quarta-feira, 28 de janeiro de 2026

O sistema elétrico brasileiro está preparado para eventos climáticos extremos?

Em janeiro de 2025, uma sequência de tempestades intensas atingiu a região Norte do País e provocou a queda de torres de transmissão ao longo do Linhão Xingu-Rio de Janeiro, uma das principais e mais modernas infraestruturas de escoamento de energia do Brasil. O episódio destacou-se entre os mais severos a afetar o sistema de transmissão nos últimos anos, em razão da combinação entre danos estruturais extensos e um processo de recuperação prolongado, condicionado por fatores meteorológicos persistentes e por limitações de acesso às áreas afetadas.

Esse evento ilustra características intrínsecas das linhas de transmissão, que operam de forma linear ao longo de extensos corredores. Nesse tipo de infraestrutura, a ocorrência de uma falha pode interromper completamente o escoamento de energia, uma vez que os ativos atravessam longas distâncias e regiões frequentemente remotas, onde o acesso é restrito e a recomposição demanda tempo, logística complexa e condições ambientais favoráveis. Como consequência, o episódio exigiu do Operador Nacional do Sistema (ONS) a realização de manobras operativas contínuas para preservar a estabilidade do Sistema Interligado Nacional (SIN).

Antes de avançar, é importante contextualizar o papel específico das linhas de transmissão no sistema elétrico. Diferentemente das redes de distribuição, que realizam a entrega final de energia aos consumidores, a transmissão opera em níveis elevados de tensão e ao longo de grandes distâncias, conectando usinas aos principais centros de carga do país. Essas linhas utilizam torres de grande porte e cabos robustos, projetados para reduzir perdas elétricas e garantir o escoamento de grandes blocos de energia. Já as redes de distribuição, normalmente apoiadas em postes e presentes nos espaços urbano e rural, recebem essa energia nas subestações, rebaixam a tensão e realizam a entrega final a residências, comércios e indústrias. É justamente essa função estruturante e de integração em larga escala que faz com que falhas na transmissão assumam caráter sistêmico, com repercussões que se propagam rapidamente por todo o sistema elétrico.

Episódios como o de janeiro de 2025 evidenciam que os impactos de eventos climáticos extremos (ECE) sobre a transmissão de energia extrapolam o dano físico localizado. A indisponibilidade de um único corredor de grande porte pode gerar efeitos sistêmicos imediatos, afetando o intercâmbio de energia entre regiões, elevando custos operacionais e reduzindo a margem de segurança do sistema elétrico. Em um cenário de mudanças climáticas, o desafio passa a incluir não apenas a resistência estrutural das instalações, mas também a capacidade de resposta a situações prolongadas de instabilidade ambiental.

As mudanças climáticas vêm afetando o planeta de forma crescente e abrangente, com reflexos diretos sobre a frequência e intensidade de eventos climáticos extremos. Relatórios do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) indicam que tempestades severas, ondas de calor prolongadas, secas intensas, incêndios florestais, inundações e deslizamentos de terra têm se tornado mais recorrentes nas últimas décadas, ampliando riscos para a sociedade, meio ambiente e as infraestruturas críticas.

No Brasil, esses impactos assumem características particulares, dado que o sistema elétrico nacional opera de forma majoritariamente integrada por meio do SIN, que conecta mais de 99% do território e se apoia em uma extensa malha de transmissão composta por mais de 180 mil quilômetros de linhas, que atravessam o país de norte a sul. Essa capilaridade, essencial para a garantia do suprimento de energia, também expõe o sistema a uma ampla diversidade de condições climáticas, ambientais e geográficas.

A interrupção de uma única linha de transmissão pode provocar impactos relevantes no SIN, exigindo do ONS manobras operativas rápidas e complexas para preservar a segurança operativa. Nesse contexto, as concessionárias de transmissão têm observado um crescimento das falhas associadas a eventos climáticos, que já figuram entre as principais causas de desligamentos não programados, indicando que fenômenos como descargas atmosféricas, queimadas, rajadas de vento e temporais respondem majoritariamente pelas causas dessas falhas. Dados do ONS indicam uma tendência de aumento, na última década, do número interrupções associadas a condições atmosféricas adversas e queimadas.

Além de provocar quedas de torres, rompimento de cabos e deslizamentos de terra com comprometimento de fundações, esses eventos dificultam significativamente o acesso das equipes de manutenção. Muitas linhas de transmissão atravessam regiões de relevo acidentado, áreas serranas ou localidades remotas, onde as condições de acesso já são naturalmente limitadas e tendem a se agravar em situações de chuva persistente ou instabilidade do solo, prolongando o tempo necessário para a recomposição do sistema.

A análise dos dados evidencia que, embora determinados eventos apresentem menor frequência relativa, seus impactos operacionais podem ser desproporcionais. As rajadas de vento, por exemplo, representam cerca de 4% dos eventos climáticos associados a desligamentos, mas respondem por aproximadamente 90% do tempo total de recomposição quando comparadas a outras causas, configurando-se como um dos principais desafios para o restabelecimento do fornecimento de energia.

O aumento da frequência e da severidade dos ECEs evidencia a vulnerabilidade do SIN e tem estimulado um conjunto de iniciativas institucionais voltadas ao fortalecimento da resiliência do setor elétrico brasileiro, atuando de forma complementar nas esferas normativa, operativa e informacional.

No âmbito da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), observa-se a discussão sobre a atualização das Normas Brasileiras (NBRs) aplicáveis ao projeto de estruturas de transmissão, com o objetivo de incorporar critérios compatíveis com ventos mais intensos e condições ambientais mais severas. Soma-se a isso a avaliação da necessidade de revisão das resoluções normativas, de modo a alinhar as exigências regulatórias às novas condições climáticas observadas, bem como a promoção de projetos de Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação (PDI), em parceria com universidades e centros de pesquisa, voltados à análise dos impactos dos ECEs sobre o SIN.

No campo operacional, destacam-se os Planos de Atendimento a Emergências (PAE) das concessionárias de transmissão, que vêm sendo continuamente aprimorados por meio da ampliação de estoques de peças de reposição críticas e da distribuição estratégica desses materiais ao longo do território nacional, com o objetivo de reduzir o tempo de recomposição do sistema em emergências.

No âmbito do monitoramento e da previsão meteorológica, o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) opera uma rede nacional com mais de 700 estações meteorológicas, reconhecendo-se, contudo, a necessidade de expansão e adensamento dessa rede, especialmente em regiões onde a densidade de estações permanece abaixo dos padrões internacionais recomendados. De forma complementar, sistemas estaduais de monitoramento ambiental, como o Simepar, têm ampliado seus investimentos em redes meteorológicas e hidrológicas, fortalecendo os mecanismos de alerta e resposta após eventos severos. No Paraná, essas ações foram intensificadas após as tempestades registradas em novembro de 2025, que causaram danos expressivos em municípios como Rio Bonito do Iguaçu.

O Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) também tem ampliado os investimentos em tecnologias de previsão do tempo e modelagem climática, incluindo a aquisição, em outubro de 2025, de um supercomputador que expandiu significativamente a capacidade nacional de processamento e simulação, atendendo à crescente demanda por informações meteorológicas e climáticas mais precisas diante da intensificação dos eventos extremos.

No âmbito das concessionárias de transmissão, destacam-se iniciativas como a instalação de sistemas de sensoriamento ao longo das linhas para o monitoramento estrutural em tempo real, com o uso de acelerômetros e giroscópios capazes de detectar anomalias, como aumento de vibração e variações de inclinação das torres. Adicionalmente, observa-se a implantação de estações meteorológicas de pequeno porte ao longo dos corredores de transmissão, destinadas ao monitoramento de variáveis críticas, como velocidade e direção do vento, precipitação, temperatura, umidade e pressão atmosférica, contribuindo para a melhoria da capacidade de resposta operacional das equipes de manutenção.

Diante desse conjunto de iniciativas e desafios, permanece em aberto a questão central deste debate: o sistema elétrico brasileiro está adequadamente preparado para enfrentar eventos climáticos cada vez mais intensos, extensos e persistentes? Evidências recentes indicam que, embora existam mecanismos operativos capazes de responder a falhas pontuais, ainda persistem limitações relevantes quando a instabilidade ambiental se prolonga no tempo e no espaço.

>>>> Os caminhos para incorporar os efeitos das mudanças climáticas nas LTs envolvem desafios como:

• Critérios de dimensionamento: novos critérios de projeto de infraestrutura, inclusive normativos;

• Confiabilidade x Incertezas: adoção de critérios de confiabilidade mais conservadores, como aumento de redundância do sistema;

• Resiliência da Transmissão x Investimentos x Impactos Ambientais: redes mais robustas para suportar ECEs envolvem investimento em equipamentos mais modernos e implementação de tecnologias mais avançadas;

• Recomposição da Infraestrutura: envolve complexidade logística para produção e transporte e mão de obra especializada para cada atividade.

Nesse sentido, a criação de um banco de dados nacional que integre informações meteorológicas, estruturais e operativas das linhas de transmissão desponta como uma ferramenta estratégica para o aumento da resiliência do sistema elétrico. A disponibilização sistemática desses dados para projetos de Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação, sob coordenação da Agência Nacional de Energia Elétrica e em parceria com universidades e centros de pesquisa, pode aprofundar o entendimento sobre os impactos dos eventos climáticos extremos e subsidiar o desenvolvimento de medidas mais eficazes para mitigar seus efeitos sobre o Sistema Interligado Nacional, fechando o ciclo entre diagnóstico, aprendizado institucional e aprimoramento contínuo da infraestrutura.

Pesquisas aplicadas conduzidas pelo InnovaPower (USP) visam aumentar a resiliência do SIN frente a eventos climáticos extremos, com oportunidades de cooperação com empresas do setor elétrico.

•        Transição energética justa: por que o mundo precisa dela

Nos últimos anos, a necessidade de repensar a forma como produzimos e consumimos energia se tornou cada vez mais evidente. Isso porque as consequências das mudanças climáticas afetam comunidades inteiras, principalmente as mais vulneráveis. Nesse cenário, surge um conceito fundamental para equilibrar desenvolvimento e sustentabilidade: a transição energética justa.

Mas afinal, o que é uma transição energética justa? Esse conceito está relacionado à substituição das fontes de energia fósseis por alternativas limpas, renováveis e sustentáveis. A transição energética é fundamental para o combate às mudanças climáticas, cujos impactos são sentidos em todo o mundo.

Mais do que uma troca de matriz energética, o objetivo é garantir que essa transformação aconteça de forma equilibrada. Uma transição justa inclui a busca por matrizes mais limpas e eficientes. Ela também prioriza aspectos socioeconômicos, como a justiça social e o combate à pobreza energética.

<<> O que significa pobreza energética?

A pobreza energética ainda é uma realidade para milhões de pessoas, que vivem em situação de desamparo social e não têm acesso à eletricidade.

Segundo a International Energy Agency (IEA), em 2022, cerca de 760 milhões de pessoas ao redor do mundo não tinham acesso à energia elétrica. Desse total, quase 80% vivem na África Subsaariana. O problema se agravou depois da pandemia de Covid-19. Somou-se à pré-existente falta de políticas públicas e ao baixo índice de metas, para atingir o acesso universal à eletricidade até 2030.

Já na Ásia, o caminho percorrido é o oposto. Cerca de 1 bilhão de pessoas passaram a ter acesso à eletricidade desde 2010. Em 2022, 97% dos habitantes contavam com energia elétrica. Apesar do avanço, ainda existe 3% da população sem esse direito básico, em pleno século XXI.

>>>> Realidade brasileira

<><> Desafios e oportunidades da transição energética no Brasil

A pobreza energética também atinge o Brasil. Dados do Censo 2022, realizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), mostram que nem toda a população brasileira tem acesso garantido à energia elétrica. Apesar de 99,8% dos domicílios estarem abastecidos, esse percentual de 0,2% que falta representa mais de 181 mil moradias.

Para a Organização das Nações Unidas (ONU), uma transição energética justa pode resolver essa questão. Isso porque a transição envolve atingir as metas propostas no Acordo de Paris, zerar as emissões líquidas de gases de efeito estufa até 2050. Além disso pode, potencialmente, tirar milhões de pessoas da pobreza.

Um relatório, publicado pela ONU em 2024, chamou a atenção para a extração de minerais críticos. Esses recursos são essenciais para uma transição energética justa. Esse tipo de mineração deve triplicar até 2030 e quadruplicar até 2040, segundo a ONU. Porém, essa questão envolve uma série de questões sociais e ambientais. Por outro lado, se for feito de maneira adequada, o processo pode promover também o desenvolvimento social e econômico nos países emergentes.

<><> O que são os minerais de transição energética?

Os minerais de transição energética, como são chamados, são os minérios extraídos da Terra, fundamentais para se obter energia renovável. Esses minerais podem ser aplicados na construção, produção, distribuição e no armazenamento de energia limpa. Isso inclui a produção de carros elétricos, baterias para armazenar energia, painéis solares, componentes eólicos, entre outros produtos.

De acordo com a publicação, esses minerais englobam, principalmente, cobre, cobalto, níquel, lítio, grafite, alumínio, silício, cádmio, telúrio, selênio, cromo, zinco, além dos elementos de terras raras.

Ainda assim, a mineração é apontada como um dos desafios a ser transposto, para que haja, de fato, uma transição energética justa. Isso porque se trata uma atividade controversa. Sua associação às questões de degradação ambiental, invasão de terras e conflitos com povos originários e comunidades tradicionais, além de condições de trabalho ultrajantes, são conhecidas e bem documentadas.

Nesse sentido, a ONU propõe sete princípios básicos. O objetivo é garantir que exista uma gestão sustentável em todo o ciclo que envolve a extração, produção e transporte dos minérios.

<><> Princípios para uma transição energética justa

A gestão da cadeia de valor dos minerais deve ser realizada tanto pelo setor público quanto privado, além da sociedade civil, como aponta a ONU. Os princípios delineados no relatório sustentam que:

•        Os direitos humanos devem estar no centro de todas as cadeias de valor mineral;

•        A integridade do planeta, seu meio ambiente e biodiversidade devem ser salvaguardados;

•        Justiça e equidade devem sustentar as cadeias de valor mineral;

•        O desenvolvimento deve ser promovido por meio da partilha de benefícios, da agregação de valor e da diversificação econômica;

•        Investimentos, finanças e comércio devem ser responsáveis e justos;

•        Transparência, responsabilização e medidas anticorrupção são necessárias para garantir uma boa governança;

•        A cooperação multilateral e internacional deve sustentar a ação global e promover a paz e a segurança.

<><> Revolução das energias renováveis

Em 2024 o então Secretário-Geral da ONU, António Guterres, disse que “um mundo alimentado por energias renováveis é um mundo faminto por minerais críticos”. Apesar das preocupações existentes na atividade mineradora, Guterres afirma que essa é uma oportunidade significativa para os países em desenvolvimento. São eles os principais produtores desses minerais. Isso porque, se bem administrada, a prática pode se tornar uma fonte importante de empregos e renda e uma forma de alavancar a economia.

Guterres é enfático ao dizer que a gestão deve ocorrer de forma adequada, para que o desenvolvimento ocorra de forma sustentável e justa. Ainda, a corrida pela substituição dos modelos de energia ultrapassados “não pode atropelar os pobres. A revolução das energias renováveis está acontecendo – mas devemos guiá-la em direção à justiça”.

O relatório da ONU também alerta para as múltiplas crises geradas pelas mudanças climáticas. Fatores que estão interligados, como os eventos extremos do clima, a perda da biodiversidade e o aumento da pobreza, tendem a piorar enquanto durar a dependência humana pelos combustíveis fósseis.

<><> Um chamado à ação por justiça e sustentabilidade

A humanidade caminha lentamente em direção às soluções, ao mesmo tempo que é empurrada para pontos de inflexão planetários. O tempo para limitar o aumento da temperatura média global em 1,5ºC, acima dos níveis pré-industriais, é curto. Por isso, acelerar uma transição energética justa é uma ação urgente e decisiva. Afinal, para que haja justiça, deve haver mudança.

Essa mudança não se resume à troca de combustíveis fósseis ou tecnologias. Ela representa a construção de um modelo de desenvolvimento mais equilibrado, inclusivo e verdadeiramente sustentável. Para que uma transição justa aconteça de fato, é preciso unir esforços entre governos, setor privado e sociedade. Esses atores devem se engajar em políticas e práticas que priorizem tanto o respeito ao meio ambiente quanto o bem-estar das comunidades e ecossistemas.

 

Fonte:  Jornal da USP/eCycle

 

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