quarta-feira, 28 de janeiro de 2026

Entenda como CPMI do INSS chegou a suspeitas contra igrejas e pastores

A quebra de sigilos, convocações e a análise do perfil dos chamados “Golden Boys” levou o deputado Rogério Correia (PT-MG) a chegar aos nomes de igrejas e pastores que podem ter se beneficiado do esquema de fraude no Instituto Nacional do Seguro Social (INSS), investigado desde agosto de 2025 pela Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI), no Congresso Nacional. Segundo informações obtidas junto à assessoria do parlamentar, tudo começou quando se percebeu um padrão entre eles: todos eram evangélicos.

Os Golden Boys ganharam esse apelido na CPMI porque consiste em um grupo de jovens empresários suspeitos de desviar R$ 714 milhões de aposentados e pensionistas do INSS por meio das associações Amar Brasil Clube de Benefícios (ABCB), Master Prev, Associação Nacional de Defesa dos Direitos dos Aposentados e Pensionistas (ANDAPP) e Associação de Amparo Social ao Aposentado e Pensionista (AASAP). Conforme a operação da Polícia Federal (PF) “Sem Desconto”, desencadeada em abril de 2025, organizações associativas realizaram descontos indevidos de beneficiários, em um esquema que pode ter desviado mais de R$ 6 bilhões.

No dia 20 de outubro de 2025, a CPMI do INSS chamou para depor Felipe Macedo Gomes, ex-dirigente da Amar Brasil. Amparado por um habeas corpus, ele ficou em silêncio na maior parte da sessão. Gomes, Américo Monte Júnior, Igor Dias Delecrode, Anderson Cordeiro de Vasconcelos, Marco Aurélio Gomes Júnior e Mauro Palombo Concilio foram apontados como Golden Boys e alvos de um requerimento do deputado Paulo Pimenta (PT-RS), que solicitava a prisão preventiva e a apreensão de seus passaportes, por suspeita de estelionato, lavagem de dinheiro e formação de organização criminosa, além de risco de fuga ao exterior.

A única pergunta respondida por Felipe Gomes, naquela oitiva, foi a negativa de que seria amigo do pastor André Valadão, líder da Igreja da Lagoinha, e de que teria patrocinado uma festa de réveillon promovida pelo religioso no estádio Allianz Parque, do Palmeiras, em São Paulo. “Eu não paguei réveillon algum. Sou uma ovelha da igreja. Também é uma falácia me colocar como amigo do Valadão”, disse Gomes, na ocasião.

E foi unindo os fios soltos a cada convocação da CPMI que o deputado Rogério Correia resolveu verificar para onde esses jovens empresários estavam doando dinheiro, uma vez que são suspeitos de enriquecer com a arrecadação dos descontos indevidos dos aposentados. As associações lideradas por eles funcionavam como clubes de benefícios, com serviços diversos que incluíam assistência jurídica, odontológica, entre outros. Após a descoberta do esquema, ficou comprovado pela Controladoria-Geral da União (CGU) que a maioria dos beneficiários desconhecia tais descontos.

Com base nas informações em poder da CPMI do INSS, identificadas em documentos oficiais como os Relatórios de Inteligência Financeira (RIFs) e dados da Receita Federal do Brasil (RFB), o parlamentar fez os cruzamentos e chegou aos nomes de algumas igrejas e pastores, que foram objeto de dez requerimentos apresentados à comissão entre novembro e dezembro do ano passado.

Apenas dois requerimentos foram colocados em votação e aprovados antes do recesso parlamentar: os que pedem a quebra de sigilo bancário e fiscal da igreja Adoração Church e da Igreja Assembleia de Deus Ministério do Renovo. Os demais seguem aguardando decisão do presidente da CPMI, Carlos Viana (Podemos-MG), para serem colocados em pauta. Quando o Congresso voltar aos trabalhos, no dia 2 de fevereiro, Rogério Correia promete fazer gestões para que sejam votados e aprovados, porque agora as operações da PF têm mostrado o uso de fintechs na lavagem de dinheiro.

“O presidente da CPMI, senador Viana, não pode seguir blindando esses empresários da fé alheia. Meus requerimentos precisam ser colocados em votação para que a investigação avance e os fatos venham à tona. Até a senadora Damares já está incomodada com as denúncias da roubalheira”, afirmou Correia, nas redes sociais, nessa quinta-feira, 15.

<><> Conexões da Lagoinha com Vorcaro

Dentre os requerimentos pendentes de apreciação está o de número 2728/2025, que pede a quebra de sigilo bancário, fiscal e a convocação de André Machado Valadão, em razão de sua proximidade com integrantes dos Golden Boys e de suas possíveis conexões empresariais e financeiras, especialmente no contexto do escândalo do INSS.

Correia destaca a atuação da empresa Clava Forte Bank S/A, uma fintech de propriedade de Valadão, que pode ter ligações com o Banco Master, cujo dono, Daniel Vorcaro, foi preso na operação “Compliance Zero” e hoje usa tornozeleira eletrônica. Conforme o deputado, após a prisão do banqueiro, a Clava Forte misteriosamente saiu do ar, mesmo depois de ter sido anunciada como um “banco” voltado para os cristãos da igreja. Soma-se a isso o patrocínio que Valadão teria recebido de Felipe Gomes para o Réveillon, em 2024, e o pagamento, por Henrique Vorcaro, de uma dívida referente à compra de um veículo BMW, reforçando indícios de circulação de valores suspeitos.

O cunhado de Vorcaro, Fabiano Campos Zettel, líder religioso da Igreja Bola de Neve, é alvo do requerimento 2642/2025, de autoria de Correia. Trata-se de convite para esclarecer sua atuação e vínculos com instituições e pessoas investigadas no escândalo do INSS. A medida se justifica pela relação da Bola de Neve com a Igreja da Lagoinha e pela conexão indireta com a Clava Forte Bank S/A e o Banco Master, envolvendo nomes como André Valadão e Daniel Vorcaro.

O convite visa apurar possíveis fluxos financeiros suspeitos e eventual participação no circuito de recursos desviados de aposentados. Correia disse que deve apresentar requerimento para chamar a irmã de Vorcaro e esposa de Zettel, Natália Vorcaro Zettel, para também falar na CPMI, após a PF ter prendido Zettel, por poucas horas, e cumprido mandados de busca e apreensão na casa dele, na segunda fase da operação “Compliance Zero”, no último dia 14.

Outro membro da Lagoinha, o pastor André Fernandes, da Igreja Lagoinha Alphaville, é alvo do requerimento 2826/2025, que o convida para esclarecer sua relação com Felipe Macedo Gomes, também integrante dos Golden Boys, de quem recebeu R$ 200 mil, em 2024, no auge da chamada “Farra do INSS”.

A Igreja Batista da Lagoinha publicou nota em suas redes sociais, nesta quinta-feira, dia 15, na qual nega qualquer envolvimento com o esquema e afirma que “não possui controle sobre a vida pessoal, profissional ou sobre atos individuais de pessoas que, eventualmente, frequentem seus cultos ou atividades”.

“Ressaltamos que não há qualquer indício, evidência ou comprovação de que a Igreja Batista da Lagoinha tenha sido utilizada, direta ou indiretamente, em qualquer esquema ou prática irregular, esteja ela relacionada à CPMI do INSS ou à Operação Compliance Zero. As tentativas de associar a instituição a acusações com fatos relacionados são falsas e desprovidas de qualquer base factual ou jurídica. As imputações feitas à instituição são inexistentes e não correspondem à realidade; comprovação disso é a ausência de provas ou indícios que justifiquem a associação apontada”, afirma o texto.

•        R$ 1,5 mi em desvios: quem são os pastores suspeitos de ter ligação com a fraude no INSS

As igrejas evangélicas citadas nas investigações que apuram desvios no Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) receberam ao menos R$ 1,5 milhão de empresários ligados a essas operações. Levantamento do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) identificou movimentações suspeitas que envolvem lideranças religiosas, igrejas e empresários citados na CPI do INSS. 

As movimentações aparecem nos nomes de 4 igrejas: Adoração Church (Pará), Assembleia de Deus Ministério do Renovo (Maranhão); Ministério Deus é Fiel Church (Sete Church), de São Paulo (São Paulo); e Igreja Evangélica Campo de Anatote, de Barueri (São Paulo).

De acordo com a Controladoria-Geral da União (CGU), as igrejas evangélicas foram usadas ao longo dos desvios do INSS por suspeitos de desviar recursos de aposentados e pensionistas, como possível mecanismo para lavagem de dinheiro.

A primeira delas é a Adoração Church. A CPI pediu a investigação da entidade depois que o Coaf identificou um repasse de mais de R$ 366 mil à igreja vindo de Percia Coelho Takashima. O envolvimento com os desvios do INSS se dá porque a empresa Amazonriente Rural Sustentável, que está diretamente ligada aos repasses ilegais. A companhia também pertence aos familiares de Percia.

O pastor que preside a Adoração Church é Heber Pereira Trigueiro. Além de liderar a igreja e atuar como músico, ele também tem uma atuação política. Em 2022, Trigueiro usou as redes sociais para fazer campanha para o então candidato à reeleição Jair Bolsonaro. Ele declarou voto e fez menções religiosas ao indicar apoio ao ex-presidente.

Trigueiro foi nomeado em 2020 por Bolsonaro para chefiar a secretaria do Audiovisual, ligada ao ministério da Cultura. Depois da divulgação dos dados, o pastor disse que o pagamento desse montante era referente ao dízimo – valor pago pelos fiéis à igreja.

Outro pastor citado pelo Coaf é Antônio Nunes da Silva, que preside a Assembleia de Deus Ministério do Renovo. A instituição recebeu R$ 511 mil da ADS Soluções e Marketing Ltda, empresa criada em fevereiro de 2023 para prestar serviços de marketing para três associações suspeitas de desviar recursos do INSS.

Por conta dessa atuação, a ADS recebeu R$ 116 milhões em descontos previdenciários de empresas relacionadas aos desvios. A companhia foi baixada e desativada em junho de 2025.

O pastor também é sócio da empresa Construtora Sym Ltda. e chamou atenção do Coaf com as movimentações já que, em sua declaração de renda, ele afirma ser aposentado e receber apenas R$ 1.320, o que, para o Conselho, representa uma movimentação suspeita por clara incompatibilidade patrimonial identificada.

Todas as igrejas mencionadas tiveram a transferência de sigilo pedido pelo deputado Rogerio Correia (PT-MG), enquanto os pastores foram convidados para oitivas na CPI.

<><> Golden Boys

Um dos grupos fundamentais para o quebra-cabeça da relação entre igrejas e a fraude do INSS são os Golden Boys. Esse grupo está ligado à terceira igreja mencionada: Ministério Deus é Fiel Church, conhecida como Sete Church, do pastor Cesar Belluci do Nascimento. Bellucci é réu em uma investigação que apura um esquema de pirâmide. A apuração foi aberta depois de uma ação movida por pessoas que se sentiram lesadas em promessas não cumpridas de investimentos em criptomoedas.

A igreja teria recebido R$ 370 mil de Anderson Cordeiro e outros R$ 124 mil de Américo Monte, presidente da Amar Brasil Clube de Benefícios, empresa que é citada por receber R$ 316 milhões em descontos de aposentados do INSS. Os dois são empresários e integram o Golden Boys, que, junto a Felipe Macedo Gomes, frequentava a Igreja e administrava o quadro associativo da Amar.

Anderson Cordeiro também é responsável por administrar outras associações de aposentados e pensionistas investigadas como a Master Prev, a Associação Nacional de Defesa Dos Direitos Dos Aposentados e Pensionistas (Anddap) e a Associação de Amparo Social ao Aposentado e Pensionistas (Aasap).

Já Américo também foi responsável por fazer uma transferência de R$ 200 mil a Péricles Albino, líder da igreja evangélica Campo de Anatote. Apesar da ligação direta com o empresário, a igreja respondeu em nota as acusações afirmando que não recebeu doações de pessoas envolvidas na fraude do INSS.

“A igreja, devidamente constituída e comprometida com os princípios das Sagradas Escrituras, teve seu nome injustamente exposto em relação à CPMI do INSS. Não há indícios ou provas que demonstrem que a igreja tenha sido utilizada por qualquer um dos envolvidos no esquema criminoso que está sendo investigado. É fundamental ressaltar que a Igreja não possui qualquer envolvimento ou foi utilizada para práticas ilícitas”, diz o texto.

<><> Maiores nomes

Um dos principais envolvidos com o Golden Boys é André Machado Valadão, líder religioso que coordena a igreja Lagoinha, instituição ligada à Clava Forte Bank, plataforma que chegou a sair do ar assim que a operação contra o Banco Master, independente da CPI do INSS, começou. A plataforma era responsável por receber doações dos fiéis. Durante os cultos, os dados do banco eram divulgados acompanhadas de frases como: “Investindo no Futuro, fortalecendo o Reino”, “Empoderar igrejas com fé e finanças”.

Valadão recebeu de Felipe Macedo patrocínio para o evento de réveillon promovido pela Igreja no estádio Allianz Parque. De acordo com o Coaf, essa movimentação financeira foi feita no auge dos descontos indevidos em benefícios de aposentados e pensionistas. O pastor é um aliado de Bolsonaro e, além de ter feito campanha ao ex-presidente, já recebeu o ex-mandatário em seus cultos.

O pastor respondeu às acusações nas redes sociais. Em uma publicação, disse que não recuaria “nem ficaria calado” diante das denúncias e usou o caso para fazer um apelo aos fiéis com discurso político.

“Não vamos recuar nem ficar calados diante de tudo o que está acontecendo. Não se trata de um ataque apenas a um líder, mas a toda uma igreja que contribui para a sociedade. Chega de deixar espaço para fake news e invenções! Vamos responder abertamente e com transparência, para que as pessoas voltem a respeitar a igreja e os milhares de trabalhadores que se dedicam dia e noite. Não aceitem que deputados petistas tentem destruir a reputação de quem se opõe às suas ideologias”, escreveu.

O principal dos nomes ligados à CPI é Fabiano Campos Zettel, líder da Igreja Bola de Neve. Ele foi o sexto maior doador das eleições de 2022 e o maior doador pessoa física das campanhas de Jair Bolsonaro (PL) para a presidência em 2022 e do governador de São Paulo Tarcísio de Freitas (Republicanos).

Ele é cunhado de Daniel Vorcaro, dono do Banco Máster, e mantém relação com a Igreja Lagoinha. Zettel foi preso temporariamente pela Polícia Federal (PF) após ser pego tentando fugir do país rumo aos Emirados Árabes Unidos. Agora, ele foi convidado para uma oitiva na CPI para apurar o envolvimento no caso, além da participação nas investigações sobre as fraudes no Banco Máster.  

Outro a receber doação de Felipe Macedo foi o pastor André Fernandes, que também atuava na Lagoinha. O Coaf identificou um Pix de R$ 200 mil para o líder religioso também durante os desvios do INSS.

<><> Rusga na direita

Os nomes foram levantados inicialmente pela senadora Damares Alves (Republicanos-DF). Segundo a congressista, igrejas evangélicas foram identificadas “nos esquemas de fraudes aos aposentados”. A declaração foi dada durante uma entrevista ao SBT News e provocou a ira de uma liderança religiosa da extrema direita.

O pastor Silas Malafaia saiu em defesa dos seus companheiros e questionou a fala de Damares. De acordo com ele, a senadora precisaria divulgar o nome de todos os envolvidos e as provas, caso contrário, ela seria uma “leviana linguaruda” que deveria “calar a boca”.

Depois que Damares divulgou uma lista com os nomes, Malafaia sustentou os ataques e disse que não havia uma prova apresentada contra qualquer pastor mencionado.

“Só tem o nome de um grande pastor. E que também ainda não tem nada provado contra ele, que é o pastor da Lagoinha, André Valadão. Então ela foi leviana, mentirosa e linguaruda. E continua sendo. Porque não tem um nome. É só você olhar a tua lista. O desafio a Damares continua. Quem é que fez lobby para não dar nome de igrejas? Cadê as grandes igrejas?”, afirmou Malafaia.

 

Fonte: Revista Cenarium/Brasil de Fato

 

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