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que intoxicação com metanol causa cegueira
Entre
os 22 casos de possível contaminação por metanol no Estado de São Paulo, dos
quais cinco foram confirmados e 17 estão em investigação, ao menos três pessoas
relataram terem perdido a visão — mesmo que parcial ou temporariamente — ou
foram diagnosticadas assim.
Foi o
que relataram à imprensa familiares de Radharani Domingos, que ainda está
hospitalizada; e Diogo Marques, que também chegou a ficar internado e disse ter
tido perda de visão, a qual ele diz ter sido depois recuperada.
Rafael
Martins, amigo de Diogo, está em coma desde 1º de setembro e teve não só a
visão, como também o cérebro, afetados, segundo contou sua mãe ao programa
Fantástico, da TV Globo.
Como a
ingestão dessa substância tóxica pode causar tamanho mal para a visão, trazendo
o risco de cegueira permanente?
Segundo
a médica oftalmologista Ana Luísa Quintella Aleixo, o nervo óptico costuma ser
uma das primeiras partes do organismo a ser afetada gravemente por conta da
intoxicação com metanol.
Ela
explica que este nervo é composto por fibras nervosas que levam sinais
luminosos processados pela retina do olho até o cérebro.
O nervo
óptico é "extremamente sensível", a médica acrescenta.
"A
visão não é um processo somente do globo ocular, é um processo da interação do
olho com o cérebro. E quem faz a ponte do olho com o cérebro é essa estrutura
chamada nervo óptico", esclarece Aleixo, médica do Instituto Nacional de
Infectologia da Fiocruz.
Quando
o metanol, um produto que não deveria estar disponível para consumo humano,
entra no corpo, é processado pelo fígado.
De
acordo com Aleixo, ele então se transforma em formaldeído — conhecido também
como formol, usado em colas industriais e para embalsamar cadáveres — e,
depois, em ácido fórmico.
Esse
ácido é o "verdadeiro veneno" para o corpo, afirma o médico
oftalmologista Hallim Féres Neto.
"O
ácido fórmico se acumula no corpo e atrapalha o funcionamento das mitocôndrias,
estruturas celulares responsáveis pela produção de energia. Células do sistema
nervoso dependem muito de energia para funcionar, incluindo o as células do
nervo óptico e da retina", diz o médico, membro do Conselho Brasileiro de
Oftalmologia e diretor da clínica Prisma Visão.
"Ao
atacar o nervo óptico, e em menor impacto também a retina, perdemos a
capacidade de transmitir a imagem do olho para o cérebro, e isso leva à
cegueira."
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Corrida contra o tempo
Os dois
médicos entrevistados pela BBC News Brasil são unânimes: o atendimento médico
rápido é fundamental para minimizar os danos à visão, outros problemas de saúde
e o próprio risco de morte.
Segundo
Ana Luísa Quintella Aleixo, "rápido" significa que o atendimento
médico deve acontecer em até 12 horas após a ingestão do metanol. Nesse
momento, não se deve recorrer a antídotos caseiros.
Hallim
Féres Neto aponta que o tempo pode até ser mais importante que a própria dose.
"Doses
menores sem atendimento rápido podem ser piores que doses maiores mas com
suporte rápido e adequado", diz o médico.
"O
tratamento inicial é sempre uma emergência: antídotos, hemodiálise e medidas
para eliminar o veneno do corpo."
Mas a
quantidade de metanol, claro, importa, lembra Aleixo.
"Quanto
maior a dose, maior a quantidade de ácido fórmico produzida e maior a gravidade
das lesões", explica a oftalmologista.
Há
fatores de risco que podem piorar a situação, dizem os médicos, como doenças do
fígado, deficiência de folato e de algumas vitaminas do complexo B, desnutrição
e alcoolismo crônico.
Aleixo
cita um estudo publicado em 2022 por pesquisadores poloneses segundo o qual
entre 30% e 40% dos sobreviventes de intoxicações graves por metanol
desenvolvem algum grau de perda de visão.
Se o
atendimento for rápido, parte da visão pode ser preservada. Mas os médicos
entrevistados dizem que, quando já existe perda, é muito difícil recuperar o
que já foi perdido.
"Depois
que o nervo óptico é lesado, a recuperação é muito limitada, porque não há uma
terapia capaz de regenerar o nervo", explica a médica.
A
partir daí, a assistência às vítimas envolve tratamentos com recursos ópticos
de auxílio, apoio psicológico e outras terapias de reabilitação.
"É
uma situação muito grave, muito triste. É uma tragédia essa intoxicação",
resume a oftalmologista.
A
Polícia Federal e a Polícia Civil de São Paulo estão investigando os casos no
Estado, que ocorreram após a ingestão de destilados comprados em bares e
adegas.
Dos 22
casos possíveis de contaminação, cinco envolvem mortes. Entretanto, até o
momento, em apenas um desses casos há confirmação de que a morte se deu após a
ingestão de bebida adulterada.
Ainda
não se sabe se o metanol foi adicionado a bebidas falsificadas, ou se é um caso
de contaminação durante a produção normal de um destilado — apesar das
declarações dadas pelas autoridades até o momento apontarem para a primeira
opção.
O
metanol tem a aparência e o sabor do álcool, e os primeiros efeitos são
semelhantes — pode haver náuseas, vômito, sensação de embriaguez e confusão
mental.
Fonte:
BBC News Brasil

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