quarta-feira, 28 de janeiro de 2026

Gustavo Tapioca: Trump sem freios - ou “insano” ou “gangster” — e o mundo à espera do pior

O economista Jeffrey Sachs, professor da Universidade Columbia, resumiu o que muitos governos ainda tentam dizer com eufemismos: Donald Trump representa um risco fora da curva para a ordem global. Ao reagir à carta atribuída ao presidente dos EUA, em que ele reivindica “controle completo e total” sobre a Groenlândia e afirma já não se sentir obrigado a pensar “puramente” em paz, Sachs cravou a sentença que deveria ecoar como sirene mundial: “É aterrorizante porque ou ele é insano ou ele não é insano. Nós não sabemos qual dos dois”. 

<><> A carta da Groenlândia: quando o império abandona qualquer máscara

Há momentos em que a política internacional deixa de fingir que opera por regras. E há momentos ainda mais graves: quando a potência hegemônica passa a falar abertamente a linguagem da conquista, do ultimato e da extorsão.

A carta atribuída a Trump — tornada pública em meio a uma escalada de tensões com governos europeus — contém um ponto cristalino: a reivindicação de “Complete and Total Control of Greenland”. Não se trata de “interesse estratégico”, nem de “acordo de defesa”, nem de “parceria”. Trata-se de controle. De posse. De comando imperial sobre território alheio. 

E o aspecto mais perturbador está no subtexto: Trump sugere que já não se sente obrigado a pensar “puramente” em paz. A frase, por si só, deveria ser suficiente para disparar protocolos de crise em qualquer chancelaria do planeta. Porque quando um presidente dos EUA anuncia que o horizonte da paz deixou de ser compromisso e virou opção, o mundo entra em área de turbulência.

Não por acaso, veículos internacionais registram que Trump vinculou a escalada à frustração por não receber o Nobel da Paz e, a partir daí, passou a justificar o delírio expansionista como “necessidade de segurança”. 

<><> Sachs diz o que os governos sussurram: se isso é sério, a democracia americana entrou em colapso

Ao comentar a carta, Jeffrey Sachs não fez apenas crítica política. Fez um diagnóstico institucional: se esse é o modo de falar e pensar de um presidente, então “perdemos nosso país, nossa democracia, nosso sistema e nossa segurança”. 

Esse é o ponto que o Brasil 247 recoloca no centro do debate: não se trata de “excentricidade” de Trump, nem de ruído de redes sociais. O problema é que o trumpismo já não opera como corrente política comum. Ele opera como projeto de força, onde a democracia é tolerada apenas enquanto serve ao domínio — e descartada quando vira obstáculo.

E é aqui que entra a frase mais devastadora de Sachs: “ou ele é insano ou ele não é insano”. Porque, em qualquer hipótese, o resultado é grave. 

Se for insano, é o pior cenário: o comando do império nas mãos de alguém movido por impulsos, ressentimento e lógica de destruição.

Se não for insano, é talvez ainda mais perigoso: significa que Trump usa o teatro da loucura como método racional de intimidação — um gangsterismo imperial, frio e calculado.

<><> A “loucura” como método: chantagem comercial, humilhação diplomática e a privatização da política externa

O trumpismo sempre teve uma marca: transformar política internacional em reality show de ameaças.

O caso Groenlândia aparece, agora, associado a ameaças de tarifas e punições comerciais à Europa, como se soberania e comércio fossem mercadorias negociáveis pela força. A Reuters registrou que Trump teria ameaçado impor tarifas crescentes a países europeus até que os EUA fossem “autorizados” a comprar a Groenlândia — uma formulação que, por si, já revela o grau de degeneração da linguagem diplomática. 

A resposta dinamarquesa sintetizou o óbvio: “você pode negociar com pessoas, mas não negocia pessoas”. 

O mundo deveria entender a gravidade dessa frase. Ela não é retórica. Ela é o último lembrete civilizatório antes do abismo. Porque o que Trump tenta normalizar é o retorno explícito da lógica colonial: território, povo e soberania tratados como “ativos” negociáveis sob coerção.

<><> Há como conter Trump? Sim — mas não por “bom senso”. Só por custo e poder

A pergunta decisiva é a que o Brasil e o mundo precisam fazer sem ilusões: há como conter Trump?

A resposta é dura: há, mas não por apelo moral, nem por apelos à razão. Trump só pode ser contido por custo. Custo político, custo institucional, custo econômico e custo internacional.

>>> 1) Freios internos: Congresso, Justiça e Estado profundo

Mesmo um presidente com pulsão autoritária depende de orçamento, suporte político, aparato diplomático-militar e legitimidade mínima. O Congresso pode impor limites, o Judiciário pode bloquear movimentos e parte do Estado pode resistir ao aventureirismo.

O problema é que o trumpismo tenta corroer exatamente esse sistema de freios — não por acidente, mas por estratégia. A “presidência sem freios” não é erro: é objetivo.

>>> 2) Freios externos: Europa unida e resposta coordenada

A Europa pode conter Trump se agir como bloco, e não como somatório de países isolados tentando negociar “um pouco de paz” em troca de concessões.

A imprensa internacional descreve a crise como uma das mais graves tensões transatlânticas em décadas, com líderes europeus se movendo para responder e, ao mesmo tempo, buscando evitar uma escalada fora de controle. 

Mas diplomacia sem força vira submissão. E submissão é combustível para chantagem.

>>> 3) O freio final: derrota política

No fim, o freio mais eficaz contra um projeto de caos é o mais simples — e o mais difícil: Trump precisa perder sustentação, perder capacidade de produzir medo, perder a aura de “intocável”.

Mas isso exige tempo. E o mundo talvez não tenha tempo.

<><> O que está em jogo para o Brasil: soberania como alvo, não como detalhe

O Brasil costuma assistir a essas crises como se fossem “dramas europeus”. Não são. Quando Washington se autoriza a falar em “controle total” sobre a Groenlândia — território ligado a um aliado — o recado ao Sul Global é ainda mais brutal: se fizerem isso com a Europa, farão com mais facilidade com qualquer país periférico.

E é aí que o Brasil entra.

Porque, para o trumpismo, o Brasil nunca foi “parceiro”. O Brasil é recurso: petróleo, minerais estratégicos, Amazônia, água, terras raras, alimentos, mercado. O império pode variar o discurso, mas a lógica é constante: subordinação econômica, disciplinamento geopolítico e punição a qualquer projeto soberano.

O que Sachs descreve como colapso interno da democracia americana tem reflexo direto aqui: um império instável tende a exportar instabilidade. E um império em crise tende a buscar inimigos externos para manter mobilização interna.

<><> O risco real: o mundo normalizar o inaceitável

O maior perigo não é apenas Trump agir. É o mundo aceitar.

Aceitar que ameaças de anexação sejam “negociáveis”.

Aceitar que a paz seja “opcional”.

Aceitar que soberania vire moeda.

Essa normalização é a porta de entrada para uma década de horror: guerras por procuração, chantagens comerciais, ofensivas híbridas e uma desorganização global em que a barbárie volta a se apresentar como política legítima.

E quando Sachs diz que “não sabemos qual dos dois”, ele está dizendo o essencial: não podemos apostar que é apenas teatro. Porque, se for real, a catástrofe pode ser irreversível. 

<><> Não é loucura — é método. E o método é imperial

A pergunta “Trump é louco?” pode até render manchetes. Mas ela não pode reduzir o problema. Porque mesmo que fosse “loucura”, ela já estaria organizada como projeto de poder.

A verdade é mais fria: o trumpismo transformou o colapso institucional americano em ferramenta de extorsão global. O que aparece como delírio — “controle total da Groenlândia”, “não penso mais puramente em paz” — é o anúncio de uma política externa de força, chantagem e humilhação.

Ou Trump é insano, e o mundo está diante de um piloto bêbado comandando a máquina mais destrutiva do planeta.

Ou Trump não é insano, e estamos diante de algo ainda pior: um gangster político com armas, dinheiro, Estado e propaganda.

Em qualquer hipótese, a conclusão é a mesma: se Trump não for contido, o mundo não apenas enfrentará crises — ele será empurrado para o abismo como política oficial. 

¨      Washington Araújo: Um ano que expôs um mundo estruturalmente defeituoso

Entre 21 de janeiro de 2025 e 20 de janeiro de 2026, eu vi o mundo atravessar 365 dias que cabem em poucas palavras duras: desestruturação, instabilidade e medo. Não é figura de linguagem. Foi um ano em que conflitos se multiplicaram como incêndios em mato seco — alguns por guerra aberta, outros por tarifas, bloqueios, retaliações, chantagens econômicas e a velha tentação de reivindicar o território alheio como se o século XXI ainda aceitasse mapas desenhados pela força. 

A sensação dominante foi a de que a previsibilidade virou luxo, e a estabilidade, lembrança.

Ao longo desse período, um desenho se impôs com nitidez incômoda: dois movimentos estruturais disputam o futuro — os processos de integração e de desintegração. A desintegração acelerou. Fez barulho. Sabotou conquistas que pareciam consolidadas, especialmente aquelas construídas após a Segunda Guerra Mundial, quando a humanidade tentou inventar regras para que o poder não fosse apenas músculo. De repente, muitas dessas regras passaram a ser tratadas como ornamentos, e não como proteção.Ainda assim, a integração não morreu.

Ela segue trabalhando por baixo do ruído, como água que encontra passagem mesmo em terrenos fraturados. É um processo mais lento, menos fotogênico e, por isso, subestimado. Não recebe a cobertura midiática nem justa nem ao menos proporcional ao que significa, não ocupa o palco que o espetáculo do conflito monopoliza. 

Às vezes, o vital processo de integração quase parece nulo. Mas ela existe. Existe como necessidade histórica, como inteligência coletiva em estado latente. E sigo convencido de que, no tempo próprio das sociedades, ela haverá de emergir não como idealismo, mas como imperativo: o único remédio capaz de curar os ossos ao quebrados da humanidade que subsiste dentro de um corpo coletivo já incapaz de caminhar. A verdade é que são muitas essas fraturas.

Esse contraste mexeu, ao longo do ano, com um tipo específico de gente: professores e estudiosos da sociologia da comunicação, da geopolítica e da história do pós-globalização. 

Eu me incluo aí, com o desconforto de quem ensina enquanto o objeto de estudo se rearranja diante dos olhos. Muitos desses meus colegas atravessaram noites insones — não por mania de catastrofismo, mas porque o repertório que explicava o mundo começou a falhar. As categorias que pareciam firmes perderam apoio. E, quando isso acontece, a realidade passa a lembrar aquela sentença antiga, quase profética: tudo o que é sólido se desmancha no ar.

O que se viu não foi apenas conflito. Foi uma mudança de atmosfera. 

Normas internacionais passaram a valer menos. Tratados e compromissos começaram a ser tratados como cláusulas reescritas ao sabor do humor do dia. Até fatos verificáveis — aqueles que deveriam ser indiscutíveis — entraram numa zona cinzenta em que narrativa se veste de verdade. E, quando a verdade vira produto, o medo deixa de ser consequência e passa a ser método.

Foi nesse clima que os 365 dias se pareceram com uma longa noite feita de dias diferentes. Uma noite que, em muitos momentos, lembrou um retorno simbólico ao que precedeu o Iluminismo: o tempo em que superstição, charlatanismo e crendice competiam com a razão e a ciência sem grande constrangimento. 

Agora, em janeiro de 2026, as luzes que deveriam iluminar o mundo parecem ofuscadas. Narrativas suplantam fatos. O negacionismo vacinal — que deveria ter sido sepultado pela história e pelos números — voltou a ganhar espaço com ousadia. E a xenofobia, esse vício antigo de transformar o outro em ameaça, reapareceu tentando empurrar a humanidade para trás, como se fosse possível revogar a era dos direitos — tão bem descrita por Norberto Bobbio — por grito, decreto ou algoritmo.

Nesse cenário, o voluntarismo virou estilo de governo e a imprevisibilidade passou a ser vendida como virtude estratégica. 

O egocentrismo despudorado, que antes parecia traço de personalidade, transformou-se em linguagem de poder. O resultado foi um recuo visível do multilateralismo e a reedição de uma lógica internacional baseada menos em regras compartilhadas e mais em hierarquias de força. 

Já devíamos ter percebido que quando a regra comum enfraquece, cada ator passa a calcular sozinho — e o mundo se torna um tabuleiro em que a peça mais pesada acredita ter sempre razão. Mas não tem. Nem nunca terá.

Nada disso provocou, ainda, um colapso imediato. Mas produziu algo mais perigoso do que o choque: anormalização. A instabilidade passou a parecer acomodada. O conflito permanente foi naturalizado. A ideia de que alianças são provisórias, compromissos são descartáveis e a verdade é adaptável conforme conveniências momentâneas tornou-se hábito mental. 

E se esses hábitos mentais se enraízam, eles banalizam o risco, enfraquecem critérios morais e acabam por reorganizar sociedades inteiras de maneira discreta, porém com alta letalidade destrutiva.

A história, no entanto, ensina que noites longas não são eternas. Elas testam a resistência das instituições, das ideias e da ética, mas também expõem seus limites. 

O mundo que emerge desses últimos 365 dias está mais dividido, mais cansado e mais desconfiado — mas não está imóvel. 

É que mesmo sob a escuridão mais espessa, há sinais quase imperceptíveis de reorganização, de aprendizagem forçada, de exaustão diante da barbárie repetida. Como após a noite mais tenebrosa, chega a madrugada. Primeiro tímida, quase invisível. Depois, um raio de luz rompe o horizonte. E então, sem alarde, nasce o dia. Não igual ao anterior, mas necessariamente diferente — porque toda longa noite, quando finalmente cede, obriga o mundo a se reinventar.

 

Fonte: Brasil 247

 

Nenhum comentário: