Nelson
Rodrigues: o 'imoral' da literatura brasileira que era um conservador na vida
privada
"Toda
unanimidade é burra", sentenciou o escritor, dramaturgo, jornalista — e
grande frasista — Nelson Rodrigues (1912-1980).
E estas
palavras funcionam muito bem quando pensamos que as contradições do próprio
autor também fazem dele uma figura controversa na contemporaneidade.
Morto
há 45 anos, em 21 de dezembro de 1980, Nelson Rodrigues é considerado o mais
influente nome da dramaturgia brasileira.
Marcou
as artes cênicas, a literatura e a TV com obras como Vestido de Noiva, Álbum de
Família, Toda Nudez Será Castigada e Asfalto Selvagem: Engraçadinha, Seus
Pecados e Seus Amores.
Na
introdução de O Anjo Pornográfico, robusta biografia que fez sobre Nelson
Rodrigues, o jornalista Ruy Castro enfatizou que "mesmo os seus piores
inimigos nunca lhe negaram o talento — e não foram poucos os que o chamaram de
gênio".
"Para
alguns, era um santo; para outros, um canalha; para todos, sempre uma
surpresa", definiu o biógrafo.
Em sua
obra, retratou sem escrúpulos personagens e situações consideradas imorais.
Abundavam problemas familiares, sexo, morte, culpa, traição — e toda a sorte de
neuroses e obsessões.
Para os
críticos e parte do público, o que ele produzia era obsceno e vulgar.
Na vida
privada, Nelson Rodrigues foi mulherengo e traiu companheiras, ao mesmo tempo
em que era católico, conservador e apoiador da ditadura militar.
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Crimes passionais
Nascido
no Recife, em 1912, mudou-se ainda criança para o Rio com os pais.
Na
então capital do país, cresceu e construiu sua carreira — tornando-se, aliás,
devotado torcedor do Fluminense.
Começou
a escrever aos 13 anos no jornal A Manhã, publicação pertencente ao pai.
No
periódico, sua primeira função foi a de repórter policial. Esse repertório de
ocorrências seria depois terreno fértil para suas criações dramáticas,
trágicas, retratos nus da vida real.
Crimes
passionais estavam entre suas predileções, e rendiam boa repercussão entre os
leitores do jornal.
Em
1928, quando seu pai perdeu o controle acionário do jornal e fundou outra
publicação, A Crítica, o jovem prodígio também foi para lá.
O
jornal duraria pouco menos de dois anos — depois de ser noticiada com alarde a
separação de um casal da alta sociedade carioca, a mulher exposta na matéria
foi até a redação e atirou contra um dos irmãos de Rodrigues, que morreria
alguns dias depois.
Nos
anos 1930, Nelson Rodrigues iniciou sua trajetória de cronista esportivo.
Inaugurou
um jeito novo de relatar as partidas, sobretudo quando um dos times era o seu
Fluminense.
Em
textos publicados, entre outros, no Jornal dos Sports, lançava mão de
personagens sabidamente fictícios como o Gravatinha e o Sobrenatural de Almeida
para narrar os acontecimentos futebolísticos da rodada.
Em
1932, Rodrigues se tornou repórter efetivo do jornal O Globo.
Ali,
acabaria assumindo o caderno de cultura e assinando críticas de óperas.
Também
editou a seção juvenil, roteirizou histórias em quadrinhos e atuou como
tradutor.
Em
1941, escreveu sua primeira peça, A Mulher Sem Pecado.
O
prestígio viria dois anos mais tarde, com Vestido de Noiva.
O texto
era inovador para o teatro da época. Nelson Rodrigues trazia uma história em
três planos simultâneos: realidade, memória e alucinação.
Outra
novidade trazida pela dramaturgia de Rodrigues era a facilidade de incorporar,
nos seus textos, gírias e expressões coloquiais da época e do cotidiano carioca
— inclusive palavrões. Isso conferia um especial realismo às suas peças.
Para o
escritor e crítico literário Luís Augusto Fischer, professor de literatura na
Universidade Federal do Rio Grande do Sul, essa foi uma das frentes em que
Nelson Rodrigues "revolucionou" a dramaturgia brasileira.
Outra
frente foi a "coragem de enfrentar tabus, como relações incestuosas e
altamente dramáticas, inclusive no sentido das relações de classe no cenário
social brasileiro", aponta.
Em
1945, Rodrigues deixou O Globo para trabalhar nos Diários Associados.
No
grupo do magnata Assis Chateaubriand (1892-1968), ele estreou seu primeiro
folhetim, Meu Destino é Pecar.
Nesta
obra, nascia um heterônimo que se tornaria marca do autor: Suzana Flag, como
ele assinava esses textos.
Segundo
Ruy Castro conta na biografia de Rodrigues, o escritor "não gostava que
soubessem que ele […] era também Suzana Flag".
"Quase
todo o meio jornalístico sabia, mas não era uma coisa que achassem urgente
divulgar", escreveu Castro. "A massa dos leitores acreditava que
Suzana Flag existia […]."
A
personagem-autora ficou tão famosa a ponto de certa vez Nelson Rodrigues
afirmar que ela escrevia melhor do que ele.
Em
1946, ele publicou Minha Vida, "autobiografia" de Flag. A esta
altura, os amigos costumavam brincar que era Suzana Flag quem pagava as contas
de Rodrigues.
Aos
poucos, o escritor acabou se cansando de Flag e deixando a autora para trás,
conta Castro na biografia.
Não
houve, aos leitores, um anúncio oficial de que ela era ele — ou de que ele era
ela. Isso foi sendo descoberto de forma gradual.
No
início dos anos 1950 Rodrigues já era um autor de prestígio e ganhava um bom
dinheiro com suas obras.
Então,
migrou para o jornal Última Hora e ali publicou aquele que seria o seu auge da
carreira na imprensa: a série de contos A Vida Como Ela É.
O ator
e dramaturgo Walter Lima Torres Neto, professor na Universidade Federal do
Paraná, destaca que Rodrigues conseguiu viver do que escrevia.
"Foi
um escritor profissional que sobreviveu de seu trabalho intelectual, o que fez
com que sua produção fosse imensa", aponta Torres Neto.
Na vida
pessoal, Nelson Rodrigues fazia o clássico papel de homem de família
aproveitador da vida.
Casou-se
com a jornalista Elza Bretanha e, com ela, teve seus dois primeiros filhos. Mas
era um mulherengo inveterado e vivia se envolvendo com amantes.
Abandonou
o casamento e teve outros quatro filhos — a caçula, fruto de relacionamento
extraconjugal com uma mulher casada.
"O
amor entre marido e mulher é uma grossa bandalheira. É degradante que um homem
deseje a mãe de seus próprios filhos", argumentou Rodrigues em uma
crônica.
O
escritor se autointitulava reacionário. Apoiou a ditadura militar e elogiava o
governo do general Emílio Garrastazu Medici (1905-1985).
Ao
mesmo tempo, a censura imposta pelo regime o atingia. Em entrevista realizada
em 1978, o próprio autor disse: "Todos os presidentes, inclusive depois de
64, me massacraram. Tive oito peças interditadas. A censura usa um tratamento
discriminatório contra mim".
O
pesquisador de literatura brasileira André Gomes, professor na Universidade
Estadual Paulista, considera que, de fato, Rodrigues era um "homem
alinhado ao conservadorismo".
"Há
relatos de que só mudou seu posicionamento quando seu filho mostrou ao pai as
cicatrizes provenientes da tortura sofrida durante sua prisão. Do ponto de
vista da sua ficção, Nelson nunca usou o que ele chama de imoralidade a serviço
de uma perspectiva mais progressista", avalia.
O
roteirista Nelson Rodrigues Filho foi preso nos anos 1970 por ter sido
militante contra o regime.
Mas seu
pai — o escritor dizia que "toda coerência é, no mínimo, suspeita" —
também não era alheio às contradições da direita.
"Como
são parecidos os radicais da esquerda e da direita. Dirá alguém que as
intenções são dessemelhantes. Não. Mil vezes não. Um canalha é exatamente igual
a outro canalha", cravou Nelson Rodrigues em crônica.
"No
Brasil, quem não é canalha na véspera é canalha no dia seguinte."
Nelson
Rodrigues era também católico tradicionalista, admirador do arcebispo francês
Marcel Joseph Lefebvre (1905-1991), que chegou a fundar uma sociedade católica
em oposição às modernizações preconizadas pelo Concílio Vaticano 2º, nos anos
1960.
Rodrigues
cunhou o apelido de "arcebispo vermelho" para o religioso Hélder
Câmara (1909-1999), um dos fundadores da Conferência Nacional dos Bispos do
Brasil (CNBB) e grande defensor dos direitos humanos.
Para
Rodrigues, Câmara era um falsário, um "ex-católico".
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Cancelamento?
Esses
elementos fariam de Nelson Rodrigues alguém sujeito ao
"cancelamento", em dias de escrutínio popular instantâneo como hoje?
"Acho
que todos os autores que fazem o tratamento da prática humana de forma tão
aberta quanto Nelson fez são sujeitos passíveis de cancelamento. Então, sim,
ele seria", sentencia Gomes.
"Seguramente
sim, seria cancelado barbaramente", endossa Fischer. "De fato, ele
foi cancelado em seu tempo, sem redes sociais. Ele se queixava, por exemplo,
que era o autor dramático mais censurado, e nunca teve ninguém em seu
favor."
O
linguista Vicente de Paula da Silva Martins — que também acha que o escritor
seria cancelado — aponta para um ponto sensível da obra de Rodrigues.
"O
que envelheceu mal em Nelson Rodrigues é, sem dúvida, a visão bem problemática
que ele tinha sobre mulheres, sexualidade e algumas outras questões sociais que
hoje já não cabem mais", diz Martins, professor na Universidade Estadual
Vale do Acaraú.
"Tem
coisas que são tão ultrapassadas que até nos fazem levantar a
sobrancelha."
"Mas
o que continua atual é a forma como ele desmantela a hipocrisia humana e a
fragilidade das convenções sociais. A luta interna entre desejo e repressão, a
violência emocional, o jogo de máscaras nas relações."
"Isso
tudo continua muito presente, e, de certa forma, bem atual. Ele tinha um
talento único para escancarar o que as pessoas preferem esconder, e, no fim,
esse desconforto e essa crueza ainda ressoam em muitas das questões que vivemos
hoje", completa.
Embora
a obra de Rodrigues seja criticada pelo teor machista, para Fischer, ela contém
também críticas à "estrutura patriarcal das elites", servindo para
"decifrar a dominação machista e a submissão das mulheres".
O
sociólogo Rogério Baptistini, professor na Universidade Presbiteriana
Mackenzie, também aponta para o teor sensível e ao mesmo tempo atual da obra de
Nelson Rodrigues.
"Envelheceu
mal tudo o que, lido hoje, pode soar como naturalização de violência ou uso de
estereótipos; mas o que continua atual é o núcleo: a crítica à hipocrisia, a
percepção de que o moralismo público convive com a degradação privada, e a
capacidade de transformar a família idealizada em laboratório de poder, desejo
e ressentimento", assinala Baptistini.
Torres
Neto lembra que Rodrigues "gostava do debate público", não fugindo da
"réplica" e da "tréplica".
Por
isso, o professor acredita que o escritor "certamente saberia se manter
vivo em meio ao debate público com todas as suas ambiguidades e contradições de
homem e de autor teatral".
Mas é
preciso ser cuidado para não cair no anacronismo, alerta a teatróloga Elen de
Medeiros, professora na Universidade Federal de Minas Gerais e autora do livro
Formulações do Trágico no Teatro de Nelson Rodrigues.
"Nelson
Rodrigues, como todo mundo, era um sujeito de seu tempo. Acho perigoso e
complicado equiparar os tempos e os modos de vida e de compreensão da
sociedade, sem cair em armadilhas", lembra Medeiros.
"A
obra rodrigueana está aí. Ela provavelmente incomoda, talvez às novas gerações
mais ainda, porque estamos vivendo tempos de verdades absolutas, de respostas
imediatas, coisas a que a dramaturgia rodrigueana se nega a fazer."
Baptistini
concorda: para ele, Rodrigues segue sendo um "autor incômodo"
justamente pela dificuldade de colocá-lo "nos esquemas morais" ou
"políticos" do presente.
"Ele
se dizia conservador, mas sua obra é uma denúncia implacável da família
patriarcal, do moralismo religioso, da hipocrisia da classe média e da
violência exercida em nome dos 'bons costumes'", avalia o professor.
"Seu
olhar não é progressista nem reacionário no sentido contemporâneo: é
trágico."
Elen de
Medeiros traz outro adjetivo útil para entender Nelson Rodrigues: era um
provocador.
"[Ele]
Aponta para a contradição inerente aos sujeitos, algo que existe em todos nós,
entre o que está escondido e o que é demonstrado", explica a teatróloga,
para quem a dramaturgia de Rodrigues foi "profundamente
transgressora".
O
linguista Vicente de Paula da Silva Martins afirma que a dramaturgia de
Rodrigues explora o lado sombrio da psique humana, "onde o destino das
personagens é muitas vezes marcado pela inevitabilidade da tragédia".
"Além
disso, ele misturou elementos cômicos e melodramáticos, criando uma tensão
entre o trágico e o absurdo, característica de seu estilo único", explica
Martins.
E o
olhar afiado de Rodrigues para os sujeitos mira também a sociedade.
Para
Baptistini, Nelson Rodrigues expõe o desejo, a culpa e a mentira "como
forças estruturantes da vida social brasileira" — o que faz da obra dele
universal.
"Pois
toda sociedade organiza seus conflitos a partir de recalques, silêncios e
interditos", explica o sociólogo.
Por
isso, diz Torres Neto, a obra do escritor continua atual.
"Talvez
o Brasil que é representado nas suas peças tenha envelhecido, porém o humano
com seus dilemas, aflições e conflitos continua lá para ser reapresentado às
novas gerações", comenta.
Mas a
suposta imoralidade retratada em sua obra e a moralidade defendida pessoalmente
por Rodrigues pode soar confusa para os novos leitores.
Esse
paradoxo é justamente um dos "ingredientes mais importantes" da obra,
diz Luís Augusto Fischer.
"Imoral
por ter abordado muitas situações de traições em casamentos supostamente
monogâmicos, assim com por ter trazido para dentro do enredo coisas tidas como
inaceitáveis, como por exemplo em Os Sete Gatinhos, em que um pai de família
agencia suas filhas como prostitutas", aponta Fischer, autor do livro
Inteligência com Dor: Nelson Rodrigues Ensaísta.
"E
moralista porque o fundo ético de seus enredos faz, no fundo, uma defesa meio
desesperada da pureza, da monogamia, da fantasia do amor único para
sempre."
Gomes
endossa que temas como a homossexualidade, a representação feminina e as
fantasias sexuais foram usados por Rodrigues "a serviço de uma perspectiva
que, no fim das contas, era regressiva, moralista e tinha como fim pedagógico a
ideia de uma sexualidade limpa".
"Nesse
sentido, o temário de Nelson Rodrigues não emula a liberdade. E isso fica claro
no tratamento que se dá a ele ao longo da obra", destaca o professor.
"Mas
enfatiza, ainda que subrepticiamente, a ideia de família, de sexualidade, de
feminilidade ou de masculinidade alinhadas a uma visão conservadora da
existência."
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O último domingo
Após
uma longa carreira na imprensa e na dramaturgia, Rodrigues ainda teria uma
experiência interessante na TV.
Pouco
tempo depois da TV Globo ser fundada, nos anos 1960, ele integraria a bancada
do programa Grande Resenha Esportiva Facit, considerado a primeira mesa-redonda
sobre futebol da televisão brasileira.
Ele já
era um nome consagrado do jornalismo e da dramaturgia brasileira nos anos 1970.
Mas a saúde estava debilitada — Rodrigues viveu os últimobs anos lidando com
problemas gástricos e cardíacos.
Ao
mesmo tempo, atuava como cronista em O Globo, não raras vezes defendendo o
regime militar e criticando a oposição.
"A
maior desgraça da democracia é que ela traz à tona a força numérica dos
idiotas, que são a maioria da humanidade", declarou.
Nos
últimos anos de vida, o dramaturgo havia voltado a viver com a primeira mulher,
Elza Bretanha.
Mas a
saúde dava mostras de que não iria aguentar muito.
E
aquele que disse que "o sábado é uma ilusão", morreu em uma manhã de
domingo, 21 de dezembro de 1980. Do coração.
Fonte:
BBC News Brasil

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