Venezuela
– epitáfio para uma revolução?
Não é
nenhum mistério que um único elo unifica os diversos cenários de guerra,
atropelos e massacres que percorrem o mundo (Ucrânia, Irã, Iêmen, Venezuela,
Palestina, Groenlândia, só para citar os mais evidentes), cuja mola mestra são
as convulsões do capital financeiro norte-americano, circunstancialmente
representado pelo governo de Donald Trump. As características patológicas do
personagem não são uma “anormalidade”, mas uma componente orgânica do fenômeno.
Tanto quanto as patologias bélicas e racistas de Hitler não foram um acidente
da história, mas a tradução, em clave alemã, das necessidades prementes do
capital alemão (que lhe prestou todo seu apoio) preterido na corrida
imperialista e derrotado na Primeira Guerra Mundial. Também não é mistério que
a pomposamente denominada “nova estratégia nacional” (na verdade uma mal
alinhavada colcha mortal de retalhos) dos EUA deflagra todo tipo de
contradições, efetiva ou potencialmente violentas, com todas as outras
componentes do outrora denominado “mundo globalizado”, quer elas sejam
consideradas “adversárias”, “inimigas” ou mesmo “aliadas”. Menos atenção chama
o fato de que as ações ou ameaças guerreiras do Czar da Casa Branca não
prescindem, muito pelo contrário, da política, isto é, da exploração das
contradições políticas de amigos, aliados, concorrentes ou adversários. Se a
guerra é a continuação da política por outros meios (e esta, como completava
Carl von Clausewitz, “uma expressão concentrada do comércio”), a política
continua presente na guerra e determina sua lógica concreta.
Nos
ataques letais contra embarcações venezuelanas no Caribe e no sequestro de
Nicolás Maduro, depois da retórica inicial logo se passou ao comércio (o
petróleo) e a instalar um “civilizado” balcão de vendas do que está sendo
tomado pelos EUA pela violência. Donald Trump declarou sem papas na língua que,
na medida em que os EUA detêm o exército mais poderoso do mundo, se sentem
autorizados a fazer o que desejam ou consideram justo, sem submeter essa
“justiça” a qualquer instância, onde e contra quem quiserem, manifestando
desprezo contra os discordantes, inclusive nos próprios EUA. Na sequência
ameaçou a Colômbia, o México, Cuba, o Irã, a UE (Groenlândia) e mais uma vez a
Venezuela, se o novo governo não lhe obedecer ao pé da letra. No caso da
Groenlândia (pertencente à Dinamarca,) porta-vozes de Donald Trump reiteraram a
possibilidade de uma “compra” da ilha pelos EUA. Donald Trump está propondo
alternativas que, se rejeitadas pela Europa, justificariam uma escalada
política e militar, como aconteceu na Venezuela e como pretende fazer no Irã.
Donald Trump tem à sua disposição sanções econômicas, uma possível
desvalorização do dólar e uma divisão da OTAN na guerra da Ucrânia contra a
Rússia. Nações da União Europeia, preventivamente, anunciaram o envio
coordenado de tropas à Groenlândia para uma “missão de reconhecimento” liderada
pelas forças dinamarquesas. Desde 1951, o Tratado de Copenhague autoriza os
Estados Unidos a enviar tropas para a Groenlândia e a estabelecer bases
militares no país. O imperialismo americano pretende instalar a Cúpula Dourada,
um escudo antimíssil. A exigência de Donald Trump de anexar a Groenlândia traz
à tona a disputa imperialista com a União Europeia e a preparação para uma
guerra contra a China.
A
concorrência com a China se aguçou pelo fato deste país deter monopólios em
minerais e terras raras nos mais diversos países: milhares de patentes e acesso
preferencial a minerais na África e na América Latina, por exemplo. Na sua
expansão internacional, teceu uma vasta rede de financiamentos, infraestrutura
e suprimentos. Internamente, avançou extraordinariamente em educação, ciência,
tecnologia e inovação, se transformando na segunda potência econômica do globo,
a primeira em termos industriais. Suas mercadorias, porém, como é óbvio,
precisam de mercados, e cada vez mais em áreas submetidas ao maior ou menor
controle dos EUA, cujo poderio militar continua de pé, e é usado contra o
avanço chinês, buscando em última instância desarticular sua malha comercial
mundial, que inclui o mercado europeu e o latino-americano. O ataque
norte-americano contra a Venezuela ganha, nesse contexto, seu significado
pleno. “Estamos em um novo momento político”, é a expressão concisa com que
Delcy Rodríguez, presidente interina, descreve o que está acontecendo na
Venezuela. A intervenção dos EUA, o bombardeio implacável que durou duas horas
em Caracas, La Guaira e outros lugares, bem como a maior humilhação da história
das Forças Armadas nacionais, parecem memórias distantes, em que pesem ter
acontecido há apenas três semanas. Os eventos de 3 de janeiro rapidamente se
tornaram um acontecimento histórico, digno de ser comemorado em salas lotadas
de ativistas e para o público internacional que prefere viver em um mundo de
fantasia porque isso serve ao propósito de sustentar seus projetos políticos
nacionais. O anti-imperialismo está visivelmente ausente da atual política
venezuelana. Embora o grito de Hugo Chávez, “Malditos ianques, vão para o
inferno!”, ainda ecoe do lado de fora do Palácio de Miraflores, nas últimas
duas semanas os microfones do palácio presidencial foram silenciados, indicando
que quaisquer queixas sobre os eventos de 3 de janeiro serão feitas
exclusivamente por canais diplomáticos, numa tentativa de superar a mancha que
isso causou nas relações bilaterais entre os Estados Unidos e a Venezuela.
Enquanto
a perplexidade ainda permeia a base social do regime de Nicolás Maduro, apenas
em algumas reuniões militantes ainda se fala em criticar os americanos, e mesmo
assim, evitam mencionar o homem na Casa Branca – uma espécie de consolo para
aqueles que começam a despertar da dor da perda. A afirmação de Donald Trump,
feita na tarde de 3 de janeiro, quando o choro de mães humildes pela morte de
cem filhos ainda ecoavam por toda a pátria sitiada, não pode ser refutada pelos
fatos: Delcy Rodríguez prometeu cooperar e não repetir os erros de Maduro, que
desmantelou, entre 2014 e 2025, o programa nacional-popular – para não
mencionar o chamado socialismo do século XXI – personificado por Hugo Chávez, e
não conseguiu implementar plenamente as medidas políticas, legais e
institucionais que teriam transformado a Venezuela em uma nova colônia
americana. O erro de Nicolás Maduro não foi de princípio, mas de cálculo
político; ele acreditava que poderia negociar sua permanência no poder em troca
da venda da riqueza do país para os Estados Unidos. Nicolás Maduro cumpriu a
tarefa de desmantelar uma revolução fracassada, mas não soube como apresentar
seu fim sem perder o apoio de sua audiência. Isso não nos impede de denunciar
seu sequestro em 3 de janeiro e de exigir sua libertação, porque a Venezuela é
uma República que deve resolver seus assuntos sem a intervenção de nenhum
império.
Em 15
de janeiro, Donald Trump, que aprecia tanto o espetáculo da luta livre
profissional que nomeou uma empresária do ramo, Linda McMahon, para o
Departamento de Educação, decidiu usar termos dos universos Marvel e DC para
descrever suas opções políticas na Venezuela. Ele anunciou que tivera uma longa
conversa telefônica naquela manhã com a presidente interina Delcy Rodríguez, a
quem descreveu como “fantástica” e com quem, segundo ele, estavam trabalhando
muito bem. À tarde, reuniu-se a portas fechadas com a líder da oposição de
direita, María Corina Machado, a quem havia dispensado em 3 de janeiro devido
ao atual cenário político venezuelano, mas a quem agora se referia como
“maravilhosa” – claro, depois que ela lhe entregou a medalha do Prêmio Nobel da
Paz. Talvez Trump quisesse substituir a saga do “Super Bigode” e da “Cilita”
por sua retórica figurativa, referindo-se aos bonecos criados pelo governo
Maduro para representá-los, distribuídos como presentes de Natal para crianças
pobres na Venezuela. Mas, para sermos justos, o termo “fantásticas” é um rótulo
compartilhado para as quatro figuras que, além de Delcy Rodríguez, estão
atualmente no comando da administração venezuelana: Jorge Rodríguez (Presidente
da Assembleia Nacional), Diosdado Cabello (Ministro do Interior e da Justiça) e
Padrino López (Ministro da Defesa). Eles são as quatro “figuras fantásticas” do
“novo momento político”, que precisam evitar irritar o Lex Luthor que reside na
Casa Branca. O apelido de “Mulher-Maravilha”, no entanto, é inseparável de
María Corina Machado, que parece ter se distanciado do restante da oposição
venezuelana, mais inclinada a firmar acordos com Nicolás Maduro e agora com
Delcy Rodríguez.
O
processo bolivariano chegou a 3 de janeiro de 2026 como um zumbi alimentando-se
de retórica desprovida de qualquer fundamento, uma caricatura terrível das
promessas feitas na Constituição de 1999. O declínio começou antes das Medidas
Coercitivas Unilaterais (sanções dos EUA), mas estas claramente aceleraram a
transição da entropia para a dissolução contrarrevolucionária, que se expressou
de forma contundente no pacote econômico de 2018. Esse pacote transferiu os
efeitos da crise venezuelana para a classe trabalhadora, ao mesmo tempo que
garantia os circuitos de acumulação burguesa. O governo de Nicolás Maduro
tornou-se autoritário, desmantelando até mesmo as liberdades democráticas mais
básicas e criando impiedosamente as piores condições materiais que qualquer
trabalhador venezuelano já experimentou. Delcy Rodríguez e o “Quarteto Fantástico”
foram componentes estruturais desse declínio; eles não apenas o herdaram, como
são seus coautores. A pergunta era se o ataque imperialista à Venezuela em 3 de
janeiro poderia servir de gatilho para um movimento revolucionário interno,
liderado pelo quarteto governante, retomando o caminho traçado na Constituição
Republicana de 1999. Os eventos subsequentes, infelizmente, destruíram essa
ilusão. Não só as relações diplomáticas entre Caracas e Washington estão sendo
normalizadas no âmbito de uma agenda de restauração neocolonial, como também
estão sendo implementadas as necessárias contrarreformas para consolidar o novo
status da relação entre os Estados Unidos e a Venezuela.
A
pedido de Delcy Rodríguez, a Assembleia Nacional simplificou as normas
comerciais para eliminar as restrições ao investimento estrangeiro, ao mesmo
tempo que iniciou reformas na Lei de Hidrocarbonetos para legitimar a pilhagem
do petróleo venezuelano e a entrada de empresas transnacionais expulsas pela
“revolução chavista”. Essas medidas de restauração acelerada visam alinhar a
Venezuela às intenções de Donald Trump, apresentadas aos dezesseis magnatas do
petróleo reunidos para criar um fundo de investimento de US$ 100 bilhões. Esse
fundo permitiria aos Estados Unidos aumentar sua participação no petróleo
venezuelano de quase um milhão de barris anuais para mais de quatro milhões em
apenas alguns anos. Em seu encontro com as maiores companhias petrolíferas do
mundo, Donald Trump deixou claro: “Vocês negociarão conosco, não com a
Venezuela”. Ele ofereceu a elas o protetorado que impôs sobre o país para a
gestão de futuros acordos petrolíferos. Enquanto Donald Trump se reunia com os
magnatas dos hidrocarbonetos, o Departamento de Estado anunciou o envio de uma
delegação de funcionários e técnicos a Caracas para discutir, principalmente, a
reativação das operações petrolíferas com as autoridades. O secretário de
Energia dos EUA, Chris Wright, com as malas prontas para a Venezuela para
negociar acordos de petróleo e minerais, declarou que busca garantir acordos
sobre petróleo bruto e minerais críticos para conceder aos EUA acesso
preferencial a esses recursos, além de ajudar a “financiar a reconstrução
econômica da Venezuela”. O secretário afirmou que espera um “aumento drástico”
na produção de petróleo venezuelana até o final de 2026, impulsionado por
investimentos privados, sem a necessidade de subsídios do governo americano. Chris
Wright indicou que Washington controlará as vendas de petróleo venezuelano
indefinidamente, depositando os fundos obtidos em contas supervisionadas. Para
deixar claro quem está no comando, o diretor da CIA, John Ratcliffe, esteve em
Caracas na sexta-feira, 15 de janeiro, para uma reunião com Delcy Rodríguez,
com o objetivo de “construir confiança entre Washington e Caracas”.
O
presidente invasor pretende aumentar a oferta de petróleo para o mercado
americano a fim de reduzir os preços dos combustíveis e, assim, aliviar a
pressão inflacionária causada pela guerra comercial e pelas tarifas impostas
pelo próprio Donald Trump. Mas a queda nos preços do petróleo bruto coloca em
xeque novos investimentos no setor: é previsível que as empresas petrolíferas
regulem o aumento da produção de acordo com seus próprios apetites, o que
demonstra a natureza explosiva da transição política iniciada na Venezuela. Pela
força ou pela “lei”, os monopólios do petróleo e Donald Trump estão empenhados
em uma pilhagem abrangente dos recursos e da mão de obra venezuelana. Mas os
monopólios ainda estão longe de um acordo sobre os meios políticos para
alcançar esse resultado, o que revela uma brutal luta interna pelos benefícios
da pilhagem planejada. O governo de Donald Trump não conseguirá escapar dessas
contradições, que tenta governar por meio de métodos que não são uma ficção
democrática, aproximando-se de um modelo bonapartista que governa internamente
por decretos, um prelúdio para um regime fascista.
A
Venezuela está se reintegrando totalmente ao sistema bancário Swift, permitindo
que as transações financeiras locais sejam encaminhadas pelos Estados Unidos.
Quatro bancos privados (BNC, BBVA Provincial, Banesco e Mercantil) já foram
autorizados pelo governo de Donald Trump a receber uma parte da moeda
estrangeira que será transferida para o país com a venda de petróleo. Ao que
tudo indica, esses bancos privados serão os responsáveis por fornecer a moeda
estrangeira, e o Banco Central da Venezuela receberá apenas os bolívares
gerados por esse leilão, deduzidas as taxas de intermediação correspondentes. Este
mecanismo foi anunciado por Delcy Rodríguez como uma forma de “cooperação
energética com os EUA, que permitirá que qualquer moeda estrangeira recebida
seja destinada a dois fundos: o primeiro para proteção social, visando melhorar
a renda dos trabalhadores e fortalecer áreas como saúde, educação, alimentação
e habitação, enquanto o segundo será alocado para infraestrutura e serviços”. Um
simples cálculo do impacto dos primeiros US$ 300 milhões a serem transferidos
demonstra a eficácia limitada dos 30% da receita petrolífera que os EUA
enviarão à Venezuela por meio dessa forma colonial de intermediação na melhoria
das condições materiais de vida da classe trabalhadora.
Em 9 de
janeiro, a Casa Branca já havia emitido a ordem executiva “Salvaguardando a
receita petrolífera venezuelana para o bem dos povos americano e venezuelano”
(“Safeguarding Venezuelan oil revenue for the Good of the American and
Venezuela people”), que personificava a relação colonial na gestão dos
recursos derivados da venda de petróleo. Os Estados Unidos assumiram o papel de
“guardiões” dos fundos venezuelanos, cujo uso e circulação dependeriam do
Secretário de Estado americano, testando sua aplicação com os 50 milhões de
barris de petróleo que anunciaram que confiscariam para esse fim. A resposta do
governo liderado por Delcy Rodríguez foi iniciar reformas legislativas e
institucionais para permitir sua implementação. Em 15 de janeiro, no mesmo dia
da reunião telefônica entre Delcy Rodríguez e Donald Trump, foi anunciada a
reforma da Lei de Hidrocarbonetos da Venezuela. Como se estivéssemos
testemunhando uma competição para parecer o mais obediente possível ao ocupante
da Casa Branca, enquanto María Corina Machado entregava a Donald Trump a
medalha do Prêmio Nobel, Delcy Rodríguez apresentava a reforma da Lei de
Exploração e Venda de Petróleo.
Como
cortina de fumaça, o governo Donald Trump ordenou o fechamento de El Helicoide,
um centro de detenção – denunciado como local de tortura – e a libertação dos
presos políticos ali mantidos. O presidente da Assembleia Nacional passou de
afirmar que a Venezuela não tinha presos políticos para relatar que mais de
quatrocentos haviam sido libertados e que os casos restantes estavam sendo
revisados. Defensores dos direitos humanos haviam indicado anteriormente que o
número de presos políticos poderia ultrapassar a cifra de mil. É importante
ressaltar que essas libertações são resultado da luta travada pelas famílias
dos presos políticos e pelas organizações de direitos humanos que as apoiaram,
e não uma concessão imperial. Isso ocorre enquanto o Artigo 5º do decreto de
Estado de Emergência ordena a prisão de qualquer pessoa que critique o governo.
Hoje, é comum ver policiais e militares em diversas partes das cidades
venezuelanas revistando celulares e prendendo qualquer pessoa com informações
contra o governo. A maioria das pessoas agora sai de casa sem celular ou com um
aparelho incapaz de receber mensagens do WhatsApp ou acessar redes sociais. Como
se isso não bastasse, em 15 de janeiro foi anunciado que os poderes executivo e
legislativo, juntamente com a Central Bolivariana Socialista Operária (CBO),
alinhada aos interesses patrícios e orquestrada por Nicolás Maduro, acelerariam
a reforma da legislação trabalhista, criando um novo Código do Trabalho
adaptado ao novo clima político. A reação da burguesia e do setor empresarial
ainda está por vir. Delcy Rodríguez é muito hábil em transitar pelos setores
empresarial, financeiro e bancário. De fato, entre 2018 e 2025, ela foi
incumbida por Nicolás Maduro de encontrar pontos em comum e dialogar com o
setor empresarial tradicional, tarefa que cumpriu com eficiência.
A
FEDECAMARAS, central empresarial que participou do golpe de Estado contra Hugo
Chávez em 2002, havia rompido todo diálogo com o governo desde então. Mas os
esforços de Delcy Rodríguez alcançaram o que parecia impossível: ela não só se
tornou a convidada de honra nos encontros empresariais nacionais a partir de
2021, como também conseguiu distanciá-los do apelo à confrontação liderado por
María Corina Machado. A experiência de Delcy Rodríguez pode ser útil para
alcançar o que Maduro não conseguiu: um acordo entre as diversas facções
burguesas para uma transição ordenada, onde todos os ricos ganham e ninguém
(rico) perde. É claro que, em tais acordos, os mais pobres sempre saem
perdendo. As mudanças acontecem em ritmo acelerado, enquanto a perspectiva anti-imperialista
antes invocada parece estar desaparecendo cada vez mais. O público externo em
geral pergunta: “E o povo? Qual é a resposta popular?” A verdade é que não
houve nenhuma manifestação de mobilização em massa como resposta espontânea e
autônoma ao que está acontecendo. As tímidas marchas que ocorreram foram
convocadas pelo governo, mobilizando principalmente funcionários públicos e a
base social que ele ainda mantém, a qual, embora reduzida, continua sendo
importante para esses fins. Como explicar isso? O regime de Nicolás Maduro
criou uma situação tão desastrosa nas condições materiais de vida dos
trabalhadores que grandes segmentos da população veem sua saída como a única
possibilidade de mudança.
Os
cidadãos parecem estar dispostos a dar uma chance às circunstâncias para
melhorar os salários, facilitar o retorno dos oito milhões de migrantes que
desestruturaram as famílias venezuelanas, restabelecer o funcionamento regular
e estável dos serviços públicos (água e eletricidade) e estabelecer
instituições que atendam às necessidades de saúde, alimentação e moradia da
grande maioria. No entanto, é improvável que a administração de estilo colonial
atenda a essas aspirações, portanto, o ressurgimento de um movimento social
mobilizado só será possível na medida em que essa impossibilidade se torne
evidente. No momento, todo o mundo político fala em transição e em soluções de
curto prazo para os problemas. Mas isso não se resolve apenas com força de
vontade; exige uma compreensão abrangente das causas estruturais e das origens
da situação atual. A atual crise venezuelana teve origem em fevereiro de 1983,
com o colapso do modelo rentista de acumulação burguesa, multiclassismo e
representação política. Aprofundou-se com a cisão que o desaparecimento do
“povo” como categoria unificadora do Estado-nação aconteceu após o Caracazo de
1989, ainda mais exacerbada pela crise dentro das Forças Armadas, expressa nos
levantes de 4 de fevereiro e 27 de novembro de 1992. Soma-se a isso a profunda
crise de credibilidade política com os resultados das eleições de 1993, um
fenômeno que se intensificou em cada eleição subsequente. Embora a Assembleia
Constituinte de 1999 tenha obtido apoio majoritário, não conseguiu reconstituir
o povo como sujeito do consenso estatal; pelo contrário, o caos se aprofundou,
com picos e períodos de aparente estabilidade.
O
surgimento de uma nova burguesia em 2002, após o golpe cívico-militar contra
Hugo Chávez, desencadeou uma luta pela acumulação de riqueza que quase
degenerou em guerra civil entre 2014 e 2017. Esse conflito interburguês
permanece sem solução e revela uma tendência à negação das estruturas
multiclassistas, ou seja, à imposição política e a eliminação das condições
mínimas para uma agenda social reformista, mantendo, assim, adormecidas as
sementes da revolução radical.
A tudo
isso se soma o trauma da perda de soberania após o ataque imperialista de 3 de
janeiro e o papel vergonhoso das Forças armadas. São, portanto, quarenta e três
anos de crise estrutural não resolvida no modelo de acumulação e representação
política. Uma transição concebida a partir da perspectiva da classe
trabalhadora deve ser capaz de abordar cada componente dessa crise. María
Corina Machado afirmou que sua abordagem é diferente, e o governo de Delcy
Rodríguez está mais interessado em se manter no poder do que em resolver essa
crise estrutural. Os próximos meses serão cruciais.
O
escritor cubano Leonardo Padura acaba de publicar um romance ao qual parece
faltar um capítulo sobre a Venezuela. Morir en la Orilla (Morrer
na Praia) narra a história da desilusão de uma geração que criticou o
capitalismo em função dos problemas políticos, econômicos, sociais, culturais e
tecnológicos, que abraçou o socialismo como alternativa e que agora parece
aceitar que a única solução para seus problemas é o retorno a um capitalismo
selvagem de livre mercado, baseado na competição e na exploração do trabalho,
porém com um salário “digno”. Explicar que o que aconteceu na Venezuela não foi
uma experiência socialista, mas sim uma apropriação da narrativa da
transformação radical, não é tarefa fácil. O governo de Hugo Chávez acabou
sendo uma aposta arriscada na tentativa de resolver a crise capitalista sem
alterar o modelo rentista de produção e acumulação. Uma revolução só é possível
e sustentável quando encontra ressonância nas expectativas, necessidades e
demandas do povo. A tarefa central agora é defender a soberania nacional com
uma postura anti-imperialista a partir da perspectiva daqueles que vivem do seu
trabalho; ou seja, cada passo em defesa da República deve ser acompanhado pela
reivindicação da redemocratização da sociedade venezuelana e da luta pelas
condições de vida, em primeiro lugar a luta salarial. Não há soberania
territorial sem soberania política. Não é possível colocar uma defesa da
soberania venezuelana que omita a necessidade de superar a desigualdade e da
falta de liberdades políticas na Venezuela. Combinar essas demandas é o desafio
do anti-imperialismo hoje. O apelo por uma frente anti-imperialista global,
baseada na solidariedade com a Venezuela, deve ser acompanhado pela luta pela
plena validade das liberdades políticas, sindicais e civis na Venezuela.
A luta anti-imperialista não amortece, ao contrário acentua, a luta de classes. A
luta anti-imperialista e a luta pela plena independência e liberdade política
da classe trabalhadora não são contrapostas: uma pressupõe a outra e, sem
ambas, não há perspectiva de vitória na luta contra a transformação da
Venezuela em um protetorado colonial dos EUA, que é o primeiro passo para a
recolonização da América Latina em sua totalidade. Nos encontros internacionais
convocados para tecer uma rede mundial de solidariedade com a Venezuela
agredida é necessária uma batalha política para que essa perspectiva seja o
Norte da mobilização e da ação política.
Fonte:
Por Luis Bonilla-Molina e Osvaldo Coggiola, em A Terra é Redonda

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