acesso, transparência
ativa e passiva, e dever de prestação de contas definida pela Lei de Acesso à
Informação (LAI).
Num
ambiente em que utilidade cresce com granularidade e com a capacidade de ligar
bases, o reúso de dados extraídos sem governança pode ser percebido como
vigilância, captura privada de evidência pública ou estatística opaca que
corrói confiança.
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O problema também é interno ao Estado
Como o
próprio Estado passou a produzir dados operacionais em grande escala, o desafio
não se limita ao setor privado. Em todos os Poderes e níveis federativos,
cresce a necessidade de coordenação, padrões, proteção de privacidade e
arquitetura de dados para transformar rastros digitais em capacidade estatal
legítima, e não em acúmulo desordenado de bases.
Integrar
fontes digitais ao regime de evidência pública não se resume em juntar bases. É
necessário construir governança que preserve comparabilidade e confiança,
respeite direitos, e permita uso público responsável. Um modelo consistente é a
arquitetura em camadas.
Inicialmente
a camada aberta e agregada dos dados públicos e indicadores com transparência e
reúso. Na sequência a camada de acesso controlado pela estatística e a ciência
garantindo ambientes seguros, auditoria, minimização e regras claras de
finalidade.
Por
fim, a camada operacional restrita a dados identificáveis limitados à prestação
do serviço, com controles fortes. Essa arquitetura traduz, no plano
operacional, a combinação de finalidade/necessidade (LGPD) com transparência
(LAI) e com as garantias de confiança associadas à estatística oficial.
No eixo
técnico-institucional, é crucial institucionalizar padrões específicos para
dados extraídos, incluindo a avaliação de cobertura e vieses, a estabilidade
temporal e o controle de versões com a rastreabilidade de transformações
(linhagem do dado), a documentação metodológica e mapeamento conceitual para
classificações oficiais e a auditoria e métricas de qualidades apropriadas à
big data e à nuvem soberana.
No eixo
político-jurídico, o ponto decisivo é que a governança seja interinstitucional
e federativa, respeitando a separação de Poderes, mas convergindo em padrões
mínimos de operabilidade. A finalidade estatística definida com salvaguardas
contra reidentificação e inclusão de trilhas de auditoria, transparência
metodológica de indicadores e mecanismos de acesso seguro que evitem circulação
ampla de microdados.
Em
síntese, a desigualdade informacional cresce quando a granularidade, velocidade
e capilaridade dos dados se concentram fora do Estado e fora de regimes
auditáveis. As estatísticas oficiais seguem sendo a referência pública de
legitimidade e comparabilidade, mas precisam urgentemente de uma nova
governança para dialogar com o inédito ecossistema digital.
Por
isso, integrar tudo não apenas juntar bases. Mas construir um regime público de
evidência em que o digital amplie a capacidade estatal e a qualidade do
conhecimento sem substituir a legitimidade estatística por rastros sem
transparência e direitos por opacidade e vigilância.
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Por que uma análise de conjuntura? Por Emir Sader
Qualquer
força política que pretenda desempenhar um papel no século XXI tem que se dar
conta das condições em que terá que atuar. A compreensão dessas condições
torna-se indispensável para que tenha sucesso na disputa e possa ter um
desempenho acorde com os novos fenômenos que caracterizam o novo século.
Essa
análise precisa, antes de tudo, partir de uma visão do mundo contemporâneo, dos
protagonistas em disputa, dos maiores desafios em jogo e de uma perspectiva de
futuro.
O
primeiro elemento novo e determinante no mundo atual é o declínio, ou até mesmo
a decadência, da hegemonia norte-americana. Se o século XX foi um século
norte-americano, por sua força política, econômica, tecnológica, cultural e
militar indiscutíveis, este século apresenta um quadro distinto.
O
predomínio norte-americano se baseava nesses fatores, assim como na ausência de
um campo oposto com força em todos esses planos. A Guerra Fria apresentava um
relativo equilíbrio apenas porque o campo oposto, liderado pela União
Soviética, havia tido acesso à bomba atômica, retirando dos Estados Unidos o
monopólio no campo militar.
Qualquer
iniciativa militar de um campo teria uma resposta imediata do outro, o que
levaria o mundo a uma catástrofe. Essa situação-limite é o que impediu — e
segue impedindo — a existência de uma terceira guerra mundial, que levaria o
mundo à destruição.
Este
século já não é um século norte-americano. Diante do bloco liderado pelos
Estados Unidos, que segue contando com a Europa e o Japão, surgiu um novo bloco
— os Brics —, que reúne a força econômica e tecnológica da China, o poderio
militar da Rússia, a capacidade de articulação política do Brasil e uma longa
série de países já incorporados ao grupo, incluindo antigos aliados dos Estados
Unidos, como países petroleiros do Oriente Médio, além daqueles que pretendem
se somar a esse movimento.
Por sua
vez, o segundo mandato de Donald Trump representa quase uma espécie de suicídio
político dos Estados Unidos, ao buscar afirmar interesses próprios do país em
contraposição aos de praticamente todos os outros campos.
Nunca
os Estados Unidos estiveram tão isolados na América Latina. Vários de seus
tradicionais aliados — México e Colômbia, entre eles — assumem posições
distintas e, em alguns casos, opostas às do império em declínio. A política de
uso de tarifas comerciais, que já se revelou inócua diante do Brasil, promove
movimentos de reação e isolamento do governo norte-americano.
A
própria Europa, antiga aliada dos Estados Unidos, ao se ver atacada — inclusive
de forma grosseira, como nas ambições de apropriação da Groenlândia e na
imposição de tarifas — passa a se distanciar, pela primeira vez de forma
explícita, da potência norte-americana. Até mesmo o Canadá, vizinho que o
governo Trump chegou a pretender anexar, estabelece acordos estratégicos com a
China.
O
isolamento promovido pelo governo de Donald Trump apenas acentua o declínio ou
a decadência do império norte-americano, favorecendo a atuação da China e a
expansão dos Brics.
Ao
mesmo tempo, o neoliberalismo fracassou, tanto na Europa quanto na América
Latina. Não há país que, tendo adotado esse modelo, esteja bem. Em contraste,
os que adotam políticas antineoliberais apresentam melhores resultados.
Esse
novo cenário afeta diretamente a atuação do Brasil e de todos os protagonistas
que operam no país — governos, partidos, empresas estatais e privadas,
movimentos sociais. São fatores tão determinantes que exigem análises de
conjuntura iniciadas no plano internacional, passando pelo latino-americano e,
depois, concentrando-se no Brasil.
O
governo Lula conseguiu fazer com que a economia voltasse a crescer, alcançou o
que pode ser considerado pleno emprego e manteve o controle da inflação. Apesar
de não dispor de maioria no Congresso, o que o obriga a firmar alianças e até a
incorporar forças de centro ao governo, conseguiu dar continuidade à prioridade
das políticas sociais que sempre caracterizou os governos do PT. Reforçou o
Estado como elemento de propulsão do crescimento econômico, de regulação da
economia e de projeção do país no plano internacional.
Dessa
forma, Lula aparece como o candidato que derrotaria todos os seus eventuais
adversários em uma disputa por um quarto mandato do PT. A direita não consegue
se unificar em torno de um nome, dividida entre o governador de São Paulo —
aparentemente o preferido do grande empresariado — e um filho de Bolsonaro, que
desponta em melhores condições nas pesquisas.
A
direita brasileira segue sendo predominantemente bolsonarista, mesmo com seu
principal líder condenado e preso, e, sobretudo, sem apresentar qualquer
herança positiva de seu governo. O debate de campanha tende, assim, a se
mostrar mais favorável a Lula, que pode propor a continuidade dos programas
bem-sucedidos do governo atual e a necessidade de seu aprofundamento.
Outro
tipo de análise de conjuntura é possível, ainda que tenha dificuldades para
contornar os elementos aqui apresentados. O que é absolutamente indispensável,
porém, é a existência de uma análise de conjuntura — internacional,
latino-americana e brasileira — sem a qual se atuaria sem qualquer bússola
capaz de orientar governos, partidos, empresas estatais e privadas e movimentos
sociais.
A
ausência de uma compreensão adequada das condições em que se atua ampliaria
enormemente os riscos e as possibilidades de erro, fazendo com que, em vez de
aproveitar condições favoráveis, se tropeçasse nelas e se perdessem ótimas
oportunidades.
Fonte:
A Terra é Redonda/Brasil 247

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