Teocracia
à brasileira
Precisamos
tanto do Estado Laico quanto de alimento, emprego, casa. Sem ele, não teremos
democracia e liberdade, especialmente as mulheres. É o que vemos nas teocracias
ou nos lugares com leis e instituições baseadas em crenças religiosas.
Indubitavelmente, o fundamentalismo religioso é uma estratégia autoritária e
patriarcal de poder.
Nos
últimos dias, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) começou
a divulgar os microdados do Censo Demográfico de 2022. Chama a atenção a forma
com que a desigualdade de raça, renda e gênero se perpetuam. Nesse contexto,
nada parece mais real e urgente que mudar essa situação, acabar com a fome e a
miséria, reduzir a desigualdade salarial entre homens e mulheres, resgatar as
mulheres que exercem trabalhos domésticos à condição de trabalhadoras. A
dignidade das trabalhadoras e dos trabalhadores e a vida das mulheres,
ameaçadas pelo feminicídio que só cresce, são pautas que se juntam àquelas.
Todas requerem ações urgentes e mobilizadoras de consciências e políticas
públicas. Falar em outras coisas parece abstrato, longe da vida concreta das
pessoas que sofrem.
Democracia
e Estado laico aparecem para muitos como névoa, vapor de água que some logo que
sai da panela que prepara o café. Mas nada mais concreto e fundamental. Sem
democracia real não se conquistam políticas que garantam a dignidade humana,
nem que enfrentem as desigualdades, muito menos que efetivem direitos. E, nos
dias de hoje, na América Latina e em vastas regiões do planeta, cada vez mais
se percebe que há uma simbiose entre esses dois conceitos: democracia e Estado
laico. Ainda mais porque observamos que um dos caminhos mais importantes para a
destruição da democracia tem sido as religiões unidas com as plataformas
fascistas e de extrema-direita.
No
Brasil, é comum tratar o crescimento das igrejas neopentecostais e seu
envolvimento na política institucional (partidos, parlamentos, governos) como a
expressão do que de mais reacionário temos na política, esquecendo que outras
igrejas, especialmente a católica romana, ou são a origem desses processos ou
estão irmanadas com a extrema-direita dita evangélica. Salvo, é claro, pessoas
e grupos que não se subordinam ao pensamento patriarcal retrógrado da
hierarquia dessas igrejas.
Recentemente
esse sinal de alerta tomou forma com a criação da Bancada Cristã na Câmara dos
Deputados (Projeto de Resolução PRC 71/25), unindo as frentes parlamentares
evangélica e católica. Na votação de um requerimento de urgência para a votação
desse Projeto de Resolução, votaram a favor 398 deputados e deputadas e apenas
30 foram contra, em uma demonstração de força do grupo cristão. O projeto
incorpora ao Regimento Interno da Câmara dos Deputados o direito dessa Bancada
Cristã participar do Colégio de Líderes, instância que existe para que os
líderes partidários possam compartilhar o poder do presidente com respeito à
definição da pauta do que será discutido e votado no Plenário e outros temas.
Além dos líderes partidários, participam do Colégio de Líderes uma
representante da Bancada Feminina e um ou uma representante dos deputados e
deputadas negros e negras.
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A hegemonia religiosa no Legislativo
O
Cfemea – Centro Feminista de Estudos e Assessoria elaborou uma análise recente
sobre a composição da direção do Legislativo a partir da ótica feminista
antirracista que demonstra a hegemonia desses grupos ultraconservadores e
religiosos.
Na
véspera do Dia Internacional dos Direitos Humanos, reuniram-se na Câmara dos
Deputados várias organizações feministas, teólogas e lideranças de movimentos
de mulheres e intelectuais negros e negras para analisar a situação atual da
democracia e os ataques à laicidade do Estado.
Nesse
evento, Guacira Oliveira, fundadora e membra do Cfemea, ao tratar da
movimentação da extrema-direita e de ultraconservadores católicos e evangélicos
para abocanhar um lugar no Colégio de Líderes, destacou que “as mulheres
conquistaram esse direito porque são minoria política. Recentemente
conquistamos um lugar também para a bancada negra. Não é o caso da bancada
cristã, que é sobrerepresentada no Congresso, com a maioria nas lideranças
partidárias, a maioria das presidências de Comissões Permanentes, a maioria dos
cargos de direção da Câmara e no Senado. Lideranças que cada dia mais têm uma
cara religiosa, um discurso com base religiosa, distorcida, é claro, mas com
presença e valores de um forte conservadorismo religioso.”
A
pastora luterana Romi Bencke, que até há pouco tempo ocupava o cargo de
secretária-geral do Conselho Nacional de Igrejas Cristãs, tendo sido a primeira
mulher a ser eleita para essa posição, considera essa articulação de lideranças
originárias de denominações religiosas pentecostais, neopentecostais e
católicas como desdobramento de movimentos internacionais contra o humanismo
iniciados ainda na década de 1980 com o pastor estadunidense Francis Scheffer,
que ganhou notoriedade por meio de seu livro Um manifesto cristão (1981), e que
ganhou força a partir de 2009 com a Declaração de Manhattan, um chamado à
consciência cristã, produzido por lideranças das igrejas ortodoxas orientais,
católica romana e evangélicas. Em ambos os movimentos extremistas e ultraconservadores,
o que se buscava era a sistematização de um movimento internacional por
afirmação de uma pauta que, na visão deles, estava sendo destruída pelo
humanismo, pelos movimentos laicos, pelos movimentos feministas e pelas
liberdades sexuais conquistadas nos anos 1960 e que colocavam em xeque os
valores da “família cristã tradicional”. Como observa a pastora Romi, as
estratégias que esses grupos criaram a partir de então são as mesmas que estão
sendo utilizadas no Brasil nos últimos anos e vão ser reativadas ou reavivadas
nas próximas eleições, com o objetivo de conquistar também o Senado Federal,
estabelecendo uma hegemonia total sobre o Congresso.
Para os
próximos anos, esses grupos estão preparando grandes reuniões e eventos de
massa para atrair a juventude no Brasil. Estádios lotados e processos de
“evangelização” de grandes contingentes utilizando estratégias variadas de
dominação de mentes por meio de mentiras repetidas à exaustão, do medo e da
construção de valores sexuais fantasiosos, como fez a atual senadora Damares
Alves na construção da narrativa inventada sobre as jovens e crianças abusadas
na Ilha de Marajó.
Para
Reginete Bispo, o poder evangélico e católico conservador fala de um deus
masculino, branco, punitivista, violento e vingativo, e isso reafirma o medo
como estratégia e não dialoga com os povos originários e sua espiritualidade e
com as religiões de matriz africana.
A
coordenadora da pesquisa realizada pelo Cfemea para identificar os
posicionamentos dos membros do Congresso Nacional no início da atual
legislatura, a professora e doutora em ciências políticas Denise Montovani,
destaca que vivemos um período de naturalização da violência do Estado, uma
violência militarizada, que mata os nossos iguais porque são pretos, porque são
pobres, porque são mulheres. Percebe-se que na última década se acelerou a
construção de um pensamento ultraconservador, que mesmo não sendo de base
religiosa, se serve da religião para afirmar sua dominação, seu controle, a
partir de argumentos morais religiosos. A religião passa a ser um elemento
central da política. Mas não o único.
Para a
professora Denise Mantovani, vivemos um processo de construção estratégica de
um grupo religioso ultraconservador que almeja a conquista de poder. Pode ser
que não se chegue a um Estado teocrático, mas essa estratégia extremista existe
e se processa como projeto de cunho religioso. E arrasta parte do campo
progressista para a sua lógica.
Ao
aprofundarem a discussão sobre o futuro da política brasileira, as
participantes levantaram várias teses fundamentais e algumas novas ou pouco
discutidas nos debates progressistas. A professora da USP e pesquisadora do
Cebrap, Jacqueline Moraes Teixeira pesquisou igrejas e projetos de combate à
violência doméstica. Para ela, “estamos falando de uma direita que disputa os
direitos humanos, é uma direita que não prescinde do direito, mas que disputa
esse espaço. A gente está falando de uma direita que durante muito tempo
precisou usar a categoria gênero como instrumento de disputa, mas não para
negar o gênero, com as mulheres sendo mais importantes na política em geral”.
Ela
lembrou que se trata de uma estratégia da direita e da extrema-direta que tem
conquistado as mulheres, fazendo-as instrumentos de crescimento partidário. O
PL, por exemplo, cresceu 930% nas últimas eleições municipais com inúmeras
prefeitas, vice-prefeitas e vereadoras. No tempo de propaganda partidária e nas
estratégias dos partidos da direita, as mensagens voltadas às mulheres e os
recursos destinados à educação política têm ganhado relevância.
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Resistência feminista e os desafios atuais
O
ativismo feminista antirracista e a sua capacidade de convocar a cidadania tem
sido uma força de resistência importante nesse contexto brasileiro. Em
condições absolutamente desiguais, a crescente onda fundamentalista religiosa
teve de se deparar – e em alguns momentos foi contida por elas – com
mobilizações, por exemplo, contra o PL do Estuprador e a Campanha Criança Não é
Mãe. Contudo, como destaca a colombiana Ana Cristina Gonzalez Vélez, da AFM –
Articulacion Feminista MarcoSur, a emergência de uma série de leis que buscam
controlar e restringir a atuação das organizações feministas e de mulheres
ameaçam o espaço cívico em vários países da América Latina.
Entramos
agora no debate eleitoral de 2026 e todos esses temas e análises são
importantes. Aproximadamente 90% do Fundo Eleitoral deve ficar nas mãos dos
partidos de direita. Assim, fé e ódio, fé e desinformação, fé e fuzil devem
continuar fazendo de certas igrejas locus privilegiado da mobilização
eleitoral. Já estamos vendo que até os partidos progressistas e de esquerda
estão privilegiando os diálogos com lideranças religiosas em detrimento das
organizações comunitárias, coletivos de mulheres, movimentos sociais.
De modo
que a enxurrada de mensagens, informações e fake news será tão grande que
provavelmente as questões relacionadas ao Estado laico, como conceito e como
experiência, passarão submersas ou escondidas. As ativistas e intelectuais
feministas em sua ação política e nas campanhas eleitorais terão um papel
fundamental para recolocar a temática da democracia em sua forma mais ampla e
em suas relações com o cotidiano opressor que atinge em primeiro lugar e com
mais violência as mulheres.
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As pautas dos ultraconservadores
A
jornalista e doutora em comunicação Magali Cunha, pesquisadora do Instituto de
Estudos da Religião (Iser), trouxe ao debate os resultados de uma pesquisa
realizada por várias organizações ligadas a diversas orientações religiosas na
Argentina, Peru e Brasil. Elas identificaram algumas características comuns
desses grupos ultraconservadores:
1)
reação fortíssima aos direitos sexuais e reprodutivos, que tem relação com
todos os grupos religiosos, colocam a mulher em um espaço de castidade e os
LGBT em um espaço de perdição – uma pauta que cria medo (ideologia de gênero,
um termo criado dentro da igreja católica e propagada por evangélicos);
2)
escola sem partido, que também vem do ambiente católico (Miguel Nagibe) e se
difunde pelos evangélicos – educação, direito e justiça são portas para os
religiosos entrarem no espaço político;
3)
guerra cultural (é intensa a ocupação do espaço da educação e direitos e
justiça).
A
diretora colegiada de Católicas pelo Direito de Decidir, Denise Mascarenhas,
doutora em saúde e referência na luta pelos direitos sexuais e reprodutivos,
informou o lançamento do Observatório sobre Laicidade, Gênero e Aborto – OLGA,
iniciativa que busca produzir dados científicos e monitorar a influência do
conservadorismo religioso católico em políticas públicas e serviços de saúde
reprodutiva no Brasil.
O
presidente da Comissão Nacional de População e Desenvolvimento, sediada na
Secretaria-Geral da Presidência da República, professor Richarlls Martins,
concordou com a análise de hegemonia da extrema-direita no contexto legislativo
e fez uma série de sugestões para a continuidade da articulação em defesa da
laicidade do Estado, seguido da participação do deputado federal Pastor
Henrique Vieira (PSOL-RJ), criador da Frente Parlamentar em Defesa do Estado
Laico, que colocou a Frente à disposição da articulação feminista e de direitos
humanos. O parlamentar defendeu o respeito a todas as religiões e a também a
ausência de fé, sem privilégios para o cristianismo. O deputado criticou a
criação de bancadas religiosas e argumentou que o uso da política para pautas
exclusivas de um grupo religioso é um retrocesso e desrespeito à democracia.
O
diretor do Diap – Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar,
Neuriberg Dias, analisou o processo que levou à hegemonia da direita e
extrema-direita na Câmara dos Deputados, como são usados os recursos
orçamentários pelos parlamentares para se perpetuarem no poder e quais as
tendências das próximas eleições, concluindo com um quadro pouco favorável à
democracia. Seu prognóstico, aliás, não é favorável nem à democracia e nem às
mulheres. Para a próxima legislatura, como analisa Neuriberg Dias, “há uma
tendência de baixa renovação de parlamentares em função do uso de recursos
orçamentários em volumes jamais vistos para consolidar bases políticas em seus
territórios políticos. Além do que as regras eleitorais atuais desestimulam a
renovação”.
A
socióloga feminista e intelectual negra Reginete Bispo lembrou, preocupada, que
ser evangélico continua sendo uma qualidade fundamental para indicar alguém
para o Supremo Tribunal Federal. É uma demonstração de quão longe estamos do
Estado laico. Apesar de a laicidade estar inscrita na Constituição, em muitas
repartições públicas e sede dos Poderes, há um crucifíxo na parede dizendo de
que lado está o Estado.
O país
é cheio movimentos e experiências diversas, lembra ela. Em São Paulo, no mesmo
lugar que se tem a Marcha por Jesus, neste ano tivemos a Marcha por Exú, com
grande mobilização social. Neste ano, centenas de milhares de mulheres negras
se reuniram em Brasília e uma das reivindicações foi uma mulher negra no STF,
lembrou.
Fonte:
CFêmea

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