segunda-feira, 26 de janeiro de 2026

Família Vorcaro, do Banco Master, faz obra irregular em beach club pé na areia na Bahia

Um vídeo publicado em 14 de janeiro pelo ativista ambiental Tadeu Prosdocimi levantou uma suspeita contra a obra de um beach club no sul da Bahia. No vídeo, Prosdocimi caminha pela areia da Praia de Araçaípe, em Arraial d’Ajuda, distrito de Porto Seguro. O cenário, emoldurado por canoas coloridas e coqueiros, é um retrato do paraíso que atrai muitos turistas. Mas a câmera logo se vira para uma clareira recém-aberta na vegetação que margeia a praia. Onde antes havia um denso ecossistema, agora há terra revolvida e troncos cortados. “Crime na cara de todos, mas ninguém viu!”, narra Prosdocimi na postagem publicada no seu Instagram.

O que pouca gente sabia é que a obra, na Estrada da Balsa, importante via local, é realizada pela empresa Milo Investimentos S.A, segundo documentos da propriedade obtidos pela Agência Pública com exclusividade. Nos registros, os donos têm nomes ligados à família Vorcaro: Henrique Moura Vorcaro e sua filha, Natalia Bueno Vorcaro Zettel são, respectivamente, pai e irmã de Daniel Vorcaro, o banqueiro no centro do escândalo do Banco Master, investigado pela Polícia Federal (PF) por uma suspeita de fraude que pode ser a maior da história do sistema financeiro brasileiro.

<><> Obra em terreno milionário começou sem autorização

Em Arraial d’Ajuda, a denúncia de Prosdocimi em redes sociais tornou-se um caso formal. O Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) confirmou a irregularidade da obra à reportagem. Estimativas do mercado imobiliário local indicam que o valor do terreno, de aproximadamente 6 mil metros quadrados, algo como um campo de futebol, pode variar entre R$ 15 a 25 milhões, mas o valor oficial do terreno não pôde ser confirmado.

A área em questão é uma restinga, formação vegetal crucial para o equilíbrio da zona costeira. Definida pelo Código Florestal como Área de Preservação Permanente (APP), a restinga funciona como uma barreira natural que protege a costa da erosão marinha e fixa as dunas.

Por fazer parte do Conjunto Arquitetônico e Paisagístico de Porto Seguro, uma área tombada, qualquer intervenção na região, seja construção, reforma ou demolição, necessita de autorização prévia do IPHAN. A análise do órgão foca na preservação da paisagem, que está diretamente ligada à vegetação nativa, como a restinga.

Em vistoria realizada em 8 de janeiro de 2026, técnicos do IPHAN constataram a “continuidade da obra irregular” e a “integral supressão” da vegetação de restinga para a construção de um empreendimento com piscina e estruturas de madeira, já em fase de finalização. Segundo apurado pela reportagem, uma primeira vistoria em novembro do ano anterior já havia identificado a obra em estágio avançado e sem qualquer projeto apresentado ao órgão. A supressão completa da vegetação, confirmada na segunda visita, configurou um dano ao patrimônio paisagístico, o que pode levar ao embargo da obra e à emissão de um auto de infração. Fontes afirmam que, no estado atual, dificilmente a obra seria passível de regularização.

Em ofício de 14 de janeiro, o IPHAN em Porto Seguro reiterou a ausência de respostas da Prefeitura Municipal de Porto Seguro sobre a regularidade da obra e solicita que a Secretaria do Patrimônio da União (SPU) seja notificada para informar sobre a situação da área, que provavelmente se sobrepõe a terrenos de marinha. Para o IPHAN, a construção não possui as licenças necessárias e sem a chancela do instituto, qualquer autorização municipal perde a validade.

A suspeita de ilegalidade se soma a outra: a lei municipal proíbe a emissão de licenças para imóveis com débitos, e a propriedade da Milo Investimentos possui dívidas de IPTU desde 2022 que somam pouco mais de R$ 8 mil o que, por si só, inviabilizaria a autorização.

<><> Prefeitura de Porto Seguro em silêncio

Após publicar o vídeo, Prosdocimi relatou à reportagem que um homem o procurou e se apresentou como Genaro Campos. Na conversa, ele teria defendido a legalidade da obra. Segundo relato do ativista, Genaro teria argumentado que a área era sua e que a remoção da vegetação foi uma “ação da Prefeitura”.

Procurado, Genaro Campos conversou com a Pública e se identificou como locatário da área e responsável pela obra, confirmando a relação de parceria com Henrique Vorcaro e defendendo a legalidade do empreendimento. Ele afirmou que se trata de uma reforma de uma casa existente há mais de 40 anos e que possui um alvará de reforma emitido pela Prefeitura em 2024. Sobre a supressão da vegetação, Campos alegou que a remoção foi de uma planta invasora e não de restinga e que foi realizada pela própria Prefeitura. Em relação à fiscalização do Iphan, ele declarou que aguarda a notificação oficial do órgão para apresentar os projetos e regularizar as estruturas adicionadas, como o pergolado e a piscina. Segundo ele, por se tratar de uma reforma, a regularização pode ser feita posteriormente à fiscalização.

A Prefeitura de Porto Seguro foi procurada, mas não retornou até a publicação.

<><> Vorcaro e a Milo Investimentos S.A

A Milo Investimentos S.A., com um capital social de R$ 15 milhões e sede em um luxuoso endereço em Nova Lima (MG), tem como diretores, Henrique Moura Vorcaro e Natalia Bueno Vorcaro Zettel.

Em 14 de janeiro de 2026, a Polícia Federal deflagrou a Operação Compliance Zero, a segunda fase da investigação sobre as fraudes no Banco Master. Entre os alvos de busca e apreensão estavam justamente Henrique e Natalia, donos do imóvel em Arraial. A operação investiga um esquema de desvio de recursos do banco para o patrimônio pessoal de Daniel Vorcaro e seus familiares. A PF aponta para uma transferência suspeita de R$ 9 milhões para Henrique Vorcaro, um empresário com participação em mais de 50 empresas e dono de uma mansão de R$ 180 milhões na Flórida.

Natalia, por sua vez, é casada com Fabiano Campos Zettel, também alvo da operação. Pastor evangélico e fundador do fundo de investimentos Moriah Asset, Zettel foi detido recentemente no Aeroporto de Guarulhos, em São Paulo, quando tentava embarcar para Dubai, nos Emirados Árabes Unidos. Ele ficou conhecido por ser o maior doador individual das campanhas de Jair Bolsonaro e Tarcísio de Freitas em 2022, com repasses que somam R$ 5 milhões, como noticiou a Pública. As conexões da família se estendem ainda ao universo religioso, com relatos de que Henrique Vorcaro chegou a quitar uma dívida do pastor André Valadão, líder da Igreja da Lagoinha, da qual Zettel também faz parte.

•        Banco Central decreta liquidação do Will Bank, banco digital do Master

O Banco Central decidiu nesta quarta-feira (21) decretar a liquidação extrajudicial do Will Bank, banco digital pertencente ao grupo Master. A instituição estava desde novembro sob regime de administração especial temporária, medida aplicada quando há indícios de problemas graves, mas ainda existe a possibilidade de recuperação ou venda do ativo.

Segundo o BC, a decisão ocorre "em razão do comprometimento da sua situação econômico-financeira, da sua insolvência e do vínculo de interesse, evidenciado pelo exercício do poder de controle do Banco Master S.A", liquidado em 18 de novembro.

A expectativa inicial do regulador era de que o Will Bank pudesse ser negociado com investidores interessados, o que levou o BC a preservar suas operações quando anunciou, em 18 de novembro, a liquidação do Banco Master. No entanto, as tratativas não avançaram e o prazo máximo de 120 dias do regime especial se aproximava do fim sem uma solução concreta.

A liquidação é adotada quando o Banco Central conclui que a situação de uma instituição financeira é considerada irreversível. Nesse cenário, todas as atividades são interrompidas e o banco é retirado oficialmente do Sistema Financeiro Nacional. Com a medida, também ficam indisponíveis os bens dos controladores e dos ex-administradores da instituição.

Antes mesmo do anúncio oficial, a bandeira Mastercard já havia suspendido a aceitação de transações realizadas com cartões emitidos pelo Will Bank. A decisão ocorreu após operações feitas por clientes não terem sido devidamente liquidadas pelo banco junto aos participantes do arranjo de pagamentos. A iniciativa buscou evitar a ampliação do montante devido pelo Will Bank.

Além da suspensão, a Mastercard executou garantias relacionadas a dívidas do banco digital, passando a deter participações relevantes na varejista de móveis Westwing e no BRB (Banco de Brasília). Essas garantias estavam vinculadas às obrigações financeiras do Will Bank dentro do sistema de pagamentos.

No regime de administração especial temporária, as operações do banco são mantidas, embora seus dirigentes percam o mandato. Já na liquidação, o funcionamento é totalmente encerrado, com impactos diretos para clientes, credores e para o próprio sistema financeiro.

Fundado em 2017 e adquirido pelo grupo Master em 2024, o Will Bank fechou o primeiro semestre com R$ 14,4 bilhões em ativos, prejuízo acumulado de R$ 244,7 milhões e patrimônio líquido em torno de R$ 300 milhões, de acordo com dados do Banco Central. Em setembro, a instituição mantinha R$ 6,5 bilhões em depósitos a prazo e não possuía saldo em depósitos à vista, como contas correntes.

A frustração da venda do Will Bank tende a ampliar as perdas do Fundo Garantidor de Créditos (FGC). O fundo deverá indenizar até R$ 250 mil por investidor, alcançando cerca de 800 mil pessoas físicas e jurídicas detentoras de CDBs e outros títulos garantidos emitidos pelo grupo Master. O valor total estimado é de R$ 40,6 bilhões, a maior indenização já realizada pelo FGC.

Paralelamente, a crise do grupo Master segue sob investigação policial. Na semana passada, a Polícia Federal deflagrou a segunda fase da Operação Compliance Zero, que apura o uso de fundos de investimento para inflar artificialmente o patrimônio do Banco Master. Essa etapa teve como alvos endereços ligados a Daniel Vorcaro, proprietário do grupo, a familiares e a empresários, entre eles Nelson Tanure e João Carlos Mansur, ex-dono da gestora Reag, também liquidada pelo Banco Central e investigada por suspeitas de ligação com o crime organizado.

Na primeira fase da operação, em novembro, Daniel Vorcaro foi preso sob a acusação de liderar um esquema de criação de carteiras falsas de crédito, que teriam sido usadas para inflar o balanço do Banco Master antes de uma tentativa de venda ao BRB. Ele foi libertado menos de duas semanas depois, mas segue sendo monitorado por meio de tornozeleira eletrônica.

 

Fonte: Por Thiago Domenici, da Agencia Pública/Brasil 247

 

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