Lois
Parshley: Bilionários da tecnologia estão pressionando Trump em relação à
Groenlândia
Quando
Trump propôs pela primeira vez a compra da nação ártica durante seu primeiro
mandato, a ideia foi recebida como uma piada. Mas, em um telefonema no começo
de janeiro com o primeiro-ministro da Dinamarca, que controla a política
externa do território autônomo, o presidente redobrou seus esforços para tomar
o poder. Na conversa “agressiva e confrontativa”, Trump ameaçou impor tarifas
caso não conseguisse o que queria. Em uma coletiva de imprensa no início deste
mês, ele também se recusou a descartar o uso da força militar. Agora, a
Dinamarca o leva a sério: na segunda-feira, anunciou uma expansão militar de
US$ 2 bilhões no Ártico.
Embora
a ilha não esteja à venda, o presidente enfatizou a importância da Groenlândia
para a segurança nacional dos EUA. O que ficou subentendido: uma tomada de
posse pelos EUA poderia enfraquecer as leis de mineração do país e a proibição
da propriedade privada, favorecendo os planos dos doadores de Trump de lucrar
com os depósitos minerais da ilha e construir uma cidade tecnológica
libertária.
Trump,
que resumiu sua própria política de recursos naturais como “perfurar, meu bem,
perfurar”, provavelmente abordaria os recursos naturais da ilha de maneira bem
diferente do atual governo da Groenlândia, que se opôs a grandes projetos de
extração.
Em
2019, o embaixador de Trump na Dinamarca e na Groenlândia visitou um importante
projeto de mineração de terras raras na ilha, pouco antes dos primeiros apelos
de Trump para comprar o país. A oposição à mina levou o partido político
liberal Inuit Ataqatigiit ao poder dois anos depois, o que paralisou a mina e
proibiu qualquer desenvolvimento futuro de exploração de petróleo. A renovada
intenção do presidente de anexar a Groenlândia reacendeu os debates sobre sua
soberania, enquanto o país enfrenta o dilema entre oportunidades econômicas e a
independência da Dinamarca. Com o recuo das geleiras, o país também enfrenta
transformações drásticas impulsionadas pelas mudanças climáticas, que ameaçam
atividades tradicionais como a pesca e a caça e expõem valiosos recursos
minerais. Essas mudanças despertaram o interesse de figuras poderosas
associadas a Trump. Magnatas da tecnologia presentes na primeira fila de sua
posse, como Mark Zuckerberg e Jeff Bezos, também são investidores em uma
startup que visa explorar o oeste da Groenlândia em busca de materiais cruciais
para o boom da inteligência artificial. Essa empresa, a KoBold Metals, utiliza
inteligência artificial para localizar e extrair minerais de terras raras. Seu
algoritmo privado analisa levantamentos geológicos financiados pelo governo e
outros dados para localizar depósitos significativos. O programa analisou a
costa acidentada do sudoeste da Groenlândia, onde a empresa agora detém uma
participação de 51% no projeto Disko-Nuussuaq, buscando minerais como o cobre.
Apenas
duas semanas antes de alguns de seus investidores estarem cumprimentando-os
calorosamente nas comemorações no Capitólio, a KoBold Metals levantou US$ 537
milhões em sua mais recente rodada de financiamento, elevando seu valor de
mercado para quase US$ 3 bilhões. Entre os investidores estava uma importante
empresa de capital de risco fundada por Marc Andreessen, um dos primeiros
empreendedores do Vale do Silício, que ajudou a moldar as políticas
tecnológicas do governo, inclusive atuando como consultor do Departamento de
Eficiência Governamental de Trump, onde se autodenominava “estagiário não
remunerado”. “Acreditamos na aventura”, escreveu Andreessen em um extenso
manifesto de 2023, no qual delineava suas críticas ao governo centralizado,
defendendo que os tecnólogos assumissem o controle, “rebelando-se contra o
status quo, mapeando territórios desconhecidos, domando dragões e trazendo os
frutos para nossa comunidade”. Connie Chan, sócia-gerente de sua empresa de
capital de risco, a Andreessen Horowitz, consta como diretora da KoBold em seu
registro na Comissão de Valores Mobiliários dos Estados Unidos (SEC) de 2022. Além
da KoBold, Andreessen também apoiou outros empreendimentos de olho na nação
ártica: ele é um investidor importante na Praxis Nation, um projeto que visa
usar a Groenlândia para estabelecer um “criptoestado”, uma comunidade
experimental autogovernada construída em torno de ideais libertários e
tecnologia como a criptomoeda. O empreendimento também é financiado em parte
pela Pronomos Capital, um grupo de capital de risco fundado pelo neto do
economista Milton Friedman e bancado por figuras libertárias como Peter Thiel,
cuja própria família, segundo relatos, administrava uma mina de urânio na
Namíbia. A Pronomos visa criar cidades-modelo privadas e favoráveis aos
negócios, como a Praxis, geralmente em países em desenvolvimento, onde os
investidores podem criar suas próprias leis e regulamentos. Esses “broligarcas”
agora têm a atenção do presidente. Thiel tem sido um apoiador significativo de
Trump, investindo milhões de dólares em
sua campanha ao longo de sua carreira política e o apresentando ao atual
vice-presidente JD Vance.
Mais
notavelmente, em dezembro, Trump anunciou Ken Howery, sócio de Thiel, como seu
embaixador na Dinamarca, deixando suas intenções explicitamente claras: “Os
Estados Unidos da América consideram que a posse e o controle da Groenlândia
são uma necessidade absoluta”, escreveu ele no TruthSocial, sua plataforma de
mídia social. O primeiro-ministro da Groenlândia, Múte Egede, rejeitou
categoricamente a ideia, respondendo no Facebook: “A Groenlândia é nossa. Não
estamos à venda e nunca estaremos. Não podemos perder nossa longa luta pela
liberdade.”
<><>
Quando o preço é muito alto
Durante
séculos, a luta pelo controle da Groenlândia girou em torno de seus recursos
naturais. O país, coberto de gelo, faz parte da Dinamarca desde 1721, quando
uma expedição missionária financiada por comerciantes buscou disseminar o
cristianismo entre a população inuíte e expandir as rotas comerciais e de caça
às baleias. A Groenlândia conquistou autonomia da Dinamarca em 1979, embora os
dinamarqueses continuassem controlando suas relações exteriores e defesa,
permitindo que os Estados Unidos construíssem e operassem bases militares no
país. Em um referendo de 2008, os groenlandeses votaram por maior
independência, o que lhes permitiu assumir o controle de seus recursos
naturais, além de outras funções estatais. Naquele mesmo ano, o Serviço
Geológico dos Estados Unidos (USGS) descobriu que o país possuía uma das
maiores reservas potenciais de petróleo e gás do mundo. Estimativas mais
recentes sugerem que o Ártico pode conter 13% do petróleo ainda não descoberto e
30% do gás natural. O relatório chamou a atenção de grandes empresas
petrolíferas como a ConocoPhillips, a Chevron e a BP, que começaram a adquirir
licenças de exploração e a realizar levantamentos na Groenlândia e em suas
áreas marítimas. Mas produzir petróleo em condições tão adversas é difícil e
caro devido aos altos custos de transporte e às limitações de infraestrutura. A
ExxonMobil, por exemplo, retirou seu pedido em 2013, pois a tendência de queda
nos preços do petróleo tornou o desenvolvimento inviável economicamente.
Quando
o Siumut, um partido político pró-independência, chegou ao poder no início
daquele ano, a líder Aleqa Hammond declarou que o país faria a transição para a
extração mineral, afirmando: “Se queremos maior autonomia da Dinamarca, temos
que financiá-la nós mesmos. Isso significa encontrar novas fontes de renda”. Em
2014, o governo anunciou um plano nacional de quatro anos para criar “novas
oportunidades de renda e emprego na área de atividades de recursos minerais”. Como
os vastos depósitos minerais da Groenlândia frequentemente contêm urânio, a
crescente indústria de mineração entrou rapidamente em conflito com a política
rigorosa da Dinamarca contra a extração de materiais radioativos. A Dinamarca
optou por não desenvolver energia nuclear na década de 1980 e possui
regulamentações comparativamente rígidas em relação à proteção contra radiação.
Uma das medidas tomadas pelo governo liderado por Siumut em 2014 foi a proposta
de um projeto de lei que limitaria o acesso público a informações ambientais e
aos processos de tomada de decisão relacionados à extração mineral. O governo
também reduziu os padrões ambientais para a mineração de urânio. O projeto de
lei não foi aprovado, mas com o apoio de Siumut, um projeto internacional com o
objetivo de extrair urânio e metais de terras raras obteve aprovação
preliminar. A empresa australiana Greenland Minerals (agora chamada Energy
Transition Minerals) encontrou apoio da chinesa Shenghe Resources Holdings e
levou a embaixadora de Trump na Groenlândia, Carla Sands, para uma visita ao
local em julho de 2019. No mês seguinte, Trump anunciou que queria comprar a
ilha, comparando a aquisição a “um grande negócio imobiliário”. Sands,
ex-quiropraxista e atriz de telenovelas, agora trabalha para o America First
Policy Institute, um think tank conservador preocupado com o fortalecimento das
cadeias de suprimento de minerais dos EUA, entre outras questões nacionalistas.
A mina
proposta pela Energy Transition Minerals desencadeou uma enorme controvérsia:
as preocupações com o potencial impacto nas indústrias pesqueiras e no
abastecimento alimentar, cruciais para a sobrevivência do país, levaram à queda
do partido Siumut, que estava no poder há décadas, em 2021. “Há uma dialética
intergeracional em curso”, afirma Barry Zellen, pesquisador sênior em Segurança
Ártica no Instituto do Norte, entre os movimentos pró-desenvolvimento e
pró-subsistência, “que tende a oscilar como um pêndulo”. Com a ascensão do
partido Inuit Ataqatigiit, de tendência mais à esquerda, o governo aprovou
rapidamente uma lei que restabelecia os limites para o urânio, revogava as
licenças da Energy Transition Minerals e proibia toda e qualquer exploração
futura de petróleo e gás. “O preço da extração de petróleo é muito alto”,
escreveu o partido em um comunicado na época. “Isso se baseia em cálculos
econômicos, mas as considerações sobre o impacto no clima e no meio ambiente
também desempenham um papel central na decisão.” Esses tipos de proteção
ambiental são exatamente o que Trump pretende eliminar da mineração
estadunidense. Logo em seu primeiro dia de mandato, uma das muitas ordens
executivas de Trump instruiu funcionários do governo a removerem os “ônus
indevidos” sobre o setor, para que os Estados Unidos pudessem se tornar “o
principal produtor e processador de minerais não combustíveis, incluindo
minerais de terras raras”.
<><>
“Fui à Groenlândia para tentar comprá-la”
A pressão
para controlar o país ártico surge num momento em que investidores com vastos
recursos financeiros, como Andreessen, têm sido atraídos por startups que
esperam construir enclaves experimentais, seduzidos pela promessa de liberdade
em relação às restrições governamentais. Propostas para esses criptoestados
surgiram em Honduras, Nigéria, Ilhas Marshall e Panamá, com Trump também
propondo recentemente tomar este último à força militar. Embora cada conceito
seja um pouco diferente, muitas vezes o argumento de venda inclui a
substituição de impostos e regulamentações por criptomoedas e blockchain. Para
a Praxis, esses sonhos utópicos levaram à Groenlândia, que muitas vezes é
erroneamente imaginada como uma fronteira desabitada. “Fui à Groenlândia para
tentar comprá-la”, publicou Dryden Brown, fundador da Praxis, no X em novembro,
observando que seu interesse pela ilha surgiu “quando Trump se ofereceu para
comprá-la em 2019”. Uma vez em Nuuk, ele descobriu que o país busca há muito
tempo a independência da Dinamarca e que muitos groenlandeses apoiam a
soberania, embora o país continue dependente da Dinamarca para apoio
financeiro. Atualmente, recebe US$ 500 milhões por ano em subsídios
dinamarqueses, que representam 20% da economia. “Eles não querem ser
‘comprados’”, Brown descobriu tardiamente, concluindo: “Há uma oportunidade
óbvia aqui”. Ele propôs que os impostos de uma cidade administrada de forma
independente, como Praxis, poderiam ajudar a substituir os subsídios
dinamarqueses. A Groenlândia, no entanto, não permite propriedade privada, um
arranjo que historicamente deu às comunidades uma voz mais forte na
determinação de como ou se seus recursos naturais são explorados — e que
poderia se provar um problema para a utopia planejada por Brown. Mas talvez
isso possa mudar sob um novo governo.
Na
segunda-feira, em resposta a uma publicação que fazia referência aos “projetos
de Trump relacionados à Groenlândia”, a conta oficial da Praxis X — cuja
biografia diz “Fomos feitos para mais”, abaixo de uma versão da bandeira
alucinógena do empreendimento — vangloriou-se de “Um novo pós-Estado no extremo
norte”. A startup “nação” arrecadou US$ 525 milhões, embora Brown, que
abandonou a Universidade de Nova York e foi demitido de seu último emprego em
um fundo de hedge, não tenha compartilhado muitos detalhes no site da Praxis
sobre sua proposta para a Groenlândia. (Seus esforços anteriores para construir
uma cidade em algum lugar do Mediterrâneo também permaneceram vagos até agora,
além de um guia de marca que se concentrava em “padrões de beleza tradicionais
europeus/ocidentais” e no recrutamento de funcionários de tecnologia com
“garotas bonitas”.) Mas os planos de outros magnatas da tecnologia para a ilha
são mais concretos.
<><>
“Trata-se de minerais críticos”
A
Groenlândia está aquecendo em um ritmo muito mais acelerado do que o resto do
planeta, causando o recuo abrupto de suas geleiras. Com o recuo do gelo, esses
valiosos depósitos estão se tornando mais acessíveis. Um estudo da Comissão
Europeia de 2023 revelou que a Groenlândia possui 25 dos 34 minerais
classificados como matérias-primas críticas, ou seja, recursos essenciais para
a transição para energia verde, mas que apresentam alto risco de interrupção
nas cadeias de suprimentos. O país possui algumas das maiores reservas mundiais
de níquel e cobalto e, em conjunto, suas reservas minerais quase se igualam às
dos Estados Unidos. Essa abundância de recursos atraiu a atenção de empresas
como a KoBold Metals, cujos investidores do Vale do Silício têm interesse em
fornecer materiais para a indústria de tecnologia. A KoBold se posicionou como
fornecedora de soluções essenciais para as mudanças climáticas, facilitando a
redução global das emissões de gases de efeito estufa ao fornecer os materiais
necessários para baterias e outras tecnologias renováveis. A empresa elogiou o
uso da Lei de Produção de Defesa pelo presidente Joe Biden para incentivar a
mineração em 2022, juntamente com as medidas da Lei de Redução da Inflação para
subsidiar a mineração internacional de minerais de terras raras.
Na
Groenlândia, as licenças de exploração da KoBold Metals concentram-se na busca
por níquel, cobre, cobalto e minerais do grupo da platina — materiais
importantes para a energia verde, mas também para o rápido crescimento dos
centros de dados.
O
principal empreendimento da KoBold até o momento tem sido o desenvolvimento de
uma mina de cobre na Zâmbia, a maior descoberta desse tipo em um século. O
cobre é um material fundamental na construção de data centers e é crucial para
a infraestrutura da inteligência artificial. Espera-se que o crescimento da IA
quase dobre a demanda por cobre até 2050. “Investimos na KoBold”, disse Sam
Altman, CEO da OpenAI, “para encontrar novos depósitos”. “Essa abundância de
recursos atraiu a atenção de empresas como a KoBold Metals, cujos investidores
do Vale do Silício têm interesse em fornecer materiais para a indústria de
tecnologia.” O empreendimento na Zâmbia também fez parte de uma disputa global
de poder, já que o governo Biden apoiou o desenvolvimento de uma ferrovia para
transportar metais da região até um porto em Angola. A iniciativa integrou um
esforço mais amplo dos EUA para contrabalançar a crescente presença da China na
África, oferecendo investimentos como alternativa à sua Iniciativa Cinturão e
Rota, um pacote de comércio e infraestrutura.
O
principal executivo da KoBold, no entanto, prefere se concentrar no lítio. “O
crescimento [da demanda por lítio] é impressionante”, disse o CEO da KoBold,
Kurt House, em uma apresentação em Stanford em 2023. “É como se fosse
necessário um aumento de 30 vezes na produção global.” Um dos lugares para onde
os Estados Unidos poderiam recorrer para obter esse mineral essencial é a
Groenlândia, onde depósitos promissores foram descobertos recentemente. “Todos
querem lítio” por seu papel na fabricação de baterias, afirma Majken D.
Poulsen, geóloga do Serviço Geológico da Dinamarca e da Groenlândia. Ela
explica que a primeira exploração de lítio na Groenlândia foi realizada apenas
no verão passado, em colaboração com o Departamento de Estado dos EUA. Sob o
governo Biden, a agência também ajudou o país a elaborar uma lei de
investimento em mineração, com o objetivo de incentivar o investimento na
Groenlândia. Embora com um tom bastante diferente, a retórica de Trump sobre a
Groenlândia compartilha objetivos semelhantes. Charlie Byrd, gestor de
investimentos da empresa global de gestão de ativos Cordiant Capital, é um dos
muitos investidores que agora esperam que a manobra do presidente resulte em
mudanças políticas mais favoráveis ao investimento estrangeiro. “Não há dúvida
de que isso levaria a um maior envolvimento institucional e a investimentos
mais estratégicos”, disse ele à publicação especializada Institutional Investor
esta semana.
Grande
parte desse interesse é impulsionado pelas tensões com a China, que atualmente
responde por cerca de 70% da mineração global de terras raras e por 90% do seu
processamento. Isso confere à potência asiática uma enorme influência sobre as
cadeias de suprimentos globais de tecnologia.
O
controle sobre os minerais que alimentam a tecnologia tornou-se uma importante
forma de soft power, influenciando de forma invisível os mercados globais e
moldando alianças. Isso faz com que a regulamentação da mineração na
Groenlândia seja uma jogada geopolítica estratégica. Hoje, “as regulamentações
do governo da Groenlândia são bastante rigorosas”, explica Poulsen, do Serviço
Geológico. “Eles têm regulamentações realmente rígidas”, diz ela, incluindo
considerações ambientais e sociais, como “benefícios locais, como impostos, mão
de obra local, empresas locais e educação”. Michael Waltz, o futuro conselheiro
de segurança nacional de Trump, pareceu confirmar que o acesso aos minerais do
país era o que motivava o interesse de Trump. “Trata-se de minerais críticos;
trata-se de recursos naturais”, disse ele à Fox News.
<><>
“Você não pode dar um nome à terra”
As
geleiras surgiam imponentes através da janela da cabine do Trump Force One,
enquanto a costa da Groenlândia se desenrolava atrás de um boneco do
quadragésimo sétimo presidente, com seu topete de plástico balançando na
turbulência. Descendo pelo ar rarefeito e cortante, o avião levou Donald Trump
Jr. à capital da ilha, Nuuk, no início de janeiro, com a mensagem de seu pai:
pretendemos assumir o poder. A demonstração de força — que incluiu subornar
pessoas para participarem de sessões de fotos — não conseguiu conquistar muitos
groenlandeses, diz Inuuteq Kriegel, um morador de Nuuk. “Não queremos ser
estadunidenses. Não queremos ser dinamarqueses. Somos groenlandeses”, disse
ele. Uma semana após a viagem de Trump Jr., o deputado Andy Ogles (republicano
do Tennessee) apresentou o projeto de lei “Make Greenland Great Again Act” [Lei
Faça a Groenlândia Grande Novamente], instruindo o Congresso a apoiar as
negociações de Trump com a Dinamarca para a aquisição imediata da Groenlândia.
(Ogles é atualmente alvo de uma investigação do FBI sobre suas declarações de
financiamento de campanha e, no começo do ano, anunciou uma emenda
constitucional que permitiria a Trump concorrer a um terceiro mandato.) “Pode
parecer loucura, e alguém poderia perguntar: ‘Por que vocês iriam querer a
Groenlândia?’”, disse Ogles em um vídeo recente. Ele conversava com Kuno
Fencker, membro do parlamento da Groenlândia pelo partido Siumut, que havia
viajado a Washington, D.C. “Seus interesses de segurança são os nossos
interesses de segurança”, disse Ogles a Fencker. “Nossa capacidade de
aproveitar ao máximo seus minerais, seus recursos e suas riquezas — para o
benefício de seu povo e do nosso — é do nosso maior interesse.”
Fencker,
que afirma que os impostos e royalties provenientes dos minerais e combustíveis
fósseis da ilha poderiam abrir caminho para a independência da ilha, respondeu:
“Temos outros vastos recursos, como petróleo e gás, mas isso foi interrompido
pelo governo atual. Mas, na minha opinião, temos que utilizar esses recursos.” A
viagem de Fencker aos EUA gerou um controvérsia local. Normalmente, as
negociações internacionais da Groenlândia exigem coordenação e aprovação da
Dinamarca; imagine alguém como a deputada Marjorie Taylor Greene (republicana
da Geórgia) decidindo sozinha negociar com a União Europeia sem a aprovação do
Congresso. O partido de Fencker afirmou que ele não estava autorizado a
discutir assuntos externos da Groenlândia, enquanto Fencker defendeu sua viagem
como uma missão privada, custeada por ele mesmo. A natureza descontrolada dos
acontecimentos recentes foi reforçada pela cobertura bombástica da imprensa. Na
Groenlândia, Kriegel afirma que repórteres estrangeiros “frequentemente
conversam com as pessoas mais barulhentas — e muitas vezes com as mesmas
pessoas — e podem generalizar toda uma população falando apenas com alguns”.
Suas próprias redes sociais demonstram profundo desconforto com as tentativas
de Trump de comprar o país.
A ânsia
de Trump e seus doadores do setor tecnológico em se apoderar da Groenlândia,
ignorando a cultura e as leis existentes, é “representativa de uma visão de
mundo colonial e extrativista específica”, escreveu Anne Merrild Hansen,
professora de ciências sociais e estudos sobre petróleo e gás no Ártico na
Universidade da Groenlândia. Essa abordagem trata a terra e os recursos como
mercadorias a serem reivindicadas, independentemente dos direitos ou interesses
das pessoas que ali vivem. Toda essa comoção indesejada, no entanto, conseguiu
trazer uma mudança: Kriegel afirma que o país agora está unido no desejo de
encontrar um caminho para a independência da Dinamarca, mesmo que ainda não
haja consenso sobre como fazê-lo. “Não se pode dar um nome à terra”, diz ele.
“A terra pertence ao povo. É parte de nós, e nós somos parte dela.”
Fonte:
Tradução Pedro Silva, para Jacobin Brasil

Nenhum comentário:
Postar um comentário