terça-feira, 27 de janeiro de 2026

Laurez Cerqueira: O modelo de desenvolvimento da China colocou uma interrogação diante do mundo

A dúvida é o grande começo. Enquanto muitos países se perderam em ciclos curtos de euforia e frustração, o gigante asiático escolheu caminhar com passos largos, sem fazer barulho, planejar, investir e distribuir a renda.

Desde 1978, quando iniciou suas reformas econômicas, passou a operar sob uma lógica rara no mundo contemporâneo. Sem fazer alarde, a China optou pelo planejamento de longo prazo sob coordenação estatal com pragmatismo. O resultado foi um modelo de desenvolvimento que se tornou referência para o mundo. Não é retórico nem ideológico. É concreto, mensurável e profundamente humano.

Por várias décadas, o crescimento médio anual do PIB chinês girou entre 9% e 10%, segundo o Banco Mundial. Trata-se de um feito quase sem paralelo na história econômica moderna. Não foi um espasmo conjuntural, mas um processo sustentado por investimentos contínuos em infraestrutura, educação, saúde, ciência, tecnologia e inovação. Crescer, para a China, não se tornou um fim em si mesmo, mas meio para reorganizar a sociedade e construir um futuro de desenvolvimento sustentável com justiça social.

O dado mais contundente dessa transformação é social. Entre o fim dos anos 1970 e 2020, quase 800 milhões de chineses saíram da pobreza extrema, cerca de 75% de toda a redução da pobreza extrema no planeta, no mesmo período. 

Poucos países podem afirmar que alteraram, de forma tão decisiva, a geografia global da pobreza. A China o fez porque tratou o combate à pobreza como política de Estado, e não como programa circunstancial.

A expectativa de vida acompanha essa virada estrutural. Em 2023, alcançou cerca de 78 anos, mais que o dobro da registrada em meados do século XX. Esse avanço está diretamente ligado ao fortalecimento do sistema público de saúde. 

Hoje, mais de 95% da população chinesa está coberta por algum tipo de seguro de saúde básico, resultado de uma expansão gradual e planejada do acesso aos serviços médicos. Os gastos em saúde ultrapassam 7% do PIB, com forte presença do Estado no financiamento da atenção primaria, da medicina preventiva e da infraestrutura hospitalar, inclusive nas regiões rurais.

Na educação, os números são igualmente expressivos. A China destina cerca de 4% do seu PIB ao setor educacional, percentual elevado para um país de dimensão continental.  O ensino básico foi universalizado, o ensino médio expandido de forma acelerada e o sistema de ensino superior tornou-se o maior do mundo em número de estudantes.  São mais de 3 mil instituições de nível superior e dezenas de milhões de matrículas anuais. Universidades chinesas passaram a figurar entre as melhores do planeta, impulsionadas por investimentos maciços em pesquisa, laboratórios e formação de quadros científicos.

Esse esforço educacional se conecta diretamente à aposta em ciência, tecnologia e inovação. Os investimentos em pesquisa e desenvolvimento superam 2,5% do PIB, colocando a China entre os maiores financiadores globais de ciência. 

Em 2022, o país respondeu por mais de 60% das patentes globais em inteligência artificial. Em 2023, recebeu 1,68 milhão de pedidos de patentes de invenção, mais de 40% do total mundial, segundo a Organização Mundial da Propriedade Intelectual. A antiga imagem de copiadora industrial foi definitivamente substituída pela de um polo de inovação tecnológica.

A infraestrutura é a face visível desse projeto nacional. A China construiu a maior rede de trens de alta velocidade do mundo, com cerca de 48 mil quilômetros em operação até 2024, investindo apenas nesse ano mais de 850 bilhões de yuans em ativos ferroviários. 

Obras como a ponte Danyang–Kunshan, com 164 quilômetros, ou o sistema Hong Kong–Zhuhai–Macao, que combina pontes e túneis submarinos, não são ostentação. São decisões racionais de integração territorial, redução de custos logísticos e aumento da produtividade.

O mesmo vale para o BeiDou, o sistema chinês de navegação por satélite, plenamente operacional desde 2020. Equivalente ao GPS americano ou ao Galileo europeu, ele sustenta aplicações em transporte, agricultura de precisão, logística, telecomunicações, defesa civil. Soberania tecnológica não é discurso, mas infraestrutura estratégica.

Na vida urbana, a modernização tornou-se cotidiana. Em 2024, os sistemas de pagamento digital chineses processaram transações equivalentes a centenas de trilhões de yuans. A China consolidou-se como uma das sociedades mais avançadas do mundo em pagamentos móveis, serviços digitais e integração urbana. O futuro, ali, deixou de ser promessa para se tornar hábito.

Mesmo enfrentando tensões comerciais e barreiras tarifárias, a economia chinesa cresceu 5% em 2025, cumprindo a meta oficial. Para uma economia de escala continental, isso é demonstração inequívoca de resiliência.

A experiência chinesa ensina que desenvolvimento não nasce do improviso nem da submissão a receitas externas. Ele exige projeto nacional, continuidade histórica e investimento pesado em gente. Num mundo cada vez mais curto de ideias e longo de slogans, a China demonstra, com fatos, sem fazer barulho, que o futuro não se improvisa, constrói-se, pacientemente, com planejamento, trabalho e visão de longo prazo.

¨      "A China não é só a fábrica do mundo, mas sim um dos maiores mercados – e aberto a todos", diz He Lifeng

O vice-premiê da China, He Lifeng, afirmou no Fórum de Davos, que o país não pretende ser visto apenas como a “fábrica do mundo”, mas também como um dos maiores mercados globais, disposto a ampliar compras, investimentos e parcerias com empresas e governos estrangeiros. Em um discurso centrado na defesa do multilateralismo econômico e da cooperação internacional, He disse que a China seguirá aprofundando reformas e abertura, em meio a um cenário internacional de crescimento lento, desigualdade crescente e dificuldades para cumprir metas de desenvolvimento sustentável.

<><>< Críticas ao baixo crescimento e alerta sobre metas da ONU

He Lifeng iniciou sua exposição destacando que a economia mundial “está sem impulso”, citando uma projeção do Fundo Monetário Internacional (FMI) de crescimento de 3,1% em 2026, abaixo da média pré-pandemia, estimada em 3,7%. Ele afirmou que, além disso, a desigualdade continua se aprofundando e a sustentabilidade enfrenta desafios graves. No mesmo trecho, He citou um relatório das Nações Unidas segundo o qual dois terços dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) não deverão ser cumpridos até 2030, defendendo que a busca por desenvolvimento deve ser coletiva e equilibrada.

<><> “Fazer o bolo crescer” e rejeitar a lógica de soma zero

Em um dos trechos centrais do discurso, He Lifeng criticou a ideia de que o comércio internacional se organiza em torno de vencedores e perdedores. Para o vice-premiê, a prioridade deve ser ampliar o desenvolvimento e resolver problemas em conjunto, em vez de transformar disputas econômicas em antagonismos permanentes. Ele declarou: “A busca pelo desenvolvimento não deve ser um jogo de soma zero, de ‘você perde, eu ganho’”. E acrescentou: “Fazer o bolo crescer juntos é mais importante do que brigar pelo bolo, e resolver problemas juntos é mais eficaz do que ficar culpando uns aos outros”.

<><> “Não buscamos superávit” e China como grande mercado global

He Lifeng afirmou que a China está comprometida em promover “prosperidade comum” com parceiros comerciais a partir do próprio desenvolvimento, insistindo que Pequim não tem como objetivo a concentração de ganhos externos. Ele afirmou: “Nós nunca buscamos superávit comercial. Além de ser a ‘fábrica do mundo’, esperamos ser o ‘mercado do mundo’ também”. Em seguida, reconheceu que, muitas vezes, há barreiras quando o país busca ampliar importações: “Em muitos casos, quando a China quer comprar, outros não querem vender”. Segundo o vice-premiê, disputas comerciais acabam frequentemente convertidas em questões de segurança nacional e restrições políticas. He observou ainda que os serviços respondem por cerca de dois terços do PIB global e que a China registra déficit de longo prazo nesse segmento, sem que isso implique uma postura de vitimização ou acusação de “exploração”. O dirigente prometeu usar o peso do mercado chinês para ampliar importações e fortalecer a cooperação industrial, de modo que outros países possam “compartilhar as oportunidades” criadas pela economia chinesa.

<><> Relação com os EUA: consulta “em pé de igualdade” e evitar confronto

Outro ponto destacado por He Lifeng foi a relação econômica e comercial entre China e Estados Unidos, que ele descreveu como marcada por oscilações no último ano. De acordo com ele, houve várias rodadas de conversas e consultas bilaterais voltadas a evitar instabilidade. He afirmou que, sob princípios como respeito mútuo, coexistência pacífica e cooperação, os dois lados conseguiram lidar com questões pendentes e manter o relacionamento “em geral estável”. Ele resumiu a posição chinesa com uma frase enfática: “Os fatos demonstraram mais uma vez que China e Estados Unidos ganham com a cooperação e perdem com o confronto”. Para o vice-premiê, divergências e fricções são normais entre países com sistemas sociais, histórias e estágios de desenvolvimento diferentes, mas muitas delas podem ser resultado de mal-entendidos. Ele defendeu que disputas devem ser resolvidas com diálogo e consulta, e não por antagonismo.

<><> Crescimento, reforma e economia de 140 trilhões de yuans

Ao apresentar números da economia chinesa, He Lifeng afirmou que, nos últimos cinco anos, o país avançou em reformas e abertura, ampliou o mercado consumidor, desenvolveu “novas forças produtivas de qualidade” e acelerou a transição verde e de baixo carbono, com crescimento médio anual “em torno de 5,4%”. Ele afirmou que a economia chinesa chegou a 140 trilhões de yuans, contribuindo com cerca de 30% do crescimento global. He acrescentou que seus investimentos externos ajudaram a gerar arrecadação tributária, empregos e expansão econômica em outros países. O vice-premiê reconheceu que o país enfrenta desafios antigos e novos, mas descreveu esses problemas como “dores do crescimento” decorrentes da transformação e da transição econômica, reiterando confiança na capacidade de enfrentá-los.

<><> Plano quinquenal, consumo e expansão da demanda doméstica

He Lifeng afirmou que a China estabeleceu um novo planejamento estratégico para os próximos anos, com a adoção das recomendações do 15º plano quinquenal. Segundo ele, a economia chinesa seguirá a filosofia de desenvolvimento “inovadora, coordenada, verde, aberta e compartilhada”, e buscará aprofundar um novo paradigma com o mercado interno como base principal. O vice-premiê ressaltou que a China já é o segundo maior mercado consumidor do mundo e, em setores como automóveis, celulares e eletrodomésticos, lidera globalmente. Ainda assim, o gasto per capita permanece abaixo dos padrões das economias desenvolvidas, o que indicaria espaço para crescimento. Ele afirmou que, com o avanço do grupo de renda média e o aumento das demandas por qualidade de vida, existe enorme potencial para expansão do consumo. Disse ainda que o país colocou o estímulo à demanda doméstica no centro da agenda econômica e trabalha para impulsionar a renda urbana e rural.

<><> Inovação, inteligência artificial e cooperação tecnológica

He Lifeng também afirmou que a revolução tecnológica e a transformação industrial estão se acelerando e que a inovação será um eixo central da modernização chinesa. Ele declarou que a China possui o maior número de pesquisadores e pedidos internacionais de patentes, além de um ambiente fértil para aplicações em diferentes setores. No discurso, ele mencionou ainda que a inteligência artificial já vem impulsionando segmentos diversos e afirmou que o progresso tecnológico depende de cooperação internacional, inclusive para enfrentar desafios como a governança global da IA.

<><> Transição verde e metas climáticas

Ao tratar do clima, He Lifeng citou o anúncio feito pelo presidente Xi Jinping sobre os compromissos da China para 2035 e afirmou que esta foi a primeira vez que o país apresentou uma meta absoluta de redução de emissões. Ele defendeu que a China tem demonstrado esforço máximo ao construir um sistema robusto de energia renovável e uma cadeia industrial completa de nova energia. O vice-premiê reafirmou a meta de atingir o pico de emissões antes de 2030 e a neutralidade de carbono antes de 2060, defendendo o fortalecimento do processo multilateral e da cooperação internacional para acelerar o desenvolvimento global de baixo carbono.

<><> “A sabedoria de Davos está no diálogo”

Ao final da fala, He Lifeng concluiu com um apelo ao entendimento entre países e ao fortalecimento da cooperação econômica, destacando que o futuro da economia mundial depende de solidariedade. Ele defendeu que a “sabedoria de Davos” reside no diálogo e concluiu pedindo que os participantes sustentem a abertura e a cooperação para conduzir a economia global a um caminho mais estável e inclusivo.

¨      China prepara plano de cinco anos para impulsionar consumo e reduzir desequilíbrios

A China pretende implementar, entre 2026 e 2030, um novo conjunto de medidas voltadas a estimular o consumo doméstico e enfrentar desequilíbrios considerados “proeminentes” entre oferta e demanda na economia. A informação foi divulgada nesta terça-feira (20) por autoridades do órgão estatal de planejamento, que indicaram o setor de serviços como eixo central da estratégia para os próximos cinco anos.

Segundo Wang Changlin, vice-diretor da Comissão Nacional de Desenvolvimento e Reforma, o atual desempenho econômico do país é marcado por uma assimetria persistente. “A questão de ter uma oferta forte, mas uma demanda fraca, na operação econômica atual é, de fato, um problema proeminente”, afirmou durante coletiva de imprensa em Pequim. De acordo com ele, ampliar o consumo interno tornou-se prioridade para sustentar o crescimento no médio prazo.

Os líderes chineses já haviam se comprometido a elevar de forma “significativa” a participação do consumo das famílias no Produto Interno Bruto ao longo do próximo quinquênio. Analistas, no entanto, avaliam que o objetivo será difícil de alcançar sem reformas estruturais mais profundas e estímulos diretos do lado da demanda.

Em 2025, a economia chinesa cresceu 5%, atingindo a meta estabelecida pelo governo. O resultado foi impulsionado principalmente pelo desempenho das exportações, que compensaram a fraqueza do consumo interno — um arranjo que, segundo economistas, tende a ser mais difícil de sustentar nos próximos anos. Os dados mostram que a produção industrial avançou 5,9% no ano passado, enquanto as vendas no varejo cresceram 3,7%, evidenciando o descompasso entre oferta e demanda.

Em outro compromisso público nesta terça-feira, o vice-ministro das Finanças, Liao Min, afirmou que o governo destinará mais recursos em 2026 para estimular o consumo e melhorar as condições de vida da população, sem detalhar o volume dos aportes. Mais cedo, o ministério anunciou a prorrogação, até o fim de 2026, de subsídios voltados a consumidores, empresas de serviços ao consumidor e companhias que necessitam de atualização de equipamentos, como forma de reativar a demanda doméstica.

De acordo com o Ministério das Finanças, a extensão dos incentivos busca “estimular ainda mais o consumo e expandir a demanda interna, continuar a reduzir o custo do crédito pessoal ao consumidor e aumentar a disposição dos residentes para gastar”. Em paralelo, o governo informou que concederá subsídios, por até dois anos, a empréstimos destinados a pequenas e médias empresas privadas a partir de 2026.

O pacote inclui ainda a criação de um plano de garantias no valor total de 500 bilhões de iuanes (US$ 71,83 bilhões), ao longo de dois anos, com o objetivo de impulsionar investimentos privados. As autoridades destacam que áreas como assistência a idosos, saúde e lazer oferecem amplo espaço para expansão e podem desempenhar papel relevante no reequilíbrio da economia. Para Zhou Chen, também da Comissão Nacional de Desenvolvimento e Reforma, a mudança de foco é clara. “O setor de serviços agora se tornou o foco principal dos esforços para expandir a demanda interna”, afirmou, ao indicar que o consumo deverá assumir protagonismo maior na estratégia de crescimento da China nos próximos anos.

 

Fonte: Brasil 247/O Cafezinho

 

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