sábado, 27 de junho de 2026

'Se você não resiste ao imperialismo, você termina sendo subjugado', diz pré-candidato do PCB

O Partido Comunista Brasileiro (PCB) lançou a pré-candidatura do economista e professor universitário Edmilson Costa à Presidência da República para as eleições de 2026. Em entrevista à Sputnik Brasil, ele apresentou o programa do partido e defendeu que o Brasil está "maduro para o socialismo".

Natural do interior do Maranhão, Costa é militante do PCB desde o início da década de 1970. Preso em 1974 durante a ditadura militar, foi forçado a se transferir para São Paulo, onde exerceu o jornalismo antes de se dedicar à economia. "Enfrentei a ditadura no período mais duro dela."

"Como todo jovem daquela época que enfrentava a ditadura, paguei aquele preço que todos pagam quando enfrentam o regime autoritário."

<><> Por que tantos partidos de esquerda?

PCO, PT, PSTU, PCdoB, PCB, UP e PSOL são siglas que dizem defender um campo ideológico com semelhanças, mas que chegam às eleições de 2026 fragmentadas, de acordo com o pré-candidato do PCB. Essa fragmentação reflete as contradições da sociedade e os efeitos de "36 anos de neoliberalismo", segundo ele.

"O Brasil tem o segundo maior proletariado do continente. Quando esse proletariado tomar consciência da sua força e da sua capacidade de transformação, nós vamos dar um salto de qualidade no processo de luta do nosso país pelas transformações sociais."

Para Edmilson Costa, no entanto, o PCB é "o único partido da esquerda revolucionária que tem um programa" estruturado, em contraste com outros partidos com "um conjunto de palavras de ordem, mas sem programa".

Costa relatou que o partido, fundado em 1922, teve figuras como Luís Carlos Prestes, Gregório Bezerra e Davi Capistrano como exemplos de militantes com "firmeza ideológica" que, segundo ele, falta às lideranças políticas contemporâneas, inclusive ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

Para Costa, as lideranças que emergiram das greves do ABC no final dos anos 1970 "foram forjadas na luta, mas não alcançaram a ideologia do proletariado" e "terminaram se perdendo na conciliação de classe".

Costa destacou também a figura de João Saldanha, técnico da seleção brasileira que preparou o elenco campeão do mundo em 1970 e que apoiou a luta dos camponeses de Porecatu (PR) na década de 1950. Ele lembrou que Saldanha foi afastado da seleção pelo general Emílio Médici por ser "um comunista declarado".

<><> O porquê da candidatura

Costa defende a participação no primeiro turno afirmando que esse é o momento em que os partidos apresentam suas propostas, diferente de "como acontece nos Estados Unidos, que é apenas duas candidaturas em termos práticos, onde a população não tem muita opção".

Ele propõe a extinção do Senado Federal e a criação de um parlamento unicameral. A justificativa é que o Senado transforma "maiorias sociais em minorias políticas" ao dar o mesmo número de senadores a estados com populações muito diferentes.

No novo modelo proposto pelo PCB, 50% do parlamento seria eleito pelo voto universal e 50% por representantes do movimento popular, sindical e da juventude.

Costa também defende mandatos fixos de dez anos para ministros dos tribunais superiores e regionais, em substituição ao modelo atual, no qual os magistrados permanecem no cargo até a aposentadoria compulsória. "Não tem sentido os ministros dos tribunais superiores ficarem a vida inteira como juízes."

<><> Regulação da mídia

Sobre os meios de comunicação, Costa afirmou que o setor é controlado por cerca de sete famílias e que se tornou "uma espécie de partido político do que há demais atrasado na sociedade brasileira".

O programa do PCB prevê criar lei geral de comunicação para quebrar monopólios e transformá-los em cooperativas de trabalhadores. O pré-candidato propõe ainda a estatização do sistema de telecomunicações, telefonia e internet, "de forma a abrir espaço para uma nova era de comunicação onde o processo de comunicação não seja dirigido pelas classes dominantes reacionárias, mas seja dirigido pelos próprios trabalhadores".

<><> Política internacional

Costa destacou a luta contra o imperialismo, a solidariedade a Cuba, ao Irã e à Palestina, e reformas estruturais em direção ao poder popular e ao socialismo.

Na área mineral, o pré-candidato defendeu a estatização de todo o setor, argumentando que a Constituição já determina que os recursos do subsolo pertencem ao país, e ressaltou que o Brasil é o segundo país do mundo em volume de terras raras, insumo estratégico para o desenvolvimento tecnológico.

"Nós temos que deixar de ser exportadores de pedra para ser exportadores de produtos industrializados", declarou. "O Estado deve colocar esses recursos a serviço da população".

O programa do pré-candidato também prevê reforma agrária, via desapropriação de todas as terras improdutivas, com trabalho escravo e histórico de desmatamento, e propõe a revogação da legislação neoliberal, em especial a Lei de Responsabilidade Fiscal, e a criação de uma "lei de responsabilidade social".

Para ele, inclusive, é preciso colocar um teto na jornada de trabalho para 30 horas semanais sem redução salarial, dez horas a menos que a proposta do governo federal em tramitação.

Em relação à dívida brasileira, Costa comentou que cerca de 70% da dívida atual é de natureza puramente financeira, gerada pelas altas taxas de juros, guiada pelo mercado internacional.

"Essa dívida que o Brasil tem hoje foi feita para construir escolas? Não foi. Foi feita para construir estradas? Não foi."

Costa citou que, de janeiro de 2025 a janeiro de 2026, o Brasil pagou R$ 1 trilhão em juros da dívida interna. Para o PCB, o não pagamento da dívida viabilizaria elevar, em cinco anos, o salário mínimo ao nível calculado pelo Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese): em torno de R$ 7.800.

"Como se explica que o salário no Uruguai é 750 dólares, na Costa Rica é 760 dólares, que são países pequenos sem o peso industrial que o Brasil tem, e aqui no Brasil você tem um salário de 300 dólares?”

Na saúde, o PCB propõe estatizar todo o sistema privado e a universalização do atendimento público gratuito e, na educação, o pré-candidato defende a incorporação das universidades privadas ao sistema público.

Na segurança pública, Costa defende a desmilitarização das polícias, que segundo ele "foram educadas para perseguir pobres e pretos nas periferias”, e a criação de conselhos populares para "proteger a população e não reprimir".

Costa também criticou propostas de redução da maioridade penal, afirmando que o Brasil já possui uma das maiores populações carcerárias do mundo e que "fazer presídio só vai gastar mais dinheiro e encarcerar mais gente e não vai resolver o problema".

<><> Por que os EUA querem classificar PCC e CV como terroristas?

Questionado sobre recente decisão do governo dos Estados Unidos quanto as facções criminosas brasileiras, o pré-candidato relacionou o problema da criminalidade ao tráfico internacional de armas, afirmando que "o maior fornecedor de armas para a criminalidade são os Estados Unidos".

Na avaliação dele, há uma incoerência americana ao não controlar o contrabando de armas e simultaneamente classificar facções criminosas como terroristas. "Com isso eles abrem um pretexto legal para poder intervir nos países", disse.

O pré-candidato criticou o senador e pré-candidato a presidente Flávio Bolsonaro (PL-RJ), a quem chamou de "capacho dos Estados Unidos" e "quinta coluna no interior do Brasil" por ter defendido, segundo Costa, a intervenção de uma nação estrangeira no país.

Quanto às Forças Armadas, Costa defende reformas profundas na Academia Militar das Agulhas Negras (AMAN) e na Escola Superior de Guerra para reorientar a formação dos oficiais.

Segundo ele, as forças armadas da América Latina, incluindo as brasileiras, foram formadas pela doutrina de segurança nacional, que define "o inimigo interno”, como "os comunistas, os democratas, os socialistas" como alvo.

O pré-candidato citou o 8 de janeiro de 2023 como evidência dessa deformação institucional. "Nós vimos ali o quanto de oficiais das Forças Armadas que estavam implicados naquilo.”

Ele admitiu que as propostas do PCB entrariam em confronto direto com os interesses de Washington, caso fosse eleito, mas avaliou que os Estados Unidos "vivem uma crise muito grande" de dominação.

"O Vietnã era um país camponês e também resistiu com imenso sacrifício. Portanto, se você não resiste ao imperialismo, você termina sendo subjugado pelo imperialismo", declarou.

O pré-candidato defendeu que o Brasil, pelo seu tamanho e suas riquezas, "tem condição de se impor no cenário internacional", e que a ordem econômica do pós-Segunda Guerra Mundial já não é mais vigente.

Para ele, aprofundar relações com o BRICS é uma estratégia para reduzir a capacidade dos americanos de "chantagear e impor seus interesses" no Brasil. "Os BRICS têm um peso econômico maior do que o G7", finalizou.

•        Política 'mão firme' anunciada por presidente eleito da Colômbia é velha e perigosa, dizem analistas

O presidente eleito da Colômbia, Abelardo de la Espriella, deu um mês para que grupos criminosos deponham as armas e afirmou que não haverá "concessões". Especialistas consultados pela Sputnik alertaram para os possíveis efeitos de políticas de "mão firme" com apoio e participação dos Estados Unidos e Israel em operações e bombardeios.

Em seu primeiro discurso como presidente eleito, Espriella assegurou que quem permanecer à margem da lei, será combatido com "absoluta severidade".

"Àquelas pessoas que estão à margem da lei, deixo uma mensagem categórica: vocês têm um mês para recobrar o juízo. Todos os que atuam na ilegalidade dispõem de um mês para organizar sua submissão ao Estado de Direito", declarou o presidente eleito, que assumirá a presidência em 7 de agosto e governará até 2030.

A "a conivência do atual governo com o crime organizado é repugnante e vergonhosa", disse ele em seu governo "não haverá ofertas generosas nem concessões inaceitáveis" e prevalecerá a lei e "somente o império da lei", garantiu.

Em entrevista à Sputnik, o analista político colombiano Alejandro Blanco afirmou que a vitória eleitoral de la Espriella se explica pelas "enormes dificuldades que o país enfrentou nos últimos anos devido aos problemas de segurança" e pelo aumento da área cultivada com folhas de coca e de crimes como extorsão e homicídios nas grandes cidades.

No entanto, ele advertiu que "a promessa de mão firme de Abelardo de la Espriella traz uma série de implicações":

"A Colômbia já enfrentou graves problemas em razão do excesso de mão firme, como os chamados falsos positivos, ou seja, execuções extrajudiciais de pessoas protegidas", destacou o analista, especialista em conflito armado e nos processos de paz.

Para Blanco, o enfrentamento direto contra as organizações armadas que ainda atuam no país, como o Exército de Libertação Nacional (ELN) e o Clã do Golfo, entre outras, tem causado graves prejuízos à população civil que vive nas áreas próximas aos confrontos.

Ele frisou que o governo de Gustavo Petro cometeu "erros" desse tipo ao provocar a morte de crianças em consequência de bombardeios realizados em algumas regiões do país.

"De uma forma ou de outra, essas organizações criminosas usam a população civil como escudo para reduzir o impacto das ações das forças do Estado", explicou.

Intervenções militares que não consideram aspectos humanitários acabam "gerando muito mais violência" em determinadas regiões do país.

Um novo "Plano Colômbia" com os EUA e Israel

A chegada de De la Espriella à Casa de Nariño também abre a possibilidade de uma reedição do Plano Colômbia, acordo firmado entre a Colômbia e os Estados Unidos no fim da década de 1990, que permitiu a participação norte-americana no combate aos grupos armados e ao narcotráfico, além do envio de aproximadamente US$ 4,5 bilhões (R$ 25 bilhões) ao país, principalmente em assistência militar.

Abelardo de la Espriella anunciou em diversas entrevistas que, a partir do dia seguinte à sua posse, ordenará "a fumigação dos 330 mil hectares de coca" cultivados no território colombiano e "o bombardeio de todos os acampamentos de narcoterroristas".

As propostas apresentadas tratam de implementação de um "Plano Colômbia 2.0", com objetivo de fortalecer o combate ao narcotráfico e, em especial, impedir a entrada no país de insumos utilizados na fabricação de fentanil. A plataforma do presidente eleito afirma que esse programa contará não apenas com o apoio dos Estados Unidos, mas também de Israel.

Em entrevista à Sputnik, o especialista colombiano em segurança Luis Trejos afirmou que é provável que tanto os EUA quanto Israel forneçam "informações de inteligência" que já haviam coletado, mas que não compartilharam com o governo de Gustavo Petro em razão das tensões políticas ocorridas nos últimos anos.

Para Alejandro Blanco, também é possível que os Estados Unidos e Israel disponibilizem aeronaves e pilotos para os bombardeios contra bases de grupos criminosos bem como atuação direta de agentes estrangeiros, como ocorreu no início de junho, na Venezuela, contra o líder criminoso Héctor Rusthenford Guerrero Flores, conhecido como "Niño Guerrero".

Trejos advertiu, no entanto, que os planos de De la Espriella podem esbarrar nas dificuldades financeiras enfrentadas atualmente pelo Estado colombiano, o que provavelmente o obrigará a estabelecer prioridades entre as diferentes ações previstas.

"A realidade é que o presidente eleito encontrará um setor de defesa sem recursos suficientes e com capacidades limitadas, o que não lhe permitirá iniciar múltiplas ofensivas militares em todo o território nacional. Ele terá de definir prioridades", explicou o especialista.

Trejos considerou que, nesse sentido, será fundamental acompanhar quem o novo presidente nomeará para os cargos de ministro da Defesa e alto comissário para a Paz, pois essas escolhas definirão o perfil da atuação do governo nessas áreas.

<><> O futuro da Jurisdição Especial para a Paz

Essas nomeações também serão decisivas para compreender como o novo governo conduzirá as negociações de paz já em andamento com grupos armados, iniciadas em 2016 e que o atual presidente, Gustavo Petro, procurou fortalecer por meio da política de Paz Total.

Durante a campanha, Abelardo de la Espriella foi enfático ao manifestar sua intenção de "eliminar" a Jurisdição Especial para a Paz (JEP), um sistema de justiça de transição criado pelo acordo de paz de 2016 para julgar crimes cometidos no contexto do conflito armado.

Segundo ele, a JEP beneficiou ex-integrantes das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC) e foi utilizada pelo atual governo para processar o ex-presidente Álvaro Uribe Vélez (2002–2010).

Alejandro Blanco destacou que a extinção da JEP tem sido um objetivo recorrente do uribismo nos últimos anos, especialmente desde que o tribunal passou a investigar denúncias relacionadas aos mais de 6 mil "falsos positivos" — execuções extrajudiciais atribuídas ao período do governo Uribe.

No entanto, o analista considera difícil que o novo presidente consiga cumprir a promessa, já que o acordo de paz de 2016 conferiu à JEP status constitucional, o que exigiria a aprovação de emendas à Constituição para extinguir esse sistema. Por sua vez, Luis Trejos afirmou que o futuro governo não é obrigado a dar continuidade às negociações de paz iniciadas a partir de 2016, que deve passar por reavaliação do estágio em que se encontram as mesas de negociação.

"É muito provável que boa parte de seu capital político tenha se originado do fracasso da estratégia de paz da administração de Gustavo Petro".

Com base nessa análise, "algumas serão encerradas e, possivelmente, aquelas que continuarem terão de redefinir os termos do que o governo estará disposto a oferecer".

 

Fonte: Sputnik Brasil

 

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