'Se
você não resiste ao imperialismo, você termina sendo subjugado', diz
pré-candidato do PCB
O
Partido Comunista Brasileiro (PCB) lançou a pré-candidatura do economista e
professor universitário Edmilson Costa à Presidência da República para as
eleições de 2026. Em entrevista à Sputnik Brasil, ele apresentou o programa do
partido e defendeu que o Brasil está "maduro para o socialismo".
Natural
do interior do Maranhão, Costa é militante do PCB desde o início da década de
1970. Preso em 1974 durante a ditadura militar, foi forçado a se transferir
para São Paulo, onde exerceu o jornalismo antes de se dedicar à economia.
"Enfrentei a ditadura no período mais duro dela."
"Como
todo jovem daquela época que enfrentava a ditadura, paguei aquele preço que
todos pagam quando enfrentam o regime autoritário."
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Por que tantos partidos de esquerda?
PCO,
PT, PSTU, PCdoB, PCB, UP e PSOL são siglas que dizem defender um campo
ideológico com semelhanças, mas que chegam às eleições de 2026 fragmentadas, de
acordo com o pré-candidato do PCB. Essa fragmentação reflete as contradições da
sociedade e os efeitos de "36 anos de neoliberalismo", segundo ele.
"O
Brasil tem o segundo maior proletariado do continente. Quando esse proletariado
tomar consciência da sua força e da sua capacidade de transformação, nós vamos
dar um salto de qualidade no processo de luta do nosso país pelas
transformações sociais."
Para
Edmilson Costa, no entanto, o PCB é "o único partido da esquerda
revolucionária que tem um programa" estruturado, em contraste com outros
partidos com "um conjunto de palavras de ordem, mas sem programa".
Costa
relatou que o partido, fundado em 1922, teve figuras como Luís Carlos Prestes,
Gregório Bezerra e Davi Capistrano como exemplos de militantes com
"firmeza ideológica" que, segundo ele, falta às lideranças políticas
contemporâneas, inclusive ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).
Para
Costa, as lideranças que emergiram das greves do ABC no final dos anos 1970
"foram forjadas na luta, mas não alcançaram a ideologia do
proletariado" e "terminaram se perdendo na conciliação de
classe".
Costa
destacou também a figura de João Saldanha, técnico da seleção brasileira que
preparou o elenco campeão do mundo em 1970 e que apoiou a luta dos camponeses
de Porecatu (PR) na década de 1950. Ele lembrou que Saldanha foi afastado da
seleção pelo general Emílio Médici por ser "um comunista declarado".
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O porquê da candidatura
Costa
defende a participação no primeiro turno afirmando que esse é o momento em que
os partidos apresentam suas propostas, diferente de "como acontece nos
Estados Unidos, que é apenas duas candidaturas em termos práticos, onde a
população não tem muita opção".
Ele
propõe a extinção do Senado Federal e a criação de um parlamento unicameral. A
justificativa é que o Senado transforma "maiorias sociais em minorias
políticas" ao dar o mesmo número de senadores a estados com populações
muito diferentes.
No novo
modelo proposto pelo PCB, 50% do parlamento seria eleito pelo voto universal e
50% por representantes do movimento popular, sindical e da juventude.
Costa
também defende mandatos fixos de dez anos para ministros dos tribunais
superiores e regionais, em substituição ao modelo atual, no qual os magistrados
permanecem no cargo até a aposentadoria compulsória. "Não tem sentido os
ministros dos tribunais superiores ficarem a vida inteira como juízes."
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Regulação da mídia
Sobre
os meios de comunicação, Costa afirmou que o setor é controlado por cerca de
sete famílias e que se tornou "uma espécie de partido político do que há
demais atrasado na sociedade brasileira".
O
programa do PCB prevê criar lei geral de comunicação para quebrar monopólios e
transformá-los em cooperativas de trabalhadores. O pré-candidato propõe ainda a
estatização do sistema de telecomunicações, telefonia e internet, "de
forma a abrir espaço para uma nova era de comunicação onde o processo de
comunicação não seja dirigido pelas classes dominantes reacionárias, mas seja
dirigido pelos próprios trabalhadores".
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Política internacional
Costa
destacou a luta contra o imperialismo, a solidariedade a Cuba, ao Irã e à
Palestina, e reformas estruturais em direção ao poder popular e ao socialismo.
Na área
mineral, o pré-candidato defendeu a estatização de todo o setor, argumentando
que a Constituição já determina que os recursos do subsolo pertencem ao país, e
ressaltou que o Brasil é o segundo país do mundo em volume de terras raras,
insumo estratégico para o desenvolvimento tecnológico.
"Nós
temos que deixar de ser exportadores de pedra para ser exportadores de produtos
industrializados", declarou. "O Estado deve colocar esses recursos a
serviço da população".
O
programa do pré-candidato também prevê reforma agrária, via desapropriação de
todas as terras improdutivas, com trabalho escravo e histórico de desmatamento,
e propõe a revogação da legislação neoliberal, em especial a Lei de
Responsabilidade Fiscal, e a criação de uma "lei de responsabilidade
social".
Para
ele, inclusive, é preciso colocar um teto na jornada de trabalho para 30 horas
semanais sem redução salarial, dez horas a menos que a proposta do governo
federal em tramitação.
Em
relação à dívida brasileira, Costa comentou que cerca de 70% da dívida atual é
de natureza puramente financeira, gerada pelas altas taxas de juros, guiada
pelo mercado internacional.
"Essa
dívida que o Brasil tem hoje foi feita para construir escolas? Não foi. Foi
feita para construir estradas? Não foi."
Costa
citou que, de janeiro de 2025 a janeiro de 2026, o Brasil pagou R$ 1 trilhão em
juros da dívida interna. Para o PCB, o não pagamento da dívida viabilizaria
elevar, em cinco anos, o salário mínimo ao nível calculado pelo Departamento
Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese): em torno de R$
7.800.
"Como
se explica que o salário no Uruguai é 750 dólares, na Costa Rica é 760 dólares,
que são países pequenos sem o peso industrial que o Brasil tem, e aqui no
Brasil você tem um salário de 300 dólares?”
Na
saúde, o PCB propõe estatizar todo o sistema privado e a universalização do
atendimento público gratuito e, na educação, o pré-candidato defende a
incorporação das universidades privadas ao sistema público.
Na
segurança pública, Costa defende a desmilitarização das polícias, que segundo
ele "foram educadas para perseguir pobres e pretos nas periferias”, e a
criação de conselhos populares para "proteger a população e não
reprimir".
Costa
também criticou propostas de redução da maioridade penal, afirmando que o
Brasil já possui uma das maiores populações carcerárias do mundo e que
"fazer presídio só vai gastar mais dinheiro e encarcerar mais gente e não
vai resolver o problema".
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Por que os EUA querem classificar PCC e CV como terroristas?
Questionado
sobre recente decisão do governo dos Estados Unidos quanto as facções
criminosas brasileiras, o pré-candidato relacionou o problema da criminalidade
ao tráfico internacional de armas, afirmando que "o maior fornecedor de
armas para a criminalidade são os Estados Unidos".
Na
avaliação dele, há uma incoerência americana ao não controlar o contrabando de
armas e simultaneamente classificar facções criminosas como terroristas.
"Com isso eles abrem um pretexto legal para poder intervir nos
países", disse.
O
pré-candidato criticou o senador e pré-candidato a presidente Flávio Bolsonaro
(PL-RJ), a quem chamou de "capacho dos Estados Unidos" e "quinta
coluna no interior do Brasil" por ter defendido, segundo Costa, a
intervenção de uma nação estrangeira no país.
Quanto
às Forças Armadas, Costa defende reformas profundas na Academia Militar das
Agulhas Negras (AMAN) e na Escola Superior de Guerra para reorientar a formação
dos oficiais.
Segundo
ele, as forças armadas da América Latina, incluindo as brasileiras, foram
formadas pela doutrina de segurança nacional, que define "o inimigo
interno”, como "os comunistas, os democratas, os socialistas" como
alvo.
O
pré-candidato citou o 8 de janeiro de 2023 como evidência dessa deformação
institucional. "Nós vimos ali o quanto de oficiais das Forças Armadas que
estavam implicados naquilo.”
Ele
admitiu que as propostas do PCB entrariam em confronto direto com os interesses
de Washington, caso fosse eleito, mas avaliou que os Estados Unidos "vivem
uma crise muito grande" de dominação.
"O
Vietnã era um país camponês e também resistiu com imenso sacrifício. Portanto,
se você não resiste ao imperialismo, você termina sendo subjugado pelo
imperialismo", declarou.
O
pré-candidato defendeu que o Brasil, pelo seu tamanho e suas riquezas,
"tem condição de se impor no cenário internacional", e que a ordem
econômica do pós-Segunda Guerra Mundial já não é mais vigente.
Para
ele, aprofundar relações com o BRICS é uma estratégia para reduzir a capacidade
dos americanos de "chantagear e impor seus interesses" no Brasil.
"Os BRICS têm um peso econômico maior do que o G7", finalizou.
• Política 'mão firme' anunciada por
presidente eleito da Colômbia é velha e perigosa, dizem analistas
O
presidente eleito da Colômbia, Abelardo de la Espriella, deu um mês para que
grupos criminosos deponham as armas e afirmou que não haverá
"concessões". Especialistas consultados pela Sputnik alertaram para
os possíveis efeitos de políticas de "mão firme" com apoio e
participação dos Estados Unidos e Israel em operações e bombardeios.
Em seu
primeiro discurso como presidente eleito, Espriella assegurou que quem
permanecer à margem da lei, será combatido com "absoluta severidade".
"Àquelas
pessoas que estão à margem da lei, deixo uma mensagem categórica: vocês têm um
mês para recobrar o juízo. Todos os que atuam na ilegalidade dispõem de um mês
para organizar sua submissão ao Estado de Direito", declarou o presidente
eleito, que assumirá a presidência em 7 de agosto e governará até 2030.
A
"a conivência do atual governo com o crime organizado é repugnante e
vergonhosa", disse ele em seu governo "não haverá ofertas generosas
nem concessões inaceitáveis" e prevalecerá a lei e "somente o império
da lei", garantiu.
Em
entrevista à Sputnik, o analista político colombiano Alejandro Blanco afirmou
que a vitória eleitoral de la Espriella se explica pelas "enormes
dificuldades que o país enfrentou nos últimos anos devido aos problemas de
segurança" e pelo aumento da área cultivada com folhas de coca e de crimes
como extorsão e homicídios nas grandes cidades.
No
entanto, ele advertiu que "a promessa de mão firme de Abelardo de la
Espriella traz uma série de implicações":
"A
Colômbia já enfrentou graves problemas em razão do excesso de mão firme, como
os chamados falsos positivos, ou seja, execuções extrajudiciais de pessoas
protegidas", destacou o analista, especialista em conflito armado e nos
processos de paz.
Para
Blanco, o enfrentamento direto contra as organizações armadas que ainda atuam
no país, como o Exército de Libertação Nacional (ELN) e o Clã do Golfo, entre
outras, tem causado graves prejuízos à população civil que vive nas áreas
próximas aos confrontos.
Ele
frisou que o governo de Gustavo Petro cometeu "erros" desse tipo ao
provocar a morte de crianças em consequência de bombardeios realizados em
algumas regiões do país.
"De
uma forma ou de outra, essas organizações criminosas usam a população civil
como escudo para reduzir o impacto das ações das forças do Estado",
explicou.
Intervenções
militares que não consideram aspectos humanitários acabam "gerando muito
mais violência" em determinadas regiões do país.
Um novo
"Plano Colômbia" com os EUA e Israel
A
chegada de De la Espriella à Casa de Nariño também abre a possibilidade de uma
reedição do Plano Colômbia, acordo firmado entre a Colômbia e os Estados Unidos
no fim da década de 1990, que permitiu a participação norte-americana no
combate aos grupos armados e ao narcotráfico, além do envio de aproximadamente
US$ 4,5 bilhões (R$ 25 bilhões) ao país, principalmente em assistência militar.
Abelardo
de la Espriella anunciou em diversas entrevistas que, a partir do dia seguinte
à sua posse, ordenará "a fumigação dos 330 mil hectares de coca"
cultivados no território colombiano e "o bombardeio de todos os
acampamentos de narcoterroristas".
As
propostas apresentadas tratam de implementação de um "Plano Colômbia
2.0", com objetivo de fortalecer o combate ao narcotráfico e, em especial,
impedir a entrada no país de insumos utilizados na fabricação de fentanil. A
plataforma do presidente eleito afirma que esse programa contará não apenas com
o apoio dos Estados Unidos, mas também de Israel.
Em
entrevista à Sputnik, o especialista colombiano em segurança Luis Trejos
afirmou que é provável que tanto os EUA quanto Israel forneçam
"informações de inteligência" que já haviam coletado, mas que não
compartilharam com o governo de Gustavo Petro em razão das tensões políticas
ocorridas nos últimos anos.
Para
Alejandro Blanco, também é possível que os Estados Unidos e Israel
disponibilizem aeronaves e pilotos para os bombardeios contra bases de grupos
criminosos bem como atuação direta de agentes estrangeiros, como ocorreu no
início de junho, na Venezuela, contra o líder criminoso Héctor Rusthenford
Guerrero Flores, conhecido como "Niño Guerrero".
Trejos
advertiu, no entanto, que os planos de De la Espriella podem esbarrar nas
dificuldades financeiras enfrentadas atualmente pelo Estado colombiano, o que
provavelmente o obrigará a estabelecer prioridades entre as diferentes ações
previstas.
"A
realidade é que o presidente eleito encontrará um setor de defesa sem recursos
suficientes e com capacidades limitadas, o que não lhe permitirá iniciar
múltiplas ofensivas militares em todo o território nacional. Ele terá de
definir prioridades", explicou o especialista.
Trejos
considerou que, nesse sentido, será fundamental acompanhar quem o novo
presidente nomeará para os cargos de ministro da Defesa e alto comissário para
a Paz, pois essas escolhas definirão o perfil da atuação do governo nessas
áreas.
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O futuro da Jurisdição Especial para a Paz
Essas
nomeações também serão decisivas para compreender como o novo governo conduzirá
as negociações de paz já em andamento com grupos armados, iniciadas em 2016 e
que o atual presidente, Gustavo Petro, procurou fortalecer por meio da política
de Paz Total.
Durante
a campanha, Abelardo de la Espriella foi enfático ao manifestar sua intenção de
"eliminar" a Jurisdição Especial para a Paz (JEP), um sistema de
justiça de transição criado pelo acordo de paz de 2016 para julgar crimes
cometidos no contexto do conflito armado.
Segundo
ele, a JEP beneficiou ex-integrantes das Forças Armadas Revolucionárias da
Colômbia (FARC) e foi utilizada pelo atual governo para processar o
ex-presidente Álvaro Uribe Vélez (2002–2010).
Alejandro
Blanco destacou que a extinção da JEP tem sido um objetivo recorrente do
uribismo nos últimos anos, especialmente desde que o tribunal passou a
investigar denúncias relacionadas aos mais de 6 mil "falsos
positivos" — execuções extrajudiciais atribuídas ao período do governo
Uribe.
No
entanto, o analista considera difícil que o novo presidente consiga cumprir a
promessa, já que o acordo de paz de 2016 conferiu à JEP status constitucional,
o que exigiria a aprovação de emendas à Constituição para extinguir esse
sistema. Por sua vez, Luis Trejos afirmou que o futuro governo não é obrigado a
dar continuidade às negociações de paz iniciadas a partir de 2016, que deve
passar por reavaliação do estágio em que se encontram as mesas de negociação.
"É
muito provável que boa parte de seu capital político tenha se originado do
fracasso da estratégia de paz da administração de Gustavo Petro".
Com
base nessa análise, "algumas serão encerradas e, possivelmente, aquelas
que continuarem terão de redefinir os termos do que o governo estará disposto a
oferecer".
Fonte:
Sputnik Brasil

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