Por
que Trump está estremecendo a ordem global mais do que qualquer outro
presidente desde a 2ª Guerra
"Nada
ficará no nosso caminho", declarou Donald Trump, sob aplausos estrondosos,
ao encerrar seu discurso de posse em Washington, no dia 20 de janeiro de 2025,
quando teve início seu segundo mandato como presidente dos Estados Unidos.
Será
que o mundo não prestou atenção suficiente?
Em seu
discurso, ele mencionou a doutrina do século 19 do Destino Manifesto — a ideia
de que os Estados Unidos foram divinamente ordenados a expandir seu território
pelo continente, espalhando os ideais americanos.
Naquele
momento, o Canal do Panamá estava em sua mira. "Vamos retomá-lo",
Trump anunciou.
Agora,
essa mesma declaração, dita com absoluta determinação, é direcionada à
Groenlândia.
"Nós
temos que tê-la", é o novo mantra. É um momento cheio de riscos graves.
A
história dos EUA está repleta de controversas invasões, ocupações e operações
secretas para derrubar governantes e regimes.
Mas, no
último século, nenhum presidente americano ameaçou tomar um território de um
aliado e governá-lo contra a vontade de seu povo.
Nenhum
líder americano quebrou tão brutalmente as normas políticas e ameaçou alianças
de longa data que sustentam a ordem mundial desde o fim da Segunda Guerra
Mundial.
Não há
dúvidas de que regras antigas estão sendo quebradas, com impunidade.
Trump
agora está sendo descrito como possivelmente o presidente americano mais
"transformador" — aplaudido por apoiadores internos e no exterior,
causando alarme em outras capitais ao redor do mundo, e com um silêncio
vigilante em Moscou e Pequim.
"É
uma mudança em direção a um mundo sem regras, onde o direito internacional é
pisoteado e onde a única lei que parece importar é a do mais forte, com
ambições imperialistas ressurgindo", alertou de forma contundente o
presidente francês, Emmanuel Macron, no palco do Fórum Econômico de Davos, sem
mencionar Trump diretamente pelo nome.
Há uma
preocupação crescente com uma possível guerra comercial, e até mesmo receio, em
alguns círculos, de que a aliança militar da Otan, com 76 anos, possa estar em
risco se, no pior dos cenários, o comandante dos EUA tente tomar a Groenlândia
à força.
Os
defensores de Trump estão redobrando o apoio à sua agenda America First, em
oposição à ordem multilateral do pós-guerra.
Quando
questionado no programa BBC Newshour se a tomada da Groenlândia violaria a
Carta da ONU, o congressista republicano Randy Fine disse: "Acho que as
Nações Unidas fracassaram completamente em ser uma entidade que apoia a paz no
mundo e, francamente, seja qual for a opinião deles, provavelmente fazer o
oposto é o certo".
Na
semana passada, Fine apresentou no Congresso um projeto chamado "Lei de
Anexação e Estadualização da Groenlândia".
Como os
aliados apreensivos dos EUA respondem quando parece que nada vai ficar no
caminho de Trump?
Muitas
frases marcaram esse último ano de contorções diplomáticas sobre a melhor forma
de lidar com o imprevisível presidente e comandante dos EUA.
"Precisamos
levá-lo a sério, mas não literalmente", dizem aqueles que insistem que
tudo isso pode ser resolvido por meio do diálogo.
Já
funcionou, mas até um certo ponto, na tentativa de forjar uma resposta unida da
Europa à devastadora guerra da Rússia na Ucrânia.
Trump
frequentemente oscila, de uma semana para outra, entre adotar posições próximas
às da Rússia, depois inclinar-se para a Ucrânia, e então voltar novamente para
a órbita russa.
"Ele
é um magnata do mercado imobiliário", dizem aqueles que veem nas posições
maximalistas de Trump suas táticas de negociação dos tempos em que atuava no
ramo imobiliário em Nova York.
Há um
eco disso em suas repetidas ameaças de ação militar contra o Irã — embora
esteja claro que opções militares ainda estejam em sua mesa, agora repleta de
possibilidades.
"Ele
não fala como um político tradicional", explica seu principal diplomata, o
secretário de Estado americano, Marco Rubio, quando questionado repetidamente
sobre as táticas de Trump.
"Ele
diz e depois faz", é o maior elogio que ele faz ao seu presidente, em
contraste com o que considera o histórico lamentável dos antecessores.
Rubio
tem sido uma das principais vozes tentando amenizar as ameaças de Trump sobre a
Groenlândia, ressaltando que ele quer comprar essa vasta camada de gelo
estratégica, não invadi-la.
Ele
destacou que Trump vem explorando opções para comprar a maior ilha do mundo,
como forma de neutralizar as ameaças da China e da Rússia, desde seu primeiro
mandato.
Mas não
se pode negar as táticas de intimidação de Trump, seu desprezo pela ação
coletiva e sua crença de que pode estar certo.
"Ele
é um homem de transações e poder bruto, poder ao estilo da máfia", diz
Zanny Minton Beddoes, editora-chefe da revista The Economist.
"Ele
não vê o benefício de alianças, não vê a ideia da América como uma ideia, um
conjunto de valores; ele não dá a mínima para isso."
E ele
não esconde isso.
"A
Otan não é temida pela Rússia ou pela China. Nem mesmo um pouquinho",
disse Trump ao jornal New York Times em uma entrevista abrangente no início
deste mês.
"Nós
temos um medo tremendo."
Se a
questão fosse segurança, os EUA já têm forças em solo groenlandês e, de acordo
com um acordo de 1951, poderiam enviar mais tropas e abrir mais bases.
"Preciso
possuir isso", é como Trump coloca a questão.
E ele
frequentemente deixa claro: "Eu gosto de vencer". Há um número
crescente de evidências de que é disso que se trata.
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'Lavagem de sanidade'
Suas
mudanças repentinas de política no último ano têm sido desconcertantes.
Em
maio, na capital saudita Riad, vimos como seu principal discurso em sua
primeira viagem ao exterior do segundo mandato foi recebido com entusiasmo.
Trump
atacou os "intervencionistas" americanos, a quem criticou duramente
por terem "destruído muito mais nações do que construíram... em sociedades
complexas que nem eles mesmos compreendiam".
Em
junho, quando Israel atacou o Irã, Trump supostamente alertou o
primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, para não colocar sua
diplomacia em risco com ameaças militares contra Teerã.
No
final da semana, ao ver o sucesso de Israel na execução de cientistas nucleares
e chefes de segurança, Trump exclamou: "Acho que foi excelente."
"Lavagem
de sanidade" foi a expressão cunhada meses atrás por Edward Luce, do
Financial Times, para descrever as representações polidas de Trump ao redor do
mundo, a sucessão de líderes batendo à sua porta com presentes brilhantes e
elogios exagerados, na tentativa de conquistá-lo.
"Os
apologistas de Trump — um grupo mais numeroso do que os verdadeiros crentes —
trabalham dia e noite para 'lavar de sanidade' suas políticas e transformá-las
em algo coerente", escreveu Luce em sua última coluna.
Isso
ficou evidente em outubro passado, quando líderes do mundo todo foram
convidados a se juntar a ele no resort egípcio de Sharm El-Sheikh, no Mar
Vermelho, para celebrar sua histórica declaração de que "finalmente temos
paz no Oriente Médio" pela primeira vez em "3.000 anos".
A
primeira fase significativa de seu plano de paz havia resultado em um
cessar-fogo desesperadamente necessário em Gaza e na libertação urgente de
reféns israelenses.
Foi a
diplomacia vigorosa de Trump que forçou Netanyahu, assim como o Hamas, a
concordar com isso. Foi um avanço importante que apenas Trump poderia alcançar.
Mas,
infelizmente, não foi — infelizmente — a aurora da paz. Ninguém disse ali o que
pensava em voz alta.
No ano
passado, a abordagem de Trump foi enquadrada como "destino
manifesto". Este ano, é a Doutrina Monroe do início do século 19 agora
atualizada, desde a invasão da Venezuela, como a "Doutrina Donroe".
O
presidente Trump agora é o dono, apoiado por seus fervorosos aliados em sua
equipe, com a crença de que os Estados Unidos podem agir livremente em seu
quintal — e além dele — para proteger os interesses americanos.
Às
vezes, ele é chamado de isolacionista, às vezes de intervencionista. Mas sempre
há aquele slogan que o reconduziu ao poder: Make America Great Again (Faça a
América Grande Novamente, na tradução livre para o português).
E sua
mensagem ao primeiro-ministro da Noruega, Jonas Gahr Støre, destacou sua
irritação obsessiva por não ter ganhado o Prêmio Nobel da Paz deste ano.
Trump
informou Støre: "Não me sinto mais obrigado a pensar puramente na paz,
embora ela sempre seja predominante, mas agora posso pensar no que é bom e
apropriado para os Estados Unidos da América."
"É
um bom dia para ter um temperamento nórdico", comentou diplomaticamente à
reportagem o ministro das Relações Exteriores da Noruega, Espen Barth Eide,
quando questionado sobre esse momento.
A
Noruega tem se mantido calma, com firmeza inabalável, na defesa da Groenlândia
e da Dinamarca, assim como da segurança coletiva no Ártico.
As
respostas europeias ainda se espalham por esse terreno político escorregadio.
Macron
prometeu lançar a "bazuca comercial" da União Europeia, com
contratarifas e restrições ao acesso ao lucrativo mercado europeu.
A
primeira-ministra italiana, Giorgia Meloni, uma das aliadas europeias mais
próximas do presidente americano, falou vagamente sobre um "problema de
compreensão e falhas de comunicação".
Já o
primeiro-ministro do Reino Unido, Keir Starmer, defendeu de forma firme e
pública a integridade territorial da Groenlândia, mas quer proteger o forte
vínculo pessoal que construiu ao longo do último ano, evitando tarifas
retaliatórias.
Trump
não está mais se preocupando em manter aparências diplomáticas ao divulgar
mensagens privadas que tem recebido de líderes que recorrem às velhas
ferramentas da diplomacia para tentar mantê-lo ao seu lado.
"Vamos
jantar juntos em Paris na quinta-feira, antes de você voltar para os EUA",
sugeriu o presidente francês, que também questionou, em meio a elogios a outros
sucessos na política externa: "Não entendo o que você está fazendo na
Groenlândia".
"Mal
posso esperar para te ver", escreveu o secretário-geral da Otan, Mark
Rutte, que certa vez chamou Trump de "papai" por sua condução
enérgica da guerra de 12 dias entre Irã e Israel no ano passado.
Rutte e
outros têm atribuído as ameaças diretas de Trump ao fato de os membros da Otan
terem sido forçados a aumentar significativamente seus gastos com defesa nos
últimos anos.
Os
alertas de Trump, que remontam ao seu primeiro mandato, aceleraram uma
tendência já defendida por presidentes americanos anteriores e iniciada pelos
próprios membros da Otan, sob a sombra das ameaças russas.
Do
outro lado do Atlântico, o país que há muito tempo viveu à sombra dos Estados
Unidos tem tentado trilhar um caminho diferente, embora com seus próprios
desafios.
"Temos
que encarar o mundo como ele é, não como gostaríamos que fosse", foi a
reflexão sincera do primeiro-ministro canadense, Mark Carney, em sua viagem à
China na semana passada.
Foi a
primeira visita de um líder canadense a Pequim desde 2017, após anos de forte
tensão, e enviou um sinal claro deste mundo em rápida transformação.
A
surpreendente ameaça de Trump de anexar seu vizinho ao norte voltou a surgir
nesta semana em uma publicação nas redes sociais que mostrava o hemisfério
ocidental — incluindo o Canadá e a Groenlândia — coberto por estrelas e listras
(da bandeira americana).
Os
canadenses sabem que ainda correm risco de serem os próximos.
Carney,
ex-banqueiro central, chegou ao cargo mais alto do Canadá no ano passado
impulsionado pela crença dos canadenses de que ele era o mais preparado para
enfrentar Trump.
Ele
respondeu "dólar por dólar" desde o início, impondo tarifas
retaliatórias — até que isso se tornou doloroso demais para a economia
canadense, muito menor, que envia mais de 70% de seu comércio para o sul da
fronteira.
Quando
Carney subiu ao palco em Davos na terça-feira, ele também se concentrou nessa
conjuntura perturbadora.
"A
hegemonia americana, em particular, ajudou a fornecer bens públicos, rotas
marítimas abertas, um sistema financeiro estável, segurança coletiva e apoio a
estruturas para a resolução de disputas", disse ele, acrescentando
categoricamente:
"Estamos
em meio a uma ruptura, não a uma transição."
Na
quarta-feira (20/1), Trump discursou no mesmo pódio, com o mundo inteiro
assistindo.
Questionado
pelo New York Times neste mês sobre o que poderia impedi-lo, Trump respondeu:
"Minha própria moralidade. Minha própria mente. É a única coisa que pode
me deter."
É isso
que está por trás de uma legião de aliados que agora buscam persuadi-lo,
bajulá-lo, forçá-lo a mudar de ideia.
Desta
vez, não há certeza de que eles terão sucesso.
¨
“A desordem global” de Trump custará a ruína dos EUA, diz
Marcelo Uchôa
A
estratégia internacional adotada por Donald Trump, presidente dos Estados
Unidos, tem potencial para provocar mudanças profundas no equilíbrio de poder
mundial e levar o próprio país a um processo de declínio histórico. A avaliação
é do jurista Marcelo Uchôa, que analisou os impactos geopolíticos da atuação do
líder norte-americano e apontou consequências que vão além do cenário imediato
da política externa.
Em
publicação nas redes sociais, Marcelo Uchôa fez uma leitura crítica do momento
internacional e do papel desempenhado pelos Estados Unidos sob a liderança de
Trump. Segundo ele, o mundo vive uma inflexão histórica que pode resultar no
fim da hegemonia construída no pós-guerra. “A ‘desordem global’ de Trump
custará a ruína dos EUA (o colapso do Império), a substituição da ordem
estabelecida após a II Guerra por outra com novos atores”, afirmou o advogado.
Na
análise de Uchôa, a política adotada por Trump rompe com os pilares que
sustentaram a influência global dos Estados Unidos desde o fim da Segunda
Guerra Mundial. Ao promover instabilidade e tensionar relações tradicionais, o
presidente dos Estados Unidos contribuiria para acelerar um processo de
reorganização do sistema internacional, abrindo espaço para a ascensão de novos
protagonistas no cenário global.
O
jurista também destaca que esse contexto internacional cria uma janela de
oportunidade para o Brasil. Segundo ele, a experiência e a atuação diplomática
do presidente Luiz Inácio Lula da Silva colocam o país em posição estratégica
para participar ativamente da construção de uma nova ordem mundial, mais
multipolar e menos centrada nos interesses de Washington. Não poderia
haver momento melhor para o Brasil ter à sua frente o presidente Lula, que já
vem lutando por isso há anos”, completou.
Fonte:
BBC News Mundo/Brasil 247

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