segunda-feira, 27 de outubro de 2025

Made in USA: Nos EUA, Eduardo Bolsonaro se diz pré-candidato a presidente do Brasil

No dia 15 de julho deste ano, Eduardo Bolsonaro (PL-SP) e o empresário Paulo Figueiredo Filho viajaram a Washington D. C. em mais uma etapa da ofensiva para a aprovação de sanções contra autoridades brasileiras nos EUA. Essa seria mais uma de muitas viagens que os dois fariam à capital americana neste ano. Até a publicação desta reportagem, já foram mais de dez idas da dupla à cidade em 2025. Desta vez, no entanto, além de reuniões com autoridades, os dois dedicaram um tempo para gravar uma live nos estúdios do Rumble – plataforma de extrema-direita bloqueada no Brasil, que move processo contra o ministro Alexandre de Moraes na Flórida.

Durante quase duas horas, Figueiredo fez perguntas ensaiadas a Eduardo Bolsonaro, entre elas, uma que ele disse que “seria incômoda”. “Caso os problemas da inelegibilidade do seu pai não sejam resolvidos você está pronto para ser o candidato à Presidência da República do Brasil em 2026?”, questionou. “Eu aceitaria o desafio com a condição de ter o apoio do meu pai. Por óbvio, ele é o candidato legítimo. Ele é que tem o voto. Se ele entender dessa maneira eu me candidataria, mas pra gente chegar nesse momento a gente passa pela anistia”, respondeu Eduardo.

A gravação serviu como lançamento da pré-candidatura informal de Eduardo e como prenúncio para o resultado das ações da dupla nos EUA. Nos dias seguintes, foi anunciado o cancelamento de vistos de ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) e a aplicação da Lei Magnitsky contra Alexandre de Moraes – comunicada oficialmente no dia 30 de julho, mas que já estava encaminhada.

Desde então, Eduardo falou sobre a possibilidade de se tornar candidato à presidência em pelo menos mais sete entrevistas à imprensa e transmissões no seu canal de YouTube. Uma delas, ele anunciou sua pré-candidatura durante programa do ex-congressista Matt Gaetz, da emissora conservadora One American News. “Eu estou me apresentando caso meu pai não possa concorrer, eu posso em seu nome”, afirmou em inglês ao republicano.

<><> Uma candidatura construída à base dos EUA

Para viabilizar a candidatura, que ainda não recebeu apoio formal nem do PL – partido de Eduardo – nem de qualquer outra legenda, o deputado federal utiliza a mesma estratégia chantagista das sanções. Em diversas declarações, ele levanta a possibilidade das eleições brasileiras não serem reconhecidas pelos Estados Unidos caso ele ou seu pai não possam ser eleitos.

“Não creiam vocês que o Trump vai reconhecer uma eleição no Brasil onde o líder das pesquisas da oposição não participa. Nem ele, nem o filho dele, onde vários candidatos vão ficar inelegíveis. É só esperar chegar perto da eleição. Isso aí não é democracia”, afirmou em entrevista ao podcast Inteligência Ltda em 21 de julho.

A estratégia é reforçada por seus aliados na ofensiva nos EUA. “A gente corre o risco de, não tendo o Bolsonaro entre os candidatos a presidente, talvez o governo Trump diga ‘olha, não vou reconhecer a eleição’. Isso é uma possibilidade que existe”, afirmou o comentarista Luís Ernesto Lacombe em live do Programa 4 por 4 transmitida em 17 de agosto.

“Hoje o único nome que temos na direita de fato, exceto pelo Jair Bolsonaro que é quem deve ser candidato, é do Eduardo”, reforçou Figueiredo em live transmitida no dia 28 de agosto.

O empresário chegou a brincar inclusive sobre a possibilidade dele próprio sair como candidato em 2026. “Vice-presidente é uma boa, hein? Não faz nada, só churrasco”, publicou em resposta a enquete virtual que o colocou como chapa de Eduardo Bolsonaro. “Se o Ciro Nogueira me encher o saco eu ainda saio candidato a senador por São Paulo”, ironizou em live transmitida no dia 14 de outubro, em referência a discussão que teve com o senador nas redes sociais.

<><> Eduardo Bolsonaro: um pré-candidato que não cumpre o mandato atual

Atualmente, Eduardo foi denunciado pela Procuradoria Geral da República (PGR) junto a Figueiredo pelo crime de coação – a acusação é que ele está nos EUA atuando para que o governo de lá interfira no processo que condenou o pai. A Defensoria Pública da União (DPU) pediu que o deputado seja notificado por carta. Ele já foi notificado por edital.

No dia 22 de outubro, última quarta-feira, o Conselho de Ética da Câmara dos Deputados arquivou uma ação que poderia cassar o seu mandato de deputado federal. Ele se licenciou por 120 dias quando foi aos EUA em março deste ano, mas desde que esse período terminou, em julho, suas faltas ao Congresso estão sendo registradas. De acordo com a Constituição, um parlamentar perde o mandato se deixar de ir a um terço ou mais das sessões de votações ao longo do ano.

•        Gleisi critica Flávio e Eduardo Bolsonaro: 'família com vocação para trair o Brasil'

A ministra-chefe da Secretaria de Relações Institucionais (SRI), Gleisi Hoffmann, repudiou nesta sexta-feira (24) as articulações feitas pela família Bolsonaro junto a políticos da extrema direita nos Estados Unidos, com o objetivo de possibilitar interferências do governo Donald Trump no Brasil.

A titular da pasta fez o comentário após o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) agredir a soberania nacional brasileiro e pedir que a gestão do presidente norte-americano envie forças ao Brasil para combater o tráfico de drogas.

“Primeiro, Eduardo Bolsonaro pediu o tarifaço e as sanções da Magnitsky para atacar o Brasil. Agora é Flávio Bolsonaro que pede a intervenção armada dos EUA em nosso território. Não tem limites a vocação dessa família para trair o Brasil. Felizmente temos o presidente Lula no comando, para defender nossa soberania contra qualquer tipo de intervencionismo”, escreveu Gleisi na rede social X.

Desde que tomou posse, em janeiro, o presidente Donald Trump tem anunciado algumas ofensivas contra países localizados na América do Sul, como parte de uma política unilateralista e que tenta impor a hegemonia dos EUA na economia global em um contexto de relações mais estreitas do país latino-americanos com a China e com o BRICS. A justificativa usada pelo chefe da Casa Branca é o combate ao tráfico de drogas.

<><> Risco de guerra na América do Sul

Os recentes ataques a navios nas regiões do Pacífico e do Caribe próximas à América do Sul integram uma operação promovida pelo governo do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. Mais de 30 pessoas morreram em pouco mais de um mês. Washington anunciou o envio de tropas militares para o Caribe, próximo à América do Sul, sob a justificativa de combater o narcoterrorismo.

Nesta sexta (24), um ataque dos EUA contra um suposto navio com drogas deixou algumas pessoas mortas, informou o secretário de Defesa dos EUA, Pete Hegseth. O presidente Trump confirmou que as operações militares contra supostos cartéis de drogas entrarão em uma nova fase terrestre.

•        Venezuela

O governo norte-americano ofereceu uma recompensa de até US$ 50 milhões (aproximadamente R$ 270 milhões) por informações que possam resultar na captura do presidente da Venezuela, Nicolás Maduro.

O presidente Trump determinou que a CIA e o Pentágono implementassem medidas mais rigorosas contra o governo venezuelano. O presidente venezuelano anunciou que o país ativou integralmente seu plano de defesa diante das “ameaças” dos Estados Unidos.

•        Colômbia

No mesmo contexto, o presidente dos Estados Unidos acusou o chefe de Estado colombiano, Gustavo Petro, de envolvimento com o narcotráfico e suspendeu o pagamento de subsídios destinados à Colômbia.

O presidente da Colômbia rejeitou as acusações feitas pelo governo trumpista e anunciou que ingressará com uma ação judicial contra o governo do presidente norte-americano.

•        Brasil

No caso do governo brasileiro, a tentativa de interferência já vem acontecendo. O presidente Trump anunciou uma tarifa de 50% sobre produtos brasileiros exportados aos EUA e a suspensão dos vistos de ministros do STF para entrada em território norte-americano.

O motivo mais implícito para as duas medidas é a articulação cada vez mais forte do Brasil com o multilateralismo, o que faz uma frente de resistência à hegemonia norte-americana em amplos aspectos. Um exemplo é a discussão sobre uma moeda única entre países do BRICS e, por consequência, a redução da dependência do dólar em transações internacionais.

A causa mais explícita para as sanções dos EUA contra o Brasil é a investigação do plano golpista contra Jair Bolsonaro (PL). O aliado de Trump foi condenado pelo STF a 27 anos de prisão. As sanções foram oficializadas por meio de decreto assinado em 30 de julho, antes da condenação de Bolsonaro, que ocorreu em 11 de setembro, com pena fixada em 27 anos de prisão.

Além de Jair Bolsonaro, a Procuradoria-Geral da República (PGR) apresentou, em 22 de setembro, uma denúncia contra o deputado Eduardo Bolsonaro. Segundo o órgão, o parlamentar teria mantido contatos com representantes do governo norte-americano com o objetivo de exercer pressão econômica sobre o Brasil em razão das investigações relacionadas à tentativa de golpe atribuída a Jair Bolsonaro.

No caso da Lei Magnitsky, citada por Gleisi, a legislação foi aprovada em 2012 e foi criada originalmente para punir os responsáveis pela morte do advogado russo Sergei Magnitsky, ocorrida em 2009, em uma prisão de Moscou. Em 2016, seu escopo foi ampliado, permitindo que os Estados Unidos aplicassem sanções a pessoas e instituições acusadas de corrupção ou de violações de direitos humanos, mesmo sem a necessidade de decisão judicial prévia.

A Lei Magnitsky vem sendo usada para sanções contra o ministro do STF Alexandre de Moraes, especificamente. Ele é o relator do inquérito da trama golpista na Corte. As sanções impostas ao ministro determinam o bloqueio de possíveis bens e ativos financeiros que estejam sob jurisdição norte-americana. Bancos dos Estados Unidos devem comunicar ao Office of Foreign Assets Control (OFAC) qualquer identificação desses recursos, e o ministro fica impedido de realizar operações financeiras ou movimentar valores no país.

De acordo com pessoas próximas, Alexandre de Moraes minimizou o impacto da decisão, afirmando que a medida “não altera nada”, uma vez que ele não possui contas, investimentos ou propriedades nos Estados Unidos.

•        Lindbergh aciona o STF contra Flávio Bolsonaro por incitar ataque ao Brasil

O deputado federal Lindbergh Farias (PT-RJ) protocolou nesta sexta-feira (24) uma representação criminal no Supremo Tribunal Federal (STF) contra o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ). O pedido, encaminhado ao ministro Alexandre de Moraes, solicita que o parlamentar seja investigado por atentado à soberania nacional e crime militar praticado por civil.

A ação foi motivada por uma publicação feita por Flávio Bolsonaro em suas redes sociais nesta quinta-feira (23). No texto, o senador sugere que os Estados Unidos realizem ataques militares na costa do Rio de Janeiro contra embarcações supostamente envolvidas com o tráfico de drogas. Ele afirmou: “Que inveja! Ouvi dizer que há barcos como este aqui no Rio de Janeiro, na Baía de Guanabara, inundando o Brasil com drogas. Você não gostaria de passar alguns meses aqui nos ajudando a combater essas organizações terroristas?”.

<><> Pedido de apuração por atentado à soberania

Na representação, Lindbergh Farias argumenta que a fala do senador ultrapassa os limites da liberdade de expressão parlamentar e configura proposição concreta de ação armada estrangeira em águas jurisdicionais brasileiras. O deputado destaca que o mar territorial brasileiro integra o território nacional, conforme a Lei nº 8.617/1993 e a Convenção das Nações Unidas sobre o Direito do Mar, e está sob a autoridade das Forças Armadas brasileiras.

De acordo com o texto, o ato de provocar uma potência estrangeira a agir militarmente no território brasileiro viola o dever constitucional de lealdade à Pátria e afronta o papel das Forças Armadas, cuja missão é a defesa da soberania nacional. Lindbergh também cita o juramento parlamentar, que obriga o senador a “manter e defender a independência e a soberania do Brasil”.

<><> Crimes previstos no Código Penal e no Código Penal Militar

A representação pede a apuração do caso com base no artigo 359-I do Código Penal, que trata do crime de atentado à soberania nacional, e nos artigos 9º, I, e 142, I, do Código Penal Militar, que tipificam o crime militar praticado por civil. Segundo Lindbergh, a simples incitação pública à intervenção estrangeira já configura o delito, mesmo que não haja resultado concreto.

O deputado solicita que o STF comunique a Procuradoria-Geral da Justiça Militar, requisite registros das declarações do senador e determine a oitiva de Flávio Bolsonaro. Também pede que o ministro Alexandre de Moraes avalie medidas cautelares para proteger a ordem pública e a soberania nacional durante as investigações.

<><> ‘Extrema direita teme o isolamento', diz Lindbergh sobre Flávio Bolsonaro pedir ataque dos EUA ao Brasil

O líder do PT na Câmara dos Deputados, Lindbergh Farias (RJ), denunciou a gravidade do pedido feito pelo senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), que solicitou aos Estados Unidos o envio de forças norte-americanas ao Brasil, com o suposto objetivo de combater o tráfico de drogas.

“Pela primeira vez na história, um senador da República, Flávio Bolsonaro, defende que uma potência estrangeira realize um ataque militar ao próprio país, pedindo que os EUA bombardeiem embarcações na Baía de Guanabara sob o falso pretexto de combater o narcotráfico”, escreveu o petista na rede social X.

De acordo com o parlamentar, os integrantes da extrema direita pediram ataque dos EUA ao Brasil “justamente agora, às vésperas do encontro entre Lula e Trump, porque temem o isolamento internacional da extrema direita e o fortalecimento de um Brasil soberano, respeitado e líder no diálogo democrático global”.

“É o mesmo modus operandi da extrema-direita: espalhar mentiras para atentar contra a soberania nacional e tentar desestabilizar o país do ponto de vista político-econômico”.

<><> Críticas a Eduardo

Na mesma postagem, o deputado Lindbergh Farias criticou as articulações feitas pelo deputado Eduardo Bolsonaro (PL-SP) com os EUA, para aplicar sanções ao Brasil por causa do inquérito da trama golpista contra Jair Bolsonaro (PL), condenado a 27 anos de prisão pelo Supremo Tribunal Federal.

“O Brasil está sob ataque da família Bolsonaro, numa escalada de golpe continuado que agora busca legitimar uma intervenção estrangeira contra o nosso país. Tudo começou com a defesa de sanções internacionais, revogação de vistos de autoridades brasileiras, aplicação da Lei Magnitsky e até a imposição de tarifas econômicas. Eduardo Bolsonaro já havia pedido que porta-aviões americanos atracassem no Lago Paranoá”, afirmou.

“O deputado Eduardo Bolsonaro, que teve o processo de cassação arquivado sumariamente no Conselho de Ética, afirmou que o Brasil tem ligações com o tráfico de drogas e o terrorismo, uma mentira grotesca para tentar justificar uma intervenção militar estrangeira”.

A Procuradoria-Geral da República (PGR) apresentou, em 22 de setembro, uma denúncia contra o deputado Eduardo Bolsonaro. Segundo o órgão, o parlamentar teria mantido contatos com representantes do governo norte-americano com o objetivo de exercer pressão econômica sobre o Brasil em razão das investigações relacionadas à tentativa de golpe atribuída a Jair Bolsonaro.

<><> EUA e a América do Sul

Os recentes ataques a navios nas regiões do Pacífico e do Caribe próximas à América do Sul integram uma operação promovida pelo governo do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. Mais de 30 pessoas morreram em pouco mais de um mês.

Nesta sexta (24), um ataque dos EUA contra um suposto navio com drogas deixou algumas pessoas mortas, informou o secretário de Defesa dos EUA, Pete Hegseth. O presidente Trump confirmou que as operações militares contra supostos cartéis de drogas entrarão em uma nova fase terrestre.

Washington anunciou o envio de tropas militares para o Caribe, próximo à América do Sul, sob a justificativa de combater o narcoterrorismo. Como parte dessa iniciativa, o governo norte-americano ofereceu uma recompensa de até US$ 50 milhões (aproximadamente R$ 270 milhões) por informações que possam resultar na captura do presidente da Venezuela, Nicolás Maduro.

O presidente Trump determinou que a CIA e o Pentágono adotassem ações mais rigorosas em relação ao governo venezuelano. O presidente venezuelano anunciou que o país ativou integralmente seu plano de defesa diante das “ameaças” dos Estados Unidos.

No mesmo contexto, o presidente dos Estados Unidos acusou o chefe de Estado colombiano, Gustavo Petro, de envolvimento com o narcotráfico e suspendeu o pagamento de subsídios destinados à Colômbia.

Petro rejeitou as acusações e declarou que as alegações norte-americanas teriam sido motivadas pela recusa de seu governo em apoiar uma possível ofensiva militar contra a Venezuela.

<><> Sanções

No caso do Brasil, o presidente Trump havia citado o inquérito como base para aplicar sanções econômicas contra o Brasil, incluindo uma tarifa de 50% sobre produtos brasileiros exportados aos Estados Unidos e a suspensão dos vistos de ministros do STF para entrada em território norte-americano.

As sanções foram oficializadas por meio de decreto assinado em 30 de julho, antes da condenação de Bolsonaro, que ocorreu em 11 de setembro, com pena fixada em 27 anos de prisão.

 

Fonte: Por Ethel Rudnitzki, da Agencia Pública/Brasil 247

 

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