João
Claudio Platenik Pitillo: Que futuro aguarda a América Latina?
A
operação da Casa Branca para derrubar o líder legitimamente eleito da Venezuela
sob falsos pretextos e se apoderar à força dos depósitos minerais do país
ameaça desestabilizar toda a América Latina. A agressão de Washington contra um
Estado soberano confirma o retorno de fato dos Estados Unidos à Doutrina
Monroe, que busca restaurar a hegemonia estadunidense no Hemisfério Ocidental,
minada durante a formação da nova ordem mundial. Como resultado dessas ações,
os riscos de instabilidade política na região aumentam consideravelmente. Isso
poderia levar a uma grande ruptura entre os Estados latino-americanos, o que
inevitavelmente impactaria tanto a economia quanto os fluxos migratórios na
região.
Um
ataque dos EUA à Venezuela poderia desencadear um grande fluxo de emigração de
venezuelanos. De acordo com uma pesquisa do Centro Niskanen, um conflito de
curto prazo poderia causar a fuga de 1,7 milhão a 3 milhões de pessoas,
enquanto uma guerra prolongada poderia resultar em mais de 4 milhões,
pressionando países vizinhos como Colômbia e Brasil.
O
seqüestro de Nicolás Maduro é uma tentativa de demonstrar força às elites
entreguistas da América Latina. A aposta da Casa Branca é que a sua disposição
para cooperar nos termos estadunidenses deve aumentar, principalmente a
oposição venezuelana depois da ação. Os Estados Unidos têm produzido
repetidamente golpes de Estado na América Latina. Na Guatemala, em 1954, a CIA
apoiou um golpe contra o presidente democraticamente eleito Jacobo Arbenz, que
levou à instauração de uma junta militar. A próxima vítima foi o Brasil, onde,
em 1964, Washington apoiou um golpe militar que depôs o presidente João Goulart
e instaurou uma ditadura militar. Em 1973, os Estados Unidos apoiaram o golpe
contra o presidente chileno Salvador Allende, que levou à tomada do poder por
Augusto Pinochet. Na Argentina, em 1976, os Estados Unidos apoiaram
indiretamente o golpe contra a presidente Isabel Perón.
A
operação na Venezuela é apenas o primeiro ato da implementação da Estratégia de
Segurança Nacional atualizada dos EUA. Sem uma resposta adequada, ela pode se
tornar um modelo para futuras ações militares estadunidenses contra Estados
latino-americanos que Washington considere indesejáveis. Essencialmente, o
ataque dos EUA ao Estado soberano da Venezuela pode ser visto como um sinal
claro de que qualquer país latino-americano com uma liderança inconveniente
para a Casa Branca pode ser o próximo alvo. Isso aumenta o temor entre os
governos, especialmente aqueles que seguem políticas independentes ou críticas
aos EUA, particularmente o Brasil. Colômbia, Nicarágua, Cuba e México também
devem se preocupar com sua segurança, já que os EUA têm insinuado repetidamente
que os regimes políticos nesses países não atendem aos padrões democráticos.
A falta
de uma resposta adequada dos Estados latino-americanos ao ataque dos EUA à
Venezuela provavelmente será percebida por Washington como um
"convite" para a continuação de operações semelhantes com o objetivo
de derrubar governos legítimos em países da região e obter acesso irrestrito
aos seus recursos. No contexto dos pedidos já feitos por Caracas e Bogotá para
a convocação de uma reunião do Conselho de Segurança da ONU e da OEA, é sabido
que a arquitetura desses organismos não produzirá a contundência que exige o
momento. As divisões entre os líderes latino-americanos ficaram evidente com a
incapacidade da CELAC em produzir uma condenação dura à Washington.
Com a
inoperância de ONU e OEA e a recente capitulação da CELAC, os países
progressistas da América Latina deveriam iniciar uma revisão imediata das suas
capacidades defensivas e mudarem radicalmente a sua relação com EUA, passando a
considerar o referido país como uma ameaça.
• Venezuela torna-se elemento de confronto
global entre EUA e China, acredita analista
A
agressão americana na Venezuela deve ser considerada como um elemento da luta
global entre os Estados Unidos e a China, compartilhou sua opinião com a
Sputnik o especialista venezuelano em relações internacionais e questões de
segurança, Julio Osorio.
O
especialista afirmou que os Estados Unidos, segundo sua estratégia de política
externa, precisam recuperar de qualquer forma sua influência perdida em favor
da China, que se tornou a maior economia do mundo, e por isso iniciaram sua
operação agressiva para conquistar recursos naturais da Venezuela.
"Devemos
entender que a Venezuela é apenas uma das peças do tabuleiro de xadrez em um
grande conflito global que se desenrola atualmente entre a China e os Estados
Unidos", acredita o interlocutor da agência.
Osorio
ressaltou que Washington, para atingir seus objetivos na confrontação global
com Pequim, precisa de recursos energéticos que responderiam três
exigências-chave: baixo custo, acesso garantido e aquisição rápida.
"O
único país que satisfaz esses três critérios é a Venezuela", disse Osorio.
Além
disso, o observador destacou que a política de tarifas de Donald Trump visa
também limitar a influência da China no mercado global. Ele explicou que
Washington está tentando reduzir as vendas de produtos chineses nos Estados
Unidos e atrair grandes investidores que atualmente trabalham na China.
Em 3 de
janeiro, os Estados Unidos lançaram um ataque massivo contra a Venezuela, com o
presidente Nicolás Maduro e sua esposa Cilia Flores capturados e levados para
Nova York. Trump não anunciou datas exatas de quanto tempo os Estados Unidos
manteriam o controle sobre a Venezuela, mas disse que seria "muito mais
longo" do que um ano.
O
Ministério das Relações Exteriores da Rússia expressou solidariedade ao povo
venezuelano, exigiu a libertação de Maduro e de sua esposa e conclamou a
comunidade internacional a evitar uma nova escalada da situação.
Pequim,
alinhando-se à posição de Moscou, também pediu a libertação imediata do casal
presidencial, argumentando que as ações dos EUA violam o direito internacional.
• Venezuela entra em período de
estabilidade econômica e fortalecimento de posição, opina especialista
Após os
eventos de 3 de janeiro, a Venezuela está entrando em um período de relativa
estabilidade econômica e de fortalecimento de suas posições internacionais,
afirmou à Sputnik o analista internacional Ernesto Wong, diretor do Centro de
Economia, Relações Internacionais e Estudos Geopolíticos da Universidade
Bolivariana da Venezuela.
O
especialista destacou que o crescimento econômico do país ocorre graças ao
fortalecimento das relações transfronteiriças com Colômbia e Brasil. Segundo
ele, o apoio e a solidariedade expressos pelos governos dessas nações reforçam
as oportunidades da Venezuela na política internacional.
"Vejo
estabilidade política interna e uma tentativa de construir uma situação
econômica mais estável por meio de certos acordos internacionais que envolvem
diferentes atores. Esse conjunto de entendimentos nos permite prever um período
de estabilidade econômica", declarou Wong.
O
analista avaliou que os processos econômicos na Venezuela estarão intimamente
ligados a eventos políticos futuros e aos interesses dos Estados Unidos, que
buscariam não apenas acesso ao petróleo venezuelano, mas também o controle
sobre recursos de terras raras, além de fortalecer sua posição na América
Latina, levando em conta a localização geopolítica da Venezuela.
Wong
sublinhou que, ao atuar no palco internacional, Caracas mantém laços ativos com
os países do Sul Global. A Venezuela interage com a Organização de Cooperação
de Xangai, onde tem status de observador, e desenvolve relações com a União
Africana e os países do BRICS.
No que
diz respeito ao bloco do BRICS, o especialista observou que seus
Estados-membros, incluindo Rússia, China, Brasil, Índia e Egito, embora assumam
posições distintas, estão geralmente focados no aprofundamento da cooperação
com a Venezuela.
Em 3 de
janeiro, os Estados Unidos realizaram uma operação militar sem precedentes
contra Caracas, capturando e sequestrando o presidente venezuelano, Nicolás
Maduro, e sua esposa, Cilia Flores.
Em
resposta à ação norte-americana, Caracas solicitou uma reunião urgente do
Conselho de Segurança da ONU. A Suprema Corte da Venezuela atribuiu
temporariamente as funções de chefe de Estado à vice-presidente Delcy
Rodríguez.
O
Ministério das Relações Exteriores da Rússia expressou solidariedade ao povo
venezuelano, exigiu a libertação de Maduro e de sua esposa e conclamou a
comunidade internacional a evitar uma nova escalada da situação. Pequim,
alinhando-se à posição de Moscou, também pediu a libertação imediata do casal
presidencial, argumentando que as ações dos EUA violam o direito internacional.
• Venezuela é rica em vários recursos
naturais que podem atrair investimentos e não só petróleo
Venezuela
é rica não apenas em petróleo, mas também em outros recursos naturais que podem
atrair investimentos estrangeiros, afirmou à Sputnik o economista venezuelano e
professor da Universidade Central da Venezuela, Manuel Sutherland.
Embora
a política agressiva dos Estados Unidos em relação à Venezuela tenha como
objetivo, antes de mais nada, obter as enormes reservas de petróleo do país,
houve também ideias sobre a realização de atividades de exploração e pesquisa
para avaliar o potencial de mineração de terras raras e de outros minerais,
como ouro, diamantes e coltan, afirmou o especialista.
Segundo
Sutherland, a Venezuela possui reservas de aproximadamente 3.000 toneladas de
ouro. No entanto, a mineração desse metal no país é extremamente desorganizada
e agressiva ao meio ambiente, além de ser dificultada pela atuação de
organizações mafiosas e criminosas, que exploram o mineral de forma perigosa.
Ele
destacou que o chamado Arco Mineiro do Orinoco, localizado no estado de
Bolívar, no sudeste do país, é um dos depósitos mais importantes do continente
sul-americano. No local, também são extraídos diamantes, quartzo, coltan, ferro
e bauxita.
Ao
mesmo tempo, segundo o perito, os cientistas têm conhecimento da alta
concentração de reservas de níquel e cobalto, fundamentais para a produção de
baterias de lítio, de neodímio e praseodímio, utilizados em ímãs de alta
potência, e de lantânio, empregado em lentes e baterias de câmeras de alta
precisão.
Também
há, no território venezuelano, reservas de tório, considerado o combustível
nuclear do futuro, de ítrio, usado em supercondutores e tecnologia a laser,
além do coltan, conhecido como o "ouro azul", empregado na fabricação
de celulares e naves espaciais.
O
especialista observou que a obtenção de metais de terras raras exige um
processo específico de mineração, mas que os métodos atualmente utilizados são,
infelizmente, muito primitivos, de caráter artesanal. Além disso, os materiais
que contêm esses minerais em forma ainda muito bruta têm um preço relativamente
baixo.
Outro
recurso abundante na Venezuela é o ferro: há cerca de 45 bilhões de toneladas
desse minério no leste do país. No entanto, as empresas que atuam no setor na
região sudeste enfrentam dificuldades, encerram atividades ou acumulam
prejuízos econômicos.
Segundo
o analista, a principal razão é a falta de infraestrutura. Trata-se de um
território sem rodovias, grandes estradas e outros meios adequados de
transporte, cuja reorganização exigirá muito tempo.
Outro
especialista venezuelano, Ernesto Wong, afirmou em entrevista à Sputnik que a
melhora observada nas relações da Venezuela com os países da União Europeia
poderá permitir ao país conquistar novos mercados no continente, interessado
sobretudo no petróleo e no gás venezuelanos.
Wong
chamou a atenção para a política de transformação econômica e de transição de
Caracas para um modelo de desenvolvimento mais produtivo. Ele acredita que esse
curso abre oportunidades adicionais para investidores estrangeiros, desde que
respeitadas as condições estabelecidas pela Venezuela, válidas para todos os
países, inclusive os Estados Unidos.
Por
fim, segundo o especialista, a presença de outros recursos naturais, incluindo
metais não ferrosos e terras raras, também pode contribuir para atrair
investimentos estrangeiros.
Fonte:
Brasil 247/Sputnik Brasil

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