quarta-feira, 28 de janeiro de 2026

Trump, supremacia branca e nazismo: o elo persistente

O trumpismo não inventou o ódio à ciência – apenas o elevou à condição de método político. Tampouco inventou o racismo como linguagem de Estado – apenas lhe devolveu centralidade institucional. A novidade é outra: pela primeira vez em décadas, a extrema direita norte-americana tenta transformar uma guerra cultural em engenharia administrativa, com diretrizes explícitas para capturar agências, domesticar a produção de dados e punir a autonomia do conhecimento.

Para compreender esse movimento, é preciso recuar: ao século XIX, ao mito do Destino Manifesto e à pedagogia da fronteira – quando a violência colonial foi apresentada como progresso inevitável e a supremacia branca como destino histórico. É dessa matriz que deriva, em linha sinuosa, mas persistente, a passagem da conquista do Oeste ao Lebensraum nazista, e deste ao America First contemporâneo.

A partir dessa matriz, este texto acompanha suas radicalizações no século XX, quando o mito da fronteira e da missão histórica foi transposto para o coração da Europa sob a forma do “espaço vital”, combinando racismo biológico, esoterismo político e uma relação instrumental com a ciência. Por fim, examina como esse mesmo padrão reaparece no século XXI, na reativação do slogan America First, na retórica de exclusão racial e no ataque sistemático ao método científico e às instituições do conhecimento – hoje formalizado em projetos políticos que tratam a razão como inimiga. A hipótese é direta: quando o mito governa, a realidade precisa ser neutralizada.

<><> O Destino Manifesto: expansão como mandato moral

O Destino Manifesto surgiu nos Estados Unidos do século XIX como a crença de que a nação estaria predestinada – por desígnio divino, pela suposta superioridade moral associada aos valores do protestantismo anglo-saxão e pelo vigor racial – a expandir-se do Atlântico ao Pacífico. Tratava-se menos de uma estratégia política circunstancial do que de uma doutrina moral, que convertia a expansão territorial em dever histórico. A terra a oeste era descrita como vazia ou mal aproveitada; seus habitantes originários, quando reconhecidos, apareciam como entraves ao progresso.

Essa visão cumpriu uma função decisiva: naturalizar a violência. Guerras de extermínio, deslocamentos forçados, confinamento em reservas e destruição cultural passaram a ser apresentados como efeitos colaterais inevitáveis do avanço da civilização. A fronteira operou como pedagogia política: ensinou que a história avança pela substituição de povos considerados fracos ou atrasados por outros, tidos como superiores.

<><> A fronteira e o indígena como “passado a ser superado”

O destino imposto aos povos indígenas foi central nessa pedagogia. Em poucas décadas, sociedades inteiras foram desestruturadas ou empurradas para territórios inóspitos. No imaginário dominante, o indígena ocupou um lugar ambíguo: ora idealizado como “bom selvagem”, digno e honrado, ora demonizado como bárbaro e irrecuperável.

Mesmo quando revestida de nostalgia ou tragédia, essa representação reforçava a ideia de que os indígenas pertenciam ao passado, enquanto o homem branco encarnava o porvir. A fronteira não era apenas um espaço geográfico, mas antes um limiar temporal e racial: cruzá-la significava subjugar povos considerados obsoletos e abrir caminho para uma nova ordem.

<><> A romantização cultural da conquista e a exportação do mito

A força do Destino Manifesto não se limitou às políticas estatais; também se consolidou e expandiu-se por meio da cultura. Literatura, pintura e, mais tarde, cinema transformaram a conquista do Oeste em epopeia fundadora. A violência colonial foi estetizada, convertida em aventura moral, enquanto a expropriação de terras e o extermínio de povos eram diluídos em narrativas de heroísmo e de progresso inevitável.

É nesse ponto que a obra de Karl May adquire relevância histórica. Extremamente popular na Alemanha do final do século XIX e no início do XX, May escreveu romances ambientados no Oeste americano – como a série Winnetou – sem jamais ter conhecido a região. Seus livros apresentavam indígenas dotados de nobreza, coragem e honra, mas quase sempre condenados à derrota ou ao desaparecimento. A empatia individual coexistia com uma mensagem estrutural: a expansão branca era inexorável, e a história avançava por substituição.

Essa romantização teve efeitos que ultrapassaram o campo literário. Ao apresentar a conquista do Oeste como um processo quase natural – no qual povos “primitivos” cedem lugar a uma civilização superior –, Karl May contribuiu para internalizar, no imaginário europeu, a lógica colonial norte-americana. Não é irrelevante que, na Áustria dos Habsburgos, o jovem Adolf Hitler, leitor voraz de Karl May, tenha sonhado com as aventuras épicas da raça branca em terras da América. O Destino Manifesto tornava-se, assim, um modelo exportável: a ideia de que um povo investido de missão histórica teria não apenas o direito, mas o dever de ocupar territórios e submeter – ou eliminar – populações classificadas como inferiores.

Esse imaginário não se restringia aos Estados Unidos. Ele fazia parte de um espírito dominante no mundo branco europeu e norte-americano do final do século XIX, marcado pela crença na superioridade da raça branca e no direito das potências “civilizadas” de decidir o destino de outros povos. A Conferência de Berlim (1884–1885) foi a expressão mais acabada desse consenso colonial: representantes europeus retalharam o interior do continente africano à revelia de suas populações, traçando no mapa fronteiras artificiais que, em muitos casos, perduram até hoje. Assim como no Oeste americano, a violência colonial era legitimada como necessidade histórica, e a subjugação de povos inteiros apresentada como preço inevitável do progresso.

Não por acaso, a expansão da civilização branca na América do Norte foi observada com admiração por setores do pensamento político europeu no início do século XX. A expansão territorial norte-americana passou a ser vista como um precedente histórico bem-sucedido de dominação racial – uma gramática simbólica e política que seria radicalizada em outro contexto. O Lebensraum nazista – a ideia de “espaço vital” a ser conquistado no Leste europeu – dialoga estruturalmente com esse imaginário: povos eslavos e judeus seriam tratados como os indígenas da fronteira norte-americana, obstáculos históricos a serem removidos em nome da grandeza nacional.

Pesquisas recentes mostram, inclusive, que juristas e ideólogos nazistas analisaram leis de segregação e políticas migratórias dos Estados Unidos ao formularem sua própria legislação racial, buscando referências e limites jurídicos para a institucionalização do racismo.

Karl May não foi ideólogo do nazismo, nem defendeu políticas de extermínio. Mas suas obras participaram de um ecossistema cultural que normalizou hierarquias raciais e a noção de expansão civilizatória violenta. A fronteira americana, romantizada e despolitizada, ofereceu uma gramática simbólica que ajudou a legitimar, em outros contextos, projetos de dominação racial muito mais extremos.

<><> Da fronteira americana ao século XXI

Esse legado não pertence apenas ao passado. Quando Donald Trump fala em muros, deportações em massa, países descritos como “indesejáveis” ou na necessidade de preservar a grandeza americana contra inimigos internos e externos, ele aciona uma tradição que associa identidade nacional, território e hierarquia racial. O America First não é apenas um slogan econômico ou isolacionista: ele ecoa o Destino Manifesto, deslocando a antiga expansão territorial explícita para formas contemporâneas de exclusão política, cultural e migratória.

Na América Latina, os efeitos dessa tradição não são meramente teóricos. Eles aparecem no repertório de intervenções, golpes, bloqueios e tutelas que, ao longo do século XX, fizeram do continente uma espécie de “fronteira externa” permanente – território a ser disciplinado em nome da ordem, do mercado e da civilização. O America First não contradiz essa história: ele a reorganiza, atualizando o velho direito de definir quem merece futuro e quem deve ser contido.

A fronteira física do século XIX desapareceu, mas suas categorias mentais permanecem ativas. Elas ressurgem na distinção entre cidadãos plenos e populações descartáveis, entre vidas protegidas e vidas sacrificáveis. Compreender essa genealogia é essencial para evitar a tentação de tratar o trumpismo como uma anomalia passageira, desvinculada de processos históricos mais longos.

<><> Nazismo: ciência instrumental e mito político

A história do século XX oferece um precedente instrutivo. O nazismo não rejeitou a ciência por princípio; ele a subordinou a uma visão de mundo racial. Médicos, biólogos, estatísticos e juristas foram amplamente mobilizados, desde que operassem dentro de um quadro ideológico rígido. A eugenia e a biologia racial forneceram a linguagem técnica para políticas de esterilização, segregação e extermínio, enquanto evidências empíricas que contrariavam a doutrina eram ignoradas ou suprimidas.

Paralelamente, setores centrais do poder – sobretudo na SS – cultivaram um esoterismo político destinado a legitimar a supremacia ariana por meio de mitos de origem, símbolos rúnicos e narrativas pseudo-históricas. Instituições como a Ahnenerbe foram criadas para conferir aparência científica a conclusões previamente estabelecidas: o passado mítico substituía a história crítica; a crença, a evidência.

O resultado não foi irracionalismo caótico, mas uma forma moderna de dominação: ciência quando útil, mito quando necessário, violência convertida em dever histórico.

<><> Trumpismo e a recusa contemporânea da ciência

O trumpismo inscreve-se nessa continuidade ao confrontar especialistas, universidades, imprensa e agências técnicas, ao tratar a ciência climática como conspiração, pandemia como exagero e dados oficiais como opinião. Em diferentes frentes, políticas públicas passam a ser formuladas não a partir de evidências, mas de intuições, lealdades e conveniências políticas imediatas.

Como advertiu Hannah Arendt, antes que regimes totalitários possam se impor, a realidade precisa ser destruída. Na política norte-americana, esse processo pode assumir a forma descrita por Richard Hofstadter como “estilo paranoico”: a mobilização emocional e a suspeição sistemática substituem a verificação empírica e o debate racional.

<><> Project 2025: a engenharia institucional do negacionismo

Essa estratégia encontra formulação explícita no Project 2025. Longe de ser manifesto retórico, o documento propõe um redesenho institucional do Estado norte-americano com um objetivo preciso: subordinar as agências técnicas e científicas ao controle político direto do Executivo.

Em termos práticos, trata-se de um manual para colocar o Estado sob tutela ideológica: enfraquecer reguladores, controlar a produção pública de dados e reordenar as agências técnicas segundo critérios de lealdade política. Entre seus eixos estão o esvaziamento de órgãos reguladores, a politização da produção de dados e a substituição da expertise pela lealdade ideológica. A ciência não é abolida; é domesticada – o que não confirma a narrativa passa a ser rotulado como viés, militância ou sabotagem.

Nesse ambiente, dissemina-se o mote de que “as pessoas estão cansadas de especialistas”, frase celebrizada durante a campanha do Brexit, ao passo que o trumpismo converte a desconfiança em relação ao saber técnico e às instituições de conhecimento em princípio de governo, agora formalizado em diretrizes administrativas.

<><> Project Esthere a teologia política

Em paralelo, iniciativas como o Project Esther explicitam a dimensão teológico-política do ataque à razão. Aqui, a ciência não é apenas um inconveniente: é tratada como uma ameaça moral. Educação crítica, estudos de gênero, pesquisa climática e biologia evolutiva tornam-se alvos prioritários não por seus resultados, mas por confrontarem visões de mundo baseadas em dogmas religiosos e identidades fechadas.

A lógica se aproxima daquela do esoterismo político nazista: quando a evidência contradiz a fé ou o mito identitário, a evidência deve ceder. A verdade deixa de ser buscada; passa a ser revelada.

<><> Conclusão: a política contra a realidade

Raça, identidade e “civilização ocidental” reaparecem como categorias políticas destinadas a bloquear o escrutínio racional. Minorias, imigrantes, mulheres – especialmente as que reivindicam autonomia reprodutiva e igualdade de direitos – e cientistas são retratados como ameaças à ordem porque a ciência desmente hierarquias inventadas, expõe custos sociais e revela limites ecológicos e sanitários. O ataque à razão não é colateral; é estrutural: visa neutralizar aquilo que ainda pode conter o poder – a capacidade coletiva de distinguir fato de crença, método de fé, verdade de propaganda.

O fio que liga o Destino Manifesto ao America First e o mito racial à anticiência contemporânea não é acidental. Ele revela uma constante histórica: projetos autoritários prosperam quando substituem a realidade por narrativas impermeáveis à evidência. No século XIX, o mito da fronteira justificou a conquista territorial e o extermínio; no século XX, o mito racial legitimou o genocídio; no século XXI, o ataque à ciência busca silenciar aquilo que ainda pode resistir ao poder. Quando o mito governa, a razão não desaparece – ela é deliberadamente silenciada.

E é por isso que o combate ao autoritarismo hoje não é apenas eleitoral ou institucional: é também um combate pela sobrevivência do mundo factual, do método e da crítica – a única base possível para qualquer democracia que não seja apenas formal.

 

Fonte: Por Celso Pinto de Melo, em Outras Palavras

 

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