Gaza,
ONU e Lula: como evitar a armadilha de Trump
O
convite feito por Donald Trump ao presidente Lula para integrar um suposto
“Conselho da Paz” para Gaza não é um gesto diplomático neutro, mas uma operação
política desenhada para contornar a ONU, esvaziar o direito internacional e
legitimar uma arquitetura de tutela colonial sobre o povo palestino. Em um
contexto marcado pelo genocídio em Gaza e pela ofensiva contra o
multilateralismo, a decisão brasileira diante dessa armadilha pode redefinir o
papel da ONU, a luta pela autodeterminação dos povos e a posição do Brasil como
liderança soberana do Sul Global.
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O convite e a armadilha
O
convite feito por Donald Trump ao presidente Lula para integrar um suposto
“Conselho da Paz” para Gaza não é um gesto diplomático convencional. Ele surge
em um contexto de genocídio em curso, desgaste deliberado das instituições
multilaterais e tentativa explícita dos Estados Unidos de reconstruir sua
capacidade de comando global por meio de arranjos paralelos à ONU. Trata-se,
portanto, de um movimento calculado dentro da disputa pela governança do
pós-guerra em Gaza.
A
armadilha está na forma e no tempo do gesto. Ao convidar Lula, Trump busca
capturar o capital político e simbólico de um líder reconhecido por sua defesa
da autodeterminação dos povos e por sua autoridade moral no Sul Global. A
intenção é legitimar, por associação, um mecanismo que nasce sem centralidade
da ONU e sem protagonismo palestino, convertendo o prestígio de Lula em escudo
político para uma arquitetura de tutela. Se Lula aceita, o Conselho ganha
verniz de legitimidade; se recusa de maneira isolada, abre-se espaço para
enquadramentos e pressões diplomáticas.
Esse
movimento se insere em uma estratégia mais ampla de produção do caos como
instrumento de poder. Trump acumula frentes simultâneas de tensão com grandes
potências, regiões periféricas e organismos multilaterais, utilizando a
instabilidade como método de recomposição de hegemonia. O “Conselho da Paz”
segue essa lógica: não resolve conflitos, mas reorganiza centros decisórios
fora do direito internacional. O convite a Lula, nesse cenário, não é um
chamado à mediação, mas um teste político desenhado para forçar o Brasil a
atuar em um tabuleiro incompatível com seus princípios históricos.
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Gaza e a materialidade do genocídio
Qualquer
discussão séria sobre “paz” em Gaza precisa partir da materialidade dos fatos.
Gaza não é um território em disputa simétrica, mas uma população civil
submetida há anos a cerco, punição coletiva e destruição sistemática de suas
condições de existência. O que se intensifica desde 2023, ao longo de 2024 e
2025, não é um conflito convencional, mas um processo contínuo de extermínio
social, urbano e humano, marcado por bombardeios indiscriminados, colapso
sanitário, fome induzida e aniquilação deliberada de infraestrutura civil.
Essa
realidade não pode ser dissociada de sua moldura histórica. Gaza e Cisjordânia
integram um mesmo continuum colonial, sustentado por fragmentação territorial,
expansão de assentamentos, controle militar permanente e negação de soberania
política. Gaza representa a forma extrema desse modelo: um território
convertido em espaço de confinamento, onde a vida é administrada por critérios
de segurança impostos por uma potência ocupante e onde a autodeterminação é
sistematicamente adiada.
É nesse
contexto que a ideia de “pós-guerra” se revela enganosa. Não há reconstrução
possível enquanto as causas estruturais da destruição permanecem intactas.
Reconstruir sem pôr fim ao cerco, sem garantir direitos políticos e sem
reconhecer a autodeterminação Palestina significa apenas gerir a devastação.
Prédios podem ser refeitos; direitos, quando negados, perpetuam o ciclo da
violência. A materialidade do genocídio não termina com o silêncio das armas:
ela persiste sempre que a arquitetura política do conflito permanece colonial.
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O falso Conselho da Paz e a lógica da tutela colonial
O
chamado “Conselho da Paz” não nasce como mediação multilateral, mas como
mecanismo de administração tutelar do pós-guerra, concebido para deslocar o
centro decisório da ONU para um arranjo político paralelo, sob comando direto
de Washington. Sua institucionalização confirma essa natureza: em novembro de
2025, o Conselho de Segurança endossou o plano norte-americano para Gaza,
acolheu a criação do Board e autorizou que ele operasse entidades sob sua
“autoridade transitória”, inclusive uma força internacional com comando
“aceitável” ao próprio Conselho. Trata-se de um roteiro clássico de tutela:
transição indefinida, reformas condicionadas e autodeterminação sempre adiada.
A
intenção real do dispositivo torna-se explícita em seu desenho político e
financeiro. Reportagens indicam um estatuto com presidência concentrada em
Trump, amplos poderes de veto e controle de membros, além de um modelo de
adesão baseado em mandatos temporários e possibilidade de assentos permanentes
mediante contribuição bilionária. Essa arquitetura converte governança
internacional em mercadoria política e transforma a reconstrução de Gaza em
instrumento de dependência, não de emancipação. Um conselho que admite
“cadeiras compradas” não produz paz; produz hierarquia.
Essa
lógica aparece também na narrativa oficial do plano, que trata o pós-guerra
como problema de “oversight”, captação de recursos e gestão tecnocrática.
Direitos, soberania e autodeterminação surgem como variáveis secundárias,
subordinadas à estabilidade definida pelos mesmos atores que sustentaram a
destruição. O Conselho, assim, não encerra o genocídio; ele o reorganiza em
forma administrável, normalizando a violência como transição e esvaziando o
princípio fundamental que deveria orientar qualquer solução legítima: a
Palestina como sujeito político pleno, não como objeto de governança colonial.
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A ONU sob ataque e a disputa pela governança global
O
esvaziamento da ONU não é efeito colateral do conflito em Gaza; é parte central
da estratégia em curso. O “Conselho da Paz” surge para deslocar decisões
políticas fundamentais para fora do sistema multilateral, reduzindo a ONU a
papel operacional ou humanitário. Trata-se de uma inversão perigosa: o
multilateralismo deixa de comandar e passa a apenas legitimar, a posteriori,
arranjos definidos por fora do direito internacional.
Esse
ataque é também material. A ofensiva contra a UNRWA, com cortes de
financiamento, criminalização de funcionários e destruição de instalações, visa
corroer a principal infraestrutura internacional que reconhece o estatuto
político e jurídico do povo palestino. Enfraquecer a ONU, nesse caso, significa
apagar a linguagem dos direitos, da autodeterminação e da responsabilidade
internacional. Não é uma disputa administrativa; é uma disputa pela memória
jurídica do conflito.
A
própria resolução que endossa a “transição” em Gaza evidencia a contradição: ao
mesmo tempo em que invoca o Conselho de Segurança para conferir legalidade,
autoriza a criação de entidades sob autoridade externa à ONU. O precedente é
grave. Se a ONU aceita ser contornada em um caso dessa magnitude, abre-se
caminho para uma governança global baseada em conselhos ad hoc, lideranças
personalistas e exceções permanentes. Resgatar a ONU, portanto, não é
idealismo; é necessidade estratégica para qualquer país que não aceite a
privatização da paz e a substituição do direito pela força.
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Lula como sujeito histórico do Sul Global
O
convite dirigido a Lula só se explica pela posição singular que ele ocupa no
sistema internacional. Lula não é um mediador circunstancial; é um sujeito
histórico do Sul Global, cuja trajetória combina legitimidade popular,
experiência de governo e capacidade de articulação transversal. Ao longo de
décadas, construiu uma política externa orientada à multipolaridade, ao
fortalecimento do multilateralismo e à defesa da autodeterminação dos povos,
tornando-se referência para países que recusam a submissão automática às
grandes potências.
Essa
coerência se expressa de forma clara no caso palestino. Ao nomear o que ocorre
em Gaza como genocídio, Lula rompeu com o vocabulário eufemístico que sustenta
a inação internacional e assumiu custos diplomáticos por isso. Esse gesto
consolidou sua autoridade moral e ampliou seu soft power, sobretudo no Sul
Global. É precisamente esse capital simbólico que o “Conselho da Paz” tenta
capturar: deslocar Lula de sua posição histórica para transformá-lo em fiador
de uma arquitetura que marginaliza a ONU e subordina a Palestina a uma tutela
externa.
A
armadilha é evidente. Aceitar o convite, tal como formulado, implicaria
contradição com a trajetória que sustenta a liderança de Lula; recusar sem
estratégia abriria espaço para enquadramentos e pressões. A força de Lula está
justamente em evitar essa binariedade. Seu papel histórico lhe permite inverter
o jogo, reafirmando que não há paz legítima fora da ONU nem reconstrução
possível sem soberania Palestina. Ao fazê-lo, Lula não apenas protege o Brasil
de uma armadilha política, como reafirma sua função no mundo: a de líder capaz
de recolocar o direito, a política e a dignidade dos povos no centro de uma
ordem internacional em crise.
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Correlação de forças e cenário preditivo
A
correlação de forças que molda o convite a Lula é objetiva. Os Estados Unidos
tentam recompor capacidade de comando global em um contexto de erosão
hegemônica; Israel busca consolidar o pós-guerra de Gaza como rearranjo
político irreversível; e o Sul Global, ainda que fragmentado, dispõe hoje de
maior margem de manobra, impulsionada pelo peso econômico da Ásia, pela
densidade dos BRICS e pela crise de legitimidade do unilateralismo ocidental.
O
“Conselho da Paz” sintetiza esse momento. Ele não responde apenas a Gaza, mas
inaugura um modelo de governança de exceção, concebido para contornar o
multilateralismo, reduzir custos jurídicos e acelerar decisões favoráveis aos
interesses imperiais. Ao endossar uma autoridade transitória externa à ONU e
autorizar uma força sob comando “aceitável” a esse arranjo, a resolução que
sustenta o plano institucionaliza uma zona cinzenta onde o direito perde
centralidade e a força ganha verniz administrativo.
No
curto prazo, três movimentos são previsíveis. O primeiro é a intensificação da
pressão por adesões ao conselho, combinando sedução diplomática, chantagem
econômica e narrativa moralista de “paz e reconstrução”. O segundo é o
aprofundamento do ataque à ONU e às agências que preservam a legitimidade
Palestina, abrindo espaço para estruturas tuteladas. O terceiro é o
enquadramento de governos resistentes como obstáculos à paz, com uso de guerra
informacional e coerção seletiva. Para o Brasil, o risco não está apenas na
decisão formal, mas na captura de sua reação.
Essa
correlação, contudo, também abre oportunidade. Há fissuras no Ocidente,
desconforto crescente com a privatização da governança global e repúdio
internacional ao massacre em Gaza. Se operar com precisão, o Brasil pode
deslocar o eixo do debate, transformar o convite em teste de legitimidade e
recolocar a ONU e a autodeterminação Palestina no centro. O objetivo não é
apenas evitar custos, mas converter a crise em vitória estratégica, afirmando o
Brasil como ator capaz de produzir ordem política em um mundo governado pelo
caos.
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Os riscos para o Brasil: aceitar, recusar ou inverter o jogo
O
convite de Trump foi desenhado para capturar o gesto brasileiro, qualquer que
ele seja. O risco central não está apenas na decisão formal, mas no
enquadramento político posterior. Trata-se de uma armadilha clássica:
transformar uma escolha soberana em custo inevitável, seja pela adesão, seja
pela recusa, deslocando o debate do direito internacional para uma disputa
narrativa controlada pelos Estados Unidos.
Aceitar
o Conselho tal como proposto é a opção mais onerosa. Significaria legitimar uma
arquitetura que marginaliza a ONU e subordina a reconstrução de Gaza a uma
tutela externa, corroendo a coerência histórica da política externa brasileira
e o capital simbólico de Lula. A tese de “entrar para moderar” não se sustenta
diante da assimetria de comando: o Brasil seria convertido em avalista de uma
estrutura concebida por outros, com custos domésticos e internacionais difíceis
de reverter.
A
recusa frontal, embora coerente no princípio, também carrega riscos se não for
acompanhada de engenharia diplomática. Em um ambiente de guerra informacional,
ela pode ser enquadrada como obstrução à paz, abrindo espaço para pressões
seletivas e tentativas de isolamento. O dilema, portanto, é falso: aceitar
compromete princípios; recusar sem estratégia compromete margem de manobra.
A única
saída racional é inverter o jogo. O Brasil precisa transformar o convite em um
teste público de legitimidade, condicionando qualquer participação a critérios
claros: centralidade da ONU, protagonismo palestino e vínculo entre
reconstrução e autodeterminação. Assim, o “sim” deixa de ser adesão e passa a
ser exigência, e o “não” deixa de ser isolamento para se tornar consequência da
recusa imperial em respeitar o direito internacional. Esse movimento protege a
soberania brasileira e impede que Gaza se torne precedente para futuras tutelas
em outras regiões do mundo.
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O caminho correto: como evitar a armadilha e sair maior
Evitar
a armadilha exige iniciativa, não defensiva. O Brasil precisa converter o
convite em teste público de legitimidade, deslocando o eixo do debate para onde
ele deve estar: ONU, direito internacional e autodeterminação dos povos. Não se
trata de aceitar ou recusar um conselho específico, mas de reformular as
condições de possibilidade de qualquer iniciativa de paz.
O
primeiro passo é condicionar publicamente. O Brasil afirma disposição para
atuar pela paz desde que três critérios sejam atendidos: centralidade formal da
ONU como autoridade política e operacional; protagonismo palestino com mandato
reconhecido; e vínculo indissociável entre cessar-fogo, reconstrução e direitos
políticos. Essa resposta impede a captura do gesto brasileiro: se os critérios
são aceitos, o arranjo deixa de ser tutelar; se são rejeitados, a ilegitimidade
do conselho fica exposta.
O
segundo passo é internacionalizar a posição. O Itamaraty deve articular, de
forma discreta e coordenada, uma coalizão mínima com países do Sul Global e
atores europeus desconfortáveis com o bypass da ONU. O objetivo não é confronto
ideológico, mas blindagem política: quando a exigência de legalidade é
compartilhada, o custo de coerção aumenta e a narrativa de isolamento perde
eficácia.
O
terceiro passo é ofensivo e estruturante. O Brasil deve propor que a
reconstrução de Gaza seja conduzida sob mandato claro da ONU, com
transparência, auditoria e participação dos diretamente afetados. Ao fazer
isso, Lula conecta o episódio a uma agenda histórica: a reforma da governança
global. Em vez de legitimar conselhos ad hoc, o Brasil oferece uma alternativa
concreta para resgatar a política e o direito onde foram substituídos pela
força. Assim, o país não apenas evita a armadilha, como sai maior: preserva
coerência, amplia soft power e afirma liderança em um mundo que carece de
legitimidade.
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Uma bússola para o Itamaraty
Para
atravessar este episódio sem custos estratégicos e sair fortalecido, o
Itamaraty precisa operar com método, disciplina narrativa e tempo político. A
primeira diretriz é controlar o enquadramento. O convite deve ser tratado como
oportunidade de reafirmar princípios universais, como a centralidade da ONU, a
legalidade internacional e a autodeterminação dos povos, e não como adesão a um
conselho específico. Toda comunicação oficial deve partir desse tripé,
blindando o Brasil contra enquadramentos oportunistas.
A
segunda diretriz é ancorar a posição em multilateralismo ativo. Antes de
qualquer decisão pública, o Brasil deve articular consultas com países do Sul
Global e atores europeus comprometidos com a preservação da ONU. O objetivo é
transformar uma posição nacional em referência compartilhada. Quando a defesa
da legalidade deixa de ser isolada, o custo de coerção aumenta e a margem de
pressão diminui.
A
terceira diretriz é converter princípio em proposta concreta. O Brasil deve
defender que a reconstrução de Gaza ocorra sob mandato claro da ONU, com
participação palestina efetiva, transparência de recursos e vínculo
indissociável entre cessar-fogo, reconstrução e direitos políticos. Essa
postura desloca o Brasil da reação para a formulação, afirmando-o como ator
capaz de oferecer soluções sistêmicas.
Por
fim, é essencial unidade interna de discurso. O governo deve falar a uma só
voz, com mensagens curtas e repetíveis. O Brasil é a favor da paz, mas não de
qualquer paz. É a favor da reconstrução, mas não da tutela. É a favor do
multilateralismo, não de conselhos privados. Seguindo essa bússola, o Brasil
não apenas evita a armadilha, como transforma o episódio em afirmação
histórica, consolidando Lula como liderança global de soft power e reafirmando
a vocação brasileira de reconstruir a política onde ela foi deliberadamente
corroída.
Fonte:
Por Reynaldo José Aragon Gonçalves, em Brasil 247

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