Entenda
como CPMI do INSS chegou a suspeitas contra igrejas e pastores
A
quebra de sigilos, convocações e a análise do perfil dos chamados “Golden Boys”
levou o deputado Rogério Correia (PT-MG) a chegar aos nomes de igrejas e
pastores que podem ter se beneficiado do esquema de fraude no Instituto
Nacional do Seguro Social (INSS), investigado desde agosto de 2025 pela
Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI), no Congresso Nacional. Segundo
informações obtidas junto à assessoria do parlamentar, tudo começou quando se
percebeu um padrão entre eles: todos eram evangélicos.
Os
Golden Boys ganharam esse apelido na CPMI porque consiste em um grupo de jovens
empresários suspeitos de desviar R$ 714 milhões de aposentados e pensionistas
do INSS por meio das associações Amar Brasil Clube de Benefícios (ABCB), Master
Prev, Associação Nacional de Defesa dos Direitos dos Aposentados e Pensionistas
(ANDAPP) e Associação de Amparo Social ao Aposentado e Pensionista (AASAP).
Conforme a operação da Polícia Federal (PF) “Sem Desconto”, desencadeada em
abril de 2025, organizações associativas realizaram descontos indevidos de
beneficiários, em um esquema que pode ter desviado mais de R$ 6 bilhões.
No dia
20 de outubro de 2025, a CPMI do INSS chamou para depor Felipe Macedo Gomes,
ex-dirigente da Amar Brasil. Amparado por um habeas corpus, ele ficou em
silêncio na maior parte da sessão. Gomes, Américo Monte Júnior, Igor Dias
Delecrode, Anderson Cordeiro de Vasconcelos, Marco Aurélio Gomes Júnior e Mauro
Palombo Concilio foram apontados como Golden Boys e alvos de um requerimento do
deputado Paulo Pimenta (PT-RS), que solicitava a prisão preventiva e a
apreensão de seus passaportes, por suspeita de estelionato, lavagem de dinheiro
e formação de organização criminosa, além de risco de fuga ao exterior.
A única
pergunta respondida por Felipe Gomes, naquela oitiva, foi a negativa de que
seria amigo do pastor André Valadão, líder da Igreja da Lagoinha, e de que
teria patrocinado uma festa de réveillon promovida pelo religioso no estádio
Allianz Parque, do Palmeiras, em São Paulo. “Eu não paguei réveillon algum. Sou
uma ovelha da igreja. Também é uma falácia me colocar como amigo do Valadão”,
disse Gomes, na ocasião.
E foi
unindo os fios soltos a cada convocação da CPMI que o deputado Rogério Correia
resolveu verificar para onde esses jovens empresários estavam doando dinheiro,
uma vez que são suspeitos de enriquecer com a arrecadação dos descontos
indevidos dos aposentados. As associações lideradas por eles funcionavam como
clubes de benefícios, com serviços diversos que incluíam assistência jurídica,
odontológica, entre outros. Após a descoberta do esquema, ficou comprovado pela
Controladoria-Geral da União (CGU) que a maioria dos beneficiários desconhecia
tais descontos.
Com
base nas informações em poder da CPMI do INSS, identificadas em documentos
oficiais como os Relatórios de Inteligência Financeira (RIFs) e dados da
Receita Federal do Brasil (RFB), o parlamentar fez os cruzamentos e chegou aos
nomes de algumas igrejas e pastores, que foram objeto de dez requerimentos
apresentados à comissão entre novembro e dezembro do ano passado.
Apenas
dois requerimentos foram colocados em votação e aprovados antes do recesso
parlamentar: os que pedem a quebra de sigilo bancário e fiscal da igreja
Adoração Church e da Igreja Assembleia de Deus Ministério do Renovo. Os demais
seguem aguardando decisão do presidente da CPMI, Carlos Viana (Podemos-MG),
para serem colocados em pauta. Quando o Congresso voltar aos trabalhos, no dia
2 de fevereiro, Rogério Correia promete fazer gestões para que sejam votados e
aprovados, porque agora as operações da PF têm mostrado o uso de fintechs na
lavagem de dinheiro.
“O
presidente da CPMI, senador Viana, não pode seguir blindando esses empresários
da fé alheia. Meus requerimentos precisam ser colocados em votação para que a
investigação avance e os fatos venham à tona. Até a senadora Damares já está
incomodada com as denúncias da roubalheira”, afirmou Correia, nas redes
sociais, nessa quinta-feira, 15.
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Conexões da Lagoinha com Vorcaro
Dentre
os requerimentos pendentes de apreciação está o de número 2728/2025, que pede a
quebra de sigilo bancário, fiscal e a convocação de André Machado Valadão, em
razão de sua proximidade com integrantes dos Golden Boys e de suas possíveis
conexões empresariais e financeiras, especialmente no contexto do escândalo do
INSS.
Correia
destaca a atuação da empresa Clava Forte Bank S/A, uma fintech de propriedade
de Valadão, que pode ter ligações com o Banco Master, cujo dono, Daniel
Vorcaro, foi preso na operação “Compliance Zero” e hoje usa tornozeleira
eletrônica. Conforme o deputado, após a prisão do banqueiro, a Clava Forte
misteriosamente saiu do ar, mesmo depois de ter sido anunciada como um “banco”
voltado para os cristãos da igreja. Soma-se a isso o patrocínio que Valadão
teria recebido de Felipe Gomes para o Réveillon, em 2024, e o pagamento, por
Henrique Vorcaro, de uma dívida referente à compra de um veículo BMW,
reforçando indícios de circulação de valores suspeitos.
O
cunhado de Vorcaro, Fabiano Campos Zettel, líder religioso da Igreja Bola de
Neve, é alvo do requerimento 2642/2025, de autoria de Correia. Trata-se de
convite para esclarecer sua atuação e vínculos com instituições e pessoas
investigadas no escândalo do INSS. A medida se justifica pela relação da Bola
de Neve com a Igreja da Lagoinha e pela conexão indireta com a Clava Forte Bank
S/A e o Banco Master, envolvendo nomes como André Valadão e Daniel Vorcaro.
O
convite visa apurar possíveis fluxos financeiros suspeitos e eventual
participação no circuito de recursos desviados de aposentados. Correia disse
que deve apresentar requerimento para chamar a irmã de Vorcaro e esposa de
Zettel, Natália Vorcaro Zettel, para também falar na CPMI, após a PF ter
prendido Zettel, por poucas horas, e cumprido mandados de busca e apreensão na
casa dele, na segunda fase da operação “Compliance Zero”, no último dia 14.
Outro
membro da Lagoinha, o pastor André Fernandes, da Igreja Lagoinha Alphaville, é
alvo do requerimento 2826/2025, que o convida para esclarecer sua relação com
Felipe Macedo Gomes, também integrante dos Golden Boys, de quem recebeu R$ 200
mil, em 2024, no auge da chamada “Farra do INSS”.
A
Igreja Batista da Lagoinha publicou nota em suas redes sociais, nesta
quinta-feira, dia 15, na qual nega qualquer envolvimento com o esquema e afirma
que “não possui controle sobre a vida pessoal, profissional ou sobre atos
individuais de pessoas que, eventualmente, frequentem seus cultos ou
atividades”.
“Ressaltamos
que não há qualquer indício, evidência ou comprovação de que a Igreja Batista
da Lagoinha tenha sido utilizada, direta ou indiretamente, em qualquer esquema
ou prática irregular, esteja ela relacionada à CPMI do INSS ou à Operação
Compliance Zero. As tentativas de associar a instituição a acusações com fatos
relacionados são falsas e desprovidas de qualquer base factual ou jurídica. As
imputações feitas à instituição são inexistentes e não correspondem à
realidade; comprovação disso é a ausência de provas ou indícios que justifiquem
a associação apontada”, afirma o texto.
• R$ 1,5 mi em desvios: quem são os
pastores suspeitos de ter ligação com a fraude no INSS
As
igrejas evangélicas citadas nas investigações que apuram desvios no Instituto
Nacional do Seguro Social (INSS) receberam ao menos R$ 1,5 milhão de
empresários ligados a essas operações. Levantamento do Conselho de Controle de
Atividades Financeiras (Coaf) identificou movimentações suspeitas que envolvem
lideranças religiosas, igrejas e empresários citados na CPI do INSS.
As
movimentações aparecem nos nomes de 4 igrejas: Adoração Church (Pará),
Assembleia de Deus Ministério do Renovo (Maranhão); Ministério Deus é Fiel
Church (Sete Church), de São Paulo (São Paulo); e Igreja Evangélica Campo de
Anatote, de Barueri (São Paulo).
De
acordo com a Controladoria-Geral da União (CGU), as igrejas evangélicas foram
usadas ao longo dos desvios do INSS por suspeitos de desviar recursos de
aposentados e pensionistas, como possível mecanismo para lavagem de dinheiro.
A
primeira delas é a Adoração Church. A CPI pediu a investigação da entidade
depois que o Coaf identificou um repasse de mais de R$ 366 mil à igreja vindo
de Percia Coelho Takashima. O envolvimento com os desvios do INSS se dá porque
a empresa Amazonriente Rural Sustentável, que está diretamente ligada aos
repasses ilegais. A companhia também pertence aos familiares de Percia.
O
pastor que preside a Adoração Church é Heber Pereira Trigueiro. Além de liderar
a igreja e atuar como músico, ele também tem uma atuação política. Em 2022,
Trigueiro usou as redes sociais para fazer campanha para o então candidato à
reeleição Jair Bolsonaro. Ele declarou voto e fez menções religiosas ao indicar
apoio ao ex-presidente.
Trigueiro
foi nomeado em 2020 por Bolsonaro para chefiar a secretaria do Audiovisual,
ligada ao ministério da Cultura. Depois da divulgação dos dados, o pastor disse
que o pagamento desse montante era referente ao dízimo – valor pago pelos fiéis
à igreja.
Outro
pastor citado pelo Coaf é Antônio Nunes da Silva, que preside a Assembleia de
Deus Ministério do Renovo. A instituição recebeu R$ 511 mil da ADS Soluções e
Marketing Ltda, empresa criada em fevereiro de 2023 para prestar serviços de
marketing para três associações suspeitas de desviar recursos do INSS.
Por
conta dessa atuação, a ADS recebeu R$ 116 milhões em descontos previdenciários
de empresas relacionadas aos desvios. A companhia foi baixada e desativada em
junho de 2025.
O
pastor também é sócio da empresa Construtora Sym Ltda. e chamou atenção do Coaf
com as movimentações já que, em sua declaração de renda, ele afirma ser
aposentado e receber apenas R$ 1.320, o que, para o Conselho, representa uma
movimentação suspeita por clara incompatibilidade patrimonial identificada.
Todas
as igrejas mencionadas tiveram a transferência de sigilo pedido pelo deputado
Rogerio Correia (PT-MG), enquanto os pastores foram convidados para oitivas na
CPI.
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Golden Boys
Um dos
grupos fundamentais para o quebra-cabeça da relação entre igrejas e a fraude do
INSS são os Golden Boys. Esse grupo está ligado à terceira igreja mencionada:
Ministério Deus é Fiel Church, conhecida como Sete Church, do pastor Cesar
Belluci do Nascimento. Bellucci é réu em uma investigação que apura um esquema
de pirâmide. A apuração foi aberta depois de uma ação movida por pessoas que se
sentiram lesadas em promessas não cumpridas de investimentos em criptomoedas.
A
igreja teria recebido R$ 370 mil de Anderson Cordeiro e outros R$ 124 mil de
Américo Monte, presidente da Amar Brasil Clube de Benefícios, empresa que é
citada por receber R$ 316 milhões em descontos de aposentados do INSS. Os dois
são empresários e integram o Golden Boys, que, junto a Felipe Macedo Gomes,
frequentava a Igreja e administrava o quadro associativo da Amar.
Anderson
Cordeiro também é responsável por administrar outras associações de aposentados
e pensionistas investigadas como a Master Prev, a Associação Nacional de Defesa
Dos Direitos Dos Aposentados e Pensionistas (Anddap) e a Associação de Amparo
Social ao Aposentado e Pensionistas (Aasap).
Já
Américo também foi responsável por fazer uma transferência de R$ 200 mil a
Péricles Albino, líder da igreja evangélica Campo de Anatote. Apesar da ligação
direta com o empresário, a igreja respondeu em nota as acusações afirmando que
não recebeu doações de pessoas envolvidas na fraude do INSS.
“A
igreja, devidamente constituída e comprometida com os princípios das Sagradas
Escrituras, teve seu nome injustamente exposto em relação à CPMI do INSS. Não
há indícios ou provas que demonstrem que a igreja tenha sido utilizada por
qualquer um dos envolvidos no esquema criminoso que está sendo investigado. É
fundamental ressaltar que a Igreja não possui qualquer envolvimento ou foi
utilizada para práticas ilícitas”, diz o texto.
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Maiores nomes
Um dos
principais envolvidos com o Golden Boys é André Machado Valadão, líder
religioso que coordena a igreja Lagoinha, instituição ligada à Clava Forte
Bank, plataforma que chegou a sair do ar assim que a operação contra o Banco
Master, independente da CPI do INSS, começou. A plataforma era responsável por
receber doações dos fiéis. Durante os cultos, os dados do banco eram divulgados
acompanhadas de frases como: “Investindo no Futuro, fortalecendo o Reino”,
“Empoderar igrejas com fé e finanças”.
Valadão
recebeu de Felipe Macedo patrocínio para o evento de réveillon promovido pela
Igreja no estádio Allianz Parque. De acordo com o Coaf, essa movimentação
financeira foi feita no auge dos descontos indevidos em benefícios de
aposentados e pensionistas. O pastor é um aliado de Bolsonaro e, além de ter
feito campanha ao ex-presidente, já recebeu o ex-mandatário em seus cultos.
O
pastor respondeu às acusações nas redes sociais. Em uma publicação, disse que
não recuaria “nem ficaria calado” diante das denúncias e usou o caso para fazer
um apelo aos fiéis com discurso político.
“Não
vamos recuar nem ficar calados diante de tudo o que está acontecendo. Não se
trata de um ataque apenas a um líder, mas a toda uma igreja que contribui para
a sociedade. Chega de deixar espaço para fake news e invenções! Vamos responder
abertamente e com transparência, para que as pessoas voltem a respeitar a
igreja e os milhares de trabalhadores que se dedicam dia e noite. Não aceitem
que deputados petistas tentem destruir a reputação de quem se opõe às suas
ideologias”, escreveu.
O
principal dos nomes ligados à CPI é Fabiano Campos Zettel, líder da Igreja Bola
de Neve. Ele foi o sexto maior doador das eleições de 2022 e o maior doador
pessoa física das campanhas de Jair Bolsonaro (PL) para a presidência em 2022 e
do governador de São Paulo Tarcísio de Freitas (Republicanos).
Ele é
cunhado de Daniel Vorcaro, dono do Banco Máster, e mantém relação com a Igreja
Lagoinha. Zettel foi preso temporariamente pela Polícia Federal (PF) após ser
pego tentando fugir do país rumo aos Emirados Árabes Unidos. Agora, ele foi
convidado para uma oitiva na CPI para apurar o envolvimento no caso, além da
participação nas investigações sobre as fraudes no Banco Máster.
Outro a
receber doação de Felipe Macedo foi o pastor André Fernandes, que também atuava
na Lagoinha. O Coaf identificou um Pix de R$ 200 mil para o líder religioso
também durante os desvios do INSS.
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Rusga na direita
Os
nomes foram levantados inicialmente pela senadora Damares Alves
(Republicanos-DF). Segundo a congressista, igrejas evangélicas foram
identificadas “nos esquemas de fraudes aos aposentados”. A declaração foi dada
durante uma entrevista ao SBT News e provocou a ira de uma liderança religiosa
da extrema direita.
O
pastor Silas Malafaia saiu em defesa dos seus companheiros e questionou a fala
de Damares. De acordo com ele, a senadora precisaria divulgar o nome de todos
os envolvidos e as provas, caso contrário, ela seria uma “leviana linguaruda”
que deveria “calar a boca”.
Depois
que Damares divulgou uma lista com os nomes, Malafaia sustentou os ataques e
disse que não havia uma prova apresentada contra qualquer pastor mencionado.
“Só tem
o nome de um grande pastor. E que também ainda não tem nada provado contra ele,
que é o pastor da Lagoinha, André Valadão. Então ela foi leviana, mentirosa e
linguaruda. E continua sendo. Porque não tem um nome. É só você olhar a tua
lista. O desafio a Damares continua. Quem é que fez lobby para não dar nome de
igrejas? Cadê as grandes igrejas?”, afirmou Malafaia.
Fonte:
Revista Cenarium/Brasil de Fato

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