Família
Vorcaro, do Banco Master, faz obra irregular em beach club pé na areia na Bahia
Um
vídeo publicado em 14 de janeiro pelo ativista ambiental Tadeu Prosdocimi
levantou uma suspeita contra a obra de um beach club no sul da Bahia. No vídeo,
Prosdocimi caminha pela areia da Praia de Araçaípe, em Arraial d’Ajuda,
distrito de Porto Seguro. O cenário, emoldurado por canoas coloridas e
coqueiros, é um retrato do paraíso que atrai muitos turistas. Mas a câmera logo
se vira para uma clareira recém-aberta na vegetação que margeia a praia. Onde
antes havia um denso ecossistema, agora há terra revolvida e troncos cortados.
“Crime na cara de todos, mas ninguém viu!”, narra Prosdocimi na postagem
publicada no seu Instagram.
O que
pouca gente sabia é que a obra, na Estrada da Balsa, importante via local, é
realizada pela empresa Milo Investimentos S.A, segundo documentos da
propriedade obtidos pela Agência Pública com exclusividade. Nos registros, os
donos têm nomes ligados à família Vorcaro: Henrique Moura Vorcaro e sua filha,
Natalia Bueno Vorcaro Zettel são, respectivamente, pai e irmã de Daniel
Vorcaro, o banqueiro no centro do escândalo do Banco Master, investigado pela
Polícia Federal (PF) por uma suspeita de fraude que pode ser a maior da
história do sistema financeiro brasileiro.
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Obra em terreno milionário começou sem autorização
Em
Arraial d’Ajuda, a denúncia de Prosdocimi em redes sociais tornou-se um caso
formal. O Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN)
confirmou a irregularidade da obra à reportagem. Estimativas do mercado
imobiliário local indicam que o valor do terreno, de aproximadamente 6 mil
metros quadrados, algo como um campo de futebol, pode variar entre R$ 15 a 25
milhões, mas o valor oficial do terreno não pôde ser confirmado.
A área
em questão é uma restinga, formação vegetal crucial para o equilíbrio da zona
costeira. Definida pelo Código Florestal como Área de Preservação Permanente
(APP), a restinga funciona como uma barreira natural que protege a costa da
erosão marinha e fixa as dunas.
Por
fazer parte do Conjunto Arquitetônico e Paisagístico de Porto Seguro, uma área
tombada, qualquer intervenção na região, seja construção, reforma ou demolição,
necessita de autorização prévia do IPHAN. A análise do órgão foca na
preservação da paisagem, que está diretamente ligada à vegetação nativa, como a
restinga.
Em
vistoria realizada em 8 de janeiro de 2026, técnicos do IPHAN constataram a
“continuidade da obra irregular” e a “integral supressão” da vegetação de
restinga para a construção de um empreendimento com piscina e estruturas de
madeira, já em fase de finalização. Segundo apurado pela reportagem, uma
primeira vistoria em novembro do ano anterior já havia identificado a obra em
estágio avançado e sem qualquer projeto apresentado ao órgão. A supressão
completa da vegetação, confirmada na segunda visita, configurou um dano ao
patrimônio paisagístico, o que pode levar ao embargo da obra e à emissão de um
auto de infração. Fontes afirmam que, no estado atual, dificilmente a obra
seria passível de regularização.
Em
ofício de 14 de janeiro, o IPHAN em Porto Seguro reiterou a ausência de
respostas da Prefeitura Municipal de Porto Seguro sobre a regularidade da obra
e solicita que a Secretaria do Patrimônio da União (SPU) seja notificada para
informar sobre a situação da área, que provavelmente se sobrepõe a terrenos de
marinha. Para o IPHAN, a construção não possui as licenças necessárias e sem a
chancela do instituto, qualquer autorização municipal perde a validade.
A
suspeita de ilegalidade se soma a outra: a lei municipal proíbe a emissão de
licenças para imóveis com débitos, e a propriedade da Milo Investimentos possui
dívidas de IPTU desde 2022 que somam pouco mais de R$ 8 mil o que, por si só,
inviabilizaria a autorização.
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Prefeitura de Porto Seguro em silêncio
Após
publicar o vídeo, Prosdocimi relatou à reportagem que um homem o procurou e se
apresentou como Genaro Campos. Na conversa, ele teria defendido a legalidade da
obra. Segundo relato do ativista, Genaro teria argumentado que a área era sua e
que a remoção da vegetação foi uma “ação da Prefeitura”.
Procurado,
Genaro Campos conversou com a Pública e se identificou como locatário da área e
responsável pela obra, confirmando a relação de parceria com Henrique Vorcaro e
defendendo a legalidade do empreendimento. Ele afirmou que se trata de uma
reforma de uma casa existente há mais de 40 anos e que possui um alvará de
reforma emitido pela Prefeitura em 2024. Sobre a supressão da vegetação, Campos
alegou que a remoção foi de uma planta invasora e não de restinga e que foi
realizada pela própria Prefeitura. Em relação à fiscalização do Iphan, ele
declarou que aguarda a notificação oficial do órgão para apresentar os projetos
e regularizar as estruturas adicionadas, como o pergolado e a piscina. Segundo
ele, por se tratar de uma reforma, a regularização pode ser feita
posteriormente à fiscalização.
A
Prefeitura de Porto Seguro foi procurada, mas não retornou até a publicação.
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Vorcaro e a Milo Investimentos S.A
A Milo
Investimentos S.A., com um capital social de R$ 15 milhões e sede em um luxuoso
endereço em Nova Lima (MG), tem como diretores, Henrique Moura Vorcaro e
Natalia Bueno Vorcaro Zettel.
Em 14
de janeiro de 2026, a Polícia Federal deflagrou a Operação Compliance Zero, a
segunda fase da investigação sobre as fraudes no Banco Master. Entre os alvos
de busca e apreensão estavam justamente Henrique e Natalia, donos do imóvel em
Arraial. A operação investiga um esquema de desvio de recursos do banco para o
patrimônio pessoal de Daniel Vorcaro e seus familiares. A PF aponta para uma
transferência suspeita de R$ 9 milhões para Henrique Vorcaro, um empresário com
participação em mais de 50 empresas e dono de uma mansão de R$ 180 milhões na
Flórida.
Natalia,
por sua vez, é casada com Fabiano Campos Zettel, também alvo da operação.
Pastor evangélico e fundador do fundo de investimentos Moriah Asset, Zettel foi
detido recentemente no Aeroporto de Guarulhos, em São Paulo, quando tentava
embarcar para Dubai, nos Emirados Árabes Unidos. Ele ficou conhecido por ser o
maior doador individual das campanhas de Jair Bolsonaro e Tarcísio de Freitas
em 2022, com repasses que somam R$ 5 milhões, como noticiou a Pública. As
conexões da família se estendem ainda ao universo religioso, com relatos de que
Henrique Vorcaro chegou a quitar uma dívida do pastor André Valadão, líder da
Igreja da Lagoinha, da qual Zettel também faz parte.
• Banco Central decreta liquidação do Will
Bank, banco digital do Master
O Banco
Central decidiu nesta quarta-feira (21) decretar a liquidação extrajudicial do
Will Bank, banco digital pertencente ao grupo Master. A instituição estava
desde novembro sob regime de administração especial temporária, medida aplicada
quando há indícios de problemas graves, mas ainda existe a possibilidade de
recuperação ou venda do ativo.
Segundo
o BC, a decisão ocorre "em razão do comprometimento da sua situação
econômico-financeira, da sua insolvência e do vínculo de interesse, evidenciado
pelo exercício do poder de controle do Banco Master S.A", liquidado em 18
de novembro.
A
expectativa inicial do regulador era de que o Will Bank pudesse ser negociado
com investidores interessados, o que levou o BC a preservar suas operações
quando anunciou, em 18 de novembro, a liquidação do Banco Master. No entanto,
as tratativas não avançaram e o prazo máximo de 120 dias do regime especial se
aproximava do fim sem uma solução concreta.
A
liquidação é adotada quando o Banco Central conclui que a situação de uma
instituição financeira é considerada irreversível. Nesse cenário, todas as
atividades são interrompidas e o banco é retirado oficialmente do Sistema
Financeiro Nacional. Com a medida, também ficam indisponíveis os bens dos
controladores e dos ex-administradores da instituição.
Antes
mesmo do anúncio oficial, a bandeira Mastercard já havia suspendido a aceitação
de transações realizadas com cartões emitidos pelo Will Bank. A decisão ocorreu
após operações feitas por clientes não terem sido devidamente liquidadas pelo
banco junto aos participantes do arranjo de pagamentos. A iniciativa buscou
evitar a ampliação do montante devido pelo Will Bank.
Além da
suspensão, a Mastercard executou garantias relacionadas a dívidas do banco
digital, passando a deter participações relevantes na varejista de móveis
Westwing e no BRB (Banco de Brasília). Essas garantias estavam vinculadas às
obrigações financeiras do Will Bank dentro do sistema de pagamentos.
No
regime de administração especial temporária, as operações do banco são
mantidas, embora seus dirigentes percam o mandato. Já na liquidação, o
funcionamento é totalmente encerrado, com impactos diretos para clientes,
credores e para o próprio sistema financeiro.
Fundado
em 2017 e adquirido pelo grupo Master em 2024, o Will Bank fechou o primeiro
semestre com R$ 14,4 bilhões em ativos, prejuízo acumulado de R$ 244,7 milhões
e patrimônio líquido em torno de R$ 300 milhões, de acordo com dados do Banco
Central. Em setembro, a instituição mantinha R$ 6,5 bilhões em depósitos a
prazo e não possuía saldo em depósitos à vista, como contas correntes.
A
frustração da venda do Will Bank tende a ampliar as perdas do Fundo Garantidor
de Créditos (FGC). O fundo deverá indenizar até R$ 250 mil por investidor,
alcançando cerca de 800 mil pessoas físicas e jurídicas detentoras de CDBs e
outros títulos garantidos emitidos pelo grupo Master. O valor total estimado é
de R$ 40,6 bilhões, a maior indenização já realizada pelo FGC.
Paralelamente,
a crise do grupo Master segue sob investigação policial. Na semana passada, a
Polícia Federal deflagrou a segunda fase da Operação Compliance Zero, que apura
o uso de fundos de investimento para inflar artificialmente o patrimônio do
Banco Master. Essa etapa teve como alvos endereços ligados a Daniel Vorcaro,
proprietário do grupo, a familiares e a empresários, entre eles Nelson Tanure e
João Carlos Mansur, ex-dono da gestora Reag, também liquidada pelo Banco
Central e investigada por suspeitas de ligação com o crime organizado.
Na
primeira fase da operação, em novembro, Daniel Vorcaro foi preso sob a acusação
de liderar um esquema de criação de carteiras falsas de crédito, que teriam
sido usadas para inflar o balanço do Banco Master antes de uma tentativa de
venda ao BRB. Ele foi libertado menos de duas semanas depois, mas segue sendo
monitorado por meio de tornozeleira eletrônica.
Fonte:
Por Thiago Domenici, da Agencia Pública/Brasil 247

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