Saúde
mental na universidade
“Uma
estudante começa a frequentar a universidade. Ela descreve os espaços
degradados, os banheiros sujos, os corredores sombrios. Os dias passam e a
narrativa vai ficando cada vez mais absurda. Aos poucos, o leitor desconfia de
que ela está sofrendo um surto psicótico”.
Essa é
a síntese de um projeto criativo que uma aluna nos ofereceu em sala, em uma
oficina de produção textual, na qual temos como motivação produzir textos sobre
a experiência universitária contemporânea, sobretudo no ensino público
presencial. A proposta da matéria optativa surgiu de um grupo de trabalho a
respeito do tema da saúde mental estudantil na Universidade Federal do Estado
do Rio de Janeiro (UNIRIO), do qual faço parte, junto a outros servidores e
discentes.
A
palavra-chave no resumo é “desconfia”. Uma estudante começa a frequentar a
universidade, e descreve imagens que se tornam cada vez mais disparatadas, ao
ponto de parecerem fantasiosas. O leitor desconfia que que ele está perdendo o
senso da realidade – mas não pode ter certeza. Nesse aspecto, o texto dialoga
que toda uma tradição de narradores que nos fizeram experimentar justamente
esse tipo de ambiguidade, como em A Outra Volta do Parafuso, de Henry James.
Por
outro lado, ele dá voz a uma afirmação característica dos estudantes do ensino
superior brasileiro hoje: ir para a universidade não está fazendo muito bem
para a cabeça da gente.
Curiosamente,
porém, o texto assinala como o contrário pode ser possível. Ao tratar da
contaminação do ânimo do ingressante pelo espaço degradado da universidade, ele
presume uma ecologia psíquica que pode muito bem funcionar a nosso favor. A
implicação mais imediata é a de que banheiros limpos e corredores iluminados
seriam um fator positivo na saúde mental da comunidade acadêmica; e seriam, não
podemos de maneira alguma ignorar este fato.
A
melhoria nas condições estruturais, orçamentárias e administrativas das
universidades, bem como um maior cuidado com nossos equipamentos, têm muito a
oferecer na prevenção a diversas formas de sofrimento e ansiedade.
Mas
existe algo a mais que podemos e devemos fazer para aproveitar essa
contaminação entre o ambiente universitário e a psique estudantil. Algo menos
óbvio, mas nem por isso menos importante. Reparem que o texto de minha aluna
joga luz de maneira mais explícita nas questões do espaço: paredes, corredores,
banheiros. Mas nem por isso suprime outro componente fundamental dessa
experiência. Reparem também que a estudante entra e sai da universidade todos
os dias sem conversar com ninguém. E isso não apenas porque os espaços são
pouco convidativos, mas também porque, para isso, ele precisaria de “tempo”.
Nós
temos que falar mais sobre a questão do tempo (e da falta dele) em nossas
universidades. Isto é, da maneira como nossas rotinas acontecem em meio a
catástrofes rotineiras, e se deixam contaminar por elas. Pois nossa atitude
nesse aspecto pode ser tanto um efeito reativo quando uma ação consciente
diante dos impasses e desafios que se impõem: a violência urbana, a crise
climática, as redes sociais, a inteligência artificial.
A
universidade está imersa em um ecossistema de enorme complexidade, mas do qual
resultam ou deixam de resultar ações muito simples, como uma estudante
conversar ou não com uma colega ao sair da aula.
Em cada
conversa que acontece ou deixa de acontecer a universidade existe (ou deixa de
existir) como uma coletividade. A coletividade, portanto, precisa não apenas de
um espaço adequado, mas também de um tempo qualitativamente distinto para se
configurar. E esse tempo está tão degradado quanto nossos edifícios, tão
obstruído quanto nossos corredores, tão abandonado quanto nossos locais de
convivência presencial. Precisamos cuidar dele como quem cuida de um jardim
tomado por entulho, abrindo espaço para o florescimento de novas maneiras de
vivenciar a universidade.
A
condução do ritmo da vida universitária acontece de muitas formas, mas entendo
que existem dois aspectos que merecem atenção especial dos docentes. Um deles é
a micropolítica do tempo da aula. O outro é política mais ampla dos projetos
pedagógicos e da organização dos currículos. Ambos precisam ser alterados por
causa dos fatores sistêmicos que atravessam a experiência acadêmica, com
algumas variações sociais e geográficas: violência urbana, crise climática,
redes sociais, inteligência artificial. O problema aqui é o risco de invocarmos
um senso de urgência que de imediato só aumenta o nosso desespero.
De
fato, as mudanças que precisam ocorrer são em grande medida emergenciais. Nesse
ponto, a administração do tempo da aula é fundamental. É aí que podemos
interromper de imediato, e cotidianamente, o fluxo ininterrupto de informações
que tem marcado a rotina dos estudantes, em favor de um ritmo mais lento da
deliberação oral, da colaboração interpessoal, da resolução de problemas
complexos.
Muitos
professores têm se queixado que justamente do inverso: através dos dispositivos
móveis, as aulas têm sido invadidas pela cacofonia individualizada de
informações e pela ansiedade epidêmica. Mas será que estes professores não
estão oferecendo, como alternativa, a ansiedade deles próprios pelo cumprimento
de um conteúdo programático?
A
preocupação com os conteúdos é legítima, vale ressaltar. Nem sempre é (embora
às vezes seja) mera vaidade do docente que acredita na superioridade de seus
saberes, ou insensibilidade com outras demandas e obrigações estudantis. Pode
envolver questões de ética profissional, ou apreensões com a atuação dos
graduandos no mundo do trabalho e no serviço público.
Pode
inclusive presumir que algo de extraordinário precisa ser oferecido ao
estudante que ficou duas horas no trânsito (ou em uma estrada de terra) para
chegar na aula. Há uma forma de ansiedade dos docentes com a própria
performance que, hoje, está relacionada à própria percepção de que a
universidade atravessa uma crise sem precedentes.
No
entanto, em sua sensação de insuficiência, os professores podem estar deixando
de utilizar um instrumento simultaneamente muito ordinário e muito valioso que
têm a sua disposição. As duas, três ou mesmo quatro horas diárias que um
docente tem para aplicar o programa de sua disciplina são, antes de tudo, o que
são: duas, três, ou mesmo quatro horas. As sessenta horas semestrais de uma
disciplina têm valor em si mesmas, e não apenas como um espaço em branco para
ser atulhado até o limite com conceitos e bibliografias.
Os
professores precisam reassumir a consciência do tempo e de sua capacidade de
dilatá-lo, não simplesmente como algo que falta, como uma carência a ser
administrada, mas também como um ativo de seu ofício. Mas, para isso, precisam
abandonar a equivalência entre tempo e produtividade, que passou a atravessar
um campo no qual está totalmente deslocada.
A noção
de produto e sua quantificação, tão destacada para os órgãos de avaliação do
ensino superior, compromete nossa necessidade de pensar o tempo da aula como
tempo de exercício, de ensaio, de troca, sem finalidade produtiva imediata. A
aula precisa ser tempo improdutivo. Faz parte de sua natureza, aliás.
Aqui, o
advento da inteligência artificial ganha importância, porque destaca por
contraste o tempo qualitativamente distinto das interações humanas, e das
soluções a que somos capazes de chegar, a seu devido tempo, de maneira
colaborativa, segundo métodos que a inteligência artificial desconhece.
O
estudante universitário que entra no ensino superior hoje tem muitas dúvidas
quanto à pertinência, num futuro próximo, dos conhecimentos que adquire e dos
conteúdos que absorve, e ele tem razão. Cada vez mais, a experiência
universitária se justifica em sua capacidade de fazer com que os estudantes
aprendam a aprender, a trabalhar coletivamente, a se relacionar, enquanto
vivenciam também situações de cooperação ou conflito que fazem parte de seu
processo formativo.
Isso
toma tempo. Um tempo que precisa ser pensado também nos projetos pedagógicos e
reformas de currículos, vitimados pelo acréscimo cumulativo de componentes
disciplinares e por diretrizes que deixam muito pouco espaço (e tempo) para que
se possa respirar.
Os
agentes envolvidos devem considerar que, cada vez mais, a definição prévia dos
conteúdos ministrados no espaço de quatro ou cinco anos importa menos do que a
prática docente efetiva e cuidadosa, a relação direta com os estudantes em sala
de aula, a criatividade nos modos de ensino e de convívio. Mas não é nesse sentido que universidade
costuma pensar a si mesma, e sim em termos do volume e do nível de
conhecimentos que é capaz de proporcionar.
Com
medo de se tornaram obsoletos, os professores podem estar dobrando a aposta em
uma batalha que estão condenados a perder. Presumimos que nossos currículos
precisam estar sempre atualizados, o que implica mais leituras, mais artigos,
mais matérias; tudo isso carrega consigo a sensação de que temos cada vez menos
tempo.
Por
outro lado, o próprio ato de organizar uma aula, um programa, ou um curso, é
uma arte à qual não nos dedicamos com o devido cuidado. Não se trata de
diminuir o nível de exigência do ensino superior com seus estudantes. Temos que
buscar novos padrões de excelência no que se refere à experiência do tempo na
universidade.
Em um
famoso relato chamado O Zen e a Arte da Arquearia, de 1953, o acadêmico alemão
Eugen Herrigel relata como, quando estava lecionando como professor visitante
em uma universidade japonesa, foi convidado a participar de aulas sobre alguma
das práticas tradicionais da cultura local, tais como a esgrima, a cerimônia do
chá e o arranjo de flores.
Ele
acaba se decidindo pela matéria que se transformou no tema do livro, mas
supõe-se que todas as demais teriam uma natureza semelhante, ao exigir a
concentração em detalhes técnicos de uma arte ou de um esporte. É difícil
imaginar o mesmo acontecendo em nossas universidades e para nossos estudantes,
considerando nossos currículos abarrotados demais para permitir esse tipo de
atividade paralela, e o discurso pervasivo de que ainda assim os programas
curriculares são deficientes e defasados.
Mas
algo semelhante precisa e pode acontecer. Nas humanidades, precisamos de mais
oficinas e mais disciplinas práticas, com previsão de um tempo dilatado para
sua execução, permitindo não apenas o desenvolvimento de certas habilidades,
como também a experimentação de outras temporalidades em seu percurso.
Em
todas as áreas, precisamos abrir espaço para o diálogo (e inclusive para o
jogo) em nossas aulas, mesmo que seja às custas das exposições teóricas e de
novos conteúdos programáticos, porque nossos estudantes hoje precisam mais de
interação do que informação, e é aí que reside, para muitos, a verdadeira
motivação de cursar uma universidade presencial.
Acima
de tudo, é necessário que o ensino presencial se justifique exatamente por
aquilo que o caracteriza: a presença. Se, na modalidade à distância, existe um
ganho quantitativo de tempo, nesse caso precisa haver um ganho de tempo de
qualidade, o que só se torna possível quando não estamos condicionados à
sensação permanente de atraso e insuficiência.
Reclamar
da falta de tempo para concluir um programa ou atender a critérios de
produtividade se tornou hoje parte da etiqueta acadêmica. É cada vez mais raro,
e necessário, o docente capaz de dizer: temos tempo.
Precisamos
desse docente para aproveitar, da melhor forma possível, algo que está em
disputa na sociedade contemporânea: a atenção dos jovens, a atenção dos
estudantes. Foi-se a época em que essa atenção estava garantida ao professor
pela própria natureza de seu ofício, o que não implica que ele precise entrar
na briga pelas migalhas dos vídeos de curta duração.
São
justamente as durações mais longas, as atividades mais meticulosas e os hábitos
da conversa e do colóquio que devem ser recuperados, pelos métodos certos, que
são também aqueles que fazem bem à saúde mental dos estudantes. E permitem que
eles conversem com um colega, ao sair de uma aula, talvez até um pouco
descansados, após duas ou três horas de dedicação intensa ao trabalho de estar
ali, naquele momento.
Fonte:
Por Gustavo Naves Franco, em A Terra é Redonda

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