quarta-feira, 28 de janeiro de 2026

Marcelo Zero: Decifrando Trump via Mcklinley

Em seu primeiro dia do seu segundo mandato, Trump tomou uma decisão, que embora apenas simbólica, é reveladora do seu modo de pensar os EUA e seu papel no mundo.

Ele mandou mudar o nome do ponto culminante da América do Norte de “Denali” (o nome que o povo nativo do Alaska lhe havia atribuído) de novo para Mount McKinley, o nome que os brancos anglo-saxônicos haviam usado durante décadas. Ademais, Trump mencionou, com ênfase muito elogiosa, McKinley em seu discurso de posse.

Mas, afinal, quem foi McKinley?

Willian McKinley, nome pouco conhecido internacionalmente, foi o vigésimo-quinto presidente dos EUA.

Governou aquele país de 4 de março de 1897 até o seu assassinato, em 14 de setembro de 1901, já no início do seu segundo mandato. Foi sucedido por Teddy Roosevelt, também republicano, que deu continuidade às suas políticas.

Trump admira McKinley por vários motivos.

Em primeiro lugar, porque McKinley foi, do ponto de vista econômico e comercial, bastante protecionista e advogava que a industrialização dos EUA demandava uma política tarifária dura e drástica.

Em 1890, ainda na condição de Representative, McKinley conseguiu aprovar a famigerada “Tarifa McKinley”, a qual elevou a gravação tarifária média dos EUA para produtos importados a espantosos 50% (lembra alguma coisa, não?).

Mas tal “tarifaço” acabou tornando-se polêmico. Houve considerável elevação dos preços para consumidores e, ademais, vários países (como o Reino Unido, por exemplo) responderam com retaliações semelhantes, o que veio a agravar a situação econômica.

Os Republicanos acabaram perdendo as eleições seguintes e a “Tarifa McKinley” foi substituída pela Lei Tarifária Wilson-Gorman de 1894, que intentou reduzir o tarifaço de McKinley e, além disso, procurou implantar o primeiro imposto de renda em tempos de paz (tinha havido um imposto de renda nos tempos da Guerra Civil).

O Senado, contudo, apresentou mais de 600 emendas ao projeto, as quais mantiveram muitas tarifas bastantes elevadas; e o imposto de renda foi declarado inconstitucional pela Suprema Corte, em 1895. O imposto de renda nos EUA, lembre-se, só foi efetivamente criado em 1913, via a aprovação da 16ª emenda à Constituição.

O fato é que McKinley, cujo apelido entre os Republicanos era “Tariff Man”, assim que se tornou presidente, em 1897, assinou o Dingley Act, lei que restabeleceu, na essência, o tarifaço anterior.

Em segundo lugar, Trump admira McKinley porque ele foi um presidente, no campo internacional, francamente expansionista e imperialista.

Sob sua gestão, os EUA derrotaram a Espanha na Guerra de 1898 (Guerra Hispano-Americana) e conseguiram se apropriar das antigas colônias espanholas de Guam, Filipinas e Porto Rico.

Também na sua gestão, os EUA estabeleceram um protetorado sobre Cuba, anexaram o Havaí, começaram a explorar a possibilidade de construir um canal através da Nicarágua (posteriormente, Panamá) e compraram territórios da Dinamarca no Caribe (as atuais Ilhas Virgens Americanas), em troca do reconhecimento da soberania desse país sobre a Groenlândia, uma ironia da História.

É óbvio que os EUA, quando McKinley chegou ao poder, já possuíam, por assim dizer, vasta experiência em expansionismo, exploração e colonialismo.

Mas o ano de 1898 marcou forte inflexão imperial na política externa dos EUA.

Como destacou Harshit Prajapati em recente artigo, “em questão de meses, os Estados Unidos derrubaram um império europeu, adquiriram mais de 7.000 ilhas a mais de 11.000 quilômetros da costa da Califórnia e se tornaram instantaneamente uma potência do Pacífico”.

Ademais, salientamos nós, os EUA, sob McKinley se tornaram praticamente “os donos” efetivos, territoriais, do Caribe e da América Central.

Depois de McKinley, o número de militares americanos jamais voltaria a ser inferior a 100.000.

Woodrow Wilson refletiu, uma década antes de sua própria presidência nos EUA, que: “Nenhuma guerra jamais nos transformou tanto quanto a guerra com a Espanha. […] Testemunhamos uma nova revolução”.

Com McKinley, cuja política foi continuada por Teddy Roosevelt, os EUA consolidaram a Doutrina Monroe como instrumento de colonialismo hemisférico e a usaram como trampolim geopolítico para se tornarem um império mundial, dedicado à pilhagem, à apropriação de recursos naturais e estratégicos e ao domínio territorial puro e simples.

Assim, McKinley combinou intenso e duro protecionismo econômico-comercial, no plano interno, com forte expansionismo territorial e pilhagem de recursos naturais, no plano externo.

Desse ponto de vista, a Nova Estratégica Nacional de Segurança dos EUA intenta, em grande parte, uma retomada retrógada do glorioso ano de 1898 de McKinley. O Annus Mirabilis do Império dos EUA.

Os paralelos são muitos. O entusiasmo quase infantil de Donald Trump por tarifas e protecionismo, o seu interesse em reaver o Canal do Panamá, a sua tensão com o Canadá, o seu renovado foco francamente imperial na América Latina e até a sua busca por território dinamarquês remontam à virada do século XIX para o Século XX.

Ressalte-se que Theodore Roosevelt, que continuou e expandiu as políticas protecionistas e imperiais de McKinley, também é muito admirado por Trump. Foi ele, aliás, o primeiro Presidente dos EUA a ganhar o Prêmio Nobel da Paz, outra obsessão de Trump.

Em conjunto, McKinley e Roosevelt conduziram os Estados Unidos ao “Século Americano”, um período de crescente domínio global dos EUA.

Domínio obtido essencialmente pelo uso desavergonhado da força.

Ressalte-se que, quando foi criada a Liga das Nações, antecessora da ONU, ao final da Primeira Grande Guerra Mundial, os EUA, pressionado pelo Senado, se recusaram a aderir a essa primeira grande instituição global porque, alegavam os senadores, a Liga poderia impor limites jurídicos ao uso da força, por parte dos EUA, para exercerem controle sobre o “seu Hemisfério”.

Trump, hoje, trata a ONU e todas as outras instituições multilaterais ou plurilaterais (tal como a OMC e a própria Otan) como os EUA tratavam a Liga das Nações. Limites inaceitáveis ao seu direito divino de usar a força, de forma unilateral. É a História repetida como farsa.

Para entender Trump, é necessário, portanto, entender McKinley e Teddy Roosevelt. Trump está ressuscitando a mesma visão do mundo e dos EUA que esses presidentes tinham, há mais de 120 anos.

Ele está ressuscitando uma visão do mundo que enfatiza o protecionismo, a apropriação direta de recursos físicos e estratégicos, o domínio territorial e a homogeneidade cultural e civilizacional interna (leia-se racismo) como instrumentos fundamentais da criação de uma verdadeira e sólida hegemonia internacional e da prosperidade interna.

O domínio territorial, em especial, era o componente essencial dessa equação geopolítica do poder.

Disse McKinley: “O aumento do nosso território aumentou enormemente a nossa força e prosperidade”, comparando as suas aquisições no Pacífico à Compra da Louisiana de 1803.

Com efeito, a anexação das Filipinas acrescentou um país do tamanho do Arizona às possessões dos EUA. Na opinião de McKinley, isto garantiu aos Estados Unidos prestígio e respeito.

“Uma das melhores coisas que alguma vez fizemos foi insistir em ficar com as Filipinas”, disse ele certa vez a um conselheiro. “Em poucos meses, nos tornamos uma potência mundial.”

Hoje, tudo isso soa a insanidade, diria Jeffrey Sachs. Um gangsterismo imperial obsoleto, totalmente deslocado de uma ordem mundial crescente e inexoravelmente multipolar.

O trumpismo é, de fato, uma insanidade geopolítica, combinada com gangsterismo imperial.

Uma espécie de doença importada do final do século XIX.

Trump, o McKinley do Século XXI, não tem futuro viável. E jamais ganhará o Nobel.

Entretanto, está causando grandes estragos. E poderá causar mais. Muito mais.

¨      Izadora Xavier: Quando a coisa aperta, serão vocês aliadosde quem? Um anti-imperialismo cuir e feminista

Os Estados Unidos invadiram a Venezuela. Se, no debate público de maneira mais ampla, discute-se sobre a ilegitimidade da ação dos EUA e a legitimidade do governo de Nicolas Maduro, nos círculos de relações internacionais, discute-se sobre o que a nova etapa particularmente ofensiva do imperialismo norte-americano significa para o Brasil. Diante da inegável superioridade militar dos EUA e da sua renovada disposição em desestabilizar territórios – não só a “velha guarda” da nossa área pode regozijar do retorno da geopolítica, mas também uma nova guarda se vê um tanto fascinado por essa sereia. É a hora de repensar nosso acesso à bomba nuclear? Devemos estreitar laços com os inimigos dos nossos inimigos – Rússia e China – a fim de resguardar nossa soberania? O BRICs deve ser uma aliança militar? De maneira curta e direta: como evitar ser invadidos?

A pergunta sobre evitar ser invadidos requer um minuto de consideração, o que raramente a ameaça das armas nos deixa, então é preciso pensar rápido. Anti-imperialismo é evitar ser invadido? É a proteção de fronteiras ou de regimes contra o mais forte que nos ameaça imediatamente?

Logo após a captura de Maduro, o secretário de Estado Rubio não mediu palavras: disse ao vizinho da Venezuela, Gustavo Petro que era melhor que o presidente colombiano “watched his ass”, que em bom português seria algo talvez impublicável em um jornal respeitado como A União. Uma talvez publicável tradução: tal qual uma certa parte da anatomia dos bêbados no dizer popular, o de presidentes latino-americanos teria um potencial dono. Os Estado Unidos.

Petro respondeu dizendo que, caso Rubio viesse a sequestrá-lo, que o povo usasse a situação para tomar o poder.

Há algo nessa resposta: anti-imperialismo não é a proteção da soberania a qualquer custo, ou pelo menos me parece urgente, sob a mira de bombas planadoras AGM-154 e comandos Delta Force, pensarmos sobre o que queremos dizer quando dizemos que o momento urge para pensarmos em estratégias anti-imperialistas.

Aqui está a dúvida: é anti-imperialismo uma defesa da proteção das fronteiras nacionais que não se preocupa com, por exemplo, quem serão nossos aliados e quais os termos das alianças geopolíticas que podem garantir a sustentação de um regime, qualquer regime, inclusive um governo explorador, e o controle de território, independente de como esse território esteja sendo organizado? Ou é anti-imperialismo uma luta igualitária por autogoverno?

Parece que circula, junto com a volta da geopolítica, uma visão soberanista e formalista do anti-imperialismo.

Uma visão repercutida em vídeos de oficiais chineses assegurando que, caso os EUA ataquem a China, o governo chinês é capaz de responder à altura e suas armas alcançam todos os lugares do mundo. Um anti-imperialismo que parece, antes de tudo, se preocupar em comparar tamanhos de armamento e medir o tamanho da sua resposta. Um anti-imperialismo que tem como campeões não o povo, em todas as suas facetas, mas muito simplesmente os inimigos dos nossos inimigos. Aliados cujo compromisso com o nosso próprio autogoverno é secundário, na melhor das hipóteses. Aliados cujo compromisso principal é a proteção do próprio ass.

É isso há anti-imperialismo? Salvar nossos traseiros? Parece-me que há uma outra visão de anti-imperialismo mais espalhafatosa. Uma mais gilete embaixo da língua e água quente no ouvido e menos bombas muito grandes e potentes. Uma que talvez tenha sido derrotada no passado ou que talvez até nunca conseguiu tomar forma, mas que é o anti-imperialismo pelo qual se vale a pena lutar, e um que convida quem mais sonha com autogoverno a participar das formas pelas quais vamos construir uma luta igualitária por autogoverno, uma luta popular e igualitária por formas de autodefesa e autogoverno. Um anti-imperialismo feminista e cuir (que é outro jeito de dizer LGBT, para os fins desse texto).

Amassuru é uma rede que une ativistas, jornalistas, políticas e pesquisadoras latino-americanas preocupadas em pensar o que é e para que serve segurança e defesa a partir da perspectiva das mulheres. Recentemente, após a Operação policial Contenção que matou mais de 100 pessoas no Rio de Janeiro, a rede se pronunciou criticando a militarização da segurança pública. Na ocasião, o comunicado conjunto da organização lembrou um ponto importante: que respostas militarizadas, internas ou internacionais, não garantem nem paz nem desenvolvimento para mulheres e as chamadas “minorias”.

A existência da Amassuru é essencial para renovar e recriar no contexto latino-americano um internacionalismo feminista. Essa longa tradição se renova ao se opor, de um lado, ao militarismo das soluções de segurança pública internas que pesam sobre o trabalho de cuidado tanto das mulheres que sustentam a sociedade em contextos militarizados, quanto das mulheres que aderem à ideia de que gastar dinheiro com homens e armas é melhor do que gastar dinheiro com cuidadoras e cuidado. De outro lado, uma rede que se opõe ao geopolitismo patriarcal.

Se opor ao geopolitismo patriarcal é lembrar que a guerra e as invasões imperiais são o acirramento das pressões sobre o trabalho de cuidado feminino e também o acirramento do terror patriarcal sob o que já vivemos quotidianamente. Ele não é o oposto de uma situação de paz liberal, que nunca significou e ainda não significa o acesso das mulheres à igualdade e emancipação. Isso chama um posicionamento feminista de oposição ao imperialismo que é apoio a formas populares e igualitárias de autodoefesa e autogoverno.

É urgente pensar como construir uma proposta para um anti-imperialismo que se preocupa com a liberação dos povos verdadeiramente e não com o standing relativo de diferentes impérios, ou que é apenas um contra-projeto de masculinismo imperial.

Foi o que a Amassuru Venezuela pediu em seu comunicado logo após a invasão: que as vozes das mulheres sejam ouvidas para a reconstrução da Venezuela, que a condenação da ingerência norte-americana seja ecoada na condenação de outras formas de ingerência. Por exemplo, aquela que exclui as mulheres dos “assuntos sérios” da política internacional e que quer que deixemos para os meninos as brigas geopolíticas enquanto esperamos que heróis nacionais se apresentem para tornar o espaço doméstico apropriado para as nossas lutas feministas.

Já no caso do LGBT Mais Movimento, organização carioca que trabalha acolhendo migrantes LGBT venezuelanos há anos, lembrou que há anos recebemos aqueles para quem a soberania venezuelana nunca significou proteção. Em comunicado sobre a invasão da Venezuela que o grupo publicou no instagram, o movimento lembra que reduzir as experiências LGBT “a uma leitura apenas geopolítica ou imperialista é insuficiente” e que “a militarização por si mesma não protege vidas, não fortalece a democracia e não responde aos desejos profundos de quem sonha com um futuro digno”. O movimento condena o silêncio anterior de, justamente, os governos que agora se encontram com medo da invasão, diante das demandas e angústias daqueles para quem soberania quer dizer ser sacrificado em nome de um coletivo que recusa, abusa e explora.

O comunicado encerra reforçando que autodeterminação e geopolítica como mutuamente excludentes.

Eu não sei vocês, mas se for para pegar em armas para defender alguma coisa, as minhas lealdades estão com as mulheres do Amassuru e com as transviadasapatão do LGBT Mais Movimento. E as de vocês? Quando a coisa aperta, serão vocês aliados de quem?

 

Fonte: Viomundo/Le Monde

 

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