Gustavo
Tapioca: Trump sem freios - ou “insano” ou “gangster” — e o mundo à espera do
pior
O
economista Jeffrey Sachs, professor da Universidade Columbia, resumiu o que
muitos governos ainda tentam dizer com eufemismos: Donald Trump representa um
risco fora da curva para a ordem global. Ao reagir à carta atribuída ao
presidente dos EUA, em que ele reivindica “controle completo e total” sobre a
Groenlândia e afirma já não se sentir obrigado a pensar “puramente” em paz,
Sachs cravou a sentença que deveria ecoar como sirene mundial: “É aterrorizante
porque ou ele é insano ou ele não é insano. Nós não sabemos qual dos
dois”.
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A carta da Groenlândia: quando o império abandona qualquer máscara
Há
momentos em que a política internacional deixa de fingir que opera por regras.
E há momentos ainda mais graves: quando a potência hegemônica passa a falar
abertamente a linguagem da conquista, do ultimato e da extorsão.
A carta
atribuída a Trump — tornada pública em meio a uma escalada de tensões com
governos europeus — contém um ponto cristalino: a reivindicação de “Complete
and Total Control of Greenland”. Não se trata de “interesse
estratégico”, nem de “acordo de defesa”, nem de “parceria”. Trata-se de
controle. De posse. De comando imperial sobre território alheio.
E o
aspecto mais perturbador está no subtexto: Trump sugere que já não se sente
obrigado a pensar “puramente” em paz. A frase, por si só, deveria ser
suficiente para disparar protocolos de crise em qualquer chancelaria do
planeta. Porque quando um presidente dos EUA anuncia que o horizonte da paz
deixou de ser compromisso e virou opção, o mundo entra em área de turbulência.
Não por
acaso, veículos internacionais registram que Trump vinculou a escalada à
frustração por não receber o Nobel da Paz e, a partir daí, passou a justificar
o delírio expansionista como “necessidade de segurança”.
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Sachs diz o que os governos sussurram: se isso é sério, a democracia americana
entrou em colapso
Ao
comentar a carta, Jeffrey Sachs não fez apenas crítica política. Fez um
diagnóstico institucional: se esse é o modo de falar e pensar de um presidente,
então “perdemos nosso país, nossa democracia, nosso sistema e nossa
segurança”.
Esse é
o ponto que o Brasil 247 recoloca no centro do debate: não se trata de
“excentricidade” de Trump, nem de ruído de redes sociais. O problema é que o
trumpismo já não opera como corrente política comum. Ele opera como projeto de
força, onde a democracia é tolerada apenas enquanto serve ao domínio — e
descartada quando vira obstáculo.
E é
aqui que entra a frase mais devastadora de Sachs: “ou ele é insano ou ele não é
insano”. Porque, em qualquer hipótese, o resultado é grave.
Se for
insano, é o pior cenário: o comando do império nas mãos de alguém movido por
impulsos, ressentimento e lógica de destruição.
Se não
for insano, é talvez ainda mais perigoso: significa que Trump usa o teatro da
loucura como método racional de intimidação — um gangsterismo imperial, frio e
calculado.
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A “loucura” como método: chantagem comercial, humilhação diplomática e a
privatização da política externa
O
trumpismo sempre teve uma marca: transformar política internacional em reality
show de ameaças.
O caso
Groenlândia aparece, agora, associado a ameaças de tarifas e punições
comerciais à Europa, como se soberania e comércio fossem mercadorias
negociáveis pela força. A Reuters registrou que Trump teria ameaçado impor
tarifas crescentes a países europeus até que os EUA fossem “autorizados” a
comprar a Groenlândia — uma formulação que, por si, já revela o grau de
degeneração da linguagem diplomática.
A
resposta dinamarquesa sintetizou o óbvio: “você pode negociar com pessoas, mas
não negocia pessoas”.
O mundo
deveria entender a gravidade dessa frase. Ela não é retórica. Ela é o último
lembrete civilizatório antes do abismo. Porque o que Trump tenta normalizar é o
retorno explícito da lógica colonial: território, povo e soberania tratados
como “ativos” negociáveis sob coerção.
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Há como conter Trump? Sim — mas não por “bom senso”. Só por custo e poder
A
pergunta decisiva é a que o Brasil e o mundo precisam fazer sem ilusões: há
como conter Trump?
A
resposta é dura: há, mas não por apelo moral, nem por apelos à razão. Trump só
pode ser contido por custo. Custo político, custo institucional, custo
econômico e custo internacional.
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1) Freios internos: Congresso, Justiça e Estado profundo
Mesmo
um presidente com pulsão autoritária depende de orçamento, suporte político,
aparato diplomático-militar e legitimidade mínima. O Congresso pode impor
limites, o Judiciário pode bloquear movimentos e parte do Estado pode resistir
ao aventureirismo.
O
problema é que o trumpismo tenta corroer exatamente esse sistema de freios —
não por acidente, mas por estratégia. A “presidência sem freios” não é erro: é
objetivo.
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2) Freios externos: Europa unida e resposta coordenada
A
Europa pode conter Trump se agir como bloco, e não como somatório de países
isolados tentando negociar “um pouco de paz” em troca de concessões.
A
imprensa internacional descreve a crise como uma das mais graves tensões
transatlânticas em décadas, com líderes europeus se movendo para responder e,
ao mesmo tempo, buscando evitar uma escalada fora de controle.
Mas
diplomacia sem força vira submissão. E submissão é combustível para chantagem.
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3) O freio final: derrota política
No fim,
o freio mais eficaz contra um projeto de caos é o mais simples — e o mais
difícil: Trump precisa perder sustentação, perder capacidade de produzir medo,
perder a aura de “intocável”.
Mas
isso exige tempo. E o mundo talvez não tenha tempo.
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O que está em jogo para o Brasil: soberania como alvo, não como detalhe
O
Brasil costuma assistir a essas crises como se fossem “dramas europeus”. Não
são. Quando Washington se autoriza a falar em “controle total” sobre a
Groenlândia — território ligado a um aliado — o recado ao Sul Global é ainda
mais brutal: se fizerem isso com a Europa, farão com mais facilidade com
qualquer país periférico.
E é aí
que o Brasil entra.
Porque,
para o trumpismo, o Brasil nunca foi “parceiro”. O Brasil é recurso: petróleo,
minerais estratégicos, Amazônia, água, terras raras, alimentos, mercado. O
império pode variar o discurso, mas a lógica é constante: subordinação
econômica, disciplinamento geopolítico e punição a qualquer projeto soberano.
O que
Sachs descreve como colapso interno da democracia americana tem reflexo direto
aqui: um império instável tende a exportar instabilidade. E um império em crise
tende a buscar inimigos externos para manter mobilização interna.
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O risco real: o mundo normalizar o inaceitável
O maior
perigo não é apenas Trump agir. É o mundo aceitar.
Aceitar
que ameaças de anexação sejam “negociáveis”.
Aceitar
que a paz seja “opcional”.
Aceitar
que soberania vire moeda.
Essa
normalização é a porta de entrada para uma década de horror: guerras por
procuração, chantagens comerciais, ofensivas híbridas e uma desorganização
global em que a barbárie volta a se apresentar como política legítima.
E
quando Sachs diz que “não sabemos qual dos dois”, ele está dizendo o essencial:
não podemos apostar que é apenas teatro. Porque, se for real, a catástrofe pode
ser irreversível.
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Não é loucura — é método. E o método é imperial
A
pergunta “Trump é louco?” pode até render manchetes. Mas ela não pode reduzir o
problema. Porque mesmo que fosse “loucura”, ela já estaria organizada como
projeto de poder.
A
verdade é mais fria: o trumpismo transformou o colapso institucional americano
em ferramenta de extorsão global. O que aparece como delírio — “controle total
da Groenlândia”, “não penso mais puramente em paz” — é o anúncio de uma
política externa de força, chantagem e humilhação.
Ou
Trump é insano, e o mundo está diante de um piloto bêbado comandando a máquina
mais destrutiva do planeta.
Ou
Trump não é insano, e estamos diante de algo ainda pior: um gangster político
com armas, dinheiro, Estado e propaganda.
Em
qualquer hipótese, a conclusão é a mesma: se Trump não for contido, o mundo não
apenas enfrentará crises — ele será empurrado para o abismo como política
oficial.
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Washington Araújo: Um ano que expôs um mundo
estruturalmente defeituoso
Entre
21 de janeiro de 2025 e 20 de janeiro de 2026, eu vi o mundo atravessar 365
dias que cabem em poucas palavras duras: desestruturação, instabilidade e medo.
Não é figura de linguagem. Foi um ano em que conflitos se multiplicaram como
incêndios em mato seco — alguns por guerra aberta, outros por tarifas,
bloqueios, retaliações, chantagens econômicas e a velha tentação de reivindicar
o território alheio como se o século XXI ainda aceitasse mapas desenhados pela
força.
A
sensação dominante foi a de que a previsibilidade virou luxo, e a estabilidade,
lembrança.
Ao
longo desse período, um desenho se impôs com nitidez incômoda: dois movimentos
estruturais disputam o futuro — os processos de integração e de desintegração.
A desintegração acelerou. Fez barulho. Sabotou conquistas que
pareciam consolidadas, especialmente aquelas construídas após a Segunda Guerra
Mundial, quando a humanidade tentou inventar regras para que o poder não fosse
apenas músculo. De repente, muitas dessas regras passaram a ser tratadas como
ornamentos, e não como proteção.Ainda assim, a integração não morreu.
Ela
segue trabalhando por baixo do ruído, como água que encontra passagem mesmo em
terrenos fraturados. É um processo mais lento, menos fotogênico e, por isso,
subestimado. Não recebe a cobertura midiática nem justa nem ao menos
proporcional ao que significa, não ocupa o palco que o espetáculo do conflito
monopoliza.
Às
vezes, o vital processo de integração quase parece nulo. Mas ela existe. Existe
como necessidade histórica, como inteligência coletiva em estado latente. E
sigo convencido de que, no tempo próprio das sociedades, ela haverá de emergir
não como idealismo, mas como imperativo: o único remédio capaz de curar os
ossos ao quebrados da humanidade que subsiste dentro de um corpo coletivo já
incapaz de caminhar. A verdade é que são muitas essas fraturas.
Esse
contraste mexeu, ao longo do ano, com um tipo específico de gente: professores
e estudiosos da sociologia da comunicação, da geopolítica e da história do
pós-globalização.
Eu me
incluo aí, com o desconforto de quem ensina enquanto o objeto de estudo se
rearranja diante dos olhos. Muitos desses meus colegas atravessaram noites
insones — não por mania de catastrofismo, mas porque o repertório que explicava
o mundo começou a falhar. As categorias que pareciam firmes perderam apoio. E,
quando isso acontece, a realidade passa a lembrar aquela sentença antiga, quase
profética: tudo o que é sólido se desmancha no ar.
O que
se viu não foi apenas conflito. Foi uma mudança de atmosfera.
Normas
internacionais passaram a valer menos. Tratados e compromissos começaram a ser
tratados como cláusulas reescritas ao sabor do humor do dia. Até fatos
verificáveis — aqueles que deveriam ser indiscutíveis — entraram numa zona
cinzenta em que narrativa se veste de verdade. E, quando a verdade vira
produto, o medo deixa de ser consequência e passa a ser método.
Foi
nesse clima que os 365 dias se pareceram com uma longa noite feita de dias
diferentes. Uma noite que, em muitos momentos, lembrou um retorno simbólico ao
que precedeu o Iluminismo: o tempo em que superstição, charlatanismo e crendice
competiam com a razão e a ciência sem grande constrangimento.
Agora,
em janeiro de 2026, as luzes que deveriam iluminar o mundo parecem ofuscadas.
Narrativas suplantam fatos. O negacionismo vacinal — que deveria ter sido
sepultado pela história e pelos números — voltou a ganhar espaço com ousadia. E
a xenofobia, esse vício antigo de transformar o outro em ameaça, reapareceu
tentando empurrar a humanidade para trás, como se fosse possível revogar a era
dos direitos — tão bem descrita por Norberto Bobbio — por grito, decreto ou
algoritmo.
Nesse
cenário, o voluntarismo virou estilo de governo e a imprevisibilidade passou a
ser vendida como virtude estratégica.
O
egocentrismo despudorado, que antes parecia traço de personalidade,
transformou-se em linguagem de poder. O resultado foi um recuo visível do
multilateralismo e a reedição de uma lógica internacional baseada menos em
regras compartilhadas e mais em hierarquias de força.
Já
devíamos ter percebido que quando a regra comum enfraquece, cada ator passa a
calcular sozinho — e o mundo se torna um tabuleiro em que a peça mais pesada
acredita ter sempre razão. Mas não tem. Nem nunca terá.
Nada
disso provocou, ainda, um colapso imediato. Mas produziu algo mais perigoso do
que o choque: anormalização. A instabilidade passou a parecer acomodada. O
conflito permanente foi naturalizado. A ideia de que alianças são provisórias,
compromissos são descartáveis e a verdade é adaptável conforme conveniências
momentâneas tornou-se hábito mental.
E se
esses hábitos mentais se enraízam, eles banalizam o risco, enfraquecem
critérios morais e acabam por reorganizar sociedades inteiras de maneira
discreta, porém com alta letalidade destrutiva.
A
história, no entanto, ensina que noites longas não são eternas. Elas testam a
resistência das instituições, das ideias e da ética, mas também expõem seus
limites.
O mundo
que emerge desses últimos 365 dias está mais dividido, mais cansado e mais
desconfiado — mas não está imóvel.
É que
mesmo sob a escuridão mais espessa, há sinais quase imperceptíveis de
reorganização, de aprendizagem forçada, de exaustão diante da barbárie
repetida. Como após a noite mais tenebrosa, chega a madrugada. Primeiro tímida,
quase invisível. Depois, um raio de luz rompe o horizonte. E então, sem alarde,
nasce o dia. Não igual ao anterior, mas necessariamente diferente — porque toda
longa noite, quando finalmente cede, obriga o mundo a se reinventar.
Fonte:
Brasil 247

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