quarta-feira, 28 de janeiro de 2026

Shobhan Saxena: Uma América do Sul turbulenta organiza resistência à “doutrina Donroe” dos EUA

Duas semanas após o sequestro do presidente venezuelano Nicolás Maduro, a América do Sul segue sob uma nuvem de incerteza. O sentimento de instabilidade aumentou em 16 de janeiro, quando os Estados Unidos alertaram companhias aéreas para “cautela” em partes da América do Sul e Central, citando riscos ligados a possível atividade militar.

O pânico não veio do nada. Ele foi alimentado por declarações provocativas do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que disse que cartéis de drogas estariam “governando o México” e sugeriu ataques americanos a alvos em terra. Antes disso, ele já havia mirado a Colômbia, acusando o presidente Gustavo Petro de “exportar cocaína” para os EUA.

<><> Petro responde, depois recua para negociar

Com um continente de mais de 450 milhões de pessoas ainda atordoado pelo sequestro de um presidente em exercício, Petro respondeu de forma direta. “Se vocês detiverem um presidente que muitos do meu povo querem e respeitam, vocês vão soltar o jaguar do povo”, escreveu ele na rede X.

Mais tarde, quando Trump moderou um pouco o tom, Petro também tentou desescalar. Cancelou a ida ao Fórum Econômico Mundial e passou a concentrar energia na reunião prevista com Trump na Casa Branca, marcada para 3 de fevereiro.

A região, agora, prende a respiração para ver o que sairá desse encontro. E é justamente essa atmosfera — de tensão, ameaça e chantagem política — que dá o tom do momento sul-americano: não se trata apenas da Venezuela, mas do recado que se pretende impor ao continente.

<><> Brasil em duas frentes: diplomacia e ajuda humanitária

O Brasil, maior democracia e economia da América Latina, tem atuado em duas trilhas paralelas para apoiar a Venezuela: a diplomática e a humanitária.

O presidente Lula denunciou publicamente a “violação da soberania venezuelana e do direito internacional”. Ao mesmo tempo, o governo brasileiro concentrou esforços em ações de alívio emergencial. Brasília enviou 100 toneladas de suprimentos médicos a Caracas, onde um grande centro de diálise foi destruído durante a operação militar dos EUA.

O ministro da Saúde, Alexandre Padilha, relembrou um episódio simbólico de solidariedade regional: quando houve colapso no fornecimento de oxigênio em Manaus durante a pandemia de Covid-19, a Venezuela enviou 135 mil metros cúbicos de oxigênio para salvar vidas brasileiras.

Esse detalhe importa. Ele mostra que, na América do Sul real — a dos povos e necessidades concretas — a interdependência existe, e a estabilidade de um país é, em alguma medida, a estabilidade de todos.

<><> O recado político: a região não aceitará “reformas” pela força

Além do socorro humanitário, a crise se transformou em mensagem diplomática: a América do Sul não ficará passiva enquanto um país vizinho é remodelado pela força.

Um diplomata brasileiro afirmou que a prioridade do momento é a estabilidade política e institucional na Venezuela e que o Brasil resiste à pressão de capitais ocidentais para “eleições imediatas” ou uma “transição rápida”. Na prática, a posição brasileira sugere que não se deve legitimar o fato consumado de uma intervenção militar travestida de “solução”.

Lula também acionou canais diplomáticos com líderes internacionais — como o primeiro-ministro canadense Mark Carney e o presidente russo Vladimir Putin — para coordenar oposição ao uso da força e reafirmar o respeito à soberania dos países da região.

<><> Unilateralismo em crise, mas não derrotado

A resposta brasileira se ancora, ainda, na rejeição ao unilateralismo. Isso foi reforçado em 17 de janeiro, quando a União Europeia e o Mercosul assinaram um acordo para criar uma das maiores zonas de livre comércio do mundo. No ato, Lula argumentou que, num tempo de protecionismo crescente, o acordo demonstra que “outra forma de governança global é possível — mais ativa, representativa, inclusiva e justa”.

Há, aqui, um contraste revelador: enquanto um eixo aposta em regras, cooperação e institucionalidade, outro flerta com o “direito do mais forte” e com a ideia de que o hemisfério ocidental seria um quintal a ser disciplinado.

<><> Divisões internas: o calcanhar de Aquiles sul-americano

Mas a capacidade regional de apresentar uma frente unida é corroída por divisões internas. Alguns líderes — como o presidente argentino Javier Milei — se alinham abertamente a Trump. Analistas alertam que isso tende a normalizar retóricas intervencionistas.

Rafael R. Ioris, professor de história latino-americana na Universidade de Denver, avalia que Trump, por impulsividade e crença em ações unilaterais, não seria contido nem mesmo sem governos alinhados. Ainda assim, ter países controlados pela direita oferece uma espécie de “legitimidade” e aumenta a pressão sobre governos que buscam cursos mais autônomos.

<><> Eleições e “pressões sutis”: o risco do laboratório político

Com Brasil e Colômbia indo para eleições decisivas ainda neste ano, o tabuleiro geopolítico se torna mais perigoso. Ioris observa que, se Trump sugere ação militar contra México e Colômbia, sobre o Brasil a pressão tenderia a ser mais sutil: apoio a candidatos de direita e tentativas de desgastar Lula — em especial via desinformação.

Essa hipótese tem peso histórico. Quando a disputa não se resolve por tanques, ela costuma migrar para o terreno das operações psicológicas, da guerra informacional e do financiamento de agendas alinhadas ao centro de poder.

<><> A volta do monroísmo e o lugar da América do Sul no mundo

Com a crise venezuelana, a América do Sul encara um desafio conhecido: a reativação de uma lógica ao estilo Doutrina Monroe, em que o hemisfério é tratado como zona de influência dos Estados Unidos.

Lula tem liderado a reação contra essa moldura. Em artigo publicado no New York Times no domingo, ele escreveu que, num mundo multipolar, nenhum país deveria ter suas relações externas questionadas e que o Brasil não será subserviente a empreendimentos hegemônicos. Afirmou também que o futuro da Venezuela “deve permanecer nas mãos de seu povo”.

A frase não é detalhe: é uma linha de demarcação. Ela afirma um princípio simples — autodeterminação — que, na prática, é o que frequentemente se tenta negar à região.

<><> O que Washington quer: ideologia, recursos e contenção do Sul Global

As relações recentes entre Brasília e Washington mostram possibilidades e limites da resistência. Depois de meses de confronto, o Brasil conseguiu que os EUA recuassem de uma tarifa. Mas poucos observadores apostam em estabilidade duradoura.

Brian Mier, comentarista político baseado em Recife, afirma que, embora o governo Lula tenha avançado na relação com Trump em 2025, os EUA buscam hegemonia ideológica no hemisfério, além de recursos estratégicos como minerais raros e, sobretudo, petróleo.

O pano de fundo, porém, é ainda maior. Na leitura de um diplomata brasileiro, o objetivo real não seria “democracia” nem “petróleo” isoladamente, mas expulsar China e Rússia, reafirmar a dominância do dólar e enfraquecer o BRICS. A Venezuela seria apenas um dos pontos de pressão para empurrar o mundo de volta a um sistema unipolar em que Washington define as regras.

<><> Resistir sem incendiar o continente

O desafio da América do Sul, conclui o veterano diplomata, é resistir à pressão dos EUA sem acender incêndios no continente. Qualquer erro pode marcar a autonomia regional por uma geração.

E é exatamente por isso que o sequestro de Maduro não é “um episódio venezuelano”. É um aviso sobre o que volta a ser considerado aceitável no século 21. A resposta sul-americana, portanto, não decidirá apenas o destino de Caracas: ajudará a definir se o continente seguirá sendo tratado como área tutelada — ou como parte adulta de um mundo multipolar, com soberania, voz e projeto próprio.

¨      Razões para não se desesperar em relação à Doutrina 'Donroe'. Por Andy Robinson

Em momentos como este, vale a pena ouvir "Razões para se alegrar", de Ian Dury. Porque, apesar da demonstração aterradora do poderio militar dos EUA no sequestro de Nicolás Maduro em 3 de janeiro, vejo alguns motivos para não sentir completo desespero diante do contra-ataque do império.

A primeira é a sensação espontânea de júbilo que eu, pelo menos, senti quando Trump anunciou que María Corina Machado não seria presidente da Venezuela, "jogando-a aos leões", como se diz nos Estados Unidos.

“Será muito difícil para ela [Corina Machado] ser uma líder; ela não tem nem o apoio nem o respeito dentro do país”, anunciou o presidente dos EUA, para espanto de jornalistas e veículos de comunicação que elogiaram a nova ganhadora do Prêmio Nobel, apesar de seu apoio ao bombardeio de seu próprio país.

Obviamente, Trump não rejeita Corina Machado por ela ser uma criação da mídia, embora seja verdade que a líder da oposição tenha perdido muito apoio, segundo as pesquisas.

O verdadeiro motivo pelo qual Trump virou as costas para a política que mais o admira é que ele não quer perder tempo com eleições. O presidente dos EUA, ou melhor, o secretário de Estado Marco Rubio, acredita que a vice-presidente e agora presidente chavista Delcy Rodríguez será um instrumento mais fácil de controlar para a entrada da Exxon, da ConocoPhillips e de outras petrolíferas americanas, ainda mais do que um governo fantoche liderado por Corina Machado ou seu alter ego Edmundo González.

Rubio, o neoconservador cubano-americano que está no comando da elaboração da doutrina Donroe (Donald mais Monroe), parte da premissa de que eles podem abusar impunemente de um governo cuja legitimidade democrática é questionada, especialmente em Miami.

Deixe que o inimigo derrotado faça o trabalho sujo. Essa é a ideia audaciosa de uma mente fria e cruel como a de Rubio. Mas que instrumento de poder pode fazer do chavismo o arquiteto de sua própria destruição?

Rubio acredita que a diplomacia das canhoneiras — um eufemismo nascido nas guerras coloniais — e a presença da Marinha dos EUA no Caribe são intimidadoras o suficiente para transformar o chavismo em uma dócil besta de carga para o transporte de petróleo bruto pesado do Orinoco para Houston. "Essa é a vantagem que temos", vangloriou-se o Secretário de Estado no programa 60 Minutes, no domingo, 4 de janeiro.

Trump é mais direto. Ele fez duras ameaças contra Delcy Rodríguez caso ela não faça o que ele quer: "Se ela não fizer a coisa certa, vai pagar um preço muito alto, provavelmente maior do que Maduro", disse ele a Michael Scherer, da revista The Atlantic.

Mas tendo a pensar que escolher Delcy Rodríguez em vez de María Corina Machado para gerir a pilhagem da Venezuela pode ser um grave erro de cálculo por parte dos intrépidos gestores do agora senil império americano.

Corina Machado é uma aliada de classe de Trump e Rubio, "o protótipo da garota rica de Caurimare", como brincou um amigo venezuelano, referindo-se à canção pop venezuelana dos anos setenta que zomba da elite branca de Caracas.

Delcy Rodríguez, por outro lado, se fortaleceu nas lutas contra ditaduras apoiadas pela CIA — seu pai foi torturado e assassinado. Ela é pragmática e até maquiavélica; quem sabe, talvez tenha decidido que não havia como trabalhar com Nicolás Maduro. Mas ela não é uma aliada de classe de Donald Trump.

Além disso, Rodríguez conta, pelo menos por enquanto, com o apoio das forças armadas. “O chavismo permanece no poder; eles continuarão a exercer controle militar”, explicou Francisco Rodríguez, ex-conselheiro de Henri Falcón, da oposição moderada, atualmente radicado nos EUA. A decisão de se voltar contra Machado se deve ao fato de que “Trump decidiu que a estrutura estatal sob o chavismo é mais governável”, acrescentou.

Controlar um país rebelde sem expulsar os rebeldes é uma estranha inovação política, mesmo para o trumpismo. “O presidente afirmou que agora estamos governando a Venezuela. Mas isso apresenta um pequeno problema, já que não temos soldados ou diplomatas no terreno. Podemos ter decapitado o governo venezuelano, mas o Estado venezuelano permanece intacto”, argumenta Noel Maurer, da Universidade George Washington, em um artigo no Substack.

Nesse sentido, as ameaças ao estilo Don Corleone que emanam de Mar-a-Lago e Washington para Caracas podem ser mais um sinal de fraqueza do que de força. Elas são necessárias porque, diferentemente de outras eras imperiais, Trump não pode e não quer invadir. Apesar de suas bravatas, Trump não tem apoio, nem dentro nem fora do movimento MAGA, para estabelecer uma presença militar na Venezuela. Esta não é a invasão do Panamá — Noriega se rendeu em 3 de janeiro de 1990 —, quando a ocupação do país envolveu o envio de 20 mil soldados.

A relutância em invadir é compreensível. Embora muitos venezuelanos expatriados, mais ou menos da classe alta e residentes no distrito de Salamanca, aplaudissem a chegada dos fuzileiros navais à costa venezuelana, esse não é o caso dos moradores de Caracas com quem conversei há três semanas.

“Já estou armado e preparado; vivi mais do que me resta viver e não tenho medo”, disse-me Noel Márquez, deputado chavista afro-venezuelano de San Agustín. A Operação Resolução Absoluta terminou sem resposta venezuelana em 3 de janeiro, mas uma ocupação militar “acabaria sendo um banho de sangue”, afirmou-me Eduardo Gamarra, da Universidade Internacional da Flórida, em Miami.

As ameaças de Trump e a passagem do porta-aviões Iwo Jima pelo Caribe podem ser suficientes para intimidar Delcy Rodríguez e o chavismo. Mas a diplomacia das canhoneiras só funcionou porque os EUA ocasionalmente realizavam invasões de fato, com fuzileiros navais desembarcando para colocar as botas nas praias de Veracruz a Puerto Cortés. Segundo Greg Grandin, entre 1889 e 1897 houve 5.800 incidentes em que navios de guerra chegaram a portos latino-americanos, mas também houve mais de 300 invasões com "tropas em terra".

Naquela época, os Estados Unidos eram verdadeiramente grandes e dispostos a ocupar seu próprio quintal. Agora, Trump pode bombardear à distância e sequestrar presidentes para subjugar a Venezuela. Mas, se ele não estiver disposto a invadir e ocupar, a resistência de Delcy Rodríguez pode terminar no caos que se seguiria caso decidissem lançar um segundo ataque militar para matá-la e aos líderes chavistas. E o caos é justamente o que empresas petrolíferas como a Chevron, que já produz na Venezuela, querem evitar. Rodríguez provavelmente já está calculando até onde o blefe de Trump e Rubio irá levá-la.

Há outro motivo para não se desesperar diante da ditadura de Donroe (dada a natureza improvisada de Trump, proponho chamá-la de doutrina "Não sei" [don't know]). O presidente aprecia demonstrações pomposas de poder e narcisismo militar. Mas, até o momento, a maior parte da nova doutrina não passa de retórica. Mesmo no Panamá, a promessa de Trump, feita em abril passado, de retomar o controle americano do Canal não foi cumprida.

Nem a retórica nem as ameaças podem subjugar a América Latina. Mas podem mobilizar muitas pessoas indignadas que tendem a apoiar políticos nacionalistas da esquerda latino-americana. Gustavo Petro está subindo nas pesquisas de popularidade, e seu candidato para as eleições presidenciais de 2026, Iván Cepeda, é o favorito.

“Delcy vai unir o povo em torno da indignação com a grosseria de Trump”, disse-me o cientista político venezuelano Andrés Pierantoni há três semanas, quando jantamos no restaurante El Limón, ao lado do Parque Central de Caracas. Como costuma acontecer, a conversa durou cinco horas e foi pontuada por alusões perspicazes à história de rebeliões e revoluções contra o colonialismo e o imperialismo europeu e estadunidense ao longo da história do país de Simón Bolívar.

 

Fonte: The Hindu/Brasil 247/Ctxt

 

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