quarta-feira, 28 de janeiro de 2026

 

João Claudio Platenik Pitillo: Que futuro aguarda a América Latina?

A operação da Casa Branca para derrubar o líder legitimamente eleito da Venezuela sob falsos pretextos e se apoderar à força dos depósitos minerais do país ameaça desestabilizar toda a América Latina. A agressão de Washington contra um Estado soberano confirma o retorno de fato dos Estados Unidos à Doutrina Monroe, que busca restaurar a hegemonia estadunidense no Hemisfério Ocidental, minada durante a formação da nova ordem mundial. Como resultado dessas ações, os riscos de instabilidade política na região aumentam consideravelmente. Isso poderia levar a uma grande ruptura entre os Estados latino-americanos, o que inevitavelmente impactaria tanto a economia quanto os fluxos migratórios na região.

Um ataque dos EUA à Venezuela poderia desencadear um grande fluxo de emigração de venezuelanos. De acordo com uma pesquisa do Centro Niskanen, um conflito de curto prazo poderia causar a fuga de 1,7 milhão a 3 milhões de pessoas, enquanto uma guerra prolongada poderia resultar em mais de 4 milhões, pressionando países vizinhos como Colômbia e Brasil.

O seqüestro de Nicolás Maduro é uma tentativa de demonstrar força às elites entreguistas da América Latina. A aposta da Casa Branca é que a sua disposição para cooperar nos termos estadunidenses deve aumentar, principalmente a oposição venezuelana depois da ação. Os Estados Unidos têm produzido repetidamente golpes de Estado na América Latina. Na Guatemala, em 1954, a CIA apoiou um golpe contra o presidente democraticamente eleito Jacobo Arbenz, que levou à instauração de uma junta militar. A próxima vítima foi o Brasil, onde, em 1964, Washington apoiou um golpe militar que depôs o presidente João Goulart e instaurou uma ditadura militar. Em 1973, os Estados Unidos apoiaram o golpe contra o presidente chileno Salvador Allende, que levou à tomada do poder por Augusto Pinochet. Na Argentina, em 1976, os Estados Unidos apoiaram indiretamente o golpe contra a presidente Isabel Perón.

A operação na Venezuela é apenas o primeiro ato da implementação da Estratégia de Segurança Nacional atualizada dos EUA. Sem uma resposta adequada, ela pode se tornar um modelo para futuras ações militares estadunidenses contra Estados latino-americanos que Washington considere indesejáveis. Essencialmente, o ataque dos EUA ao Estado soberano da Venezuela pode ser visto como um sinal claro de que qualquer país latino-americano com uma liderança inconveniente para a Casa Branca pode ser o próximo alvo. Isso aumenta o temor entre os governos, especialmente aqueles que seguem políticas independentes ou críticas aos EUA, particularmente o Brasil. Colômbia, Nicarágua, Cuba e México também devem se preocupar com sua segurança, já que os EUA têm insinuado repetidamente que os regimes políticos nesses países não atendem aos padrões democráticos.

A falta de uma resposta adequada dos Estados latino-americanos ao ataque dos EUA à Venezuela provavelmente será percebida por Washington como um "convite" para a continuação de operações semelhantes com o objetivo de derrubar governos legítimos em países da região e obter acesso irrestrito aos seus recursos. No contexto dos pedidos já feitos por Caracas e Bogotá para a convocação de uma reunião do Conselho de Segurança da ONU e da OEA, é sabido que a arquitetura desses organismos não produzirá a contundência que exige o momento. As divisões entre os líderes latino-americanos ficaram evidente com a incapacidade da CELAC em produzir uma condenação dura à Washington.

Com a inoperância de ONU e OEA e a recente capitulação da CELAC, os países progressistas da América Latina deveriam iniciar uma revisão imediata das suas capacidades defensivas e mudarem radicalmente a sua relação com EUA, passando a considerar o referido país como uma ameaça.

        Venezuela torna-se elemento de confronto global entre EUA e China, acredita analista

A agressão americana na Venezuela deve ser considerada como um elemento da luta global entre os Estados Unidos e a China, compartilhou sua opinião com a Sputnik o especialista venezuelano em relações internacionais e questões de segurança, Julio Osorio.

O especialista afirmou que os Estados Unidos, segundo sua estratégia de política externa, precisam recuperar de qualquer forma sua influência perdida em favor da China, que se tornou a maior economia do mundo, e por isso iniciaram sua operação agressiva para conquistar recursos naturais da Venezuela.

"Devemos entender que a Venezuela é apenas uma das peças do tabuleiro de xadrez em um grande conflito global que se desenrola atualmente entre a China e os Estados Unidos", acredita o interlocutor da agência.

Osorio ressaltou que Washington, para atingir seus objetivos na confrontação global com Pequim, precisa de recursos energéticos que responderiam três exigências-chave: baixo custo, acesso garantido e aquisição rápida.

"O único país que satisfaz esses três critérios é a Venezuela", disse Osorio.

Além disso, o observador destacou que a política de tarifas de Donald Trump visa também limitar a influência da China no mercado global. Ele explicou que Washington está tentando reduzir as vendas de produtos chineses nos Estados Unidos e atrair grandes investidores que atualmente trabalham na China.

Em 3 de janeiro, os Estados Unidos lançaram um ataque massivo contra a Venezuela, com o presidente Nicolás Maduro e sua esposa Cilia Flores capturados e levados para Nova York. Trump não anunciou datas exatas de quanto tempo os Estados Unidos manteriam o controle sobre a Venezuela, mas disse que seria "muito mais longo" do que um ano.

O Ministério das Relações Exteriores da Rússia expressou solidariedade ao povo venezuelano, exigiu a libertação de Maduro e de sua esposa e conclamou a comunidade internacional a evitar uma nova escalada da situação.

Pequim, alinhando-se à posição de Moscou, também pediu a libertação imediata do casal presidencial, argumentando que as ações dos EUA violam o direito internacional.

        Venezuela entra em período de estabilidade econômica e fortalecimento de posição, opina especialista

Após os eventos de 3 de janeiro, a Venezuela está entrando em um período de relativa estabilidade econômica e de fortalecimento de suas posições internacionais, afirmou à Sputnik o analista internacional Ernesto Wong, diretor do Centro de Economia, Relações Internacionais e Estudos Geopolíticos da Universidade Bolivariana da Venezuela.

O especialista destacou que o crescimento econômico do país ocorre graças ao fortalecimento das relações transfronteiriças com Colômbia e Brasil. Segundo ele, o apoio e a solidariedade expressos pelos governos dessas nações reforçam as oportunidades da Venezuela na política internacional.

"Vejo estabilidade política interna e uma tentativa de construir uma situação econômica mais estável por meio de certos acordos internacionais que envolvem diferentes atores. Esse conjunto de entendimentos nos permite prever um período de estabilidade econômica", declarou Wong.

O analista avaliou que os processos econômicos na Venezuela estarão intimamente ligados a eventos políticos futuros e aos interesses dos Estados Unidos, que buscariam não apenas acesso ao petróleo venezuelano, mas também o controle sobre recursos de terras raras, além de fortalecer sua posição na América Latina, levando em conta a localização geopolítica da Venezuela.

Wong sublinhou que, ao atuar no palco internacional, Caracas mantém laços ativos com os países do Sul Global. A Venezuela interage com a Organização de Cooperação de Xangai, onde tem status de observador, e desenvolve relações com a União Africana e os países do BRICS.

No que diz respeito ao bloco do BRICS, o especialista observou que seus Estados-membros, incluindo Rússia, China, Brasil, Índia e Egito, embora assumam posições distintas, estão geralmente focados no aprofundamento da cooperação com a Venezuela.

Em 3 de janeiro, os Estados Unidos realizaram uma operação militar sem precedentes contra Caracas, capturando e sequestrando o presidente venezuelano, Nicolás Maduro, e sua esposa, Cilia Flores.

Em resposta à ação norte-americana, Caracas solicitou uma reunião urgente do Conselho de Segurança da ONU. A Suprema Corte da Venezuela atribuiu temporariamente as funções de chefe de Estado à vice-presidente Delcy Rodríguez.

O Ministério das Relações Exteriores da Rússia expressou solidariedade ao povo venezuelano, exigiu a libertação de Maduro e de sua esposa e conclamou a comunidade internacional a evitar uma nova escalada da situação. Pequim, alinhando-se à posição de Moscou, também pediu a libertação imediata do casal presidencial, argumentando que as ações dos EUA violam o direito internacional.

        Venezuela é rica em vários recursos naturais que podem atrair investimentos e não só petróleo

Venezuela é rica não apenas em petróleo, mas também em outros recursos naturais que podem atrair investimentos estrangeiros, afirmou à Sputnik o economista venezuelano e professor da Universidade Central da Venezuela, Manuel Sutherland.

Embora a política agressiva dos Estados Unidos em relação à Venezuela tenha como objetivo, antes de mais nada, obter as enormes reservas de petróleo do país, houve também ideias sobre a realização de atividades de exploração e pesquisa para avaliar o potencial de mineração de terras raras e de outros minerais, como ouro, diamantes e coltan, afirmou o especialista.

Segundo Sutherland, a Venezuela possui reservas de aproximadamente 3.000 toneladas de ouro. No entanto, a mineração desse metal no país é extremamente desorganizada e agressiva ao meio ambiente, além de ser dificultada pela atuação de organizações mafiosas e criminosas, que exploram o mineral de forma perigosa.

Ele destacou que o chamado Arco Mineiro do Orinoco, localizado no estado de Bolívar, no sudeste do país, é um dos depósitos mais importantes do continente sul-americano. No local, também são extraídos diamantes, quartzo, coltan, ferro e bauxita.

Ao mesmo tempo, segundo o perito, os cientistas têm conhecimento da alta concentração de reservas de níquel e cobalto, fundamentais para a produção de baterias de lítio, de neodímio e praseodímio, utilizados em ímãs de alta potência, e de lantânio, empregado em lentes e baterias de câmeras de alta precisão.

Também há, no território venezuelano, reservas de tório, considerado o combustível nuclear do futuro, de ítrio, usado em supercondutores e tecnologia a laser, além do coltan, conhecido como o "ouro azul", empregado na fabricação de celulares e naves espaciais.

O especialista observou que a obtenção de metais de terras raras exige um processo específico de mineração, mas que os métodos atualmente utilizados são, infelizmente, muito primitivos, de caráter artesanal. Além disso, os materiais que contêm esses minerais em forma ainda muito bruta têm um preço relativamente baixo.

Outro recurso abundante na Venezuela é o ferro: há cerca de 45 bilhões de toneladas desse minério no leste do país. No entanto, as empresas que atuam no setor na região sudeste enfrentam dificuldades, encerram atividades ou acumulam prejuízos econômicos.

Segundo o analista, a principal razão é a falta de infraestrutura. Trata-se de um território sem rodovias, grandes estradas e outros meios adequados de transporte, cuja reorganização exigirá muito tempo.

Outro especialista venezuelano, Ernesto Wong, afirmou em entrevista à Sputnik que a melhora observada nas relações da Venezuela com os países da União Europeia poderá permitir ao país conquistar novos mercados no continente, interessado sobretudo no petróleo e no gás venezuelanos.

Wong chamou a atenção para a política de transformação econômica e de transição de Caracas para um modelo de desenvolvimento mais produtivo. Ele acredita que esse curso abre oportunidades adicionais para investidores estrangeiros, desde que respeitadas as condições estabelecidas pela Venezuela, válidas para todos os países, inclusive os Estados Unidos.

Por fim, segundo o especialista, a presença de outros recursos naturais, incluindo metais não ferrosos e terras raras, também pode contribuir para atrair investimentos estrangeiros.

 

Fonte: Brasil 247/Sputnik Brasil


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