Trump,
supremacia branca e nazismo: o elo persistente
O
trumpismo não inventou o ódio à ciência – apenas o elevou à condição de método
político. Tampouco inventou o racismo como linguagem de Estado – apenas lhe
devolveu centralidade institucional. A novidade é outra: pela primeira vez em
décadas, a extrema direita norte-americana tenta transformar uma guerra
cultural em engenharia administrativa, com diretrizes explícitas para capturar
agências, domesticar a produção de dados e punir a autonomia do conhecimento.
Para
compreender esse movimento, é preciso recuar: ao século XIX, ao mito do Destino
Manifesto e à pedagogia da fronteira – quando a violência colonial foi
apresentada como progresso inevitável e a supremacia branca como destino
histórico. É dessa matriz que deriva, em linha sinuosa, mas persistente, a
passagem da conquista do Oeste ao Lebensraum nazista, e deste ao America First
contemporâneo.
A
partir dessa matriz, este texto acompanha suas radicalizações no século XX,
quando o mito da fronteira e da missão histórica foi transposto para o coração
da Europa sob a forma do “espaço vital”, combinando racismo biológico,
esoterismo político e uma relação instrumental com a ciência. Por fim, examina
como esse mesmo padrão reaparece no século XXI, na reativação do slogan America
First, na retórica de exclusão racial e no ataque sistemático ao método
científico e às instituições do conhecimento – hoje formalizado em projetos
políticos que tratam a razão como inimiga. A hipótese é direta: quando o mito
governa, a realidade precisa ser neutralizada.
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O Destino Manifesto: expansão como mandato moral
O
Destino Manifesto surgiu nos Estados Unidos do século XIX como a crença de que
a nação estaria predestinada – por desígnio divino, pela suposta superioridade
moral associada aos valores do protestantismo anglo-saxão e pelo vigor racial –
a expandir-se do Atlântico ao Pacífico. Tratava-se menos de uma estratégia
política circunstancial do que de uma doutrina moral, que convertia a expansão
territorial em dever histórico. A terra a oeste era descrita como vazia ou mal
aproveitada; seus habitantes originários, quando reconhecidos, apareciam como
entraves ao progresso.
Essa
visão cumpriu uma função decisiva: naturalizar a violência. Guerras de
extermínio, deslocamentos forçados, confinamento em reservas e destruição
cultural passaram a ser apresentados como efeitos colaterais inevitáveis do
avanço da civilização. A fronteira operou como pedagogia política: ensinou que
a história avança pela substituição de povos considerados fracos ou atrasados
por outros, tidos como superiores.
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A fronteira e o indígena como “passado a ser superado”
O
destino imposto aos povos indígenas foi central nessa pedagogia. Em poucas
décadas, sociedades inteiras foram desestruturadas ou empurradas para
territórios inóspitos. No imaginário dominante, o indígena ocupou um lugar
ambíguo: ora idealizado como “bom selvagem”, digno e honrado, ora demonizado
como bárbaro e irrecuperável.
Mesmo
quando revestida de nostalgia ou tragédia, essa representação reforçava a ideia
de que os indígenas pertenciam ao passado, enquanto o homem branco encarnava o
porvir. A fronteira não era apenas um espaço geográfico, mas antes um limiar
temporal e racial: cruzá-la significava subjugar povos considerados obsoletos e
abrir caminho para uma nova ordem.
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A romantização cultural da conquista e a exportação do mito
A força
do Destino Manifesto não se limitou às políticas estatais; também se consolidou
e expandiu-se por meio da cultura. Literatura, pintura e, mais tarde, cinema
transformaram a conquista do Oeste em epopeia fundadora. A violência colonial
foi estetizada, convertida em aventura moral, enquanto a expropriação de terras
e o extermínio de povos eram diluídos em narrativas de heroísmo e de progresso
inevitável.
É nesse
ponto que a obra de Karl May adquire relevância histórica. Extremamente popular
na Alemanha do final do século XIX e no início do XX, May escreveu romances
ambientados no Oeste americano – como a série Winnetou – sem jamais ter
conhecido a região. Seus livros apresentavam indígenas dotados de nobreza,
coragem e honra, mas quase sempre condenados à derrota ou ao desaparecimento. A
empatia individual coexistia com uma mensagem estrutural: a expansão branca era
inexorável, e a história avançava por substituição.
Essa
romantização teve efeitos que ultrapassaram o campo literário. Ao apresentar a
conquista do Oeste como um processo quase natural – no qual povos “primitivos”
cedem lugar a uma civilização superior –, Karl May contribuiu para
internalizar, no imaginário europeu, a lógica colonial norte-americana. Não é
irrelevante que, na Áustria dos Habsburgos, o jovem Adolf Hitler, leitor voraz
de Karl May, tenha sonhado com as aventuras épicas da raça branca em terras da
América. O Destino Manifesto tornava-se, assim, um modelo exportável: a ideia
de que um povo investido de missão histórica teria não apenas o direito, mas o
dever de ocupar territórios e submeter – ou eliminar – populações classificadas
como inferiores.
Esse
imaginário não se restringia aos Estados Unidos. Ele fazia parte de um espírito
dominante no mundo branco europeu e norte-americano do final do século XIX,
marcado pela crença na superioridade da raça branca e no direito das potências
“civilizadas” de decidir o destino de outros povos. A Conferência de Berlim
(1884–1885) foi a expressão mais acabada desse consenso colonial:
representantes europeus retalharam o interior do continente africano à revelia
de suas populações, traçando no mapa fronteiras artificiais que, em muitos
casos, perduram até hoje. Assim como no Oeste americano, a violência colonial
era legitimada como necessidade histórica, e a subjugação de povos inteiros
apresentada como preço inevitável do progresso.
Não por
acaso, a expansão da civilização branca na América do Norte foi observada com
admiração por setores do pensamento político europeu no início do século XX. A
expansão territorial norte-americana passou a ser vista como um precedente
histórico bem-sucedido de dominação racial – uma gramática simbólica e política
que seria radicalizada em outro contexto. O Lebensraum nazista – a ideia de
“espaço vital” a ser conquistado no Leste europeu – dialoga estruturalmente com
esse imaginário: povos eslavos e judeus seriam tratados como os indígenas da
fronteira norte-americana, obstáculos históricos a serem removidos em nome da
grandeza nacional.
Pesquisas
recentes mostram, inclusive, que juristas e ideólogos nazistas analisaram leis
de segregação e políticas migratórias dos Estados Unidos ao formularem sua
própria legislação racial, buscando referências e limites jurídicos para a
institucionalização do racismo.
Karl
May não foi ideólogo do nazismo, nem defendeu políticas de extermínio. Mas suas
obras participaram de um ecossistema cultural que normalizou hierarquias
raciais e a noção de expansão civilizatória violenta. A fronteira americana,
romantizada e despolitizada, ofereceu uma gramática simbólica que ajudou a
legitimar, em outros contextos, projetos de dominação racial muito mais
extremos.
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Da fronteira americana ao século XXI
Esse
legado não pertence apenas ao passado. Quando Donald Trump fala em muros,
deportações em massa, países descritos como “indesejáveis” ou na necessidade de
preservar a grandeza americana contra inimigos internos e externos, ele aciona
uma tradição que associa identidade nacional, território e hierarquia racial. O
America First não é apenas um slogan econômico ou isolacionista: ele ecoa o
Destino Manifesto, deslocando a antiga expansão territorial explícita para
formas contemporâneas de exclusão política, cultural e migratória.
Na
América Latina, os efeitos dessa tradição não são meramente teóricos. Eles
aparecem no repertório de intervenções, golpes, bloqueios e tutelas que, ao
longo do século XX, fizeram do continente uma espécie de “fronteira externa”
permanente – território a ser disciplinado em nome da ordem, do mercado e da
civilização. O America First não contradiz essa história: ele a reorganiza,
atualizando o velho direito de definir quem merece futuro e quem deve ser
contido.
A
fronteira física do século XIX desapareceu, mas suas categorias mentais
permanecem ativas. Elas ressurgem na distinção entre cidadãos plenos e
populações descartáveis, entre vidas protegidas e vidas sacrificáveis.
Compreender essa genealogia é essencial para evitar a tentação de tratar o
trumpismo como uma anomalia passageira, desvinculada de processos históricos
mais longos.
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Nazismo: ciência instrumental e mito político
A
história do século XX oferece um precedente instrutivo. O nazismo não rejeitou
a ciência por princípio; ele a subordinou a uma visão de mundo racial. Médicos,
biólogos, estatísticos e juristas foram amplamente mobilizados, desde que
operassem dentro de um quadro ideológico rígido. A eugenia e a biologia racial
forneceram a linguagem técnica para políticas de esterilização, segregação e
extermínio, enquanto evidências empíricas que contrariavam a doutrina eram
ignoradas ou suprimidas.
Paralelamente,
setores centrais do poder – sobretudo na SS – cultivaram um esoterismo político
destinado a legitimar a supremacia ariana por meio de mitos de origem, símbolos
rúnicos e narrativas pseudo-históricas. Instituições como a Ahnenerbe foram criadas
para conferir aparência científica a conclusões previamente estabelecidas: o
passado mítico substituía a história crítica; a crença, a evidência.
O
resultado não foi irracionalismo caótico, mas uma forma moderna de dominação:
ciência quando útil, mito quando necessário, violência convertida em dever
histórico.
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Trumpismo e a recusa contemporânea da ciência
O
trumpismo inscreve-se nessa continuidade ao confrontar especialistas,
universidades, imprensa e agências técnicas, ao tratar a ciência climática como
conspiração, pandemia como exagero e dados oficiais como opinião. Em diferentes
frentes, políticas públicas passam a ser formuladas não a partir de evidências,
mas de intuições, lealdades e conveniências políticas imediatas.
Como
advertiu Hannah Arendt, antes que regimes totalitários possam se impor, a
realidade precisa ser destruída. Na política norte-americana, esse processo
pode assumir a forma descrita por Richard Hofstadter como “estilo paranoico”: a
mobilização emocional e a suspeição sistemática substituem a verificação
empírica e o debate racional.
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Project 2025: a engenharia institucional do negacionismo
Essa
estratégia encontra formulação explícita no Project 2025. Longe de ser
manifesto retórico, o documento propõe um redesenho institucional do Estado
norte-americano com um objetivo preciso: subordinar as agências técnicas e
científicas ao controle político direto do Executivo.
Em
termos práticos, trata-se de um manual para colocar o Estado sob tutela
ideológica: enfraquecer reguladores, controlar a produção pública de dados e
reordenar as agências técnicas segundo critérios de lealdade política. Entre
seus eixos estão o esvaziamento de órgãos reguladores, a politização da
produção de dados e a substituição da expertise pela lealdade ideológica. A
ciência não é abolida; é domesticada – o que não confirma a narrativa passa a
ser rotulado como viés, militância ou sabotagem.
Nesse
ambiente, dissemina-se o mote de que “as pessoas estão cansadas de
especialistas”, frase celebrizada durante a campanha do Brexit, ao passo que o
trumpismo converte a desconfiança em relação ao saber técnico e às instituições
de conhecimento em princípio de governo, agora formalizado em diretrizes
administrativas.
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Project Esthere a teologia política
Em
paralelo, iniciativas como o Project Esther explicitam a dimensão
teológico-política do ataque à razão. Aqui, a ciência não é apenas um
inconveniente: é tratada como uma ameaça moral. Educação crítica, estudos de
gênero, pesquisa climática e biologia evolutiva tornam-se alvos prioritários
não por seus resultados, mas por confrontarem visões de mundo baseadas em
dogmas religiosos e identidades fechadas.
A
lógica se aproxima daquela do esoterismo político nazista: quando a evidência
contradiz a fé ou o mito identitário, a evidência deve ceder. A verdade deixa
de ser buscada; passa a ser revelada.
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Conclusão: a política contra a realidade
Raça,
identidade e “civilização ocidental” reaparecem como categorias políticas
destinadas a bloquear o escrutínio racional. Minorias, imigrantes, mulheres –
especialmente as que reivindicam autonomia reprodutiva e igualdade de direitos
– e cientistas são retratados como ameaças à ordem porque a ciência desmente
hierarquias inventadas, expõe custos sociais e revela limites ecológicos e
sanitários. O ataque à razão não é colateral; é estrutural: visa neutralizar
aquilo que ainda pode conter o poder – a capacidade coletiva de distinguir fato
de crença, método de fé, verdade de propaganda.
O fio
que liga o Destino Manifesto ao America First e o mito racial à anticiência
contemporânea não é acidental. Ele revela uma constante histórica: projetos
autoritários prosperam quando substituem a realidade por narrativas
impermeáveis à evidência. No século XIX, o mito da fronteira justificou a
conquista territorial e o extermínio; no século XX, o mito racial legitimou o
genocídio; no século XXI, o ataque à ciência busca silenciar aquilo que ainda
pode resistir ao poder. Quando o mito governa, a razão não desaparece – ela é
deliberadamente silenciada.
E é por
isso que o combate ao autoritarismo hoje não é apenas eleitoral ou
institucional: é também um combate pela sobrevivência do mundo factual, do
método e da crítica – a única base possível para qualquer democracia que não
seja apenas formal.
Fonte:
Por Celso Pinto de Melo, em Outras Palavras

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