O
sistema elétrico brasileiro está preparado para eventos climáticos extremos?
Em
janeiro de 2025, uma sequência de tempestades intensas atingiu a região Norte
do País e provocou a queda de torres de transmissão ao longo do Linhão
Xingu-Rio de Janeiro, uma das principais e mais modernas infraestruturas de
escoamento de energia do Brasil. O episódio destacou-se entre os mais severos a
afetar o sistema de transmissão nos últimos anos, em razão da combinação entre
danos estruturais extensos e um processo de recuperação prolongado,
condicionado por fatores meteorológicos persistentes e por limitações de acesso
às áreas afetadas.
Esse
evento ilustra características intrínsecas das linhas de transmissão, que
operam de forma linear ao longo de extensos corredores. Nesse tipo de
infraestrutura, a ocorrência de uma falha pode interromper completamente o
escoamento de energia, uma vez que os ativos atravessam longas distâncias e
regiões frequentemente remotas, onde o acesso é restrito e a recomposição
demanda tempo, logística complexa e condições ambientais favoráveis. Como
consequência, o episódio exigiu do Operador Nacional do Sistema (ONS) a
realização de manobras operativas contínuas para preservar a estabilidade do
Sistema Interligado Nacional (SIN).
Antes
de avançar, é importante contextualizar o papel específico das linhas de
transmissão no sistema elétrico. Diferentemente das redes de distribuição, que
realizam a entrega final de energia aos consumidores, a transmissão opera em
níveis elevados de tensão e ao longo de grandes distâncias, conectando usinas
aos principais centros de carga do país. Essas linhas utilizam torres de grande
porte e cabos robustos, projetados para reduzir perdas elétricas e garantir o
escoamento de grandes blocos de energia. Já as redes de distribuição,
normalmente apoiadas em postes e presentes nos espaços urbano e rural, recebem
essa energia nas subestações, rebaixam a tensão e realizam a entrega final a
residências, comércios e indústrias. É justamente essa função estruturante e de
integração em larga escala que faz com que falhas na transmissão assumam
caráter sistêmico, com repercussões que se propagam rapidamente por todo o
sistema elétrico.
Episódios
como o de janeiro de 2025 evidenciam que os impactos de eventos climáticos
extremos (ECE) sobre a transmissão de energia extrapolam o dano físico
localizado. A indisponibilidade de um único corredor de grande porte pode gerar
efeitos sistêmicos imediatos, afetando o intercâmbio de energia entre regiões,
elevando custos operacionais e reduzindo a margem de segurança do sistema
elétrico. Em um cenário de mudanças climáticas, o desafio passa a incluir não
apenas a resistência estrutural das instalações, mas também a capacidade de
resposta a situações prolongadas de instabilidade ambiental.
As
mudanças climáticas vêm afetando o planeta de forma crescente e abrangente, com
reflexos diretos sobre a frequência e intensidade de eventos climáticos
extremos. Relatórios do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas
(IPCC) indicam que tempestades severas, ondas de calor prolongadas, secas
intensas, incêndios florestais, inundações e deslizamentos de terra têm se
tornado mais recorrentes nas últimas décadas, ampliando riscos para a
sociedade, meio ambiente e as infraestruturas críticas.
No
Brasil, esses impactos assumem características particulares, dado que o sistema
elétrico nacional opera de forma majoritariamente integrada por meio do SIN,
que conecta mais de 99% do território e se apoia em uma extensa malha de
transmissão composta por mais de 180 mil quilômetros de linhas, que atravessam
o país de norte a sul. Essa capilaridade, essencial para a garantia do
suprimento de energia, também expõe o sistema a uma ampla diversidade de
condições climáticas, ambientais e geográficas.
A
interrupção de uma única linha de transmissão pode provocar impactos relevantes
no SIN, exigindo do ONS manobras operativas rápidas e complexas para preservar
a segurança operativa. Nesse contexto, as concessionárias de transmissão têm
observado um crescimento das falhas associadas a eventos climáticos, que já
figuram entre as principais causas de desligamentos não programados, indicando
que fenômenos como descargas atmosféricas, queimadas, rajadas de vento e
temporais respondem majoritariamente pelas causas dessas falhas. Dados do ONS
indicam uma tendência de aumento, na última década, do número interrupções
associadas a condições atmosféricas adversas e queimadas.
Além de
provocar quedas de torres, rompimento de cabos e deslizamentos de terra com
comprometimento de fundações, esses eventos dificultam significativamente o
acesso das equipes de manutenção. Muitas linhas de transmissão atravessam
regiões de relevo acidentado, áreas serranas ou localidades remotas, onde as
condições de acesso já são naturalmente limitadas e tendem a se agravar em
situações de chuva persistente ou instabilidade do solo, prolongando o tempo
necessário para a recomposição do sistema.
A
análise dos dados evidencia que, embora determinados eventos apresentem menor
frequência relativa, seus impactos operacionais podem ser desproporcionais. As
rajadas de vento, por exemplo, representam cerca de 4% dos eventos climáticos
associados a desligamentos, mas respondem por aproximadamente 90% do tempo
total de recomposição quando comparadas a outras causas, configurando-se como
um dos principais desafios para o restabelecimento do fornecimento de energia.
O
aumento da frequência e da severidade dos ECEs evidencia a vulnerabilidade do
SIN e tem estimulado um conjunto de iniciativas institucionais voltadas ao
fortalecimento da resiliência do setor elétrico brasileiro, atuando de forma
complementar nas esferas normativa, operativa e informacional.
No
âmbito da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), observa-se a discussão
sobre a atualização das Normas Brasileiras (NBRs) aplicáveis ao projeto de
estruturas de transmissão, com o objetivo de incorporar critérios compatíveis
com ventos mais intensos e condições ambientais mais severas. Soma-se a isso a
avaliação da necessidade de revisão das resoluções normativas, de modo a
alinhar as exigências regulatórias às novas condições climáticas observadas,
bem como a promoção de projetos de Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação (PDI),
em parceria com universidades e centros de pesquisa, voltados à análise dos
impactos dos ECEs sobre o SIN.
No
campo operacional, destacam-se os Planos de Atendimento a Emergências (PAE) das
concessionárias de transmissão, que vêm sendo continuamente aprimorados por
meio da ampliação de estoques de peças de reposição críticas e da distribuição
estratégica desses materiais ao longo do território nacional, com o objetivo de
reduzir o tempo de recomposição do sistema em emergências.
No
âmbito do monitoramento e da previsão meteorológica, o Instituto Nacional de
Meteorologia (Inmet) opera uma rede nacional com mais de 700 estações
meteorológicas, reconhecendo-se, contudo, a necessidade de expansão e
adensamento dessa rede, especialmente em regiões onde a densidade de estações
permanece abaixo dos padrões internacionais recomendados. De forma
complementar, sistemas estaduais de monitoramento ambiental, como o Simepar,
têm ampliado seus investimentos em redes meteorológicas e hidrológicas,
fortalecendo os mecanismos de alerta e resposta após eventos severos. No
Paraná, essas ações foram intensificadas após as tempestades registradas em
novembro de 2025, que causaram danos expressivos em municípios como Rio Bonito
do Iguaçu.
O
Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) também tem ampliado os
investimentos em tecnologias de previsão do tempo e modelagem climática,
incluindo a aquisição, em outubro de 2025, de um supercomputador que expandiu
significativamente a capacidade nacional de processamento e simulação,
atendendo à crescente demanda por informações meteorológicas e climáticas mais
precisas diante da intensificação dos eventos extremos.
No
âmbito das concessionárias de transmissão, destacam-se iniciativas como a
instalação de sistemas de sensoriamento ao longo das linhas para o
monitoramento estrutural em tempo real, com o uso de acelerômetros e
giroscópios capazes de detectar anomalias, como aumento de vibração e variações
de inclinação das torres. Adicionalmente, observa-se a implantação de estações
meteorológicas de pequeno porte ao longo dos corredores de transmissão,
destinadas ao monitoramento de variáveis críticas, como velocidade e direção do
vento, precipitação, temperatura, umidade e pressão atmosférica, contribuindo
para a melhoria da capacidade de resposta operacional das equipes de
manutenção.
Diante
desse conjunto de iniciativas e desafios, permanece em aberto a questão central
deste debate: o sistema elétrico brasileiro está adequadamente preparado para
enfrentar eventos climáticos cada vez mais intensos, extensos e persistentes?
Evidências recentes indicam que, embora existam mecanismos operativos capazes
de responder a falhas pontuais, ainda persistem limitações relevantes quando a
instabilidade ambiental se prolonga no tempo e no espaço.
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Os caminhos para incorporar os efeitos das mudanças climáticas nas LTs envolvem
desafios como:
•
Critérios de dimensionamento: novos critérios de projeto de infraestrutura,
inclusive normativos;
•
Confiabilidade x Incertezas: adoção de critérios de confiabilidade mais
conservadores, como aumento de redundância do sistema;
•
Resiliência da Transmissão x Investimentos x Impactos Ambientais: redes mais
robustas para suportar ECEs envolvem investimento em equipamentos mais modernos
e implementação de tecnologias mais avançadas;
•
Recomposição da Infraestrutura: envolve complexidade logística para produção e
transporte e mão de obra especializada para cada atividade.
Nesse
sentido, a criação de um banco de dados nacional que integre informações
meteorológicas, estruturais e operativas das linhas de transmissão desponta
como uma ferramenta estratégica para o aumento da resiliência do sistema
elétrico. A disponibilização sistemática desses dados para projetos de
Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação, sob coordenação da Agência Nacional de
Energia Elétrica e em parceria com universidades e centros de pesquisa, pode
aprofundar o entendimento sobre os impactos dos eventos climáticos extremos e
subsidiar o desenvolvimento de medidas mais eficazes para mitigar seus efeitos
sobre o Sistema Interligado Nacional, fechando o ciclo entre diagnóstico,
aprendizado institucional e aprimoramento contínuo da infraestrutura.
Pesquisas
aplicadas conduzidas pelo InnovaPower (USP) visam aumentar a resiliência do SIN
frente a eventos climáticos extremos, com oportunidades de cooperação com
empresas do setor elétrico.
• Transição energética justa: por que o
mundo precisa dela
Nos
últimos anos, a necessidade de repensar a forma como produzimos e consumimos
energia se tornou cada vez mais evidente. Isso porque as consequências das
mudanças climáticas afetam comunidades inteiras, principalmente as mais
vulneráveis. Nesse cenário, surge um conceito fundamental para equilibrar
desenvolvimento e sustentabilidade: a transição energética justa.
Mas
afinal, o que é uma transição energética justa? Esse conceito está relacionado
à substituição das fontes de energia fósseis por alternativas limpas,
renováveis e sustentáveis. A transição energética é fundamental para o combate
às mudanças climáticas, cujos impactos são sentidos em todo o mundo.
Mais do
que uma troca de matriz energética, o objetivo é garantir que essa
transformação aconteça de forma equilibrada. Uma transição justa inclui a busca
por matrizes mais limpas e eficientes. Ela também prioriza aspectos
socioeconômicos, como a justiça social e o combate à pobreza energética.
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O que significa pobreza energética?
A
pobreza energética ainda é uma realidade para milhões de pessoas, que vivem em
situação de desamparo social e não têm acesso à eletricidade.
Segundo
a International Energy Agency (IEA), em 2022, cerca de 760 milhões de pessoas
ao redor do mundo não tinham acesso à energia elétrica. Desse total, quase 80%
vivem na África Subsaariana. O problema se agravou depois da pandemia de
Covid-19. Somou-se à pré-existente falta de políticas públicas e ao baixo
índice de metas, para atingir o acesso universal à eletricidade até 2030.
Já na
Ásia, o caminho percorrido é o oposto. Cerca de 1 bilhão de pessoas passaram a
ter acesso à eletricidade desde 2010. Em 2022, 97% dos habitantes contavam com
energia elétrica. Apesar do avanço, ainda existe 3% da população sem esse
direito básico, em pleno século XXI.
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Realidade brasileira
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Desafios e oportunidades da transição energética no Brasil
A
pobreza energética também atinge o Brasil. Dados do Censo 2022, realizado pelo
Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), mostram que nem toda a
população brasileira tem acesso garantido à energia elétrica. Apesar de 99,8%
dos domicílios estarem abastecidos, esse percentual de 0,2% que falta
representa mais de 181 mil moradias.
Para a
Organização das Nações Unidas (ONU), uma transição energética justa pode
resolver essa questão. Isso porque a transição envolve atingir as metas
propostas no Acordo de Paris, zerar as emissões líquidas de gases de efeito
estufa até 2050. Além disso pode, potencialmente, tirar milhões de pessoas da
pobreza.
Um
relatório, publicado pela ONU em 2024, chamou a atenção para a extração de
minerais críticos. Esses recursos são essenciais para uma transição energética
justa. Esse tipo de mineração deve triplicar até 2030 e quadruplicar até 2040,
segundo a ONU. Porém, essa questão envolve uma série de questões sociais e
ambientais. Por outro lado, se for feito de maneira adequada, o processo pode
promover também o desenvolvimento social e econômico nos países emergentes.
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O que são os minerais de transição energética?
Os
minerais de transição energética, como são chamados, são os minérios extraídos
da Terra, fundamentais para se obter energia renovável. Esses minerais podem
ser aplicados na construção, produção, distribuição e no armazenamento de
energia limpa. Isso inclui a produção de carros elétricos, baterias para
armazenar energia, painéis solares, componentes eólicos, entre outros produtos.
De
acordo com a publicação, esses minerais englobam, principalmente, cobre,
cobalto, níquel, lítio, grafite, alumínio, silício, cádmio, telúrio, selênio,
cromo, zinco, além dos elementos de terras raras.
Ainda
assim, a mineração é apontada como um dos desafios a ser transposto, para que
haja, de fato, uma transição energética justa. Isso porque se trata uma
atividade controversa. Sua associação às questões de degradação ambiental,
invasão de terras e conflitos com povos originários e comunidades tradicionais,
além de condições de trabalho ultrajantes, são conhecidas e bem documentadas.
Nesse
sentido, a ONU propõe sete princípios básicos. O objetivo é garantir que exista
uma gestão sustentável em todo o ciclo que envolve a extração, produção e
transporte dos minérios.
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Princípios para uma transição energética justa
A
gestão da cadeia de valor dos minerais deve ser realizada tanto pelo setor
público quanto privado, além da sociedade civil, como aponta a ONU. Os
princípios delineados no relatório sustentam que:
• Os direitos humanos devem estar no
centro de todas as cadeias de valor mineral;
• A integridade do planeta, seu meio
ambiente e biodiversidade devem ser salvaguardados;
• Justiça e equidade devem sustentar as
cadeias de valor mineral;
• O desenvolvimento deve ser promovido por
meio da partilha de benefícios, da agregação de valor e da diversificação
econômica;
• Investimentos, finanças e comércio devem
ser responsáveis e justos;
• Transparência, responsabilização e
medidas anticorrupção são necessárias para garantir uma boa governança;
• A cooperação multilateral e
internacional deve sustentar a ação global e promover a paz e a segurança.
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Revolução das energias renováveis
Em 2024
o então Secretário-Geral da ONU, António Guterres, disse que “um mundo
alimentado por energias renováveis é um mundo faminto por minerais críticos”.
Apesar das preocupações existentes na atividade mineradora, Guterres afirma que
essa é uma oportunidade significativa para os países em desenvolvimento. São
eles os principais produtores desses minerais. Isso porque, se bem
administrada, a prática pode se tornar uma fonte importante de empregos e renda
e uma forma de alavancar a economia.
Guterres
é enfático ao dizer que a gestão deve ocorrer de forma adequada, para que o
desenvolvimento ocorra de forma sustentável e justa. Ainda, a corrida pela
substituição dos modelos de energia ultrapassados “não pode atropelar os
pobres. A revolução das energias renováveis está acontecendo – mas devemos
guiá-la em direção à justiça”.
O
relatório da ONU também alerta para as múltiplas crises geradas pelas mudanças
climáticas. Fatores que estão interligados, como os eventos extremos do clima,
a perda da biodiversidade e o aumento da pobreza, tendem a piorar enquanto
durar a dependência humana pelos combustíveis fósseis.
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Um chamado à ação por justiça e sustentabilidade
A
humanidade caminha lentamente em direção às soluções, ao mesmo tempo que é
empurrada para pontos de inflexão planetários. O tempo para limitar o aumento
da temperatura média global em 1,5ºC, acima dos níveis pré-industriais, é
curto. Por isso, acelerar uma transição energética justa é uma ação urgente e
decisiva. Afinal, para que haja justiça, deve haver mudança.
Essa
mudança não se resume à troca de combustíveis fósseis ou tecnologias. Ela
representa a construção de um modelo de desenvolvimento mais equilibrado,
inclusivo e verdadeiramente sustentável. Para que uma transição justa aconteça
de fato, é preciso unir esforços entre governos, setor privado e sociedade.
Esses atores devem se engajar em políticas e práticas que priorizem tanto o
respeito ao meio ambiente quanto o bem-estar das comunidades e ecossistemas.
Fonte: Jornal da USP/eCycle

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