quarta-feira, 28 de janeiro de 2026

Intestino inflamado, sono ruim e piora na saúde mental andam juntos

Sempre houve especulações de que doenças inflamatórias do intestino (DII) estivessem associadas a problemas de saúde mental, com estudos que sugerem a atuação de vias imune-inflamatórias comuns no eixo intestino-cérebro. Ou seja: quando existe inflamação no intestino, substâncias do sistema imunológico podem circular pelo corpo e influenciar o funcionamento do cérebro, afetando o humor, o sono e outros aspectos emocionais.

Recentemente, uma pesquisa conduzida pela Faculdade de Medicina da USP (FMUSP) trouxe novas evidências favoráveis a essa ideia. Uma equipe multidisciplinar composta de coloproctologistas, nutricionistas, fisioterapeutas e profissionais de educação física analisou informações laboratoriais de pacientes diagnosticados com a doença de Crohn e verificou que aqueles que estavam com a inflamação ativa no intestino tinham maior probabilidade de apresentar sono de má qualidade, cansaço ao despertar, fadiga e sintomas de ansiedade e depressão.

A pesquisa é inédita e conquistou o primeiro lugar na Semana Brasileira das Doenças Inflamatórias Intestinais (6ª SEBRADII), maior congresso sobre DII da América Latina, realizado em Campinas em agosto de 2025. Segundo a médica Carolina Bortolozzo Graciolli Facanali, uma das coordenadoras do estudo, a doença de Crohn é uma inflamação crônica autoimune que afeta principalmente o final do intestino delgado e o intestino grosso. O quadro alterna entre crises de inflamação ativa e períodos de remissão, em que os sintomas estão controlados ou ausentes.

“A doença pode evoluir ao longo dos anos, começando com um estágio inflamatório limitado à mucosa do intestino, podendo avançar para as formas estenosante e penetrante (fístulas), consideradas mais graves. Nessas fases, ocorrem fibrose e estreitamento da parede intestinal ou o aparecimento de fístulas no abdome ou na região anal, aumentando o risco de complicações graves. Embora não tenha cura, as crises podem ser controladas com medicamentos, ajustes na alimentação e, em alguns casos, cirurgia”, explica a pesquisadora.

<><> Transtornos mentais e inflamação no intestino

As análises dos exames detectaram que os pacientes com inflamação ativa apresentaram quase três vezes mais chances de ter sono de má qualidade e sintomas depressivos. O estudo também revelou que pacientes com o fenótipo inflamatório (processo inflamatório na mucosa intestinal), típico da fase inicial da doença, dormiam pior do que aqueles com o fenótipo estenosante ou penetrante (estreitamento  do intestino), associado à fase crônica. Para o coloproctologista e professor da FMUSP, Carlos Sobrado, “esse fato pode estar relacionado à maior resiliência dos pacientes com doença de longa duração, que já enfrentaram fases mais críticas e aprenderam a lidar melhor com novos desafios.”

A pesquisa detectou ainda que mais de dois terços dos pacientes avaliados apresentavam inflamação intestinal ativa, sendo que a grande maioria relatou ter problemas de sono: 69% disseram que o descanso não era reparador e 71% classificaram sua qualidade de sono como ruim.

Segundo Carolina Facanali, os novos resultados confirmam evidências já apresentadas em artigo anterior, publicado pelo grupo em 2023 na revista Clinics, que identificou alta prevalência de depressão maior entre pessoas com Doença de Crohn. O estudo mostrou que o transtorno depressivo estava fortemente associado à fase ativa da enfermidade. Na pesquisa, que incluiu 283 pacientes, as mulheres apresentaram risco cinco vezes maior de desenvolver depressão em comparação com homens.

<><> Análises dos dados

Para chegar a esses resultados, a equipe investigou a relação entre inflamação intestinal e qualidade do sono a partir das análises clínica e laboratorial, com quantificação dos níveis de calprotectina fecal – biomarcador que indicava atividade inflamatória do intestino quando estava acima de 250 µg/g. A avaliação do sono foi feita por meio do Índice de Pittsburgh e da Escala de Epworth, além de questionários para avaliar níveis de ansiedade e depressão. Os pesquisadores também utilizaram acelerometria — um dispositivo semelhante a um relógio usado durante a noite — para medir de forma objetiva o tempo para adormecer e os despertares noturnos.

No início do estudo, os pacientes responderam aos questionários, receberam o acelerômetro e o frasco estéril para as coletas. Após sete dias, retornaram ao ambulatório do Hospital das Clínicas para devolver o aparelho e entregar as amostras, permitindo a análise conjunta dos padrões de sono e do nível de inflamação intestinal. Informações sociodemográficas e clínicas foram complementadas com consulta ao prontuário eletrônico.

<><> Tratamento integrado

Para o professor Sobrado, os resultados reforçam a necessidade de encarar a doença de Crohn de maneira integrada, reconhecendo que a inflamação intestinal não se limita ao trato digestivo e pode desencadear impactos significativos na saúde mental e na qualidade de vida.

Ao demonstrar a forte correlação entre atividade inflamatória, piora do sono e sintomas emocionais, o estudo amplia a compreensão clínica sobre a doença e destaca a importância de incorporar a avaliação do sono, o apoio psicológico e a atenção nutricional ao cuidado de rotina. “O estudo surgiu da observação clínica diária e buscou comprovar cientificamente uma percepção já presente na prática médica: corpo e mente estão interligados” – Carolina Bortolozzo Graciolli Facanali

De acordo com a pesquisadora, os resultados representam um avanço para consolidar práticas de saúde mais integradas, capazes de considerar as diferentes dimensões do adoecimento. Segundo a pesquisadora, os dados apresentados no congresso são apenas uma parte da pesquisa desenvolvida por uma equipe multiprofissional que trabalha no Departamento de Gastroenterologia e Nutrologia da FMUSP. O estudo também compõe a tese de Carolina Facanali, desenvolvida em parceria com o professor Celso Carvalho, do Departamento de Fisioterapia, Fonoaudiologia e Terapia Ocupacional (Fofito) da FMUSP.

<><> Doenças inflamatórias intestinais

As duas principais doenças inflamatórias intestinais são a Doença de Crohn (DC) e a Retocolite Ulcerativa (RCU). Ambas são condições autoimunes crônicas, marcadas por períodos de remissão e agravamento. Embora não tenham cura, as crises podem ser controladas com medicamentos, ajustes na alimentação e, em alguns casos, cirurgia. A diferença entre elas está na localização da inflamação: a DC pode acometer qualquer trecho do trato digestivo — da boca ao ânus — e costuma causar lesões mais profundas da parede intestinal (revestimento interno do intestino). Já a RCU se limita ao intestino grosso e ao reto, com inflamação contínua e mais superficial. As duas doenças afetam principalmente pessoas em idade economicamente ativa, entre 20 e 30 anos, e provocam sintomas como diarreia, dor abdominal, sangramento, febre e perda de peso.

•        Intestino: como cuidar bem da saúde do seu “segundo cérebro”

O intestino é um órgão em formato de tubo, que pode atingir até 9 metros de comprimento. Ele permite a passagem dos alimentos digeridos, facilitando a absorção de nutrientes e a eliminação dos resíduos. O intestino se divide em delgado (que liga o estômago ao intestino grosso) e grosso (menor parte do intestino, responsável pela absorção de mais de 60% da água ingerida para o corpo). Além de suas principais funções – como a digestão dos alimentos, a hidratação adequada, a eliminação de toxinas e a absorção correta dos nutrientes – o intestino também está envolvido em quase todos os processos do corpo humano, incluindo produção de hormônios e neurotransmissores que afetam a saúde mental. Por isso, o órgão é conhecido como nosso “segundo cérebro”.

<><> A microbiota do intestino

O intestino é lar de 100 trilhões de microrganismos, conhecidos coletivamente como “microbiota”, que produzem metabólitos importantes para a saúde. Cerca de 70 a 80% das células imunológicas do corpo estão concentradas no intestino. Existem 100 milhões de neurônios localizados ao longo do intestino que produzem vários neurotransmissores que regulam o humor e a saciedade. Além disso, até 95% da serotonina total do corpo (um dos hormônios da felicidade) está localizada no intestino.

Uma microbiota intestinal saudável contém uma composição equilibrada de muitas classes de bactérias que têm várias funções de promoção da saúde. Enquanto algumas bactérias estão associadas a doenças, outras são extremamente importantes para o seu sistema imunológico, coração, peso e muitos outros aspectos da saúde. Embora não se saiba exatamente por que isso acontece, existem evidências de que as bactérias que vivem no intestino fazem muito mais pelo corpo do que simplesmente auxiliar na digestão. Na verdade, parece que eles estão envolvidos em todos os processos do corpo, desde a proteção contra infecções pelo sistema imunológico até a produção de vitaminas, compostos anti-inflamatórios e até as substâncias químicas que afetam o cérebro. Por isso, diversos estudos têm associado a saúde da microbiota intestinal com complicações de saúde mental, como a depressão, ansiedade e até esquizofrenia.

<><> A importância da saúde do intestino

Maus hábitos, excessos alimentares e o abuso de álcool podem desequilibrar a sua microbiota intestinal, que é a casa de milhões de microrganismos que garantem o bom funcionamento do intestino e das células do sistema imune. O resultado desse desequilíbrio é o rompimento da barreira intestinal e o enfraquecimento das respostas de defesa do organismo.

O que isso significa? Em curto prazo, baixa imunidade, maior chance de infecções, resfriados, diarreia, gases, azia e queimação no estômago e um tremendo mal-estar. Em longo prazo, as chances de desenvolver problemas de saúde, como síndrome do intestino irritável, e até outros mais graves, como doenças do cérebro.

Por isso, é essencial aprender a cuidar da sua saúde intestinal e protegê-la dos excessos. Isso inclui cuidar da dieta, fazer atividade física e escolher alimentos que favoreçam a ação das “bactérias boas” do intestino. Esses alimentos são conhecidos como probióticos e prebióticos.

<><> Como cuidar bem da saúde do intestino?

>> 1. Reduza os níveis de estresse

Altos níveis de estresse afetam todo o corpo, inclusive o intestino. Você pode diminuir o estresse com meditação, exercício físico, massagem, passando mais tempo com amigos ou família, praticando aromaterapia, diminuindo a ingestão de cafeína, rindo, fazendo yoga ou brincando com seu animal de estimação.

>> 2. Durma bem

Não dormir bem ou dormir pouco pode ter sérios impactos na saúde intestinal. Tente priorizar a obtenção de pelo menos 7 a 8 horas de sono ininterrupto por noite. Tomar chás naturais e desligar os aparelhos eletrônicos uma hora antes de se deitar são algumas dicas para melhorar a qualidade do sono.

>> 3. Coma devagar

Mastigar bem os alimentos e comer mais devagar ajudam a promover a digestão completa e a absorção de nutrientes. Além disso, o hábito de comer devagar minimiza o desconforto digestivo e mantém o intestino saudável.

>> 4. Beba muita água

A hidratação tem um efeito benéfico no revestimento da mucosa dos intestinos, bem como no equilíbrio de bactérias benéficas no intestino. Manter-se hidratado é uma maneira extremamente simples de promover a saúde intestinal.

>> 5. Cheque se você tem intolerância alimentar

Se você tiver sintomas como cólicas, inchaço, dor abdominal, diarreia, erupções cutâneas, náuseas, fadiga e refluxo ácido, você pode estar sofrendo de intolerância alimentar. Tente eliminar os alimentos desencadeantes comuns e verifique se os sintomas melhoram. Se você for capaz de identificar um alimento ou alimentos que estão contribuindo para os seus sintomas, poderá ver uma mudança positiva em sua saúde digestiva, alterando seus hábitos alimentares.

>> 6. Escolha alimentos saudáveis

Reduzir a quantidade de alimentos processados com alto teor de açúcar e gordura que você ingere é capaz de melhorar a saúde intestinal e promover o bem-estar. Além disso, comer muitos alimentos vegetais e proteínas magras pode impactar positivamente seu intestino. Dietas ricas em fibras contribuem enormemente para a saúde da flora intestinal. Por fim, evitar o consumo de alimentos com embalagens plásticas também pode ajudar. De acordo com estudos, as embalagens liberam microplásticos que podem causar doenças inflamatórias intestinais.

>> 7. Aposte em alimentos fermentados, probióticos e prebióticos

É comum haver confusão com os termos “prebióticos” e “probióticos”, mas eles são bem diferentes. Enquanto os prebióticos se referem a substâncias alimentares não digeridas pelo organismo e aproveitadas por micro-organismos benéficos, os probióticos são os próprios micro-organismos benéficos encontrados nos alimentos.

Ambos (probióticos e prebióticos) são importantes para a saúde humana. Por sua vez, os alimentos simbíoticos são compostos por prebióticos e probióticos. Alguns exemplos de prebióticos são legumes, feijão, aveia, banana, aspargo, alho e cebola.

Exemplos de alimentos probióticos fermentados incluem iogurte, chucrute, kimchi, kombucha, kefir, picles (não pasteurizados) e outros legumes em conserva.

>> 8. Evite o uso de antibióticos

Tome antibióticos apenas quando necessário: os antibióticos matam muitas bactérias boas e más no microbioma intestinal, possivelmente contribuindo para o ganho de peso e resistência aos antibióticos. Portanto, só tome antibióticos quando for clinicamente necessário.

<><> Cientistas descobrem um tratamento caseiro mais eficaz para doenças intestinais comuns

Em um estudo da Universidade da Pensilvânia, os pesquisadores descobriram um tratamento caseiro mais eficaz para doenças intestinais comuns.

O tratamento consiste em um aplicativo digital móvel, Zemedy, que oferece recursos centrados na terapia cognitivo-comportamental (TCC) para resolver a falha de comunicação intestinal-cérebro e da hipersensibilidade em torno das sensações intestinais que acontecem em alguém com Síndrome do Intestino Irritável, uma das doenças mais comuns que afetam o intestino.

No estudo, a equipe descobriu que usar o aplicativo por oito semanas levou a melhorias na qualidade de vida relacionada à saúde, menos sintomas gastrointestinais (GI) e menos ansiedade sobre as sensações viscerais, benefícios que os participantes mantiveram três meses depois.

A terapia cognitivo-comportamental se concentra na mudança do processo de pensamento e comportamento em torno de uma doença específica. No caso da SII, isso poderia significar treinamento de relaxamento e reenquadramento cognitivo ou descatastrofização, por exemplo, ou terapia de exposição em torno de alimentos e situações temidas por seu potencial de causar desconforto gastrointestinal.

Esses tratamentos têm se mostrado eficazes para a SII, porque o distúrbio provavelmente resulta de uma falha de comunicação entre o sistema nervoso central, que controla o cérebro, e o sistema nervoso entérico, que orquestra o comportamento gastrointestinal, juntamente com algo chamado disbiose, ou uma mudança no microbioma intestinal.

O próprio aplicativo combina educação, técnicas de relaxamento, ferramentas para superar a aversão à atividade física e informações sobre alimentação saudável. Os pesquisadores acreditam que as descobertas apontam para a necessidade de opções de tratamento que não exijam dietas restritivas ou mudanças de estilo de vida difíceis de manter.

 

Fonte: Por Ivanir Ferreira – Jornal da USP/eCycle

 

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