O
peso do acaso na sociedade do desempenho
Na
sociedade do desempenho, a liberdade entendida ao modo liberal é um dogma de
fé, pois a meritocracia é baseada na crença de sermos unicamente o resultado de
nossas escolhas sem interferência de qualquer contexto, herança histórica e
biológica, e de tantas outras contingências de percurso. O idealismo
progressista adoece do mesmo mal quando não consegue passar de um voluntarismo
cujo resultado final seria a comunhão de todos os homens convertidos
milagrosamente em santos, sem necessidade já de Estado ou de outras instâncias
políticas mediadoras. Mas, e se cada um de nós não fosse tão dono da sua
própria existência como gostamos de crer?
Em
1973, o filósofo alemão Odo Marquard publicou um ensaio no qual diferenciou
aquilo que poderia ser de outra maneira e podemos mudar, e passou a chamá-lo de
contingente por arbitrariedade, e aquilo que poderia ter sido de outra forma,
mas não podemos mudar (ter nascido, onde e quando, família ou a falta dela,
doenças, etc.) que denominou contingente por destino. Pois bem, segundo
Marquard, este segundo tipo de contingência tem muito mais peso na nossa vida
que o primeiro. Marquard não cai num binarismo reducionista nem afirma que
sejamos simples marionetes do destino, mas a força do seu argumento reside em
chamar a atenção para uma realidade existencial que costuma ser negligenciada.
Vale dizer, indo além do próprio filósofo, que há grandes interesses sociais,
políticos e econômicos em negá-la. Considere por uns segundos a violência da
frase: se você não conseguiu, é porque não se esforçou o suficiente.
No seu
ensaio, Marquard não trata de afirmar que a liberdade não passa de uma ilusão,
mas de refletir sobre os limites conscientes e inconscientes da nossa margem de
manobra, sem por isso ceder à má-fé tal como definida por Jean-Paul Sartre —
isto é, ter uma escusa sempre à mão a fim de nunca se responsabilizar pela
própria vida e o mundo ao redor. No entanto, para Marquard, o que é contingente
por destino é a realidade das nossas vidas, pois “os seres humanos estão sempre
‘enredados em histórias’. As ações tornam-se histórias quando algo lhes
acontece. Uma história é uma escolha na qual irrompe algo inesperado. Por isso
as histórias não podem ser planejadas, mas sim narradas. As nossas vidas são
constituídas por esta mistura de fazer e acontecer que constitui as histórias”.
Precisamente por esta razão, sustenta o filósofo, o que é contingente por
destino predomina nelas. É também uma questão de destino que estejamos sujeitos
às leis naturais descobertas pelas ciências naturais. Poderíamos estar sujeitos
a outras determinações, mas acontece que estamos sujeitos a estas, que não
podemos mudar.
Demos
um passo a mais e consideremos Schopenhauer. Para o autor de O mundo como
vontade e representação (1818), nossa conduta, determinada por nosso caráter,
permanece fixa e é essencialmente idêntica desde o nascimento até o fim. Nesta
linha de pensamento, a experiência acumulada ao longo dos anos não nos
ensinaria nada e só nos mostraria como realmente somos. Exagerado? Seguramente.
Completamente equivocado? Penso que nem tanto assim. Schopenhauer escreveu que:
não há
nada como sentir-se si mesmo, e sentir do que se é capaz em todos os gêneros, e
os limites em que se é mantido, para permanecer em paz, tanto quanto possível,
consigo mesmo. Pois vale para o interior o mesmo que para o exterior; não há
fonte mais segura de consolos do que ver com perfeita evidência a necessidade
inevitável do que acontece. […] daí, todos os acontecimentos nos aparecem como
os ditados de um destino poderoso; e o mal que nos atingiu nada mais é do que o
inevitável efeito do encontro entre os acontecimentos do exterior e nosso
estado interior. O consolador é o fatalismo.
Uma vez
que, devido ao seu pessimismo, Schopenhauer costuma ter má reputação, não custa
lembrar que outros filósofos mais admirados, como Spinoza ou Nietzsche,
tampouco tinham uma opinião muito elevada do livre arbítrio, para dizer as
coisas de uma forma bastante branda.
Tanto
no caso de Schopenhauer como no de Marquard, a reflexão é uma atualização da
distinção que os estoicos já sugeriram entre aquilo que depende de nós e aquilo
que não depende de nós, cuja potência, de acordo com a filósofa Céline Belloq,
nos liberta da falsidade segundo a qual merecemos aquilo que nos acontece, quer
seja bom ou ruim. Porém, em sintonia com a abertura deste texto, Belloq
assegura que “o desafio não é pequeno, tanto mais quanto a sociedade em que
vivemos incita-nos tacitamente a pensar de outra maneira. Por toda parte, ela
estimula em nós o delírio de onipotência. Faz-se o indivíduo acreditar que o
sucesso de sua vida depende de seus méritos, de sua iniciativa, da sua força de
vontade. Antes, a religião instaurava uma ordem do permitido e do proibido.
Estava então em nosso poder transgredir a proibição, sob pena de sentir culpa.
Agora, essa ordem normativa é das mais vagas e a proibição pode ser contornada
por uma estratégia individual eficaz. Mas o que perdemos em sentimento de culpa
ganhamos em sentimento de ‘deficiência’. “Não obtivemos o que queríamos por
falta de competência, de astúcia, de perspicácia, de audácia etc. […] Temos um
destino medíocre quando todas as sirenes nos murmuram que depende de nós
alçar-nos a alguma posição invejável”. Como resultado, o sentimento de
fragilidade, inferioridade, instabilidade e precariedade diante da vida deixa o
sujeito capturado pela sensação de profunda insuficiência, e a vergonha
substitui, ou melhor, se junta ao sentimento de culpa. Logo, não pode ser
casual que, num movimento quase instintivo, indivíduos se fechem em si mesmos,
cansados de serem julgados por pessoas que, parece, sempre sabem o que é bom
para a vida dos outros.
Que a
vida é luta é uma sentença fácil de aceitar, incorpora um elemento vital
simpático aos temperamentos ativos, cuja idoneidade nunca se discute, mas vale
lembrar que também é a base sobre a qual se erguem os poderosos de todo tipo
para melhor subjugar seus súditos. Que a vida é sofrimento já não é uma
sentença tão bem-vinda, mesmo sendo simplesmente a outra cara da primeira,
porque ordinariamente implica lassidão, debilidade e falta de vontade,
características avessas aos valores da sociedade do desempenho. “Só quem
compreendeu que a existência é sofrimento –escreve Belloq no seu comentário a
Schopenhauer – deixa de culpar o outro por sofrer e não procura ter sobre ele
uma influência que sabe ser inútil. […] A recusa da queixa do outro é suspeita;
a indiferença voluntária à sua dor é cegueira; a recusa de sua dor é
crueldade”. Há quem viva dando conselhos tirados da própria vida, impermeável à
presença do outro. Neste sentido, caberia lembrar que a empatia, longe de ser
uma palavra de enfeite, é um exercício difícil de imaginação moral que escapa à
razão, consistente em entender que, embora compartilhe uma causa geral comum
com o meu, o sofrimento do outro é sui generis, é próprio, diferente,
irredutível, é o seu, e, em primeiro lugar, pede o meu respeito. Mostrar aos
outros como são pequenas e fúteis as dificuldades que não os deixam dormir pode
incorrer numa indelicadeza de consequências imprevisíveis. Cada um sofre à sua
maneira por motivos parecidos ou diferentes dos nossos. Saber escutar a dor
alheia consiste, primeiramente, em não desvalorizá-la, em reconhecer a
importância que merece por si mesma, pois só começamos a respeitar os outros
quando deixamos de submetê-los sistematicamente à comparação conosco.
Numa
época em que eram praticamente desconhecidos dos europeus, Schopenhauer foi
leitor dos textos sagrados da tradição oriental, sobretudo do budismo e do
bramanismo, sem usá-los, no entanto, como argumentos de fé. Simplesmente, sua
filosofia, nascida de sua experiência e de seu olhar sobre a vida, ia ao
encontro de mensagens ancestrais, o que enfatiza o caráter universal do seu
pensamento. Entre outros elementos e para o que aqui nos interessa,
Schopenhauer compartilhava com a cosmovisão budista a intuição fundamental de
que a compaixão é o reconhecimento de que a existência é sofrimento. Portanto,
só quem acredita ser possível viver sem sofrer e, por conseguinte, pensa que os
que sofrem são totalmente responsáveis pelo que lhes acontece pode deixar de ser
compassivo com os seus contemporâneos.
Ao
contrário, quem compreendeu a base dos seus próprios sofrimentos a reconhece
também nos do outro e, deste modo, pode praticar para com ele uma compaixão sem
desprezo nem discurso voluntarista. O “tu” torna-se um “eu”, esse é o fenômeno
da compaixão, que Schopenhauer qualifica em O fundamento da moral como “a
participação absolutamente imediata, sem nenhuma segunda intenção, primeiro das
dores de outro, depois e consequentemente da cessação, ou da supressão desses
males, pois é esse o fundamento de todo bem-estar e de toda felicidade”. Céline
Belloq comenta com acuidade que “o pessimista com frequência é percebido como
indiferente à sorte do outro, pois não crê na renovação moral da humanidade.
Aqui, ao contrário, o pessimismo de Schopenhauer implica saber-se um entre os
outros e afetado pela sorte deles”.
Para
Odo Marquard, nunca poderemos escolher nossas vidas e sua realidade de forma
essencial ou absoluta. Atravessamos a vida mais por meio de nossas
contingências do que por meio de escolhas e planos, e isso não é uma desgraça,
pois a contingência não é um desvio, mas nossa normalidade individual e
histórica a partir da qual, e até a qual, construímos. Já para Arthur
Schopenhauer, nossa inteligência permite-nos chegar apenas à superfície dos
elementos, enquanto outra coisa, que ele chama de Vontade, age aquém deles. O
querer-viver é o esforço para existir, se perpetuar, crescer ou resistir que
todo ser faz no mundo. Não mais do que o fenômeno visível de uma Vontade que,
por sua vez, permanece invisível e inapreensível. Mas, a eternidade do
querer-viver mostra, segundo o filósofo, a inanidade de nossos esforços para
sermos diferentes do que somos e a vanidade de nossa crença em nosso progresso,
nosso crescimento ou nossa alteração. Parece claro que, sem grandes
entusiasmos, Odo Marquard concedeu mais campo ao livre arbítrio do que o velho
Schopenhauer, mas os pensamentos tanto de um como do outro apontam para os
limites da nossa ação e é aí onde eles me parecem mais frutíferos num momento
histórico no qual as exigências da vida quotidiana provocam que tantas pessoas
se sintam julgadas e excluídas por não conseguirem, ou não desejarem, levar uma
vida considerada normal.
Fonte:
Por Alfons C. Salellas Bosch, em Outras Palavras

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