Em
Davos, império, arrogância e… declínio
Brutalidade
de Trump choca, mas não é raio em céu azul. Por décadas, mundo das corporações
sequestrou a riqueza coletiva e zombou da democracia e dos direitos. Resultado:
um sistema arcaico e cada vez mais indesejado, mas em crise aguda...
Enquanto
o Fórum Econômico Mundial (FEM) se reunia em Davos sob o lema “Um Espírito de
Diálogo”, os Estados Unidos assumiram o controle da infraestrutura petrolífera
da Venezuela, instalando o que o presidente Donald Trump chama de administração
norte-americana “indefinida” das reservas de petróleo do país, ao mesmo tempo
que chantageiam países europeus com sua exigência pela Groenlândia. A
desconexão entre o apelo do FEM ao diálogo e a agressão unilateral
norte-americana é, no mínimo, chocante.
A
intervenção dos EUA na América Latina pode estar assumindo novas formas, mas a
apropriação da infraestrutura petrolífera ecoa antigas apropriações de
recursos. Enquanto os participantes de Davos analisam as nuances do
“capitalismo de partes interessadas” [stakeholder capitalism], as antigas
regras da política de poder e da extração de recursos estão sendo ativadas
novamente.
Em
2019, o historiador holandês Rutger Bregman desvendou o espetáculo de Davos com
precisão cirúrgica: “Impostos, impostos, impostos. Todo o resto é conversa
fiada.” Com essas nove palavras, ele expôs o abismo entre a retórica e a
realidade, entre a linguagem da prosperidade compartilhada e a prática da
concentração de riqueza.
É claro
que as empresas devem pagar seus impostos devidos. Mas, além disso, precisamos
analisar, em primeiro lugar, como o valor é criado – não apenas a
redistribuição , mas também a pré-distribuição. Ela diz respeito a reestruturar
a forma como o valor é criado e compartilhado desde o início, e não apenas à
redistribuição de migalhas após sua extração. Requer que se criem novos
contratos sociais, com condições concretas e responsabilização. É por isso que
a estratégia industrial moderna deve ser organizada em torno de missões: metas
específicas e mensuráveis que abordem os desafios da sociedade, ao mesmo tempo
que catalisem a inovação e o investimento em todos os setores.
O
crescimento não é uma missão; é o resultado do investimento em soluções para
problemas reais. Uma missão para descarbonizar a economia, por exemplo,
transformaria simultaneamente os setores de energia, transporte, alimentação e
tecnologia digital. Uma missão para alcançar “saúde para todos” poderia
promover melhorias na saúde pública por meio da inovação em áreas como as
ciências da vida. Não se trata de favorecer um setor específico, mas de
estabelecer o papel de cada setor na concretização de uma missão.
Isso
exige liderança, confiança e atenção aos detalhes. As iniciativas de inovação
colaborativa devem ser estruturadas para evitar que pesquisas financiadas com
recursos públicos sejam privatizadas por meio de patentes muito amplas e
difíceis de licenciar, e para proibir preços excessivos que ignorem a origem do
valor.
O Reino
Unido oferece um exemplo magistral de como não estruturar parcerias
público-privadas, e o governo trabalhista, “incondicionalmente
pró-empresarial”, corre o risco de repetir erros caríssimos. Considere o
crescente domínio da empresa americana de dados e análises Palantir sobre os
serviços públicos britânicos. Durante a pandemia, a empresa ofereceu seus
serviços ao Serviço Nacional de Saúde (NHS) gratuitamente – um gesto que seu
diretor no Reino Unido comparou depois a uma assinatura experimental de revista.
Hoje, a Palantir detém contratos no valor de mais de £ 330 milhões (US$ 443
milhões) com o NHS, além de um novo contrato de defesa de £ 240 milhões
concedido sem licitação.
O
exército suíço rejeitou a Palantir após sete anos de negociações, pois
especialistas alertaram que a propriedade norte-americana da empresa criava
riscos de acesso à inteligência e que a dependência em elação a especialistas
da Palantir poderia “limitar a capacidade do exército de agir em situações de
crise”. No entanto, o novo contrato do Reino Unido com a Palantir triplica os
gastos com a empresa desde 2022, e o ministério da Defesa admite que a mudança
de fornecedor exigiria a reconstrução de toda a arquitetura de dados a um
“custo significativo”. Evitar a dependência de um único fornecedor e a
probabilidade de custos exorbitantes para o público exige contratos que incluam
condições para o desenvolvimento de capacidades estatais.
O caso
da Thames Water [que gere a água e esgotos de Londres], onde a gestora de
ativos australiana Macquarie endividou a empresa em £2 bilhões enquanto lucrava
com isso, oferece outro exemplo lamentável. Com o financiamento substancial de
infraestrutura no Reino Unido vindo de empresas como Blackstone e Macquarie, um
padrão claro emerge: riscos socializados, recompensas privatizadas e serviços
essenciais comprometidos por engenharia financeira. O Bônus para Indústria
Limpa, da semana passada, destinado à energia eólica offshore e que exige
investimento em cadeias de suprimentos britânicas, sugere que o governo está
aprendendo algumas lições. Só o tempo dirá se essas condições serão suficientes
para impedir o parasitismo.
Parcerias
público-privadas eficazes incluem condicionalidades capazes de garantir que o
apoio público gere valor público. A Lei CHIPS e a Lei de Ciência dos EUA
condicionaram o financiamento de empresas à limitação da recompra de ações, ao
investimento no desenvolvimento da força de trabalho e à oferta de creches. O
banco público alemão KfW vincula empréstimos com juros baixos a metas de
descarbonização. A estratégia do Chile para o lítio garante que as mineradoras
invistam em atividades de valor agregado no país e atendam a padrões de
sustentabilidade, com o Estado assegurando uma parcela significativa dos
lucros.
Não são
medidas antiempresariais; são estruturas pró-reciprocidade que alinham
incentivos privados com objetivos públicos. Quando o Reino Unido forneceu 65,5
milhões de libras para apoiar a vacina Oxford/AstraZeneca, exigiu que a empresa
operasse sem fins lucrativos durante a pandemia. É assim que se identifica uma
parceria genuína: riscos compartilhados, recompensas compartilhadas e propósito
compartilhado.
Por
isso, a implementação é tão importante quanto o planejamento. Construir
capacidade estatal significa resistir à tentação de terceirizar funções
essenciais para consultores. Requer coordenação interministerial, parcerias
significativas com sindicatos e empresas, e investimento em capacitação do
funcionalismo público para projetar, implementar e adaptar ferramentas, desde
licitações até infraestrutura pública digital.
A
agência de inovação sueca Vinnova demonstra essa abordagem, utilizando a
aquisição de refeições escolares “saudáveis, sustentáveis, saborosas e
acessíveis” como alavanca para transformar todo o sistema alimentar. Para
atingir esse objetivo, a Vinnova reúne agências governamentais, municípios e
atores privados de diferentes setores em torno dos objetivos comuns de saúde,
sustentabilidade e desenvolvimento local.
Esta
semana, Davos apresentará os habituais compromissos sobre capitalismo de
stakeholders, negócios com propósito e desenvolvimento sustentável. Mas, sem
mecanismos concretos – condicionalidades vinculativas, estruturas de
responsabilização e partilha equitativa de riscos que distingam os verdadeiros
criadores de valor dos parasitas – tudo continua a ser um teatro. À medida que
mais um capítulo da longa história da extração de recursos se desenrola na
América Latina, os participantes de Davos devem questionar-se: estamos
construindo parcerias genuínas ou sofisticados mecanismos de extração?
A
resposta parece clara, com os titãs da tecnologia se alinhando para jurar
lealdade a Trump: Mark Zuckerberg, da Meta, acaba com a verificação de fatos, e
Jeff Bezos, da Amazon, elimina a independência editorial do Washington Post ,
curvando-se ao poder em troca de liberdade para usar suas plataformas e extrair
valor por meio de rendas algorítmicas . Enquanto isso, executivos do setor
petrolífero discutem abertamente a divisão das reservas da Venezuela, com Trump
prometendo-lhes “segurança total” para extrair riqueza de um país em caos.
Como as
instituições multilaterais tradicionais se mostram ineficazes, precisamos de
coalizões de países dispostos a forjar novas estruturas para a governança
global. Os países que levam a sério o desenvolvimento sustentável devem
trabalhar juntos para incorporar mecanismos de consenso e desenvolver a
capacidade estatal necessária para promover o crescimento verde. Isso significa
passar de compromissos voluntários para acordos vinculativos sobre
transferência de tecnologia, financiamento verde e estruturas de inovação
compartilhada – os alicerces de uma nova ordem econômica que sirva às pessoas e
ao planeta.
O
espírito do diálogo é vazio de significado se não for acompanhado por novas
formas fundamentalmente eficazes de gerar valor. A verdadeira reciprocidade
exige novos contratos que reflitam uma relação público-privada mais simbiótica,
com condições efetivas e que compartilhem tanto os riscos quanto os benefícios.
Caso contrário, acabaremos repetindo os erros do passado. Como disse Giuseppe
Tomasi di Lampedusa : “Tudo precisa mudar para que tudo possa permanecer
igual”.
Fonte:
Por Mariana Mazzucato | Tradução: Antonio Martins, em Outras Palavras

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