ESTADO
PALESTINO: A algoritmização da morte e o
paradigma da “guerra” permanente
Os
novos assassinatos de palestinos em Gaza ocorridos após o anúncio do
cessar-fogo mediado por Donald Trump nos lembram da fragilidade extrema dos
processos de paz na região. O mundo espera, com ceticismo, o desfecho de mais
um capítulo desta guerra interminável que antecede, em muito, a violência do 7
de outubro de 2023 e que dificilmente terminará sem a concretização de um
Estado Palestino livre e soberano. A cada trégua rompida, a cada vida
interrompida, torna-se um imperativo moral fazermos um balanço destes dois anos
de horror sistemático.
Desde
os primeiros dias da ofensiva, o discurso oficial israelense sinalizou a
natureza totalizante da operação. Embora o governo de Israel tenha declarado
que o objetivo da operação era unicamente a destruição das capacidades
militares do Hamas, a retórica e as ações sugeriram algo mais abrangente. Nas
palavras do próprio ministro de defesa de Israel, Yoav Gallant, proferidas em 9
de outubro de 2023: “Estamos impondo um cerco total à Gaza. Sem eletricidade,
sem comida, sem água, sem gás, tudo bloqueado. Estamos lutando contra animais e
agimos em conformidade”. A declaração, amplamente divulgada por veículos de
imprensa internacionais, inaugurou uma política de cerco absoluto e de
desumanização institucionalizada. Talvez a guerra nunca tenha sido uma resposta
militar ao Hamas, mas sim um projeto de aniquilação coletiva, conduzido sob a
lógica colonial de punição e erradicação.
Em outubro de 2025, o massacre na
Faixa de Gaza completou dois anos. O conflito rapidamente transformou-se
em um processo de devastação sem precedentes no século XXI. Em um território de
apenas 365 km², habitado por cerca de 2,2 milhões de pessoas, foram lançadas
quase 85 mil toneladas de explosivos. A intensidade dos ataques torna a região
o território mais devastado per capita e por área de que se tem registro na era
contemporânea.
Segundo
o Ministério da Saúde local, 67 mil pessoas foram mortas desde o início da
ofensiva, além de provavelmente uma dezena de milhares que estão sob os
escombros. Entre as vítimas, 30 mil mulheres e meninas e 18 mil crianças e
adolescentes. Outras 170 mil pessoas ficaram feridas, e o enclave registra hoje
o maior número de crianças amputadas do mundo, com mais de 4 mil casos.
Aproximadamente 80% dos edifícios e residências foram destruídos ou
danificados. O volume de entulho de construção atinge 50 milhões de
toneladas, ou cerca de 137 quilos por metro quadrado, número 14 vezes maior do
que o total de detritos gerados por todos os conflitos armados do mundo desde
2008.
A
dimensão humanitária da tragédia é igualmente alarmante. Estima-se que 500 mil
pessoas, cerca de 22% da população, vivem em situação de fome extrema. A
destruição de sistemas de água, energia e saúde, associada ao bloqueio quase
total de insumos, agravou o colapso sanitário e empurrou a população para
condições de sobrevivência precárias. Segundo a revista The
Lancet (2025), a expectativa de vida dos homens caiu de 75,5 para 36
anos, e a das mulheres de 75,5 para 44 anos.
O
genocídio em Gaza também nos apresentou a militarização da inteligência
artificial e a algoritmização da morte (MAGALHÃES, 2025), processo pelo qual a
decisão sobre quem vive e quem morre é mediada por sistemas automatizados de
vigilância, cálculo e seleção de alvos. Drones, bancos de dados biométricos e
softwares de rastreamento transformam a eliminação de corpos em uma operação
estatística, esvaziada de responsabilidade moral. A “guerra”, nesse sentido,
torna-se um exercício de administração tecnológica da vida, em que a morte é
produzida com precisão matemática e legitimada pela linguagem da eficiência. A
racionalidade algorítmica, ao reduzir a existência humana a parâmetros de risco
e probabilidade, consolida a desumanização como política de Estado e insere o
genocídio palestino na lógica mais ampla da governança automatizada da
violência, típica do século XXI.
O
colapso humanitário em Gaza manifesta-se também na experiência cotidiana da
fome e do desespero. As longas filas por alimentos e água, muitas vezes sob
bombardeios, transformaram o que deveria ser a busca por sobrevivência em um
ato letal. Relatos de agências humanitárias descrevem pessoas mortas ao tentar
alcançar caminhões de ajuda ou recolher grãos entre os escombros, enquanto
outras percorrem quilômetros sob fogo cruzado em busca de um pedaço de pão.
Cerca de 2.600 pessoas morreram e quase 20 mil foram feridas por disparos de
arma de fogo efetuados por agentes de segurança da Gaza Humanitarian Foundation
(GHF) ou pelas tropas de Israel enquanto buscavam alimentos.
O
sofrimento humano, nesse contexto, assume uma dimensão psicológica e coletiva:
famílias inteiras vivem sob trauma permanente, marcadas pela perda e pelo medo
constante. Crianças manifestam sintomas de colapso emocional, insônia, mutismo
e crises de ansiedade em um ambiente onde o ruído das explosões substituiu o
silêncio da noite. O cotidiano, esvaziado de qualquer segurança, tornou-se a
própria coreografia da precariedade: existir passou a significar sobreviver
entre ruínas.
A
recente libertação de Omar Yahya Al-Qarinawi, adolescente palestino com
autismo, provocou uma comoção internacional genuína, mas também revelou o
abismo moral que estrutura o olhar do mundo sobre o conflito. A imagem de sua
fragilidade exposta, após meses de encarceramento sem julgamento, deveria ter
despertado uma reflexão sobre a violência sistêmica que sustenta o regime de
ocupação. Contudo, a narrativa dominante limitou-se a tratar o episódio como
exceção humanitária e não como sintoma de uma política de aprisionamento em
massa.
Atualmente,
milhares de palestinos encontram-se detidos em prisões israelenses, incluindo
cerca de duzentas mulheres e seiscentas crianças e adolescentes, muitos
submetidos a tortura, isolamento e privações sistemáticas. Essa prática,
consolidada como técnica de governo, constitui uma das expressões mais
perversas do controle colonial. Nesse contexto, é inevitável evocar Hannah
Arendt, para quem o mal moderno se realiza na banalização da violência e na
indiferença moral de seus executores. A libertação de Omar, ainda que
celebrada, não interrompe o funcionamento dessa máquina desumanizadora, apenas
a expõe.
O
genocídio em Gaza, portanto, não é apenas um conflito regional, mas um reflexo
moral e estrutural da política contemporânea. Ao fim de dois anos, o enclave
tornou-se o epicentro visível da degradação ética e institucional do nosso
tempo, revelando como a lógica da segurança e do poder tem suplantado a própria
noção de humanidade. Gaza é hoje o espelho em que o sistema internacional se
contempla e fracassa, incapaz de afirmar os princípios que fundaram o direito e
a convivência global após 1945. Diante dessa barbárie, não há neutralidade
possível: o modo como os Estados e as instituições internacionais têm atuado
destrói não apenas o futuro da Palestina, mas o próprio sentido contemporâneo
de humanidade.
¨
A luta de médicos em Gaza para investigar 'sinais de
tortura' em corpos devolvidos por Israel
Sem
câmaras frias nem laboratório de DNA, a equipe forense do hospital Nasser,
em Gaza, tenta identificar e
examinar corpos devolvidos por Israel após o cessar-fogo.
Nos
últimos 11 dias, Israel devolveu 195
corpos palestinos em troca dos corpos de 13 reféns israelenses, conforme o
acordo de cessar-fogo mediado pelo presidente americano Donald Trump.
Fotografias
divulgadas pelas autoridades médicas locais mostram alguns corpos em estado de
decomposição avançada, muitos vestidos com roupas civis ou apenas com roupas
íntimas.
Muitos
possuem múltiplos sinais de ferimentos e têm os pulsos amarrados atrás das
costas. Outros, segundo relatam os médicos, chegaram vendados ou com panos
amarrados ao pescoço.
Com
poucos recursos, a equipe forense tenta esclarecer se houve tortura,
maus-tratos e quem são as vítimas.
Segundo
o chefe da unidade, Ahmed Dheir, uma das principais limitações é a falta de
espaço para refrigeração.
Os
corpos chegam a Gaza congelados e podem levar dias para descongelar. Nesse
tempo, a decomposição começa, o que impede exames básicos de identificação como
o histórico dentário, mas também exames mais complexos e detalhados, assim como
autópsias.
"A
situação é extremamente desafiadora", disse Dheir. "Se esperamos o
descongelamento, a decomposição começa quase de imediato, o que nos impede de
examinar os restos adequadamente. Por isso, a solução mais viável é coletar
amostras e documentar o estado dos corpos tal como chegam."
A BBC
analisou dezenas de fotos dos corpos, muitas delas compartilhadas pelas
autoridades de saúde de Gaza e outras feitas por profissionais locais.
Além
disso, a reportagem ouviu médicos do hospital, familiares de desaparecidos,
grupos de direitos humanos e autoridades israelenses.
Três
especialistas forenses externos, incluindo um especialista em tortura, também
foram consultados. Todos concordaram que as dúvidas só poderiam ser
esclarecidas com autópsias completas.
O
médico Alaa al-Astal, da equipe forense do hospital Nasser, relatou casos de
corpos com "sinais de tortura", como hematomas e marcas de amarras
nos pulsos e tornozelos.
"Houve
casos extremamente graves, em que a contenção foi tão apertada que o sangue
deixou de circular nas mãos, provocando dano nos tecidos e marcas nítidas de
pressão nos pulsos e tornozelos", disse.
"Mesmo
ao redor dos olhos, quando as vendas foram retiradas, era possível ver sulcos
profundos, imagine a força necessária para isso. A pressão deixou marcas
visíveis no ponto em que a venda foi amarrada."
Astal
mencionou ainda corpos com panos no pescoço de alguns corpos, que exigem
investigação adicional.
"Em
um dos casos, havia um sulco no pescoço", afirmou. "Para determinar
se a morte ocorreu por enforcamento ou estrangulamento, precisaríamos realizar
uma autópsia, mas, como o corpo estava congelado, o exame não foi feito."
Sameh
Yassin Hamad, integrante do comitê do governo controlado pelo Hamas, responsável por
receber os corpos, disse que havia sinais de hematomas e infiltrações de sangue
que indicam espancamentos severos antes da morte. Ele disse ainda que alguns
corpos apresentavam ferimentos de faca no peito ou no rosto.
Em
algumas das imagens obtidas pela BBC, é possível ver marcas profundas e lacres
plásticos apertados nos pulsos, braços e tornozelos. Uma das fotos revela
escoriações e hematomas compatíveis com o uso das amarras enquanto a pessoa
ainda estava viva.
Em
outros casos, os corpos exibiam apenas marcas, o que exigiria autópsia para
determinar se as amarras foram aplicadas antes ou depois da morte. O uso de
lacres plásticos é comum em Israel no transporte de corpos.
O
Exército israelense, ao ser questionado,
afirmou agir "em estrita conformidade com o direito internacional".
A BBC
também mostrou as fotografias recebidas a peritos forenses consultados fora da
região. As fotos analisadas pela reportagem representam uma pequena parte dos
corpos transferidos para Gaza pelo Comitê Internacional da Cruz Vermelha.
Três
especialistas forenses consultados pela BBC disseram que as marcas levantam
dúvidas sobre o que ocorreu, mas destacaram ser impossível chegar a conclusões
firmes sobre abuso ou tortura sem autópsias.
"O
que está acontecendo em Gaza é uma emergência forense internacional",
afirmou Michael Pollanen, patologista forense e professor da Universidade de
Toronto (Canadá).
"Com
base em imagens como essas, é imperativo realizar autópsias completas.
Precisamos conhecer a verdade sobre como as mortes ocorreram, e a única forma
de saber é por meio das autópsias", afirma Pollanen.
Mesmo
com dados forenses limitados, médicos do hospital Nasser dizem que o padrão de
algemar os pulsos atrás do corpo, somado às marcas observadas nos membros,
indica tortura.
"Quando
uma pessoa está nua, com as mãos amarradas atrás das costas e marcas visíveis
de contenção nos pulsos e tornozelos, isso indica que morreu nessa
posição", disse o médico Ahmed Dheir. "É uma violação do direito
internacional."
Há
também indícios consistentes de abuso generalizado de detentos — inclusive
civis — sob custódia israelense nos meses seguintes ao início da guerra, em
outubro de 2023, sobretudo nas instalações militares de Sde Teiman, no sul de
Israel, próxima à Faixa de Gaza.
Segundo
Naji Abbas, diretor do Programa de Prisioneiros e Detentos da organização
israelense de direitos humanos Physicians for Human Rights (Médicos por
Direitos Humanos de Israel, em tradução livre), "pelo menos nos primeiros
oito meses da guerra, os detentos de Gaza ficaram algemados com as mãos para
trás e com os olhos cobertos, 24 horas por dia, sete dias por semana, durante
meses".
"Sabemos
que muitos desenvolveram infecções graves na pele, nas mãos e nas pernas por
causa das algemas."
A BBC
ouviu várias pessoas que trabalharam na base militar de Sde Teiman nos últimos
dois anos, que confirmaram que os detentos eram mantidos algemados nas mãos e
nos pés — mesmo durante atendimentos médicos, inclusive cirurgias.
Um
profissional de saúde que atuou no local disse ter feito campanha para que as
algemas fossem afrouxadas e classificou o tratamento dado aos detentos como
"desumanização".
Muitos
dos detidos durante a guerra em Gaza são mantidos como "combatentes
ilegais", sem acusação formal.
Um dos
desafios agora é determinar quais dos corpos devolvidos são de combatentes do
Hamas mortos em confronto, quais são civis e quais seriam detentos que morreram
sob custódia israelense, afirmam os médicos do hospital Nasser.
Alguns
corpos devolvidos por Israel ainda trazem faixas do Hamas na cabeça ou calçados
militares, mas, segundo os médicos, a maioria está nua ou em roupas civis, o
que dificulta identificar o papel de cada um, interpretar os ferimentos e
avaliar possíveis violações de direitos humanos.
Fotos
analisadas pela BBC mostram corpos em decomposição ou completamente nus. Um
deles, vestido com roupas civis e tênis, apresenta dois pequenos ferimentos de
bala nas costas, segundo autoridades locais.
Sameh
Yassin Hamad, do Comitê Forense de Gaza, afirmou que Israel enviou
identificação para apenas 6 dos 195 corpos devolvidos, e que cinco desses nomes
estavam errados.
"Como
esses corpos ficaram sob custódia das autoridades israelenses, elas têm todos
os dados sobre eles", disse o médico Ahmed Dheir. "Mas não
compartilharam essas informações conosco por meio da Cruz Vermelha. Recebemos
perfis genéticos de cerca de metade dos mortos, mas não há qualquer dado sobre
datas ou circunstâncias das mortes, nem sobre o momento ou o local das
detenções."
A BBC
questionou o exército israelense sobre os detalhes da investigação, incluindo a
acusação da equipe forense de Gaza de que Israel teria removido dedos de alguns
corpos para testes de DNA.
O
Exército israelense afirmou que "todos os corpos devolvidos até agora são
de combatentes dentro da Faixa de Gaza" e negou ter amarrado qualquer um
deles antes da entrega.
Na
quarta-feira (22/10), Shosh Bedrosian, porta-voz do gabinete do
primeiro-ministro de Israel, classificou os
relatos vindos de Gaza como "mais um esforço para demonizar Israel" e
sugeriu que a imprensa deveria concentrar-se na situação dos reféns
israelenses.
Enquanto
famílias de desaparecidos se reúnem diante dos portões do hospital Nasser, o
médico Ahmed Dheir e sua equipe enfrentam forte pressão para identificar os
mortos e esclarecer o que aconteceu com eles.
Até
agora, cerca de 50 corpos foram identificados — em geral por características
básicas, como altura, idade e ferimentos anteriores visíveis. Outros 54 foram
enterrados sem identificação nem reivindicação, devido à falta de espaço na
unidade.
Muitos
parentes de desaparecidos acompanharam o enterro dos corpos não identificados
nesta semana, na esperança de que um deles fosse de seus familiares.
"É
difícil enterrar um corpo sem saber se é realmente o da pessoa certa",
disse Rami al-Faraa, que ainda procura o primo.
"Se
houvesse exame [de DNA], saberíamos onde ele está — sim ou não", afirmou
Houwaida Hamad, em busca do sobrinho.
"Minha
irmã saberia se o que estamos enterrando é mesmo o filho dela ou não."
O
acordo de cessar-fogo mediado por Trump trouxe algum alívio para Gaza, mas
pouco consolo para a maioria das famílias dos desaparecidos, muitas delas
enterrando um corpo no lugar de um irmão, marido ou filho.
Fonte: Juan
Filipe Loureiro Magalhães , em Le Monda/BBC News em Jerusalém

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