segunda-feira, 27 de outubro de 2025

ESTADO PALESTINO: A algoritmização da morte e o paradigma da “guerra” permanente

Os novos assassinatos de palestinos em Gaza ocorridos após o anúncio do cessar-fogo mediado por Donald Trump nos lembram da fragilidade extrema dos processos de paz na região. O mundo espera, com ceticismo, o desfecho de mais um capítulo desta guerra interminável que antecede, em muito, a violência do 7 de outubro de 2023 e que dificilmente terminará sem a concretização de um Estado Palestino livre e soberano. A cada trégua rompida, a cada vida interrompida, torna-se um imperativo moral fazermos um balanço destes dois anos de horror sistemático.

Desde os primeiros dias da ofensiva, o discurso oficial israelense sinalizou a natureza totalizante da operação. Embora o governo de Israel tenha declarado que o objetivo da operação era unicamente a destruição das capacidades militares do Hamas, a retórica e as ações sugeriram algo mais abrangente. Nas palavras do próprio ministro de defesa de Israel, Yoav Gallant, proferidas em 9 de outubro de 2023: “Estamos impondo um cerco total à Gaza. Sem eletricidade, sem comida, sem água, sem gás, tudo bloqueado. Estamos lutando contra animais e agimos em conformidade”. A declaração, amplamente divulgada por veículos de imprensa internacionais, inaugurou uma política de cerco absoluto e de desumanização institucionalizada. Talvez a guerra nunca tenha sido uma resposta militar ao Hamas, mas sim um projeto de aniquilação coletiva, conduzido sob a lógica colonial de punição e erradicação.

Em outubro de 2025, o massacre na Faixa de Gaza completou dois anos. O conflito rapidamente transformou-se em um processo de devastação sem precedentes no século XXI. Em um território de apenas 365 km², habitado por cerca de 2,2 milhões de pessoas, foram lançadas quase 85 mil toneladas de explosivos. A intensidade dos ataques torna a região o território mais devastado per capita e por área de que se tem registro na era contemporânea.

Segundo o Ministério da Saúde local, 67 mil pessoas foram mortas desde o início da ofensiva, além de provavelmente uma dezena de milhares que estão sob os escombros. Entre as vítimas, 30 mil mulheres e meninas e 18 mil crianças e adolescentes. Outras 170 mil pessoas ficaram feridas, e o enclave registra hoje o maior número de crianças amputadas do mundo, com mais de 4 mil casos. Aproximadamente 80% dos edifícios e residências foram destruídos ou danificados. O volume de entulho de construção atinge 50 milhões de  toneladas, ou cerca de 137 quilos por metro quadrado, número 14 vezes maior do que o total de detritos gerados por todos os conflitos armados do mundo desde 2008.

A dimensão humanitária da tragédia é igualmente alarmante. Estima-se que 500 mil pessoas, cerca de 22% da população, vivem em situação de fome extrema. A destruição de sistemas de água, energia e saúde, associada ao bloqueio quase total de insumos, agravou o colapso sanitário e empurrou a população para condições de sobrevivência precárias. Segundo a revista The Lancet (2025), a expectativa de vida dos homens caiu de 75,5 para 36 anos, e a das mulheres de 75,5 para 44 anos.

O genocídio em Gaza também nos apresentou a militarização da inteligência artificial e a algoritmização da morte (MAGALHÃES, 2025), processo pelo qual a decisão sobre quem vive e quem morre é mediada por sistemas automatizados de vigilância, cálculo e seleção de alvos. Drones, bancos de dados biométricos e softwares de rastreamento transformam a eliminação de corpos em uma operação estatística, esvaziada de responsabilidade moral. A “guerra”, nesse sentido, torna-se um exercício de administração tecnológica da vida, em que a morte é produzida com precisão matemática e legitimada pela linguagem da eficiência. A racionalidade algorítmica, ao reduzir a existência humana a parâmetros de risco e probabilidade, consolida a desumanização como política de Estado e insere o genocídio palestino na lógica mais ampla da governança automatizada da violência, típica do século XXI.

O colapso humanitário em Gaza manifesta-se também na experiência cotidiana da fome e do desespero. As longas filas por alimentos e água, muitas vezes sob bombardeios, transformaram o que deveria ser a busca por sobrevivência em um ato letal. Relatos de agências humanitárias descrevem pessoas mortas ao tentar alcançar caminhões de ajuda ou recolher grãos entre os escombros, enquanto outras percorrem quilômetros sob fogo cruzado em busca de um pedaço de pão. Cerca de 2.600 pessoas morreram e quase 20 mil foram feridas por disparos de arma de fogo efetuados por agentes de segurança da Gaza Humanitarian Foundation (GHF) ou pelas tropas de Israel enquanto buscavam alimentos.

O sofrimento humano, nesse contexto, assume uma dimensão psicológica e coletiva: famílias inteiras vivem sob trauma permanente, marcadas pela perda e pelo medo constante. Crianças manifestam sintomas de colapso emocional, insônia, mutismo e crises de ansiedade em um ambiente onde o ruído das explosões substituiu o silêncio da noite. O cotidiano, esvaziado de qualquer segurança, tornou-se a própria coreografia da precariedade: existir passou a significar sobreviver entre ruínas.

A recente libertação de Omar Yahya Al-Qarinawi, adolescente palestino com autismo, provocou uma comoção internacional genuína, mas também revelou o abismo moral que estrutura o olhar do mundo sobre o conflito. A imagem de sua fragilidade exposta, após meses de encarceramento sem julgamento, deveria ter despertado uma reflexão sobre a violência sistêmica que sustenta o regime de ocupação. Contudo, a narrativa dominante limitou-se a tratar o episódio como exceção humanitária e não como sintoma de uma política de aprisionamento em massa.

Atualmente, milhares de palestinos encontram-se detidos em prisões israelenses, incluindo cerca de duzentas mulheres e seiscentas crianças e adolescentes, muitos submetidos a tortura, isolamento e privações sistemáticas. Essa prática, consolidada como técnica de governo, constitui uma das expressões mais perversas do controle colonial. Nesse contexto, é inevitável evocar Hannah Arendt, para quem o mal moderno se realiza na banalização da violência e na indiferença moral de seus executores. A libertação de Omar, ainda que celebrada, não interrompe o funcionamento dessa máquina desumanizadora, apenas a expõe.

O genocídio em Gaza, portanto, não é apenas um conflito regional, mas um reflexo moral e estrutural da política contemporânea. Ao fim de dois anos, o enclave tornou-se o epicentro visível da degradação ética e institucional do nosso tempo, revelando como a lógica da segurança e do poder tem suplantado a própria noção de humanidade. Gaza é hoje o espelho em que o sistema internacional se contempla e fracassa, incapaz de afirmar os princípios que fundaram o direito e a convivência global após 1945. Diante dessa barbárie, não há neutralidade possível: o modo como os Estados e as instituições internacionais têm atuado destrói não apenas o futuro da Palestina, mas o próprio sentido contemporâneo de humanidade.

¨      A luta de médicos em Gaza para investigar 'sinais de tortura' em corpos devolvidos por Israel

Sem câmaras frias nem laboratório de DNA, a equipe forense do hospital Nasser, em Gaza, tenta identificar e examinar corpos devolvidos por Israel após o cessar-fogo.

Nos últimos 11 dias, Israel devolveu 195 corpos palestinos em troca dos corpos de 13 reféns israelenses, conforme o acordo de cessar-fogo mediado pelo presidente americano Donald Trump.

Fotografias divulgadas pelas autoridades médicas locais mostram alguns corpos em estado de decomposição avançada, muitos vestidos com roupas civis ou apenas com roupas íntimas.

Muitos possuem múltiplos sinais de ferimentos e têm os pulsos amarrados atrás das costas. Outros, segundo relatam os médicos, chegaram vendados ou com panos amarrados ao pescoço.

Com poucos recursos, a equipe forense tenta esclarecer se houve tortura, maus-tratos e quem são as vítimas.

Segundo o chefe da unidade, Ahmed Dheir, uma das principais limitações é a falta de espaço para refrigeração.

Os corpos chegam a Gaza congelados e podem levar dias para descongelar. Nesse tempo, a decomposição começa, o que impede exames básicos de identificação como o histórico dentário, mas também exames mais complexos e detalhados, assim como autópsias.

"A situação é extremamente desafiadora", disse Dheir. "Se esperamos o descongelamento, a decomposição começa quase de imediato, o que nos impede de examinar os restos adequadamente. Por isso, a solução mais viável é coletar amostras e documentar o estado dos corpos tal como chegam."

A BBC analisou dezenas de fotos dos corpos, muitas delas compartilhadas pelas autoridades de saúde de Gaza e outras feitas por profissionais locais.

Além disso, a reportagem ouviu médicos do hospital, familiares de desaparecidos, grupos de direitos humanos e autoridades israelenses.

Três especialistas forenses externos, incluindo um especialista em tortura, também foram consultados. Todos concordaram que as dúvidas só poderiam ser esclarecidas com autópsias completas.

O médico Alaa al-Astal, da equipe forense do hospital Nasser, relatou casos de corpos com "sinais de tortura", como hematomas e marcas de amarras nos pulsos e tornozelos.

"Houve casos extremamente graves, em que a contenção foi tão apertada que o sangue deixou de circular nas mãos, provocando dano nos tecidos e marcas nítidas de pressão nos pulsos e tornozelos", disse.

"Mesmo ao redor dos olhos, quando as vendas foram retiradas, era possível ver sulcos profundos, imagine a força necessária para isso. A pressão deixou marcas visíveis no ponto em que a venda foi amarrada."

Astal mencionou ainda corpos com panos no pescoço de alguns corpos, que exigem investigação adicional.

"Em um dos casos, havia um sulco no pescoço", afirmou. "Para determinar se a morte ocorreu por enforcamento ou estrangulamento, precisaríamos realizar uma autópsia, mas, como o corpo estava congelado, o exame não foi feito."

Sameh Yassin Hamad, integrante do comitê do governo controlado pelo Hamas, responsável por receber os corpos, disse que havia sinais de hematomas e infiltrações de sangue que indicam espancamentos severos antes da morte. Ele disse ainda que alguns corpos apresentavam ferimentos de faca no peito ou no rosto.

Em algumas das imagens obtidas pela BBC, é possível ver marcas profundas e lacres plásticos apertados nos pulsos, braços e tornozelos. Uma das fotos revela escoriações e hematomas compatíveis com o uso das amarras enquanto a pessoa ainda estava viva.

Em outros casos, os corpos exibiam apenas marcas, o que exigiria autópsia para determinar se as amarras foram aplicadas antes ou depois da morte. O uso de lacres plásticos é comum em Israel no transporte de corpos.

O Exército israelense, ao ser questionado, afirmou agir "em estrita conformidade com o direito internacional".

A BBC também mostrou as fotografias recebidas a peritos forenses consultados fora da região. As fotos analisadas pela reportagem representam uma pequena parte dos corpos transferidos para Gaza pelo Comitê Internacional da Cruz Vermelha.

Três especialistas forenses consultados pela BBC disseram que as marcas levantam dúvidas sobre o que ocorreu, mas destacaram ser impossível chegar a conclusões firmes sobre abuso ou tortura sem autópsias.

"O que está acontecendo em Gaza é uma emergência forense internacional", afirmou Michael Pollanen, patologista forense e professor da Universidade de Toronto (Canadá).

"Com base em imagens como essas, é imperativo realizar autópsias completas. Precisamos conhecer a verdade sobre como as mortes ocorreram, e a única forma de saber é por meio das autópsias", afirma Pollanen.

Mesmo com dados forenses limitados, médicos do hospital Nasser dizem que o padrão de algemar os pulsos atrás do corpo, somado às marcas observadas nos membros, indica tortura.

"Quando uma pessoa está nua, com as mãos amarradas atrás das costas e marcas visíveis de contenção nos pulsos e tornozelos, isso indica que morreu nessa posição", disse o médico Ahmed Dheir. "É uma violação do direito internacional."

Há também indícios consistentes de abuso generalizado de detentos — inclusive civis — sob custódia israelense nos meses seguintes ao início da guerra, em outubro de 2023, sobretudo nas instalações militares de Sde Teiman, no sul de Israel, próxima à Faixa de Gaza.

Segundo Naji Abbas, diretor do Programa de Prisioneiros e Detentos da organização israelense de direitos humanos Physicians for Human Rights (Médicos por Direitos Humanos de Israel, em tradução livre), "pelo menos nos primeiros oito meses da guerra, os detentos de Gaza ficaram algemados com as mãos para trás e com os olhos cobertos, 24 horas por dia, sete dias por semana, durante meses".

"Sabemos que muitos desenvolveram infecções graves na pele, nas mãos e nas pernas por causa das algemas."

A BBC ouviu várias pessoas que trabalharam na base militar de Sde Teiman nos últimos dois anos, que confirmaram que os detentos eram mantidos algemados nas mãos e nos pés — mesmo durante atendimentos médicos, inclusive cirurgias.

Um profissional de saúde que atuou no local disse ter feito campanha para que as algemas fossem afrouxadas e classificou o tratamento dado aos detentos como "desumanização".

Muitos dos detidos durante a guerra em Gaza são mantidos como "combatentes ilegais", sem acusação formal.

Um dos desafios agora é determinar quais dos corpos devolvidos são de combatentes do Hamas mortos em confronto, quais são civis e quais seriam detentos que morreram sob custódia israelense, afirmam os médicos do hospital Nasser.

Alguns corpos devolvidos por Israel ainda trazem faixas do Hamas na cabeça ou calçados militares, mas, segundo os médicos, a maioria está nua ou em roupas civis, o que dificulta identificar o papel de cada um, interpretar os ferimentos e avaliar possíveis violações de direitos humanos.

Fotos analisadas pela BBC mostram corpos em decomposição ou completamente nus. Um deles, vestido com roupas civis e tênis, apresenta dois pequenos ferimentos de bala nas costas, segundo autoridades locais.

Sameh Yassin Hamad, do Comitê Forense de Gaza, afirmou que Israel enviou identificação para apenas 6 dos 195 corpos devolvidos, e que cinco desses nomes estavam errados.

"Como esses corpos ficaram sob custódia das autoridades israelenses, elas têm todos os dados sobre eles", disse o médico Ahmed Dheir. "Mas não compartilharam essas informações conosco por meio da Cruz Vermelha. Recebemos perfis genéticos de cerca de metade dos mortos, mas não há qualquer dado sobre datas ou circunstâncias das mortes, nem sobre o momento ou o local das detenções."

A BBC questionou o exército israelense sobre os detalhes da investigação, incluindo a acusação da equipe forense de Gaza de que Israel teria removido dedos de alguns corpos para testes de DNA.

O Exército israelense afirmou que "todos os corpos devolvidos até agora são de combatentes dentro da Faixa de Gaza" e negou ter amarrado qualquer um deles antes da entrega.

Na quarta-feira (22/10), Shosh Bedrosian, porta-voz do gabinete do primeiro-ministro de Israel, classificou os relatos vindos de Gaza como "mais um esforço para demonizar Israel" e sugeriu que a imprensa deveria concentrar-se na situação dos reféns israelenses.

Enquanto famílias de desaparecidos se reúnem diante dos portões do hospital Nasser, o médico Ahmed Dheir e sua equipe enfrentam forte pressão para identificar os mortos e esclarecer o que aconteceu com eles.

Até agora, cerca de 50 corpos foram identificados — em geral por características básicas, como altura, idade e ferimentos anteriores visíveis. Outros 54 foram enterrados sem identificação nem reivindicação, devido à falta de espaço na unidade.

Muitos parentes de desaparecidos acompanharam o enterro dos corpos não identificados nesta semana, na esperança de que um deles fosse de seus familiares.

"É difícil enterrar um corpo sem saber se é realmente o da pessoa certa", disse Rami al-Faraa, que ainda procura o primo.

"Se houvesse exame [de DNA], saberíamos onde ele está — sim ou não", afirmou Houwaida Hamad, em busca do sobrinho.

"Minha irmã saberia se o que estamos enterrando é mesmo o filho dela ou não."

O acordo de cessar-fogo mediado por Trump trouxe algum alívio para Gaza, mas pouco consolo para a maioria das famílias dos desaparecidos, muitas delas enterrando um corpo no lugar de um irmão, marido ou filho.

 

Fonte: Juan Filipe Loureiro Magalhães , em Le Monda/BBC News em Jerusalém

 

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