Democracia
trumpista? Diante de derrota iminente, Trump tenta impedir direito de minorias
ao voto
No
autoproclamado país campeão da democracia, o presidente Donald Trump e seus aliados
estão buscando suprimir o voto de milhões de seus opositores políticos e, sem
qualquer evidência, acusam imigrantes indocumentados de ameaçar a integridade
do sistema eleitoral, como parte de uma grande fraude que teria transformado os
Estados Unidos em um “país de terceiro mundo” — tudo isso sem qualquer prova.
No
momento em que enfrenta projeções e previsões de que o Partido Republicano perderá o
controle de pelo menos uma das duas Casas do Congresso nas eleições de meio de
mandato previstas para novembro, o presidente Donald Trump está promovendo o
redesenho dos mapas dos distritos eleitorais, “depurando” eleitores registrados
do cadastro eleitoral e impulsionando medidas para dificultar o voto de
minorias e de imigrantes com direito ao voto, tudo para suprimir o sufrágio
efetivo de setores que costumam votar em opositores da agenda conservadora da
Casa Branca.
Esse
esforço de Trump e de seus aliados no Legislativo federal, nas assembleias
estaduais e na Suprema Corte está, na prática, desmontando leis e outras
conquistas de movimentos que garantiram a participação e a representação
política das minorias neste país ao longo dos últimos 70 anos, criticam
defensores dos direitos e das liberdades civis.
Em 17
de junho, Trump declarou que não irá sancionar uma legislação aprovada de forma
bipartidária para autorizar programas de espionagem das agências de
inteligência até que o Congresso aprovasse um projeto de lei que proíbe os
eleitores de votar na próxima eleição caso não apresentem documentos
específicos de identificação, comprovem sua cidadania e votem presencialmente,
em vez de pelo correio, como atualmente é permitido em vários estados.
As
medidas são criticadas porque buscam restringir a participação eleitoral e até
mesmo alguns senadores republicanos comentaram que alguns dos requisitos
previstos na proposta “Lei para Salvar a América” (SAVE Act), promovida pelo
presidente, não funcionarão.
Nos
Estados Unidos, as eleições são realizadas sob regras e autoridades estaduais,
mesmo quando se trata de eleições para cargos federais, incluindo as
legislativas e presidenciais. Repetidamente, Trump tentou impor regras federais
para restringir o voto em todos os estados. “A SAVE Act impõe exigências
significativas às pessoas que buscam se registrar como eleitores e aos governos
estaduais”, explicou Juan Proaño, diretor-executivo da organização de voto
latino LULAC, em depoimento recente ao Congresso. “Essa legislação privará de
direitos eleitorais dezenas de milhões de eleitores”, advertiu.
Metade
dos norte-americanos não possui passaporte, e milhões de outros não sabem onde
estão suas certidões de nascimento, informa o Brennan Center for Justice. Em
resposta à acusação recorrente de Trump de que não cidadãos e outras pessoas
sem direito ao voto estão depositando votos nas urnas, o Brennan Center
investigou 23,5 milhões de votos registrados em 42 distritos diferentes em todo
os Estados Unidos, nas eleições de 2016, e detectou apenas 30 casos em que um
voto não era válido — uma taxa de erro de 0,00013%.
Na
eleição presidencial de 2020, em que Trump insistiu que houve uma fraude em
massa, incluindo votos de imigrantes indocumentados e manipulação da apuração,
razão pela qual jamais aceitou sua derrota, nenhum dos 62 processos
apresentados por ele e seus aliados prosperou, sendo quase todos rejeitados por
falta de provas. Ainda assim, o presidente insiste até hoje que toda derrota
sua e dos candidatos que apoia é resultado de fraude.
A
LULAC, que liderou diversas ações judiciais no Arizona, Texas e Iowa contra
exigências adicionais de identificação para votar, afirma ter uma preocupação
particular de que latinos, afro-americanos e pessoas de baixa renda tenham seu
direito ao voto negado. Proaño afirma que a razão desses esforços é alterar os
resultados eleitorais. “Dados atuais do censo estimam que 65,2 milhões de
latinos residem nos Estados Unidos.
Desses,
81% podem votar. Em um número crescente de estados, a população de eleitores
latinos supera a margem de votos que decidiu a eleição presidencial de 2020.”
Ele lembrou que “os latinos também são alvo de esforços que fazem parte de uma
longa história de discriminação eleitoral”.
Enquanto
tenta impulsionar seu projeto de lei, Trump tem utilizado seus poderes
executivos para emitir ordens ao serviço postal a fim de que não entregue
cédulas de votação enviadas pelo correio a qualquer pessoa que não esteja
registrada no cadastro eleitoral federal — uma exigência difícil de cumprir
para muitos, já que os cadastros eleitorais são elaborados, em grande parte, em
nível estadual.
Cerca
de 22 estados permitem que determinados eleitores votem pelo correio,
especialmente pessoas com deficiência, aqueles que estarão viajando no dia da
eleição ou idosos.
“A
ordem, flagrantemente inconstitucional, que ataca o voto pelo correio já está
sendo implementada e deve ser bloqueada imediatamente”, afirmou a União
Americana pelas Liberdades Civis (ACLU) em uma nova ação judicial apresentada
aos tribunais na quarta-feira.
A maior
mudança no processo eleitoral norte-americano poderá resultar de uma decisão da
maioria conservadora da Suprema Corte, proferida em abril, segundo a qual os
estados não têm a obrigação de considerar a questão racial ao estabelecer os
distritos eleitorais, o que, na prática, anula a Lei dos Direitos de Voto de
1965 — uma das maiores conquistas do movimento pelos direitos civis neste país.
Essa
lei reverteu todo tipo de medida — desde testes de alfabetização até impostos
eleitorais e distritos legislativos desenhados para marginalizar o voto dos
afro-americanos e da população de baixa renda. “A Suprema Corte recentemente
proferiu uma decisão que abre caminho para que estados e governos locais criem
mapas eleitorais discriminatórios”, acusa a ACLU.
Dez
estados redesenharam seus mapas de distritos eleitorais desde abril, em grande
medida para favorecer os republicanos e marginalizar o voto da oposição. “A
redefinição dos distritos realmente tornou o mapa da Câmara dos Representantes
mais favorável aos republicanos”, explicou Kyle Kondik, do Centro para Política
da Universidade da Virgínia.
“De
modo geral, esse esforço de redesenho dos distritos envolveu dois estados que o
fizeram em benefício dos democratas e oito em benefício dos republicanos.”
Apesar dessas mudanças, Kondik afirmou que as projeções continuam favoráveis
aos democratas na Câmara dos Representantes e, possivelmente, também no Senado.
Ao
mesmo tempo, esses esforços para manipular os distritos eleitorais encontraram
resistência em nível estadual por parte de republicanos na Geórgia e em
Indiana, onde essas iniciativas foram derrotadas pelas assembleias legislativas
estaduais, provocando a ira de Trump.
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“Fazer as malas”: De la Espriella se declara vencedor sem
resultado oficial e ameaça esquerda
Horas
depois de celebrar sua vantagem na pré-contagem dos votos, o ultradireitista
Abelardo de la Espriella ameaçou a esquerda com uma frase que acendeu o alerta
na campanha de Iván Cepeda, seu opositor nas eleições colombianas.
De la
Espriella disse: “o tigre morde forte e pode morder ainda mais forte”. Cepeda
perguntou: “o que quis dizer o senhor De la Espriella?”
“Ele
tem um discurso ambíguo — continuou —, fala em respeito e, logo em seguida, diz
para prepararem as malas. Para quê?”
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Dados da pré-contagem
Segundo
a pré-contagem, De la Espriella derrotou o candidato de esquerda do Pacto
Histórico, Iván Cepeda, ao obter 12.956.941 votos contra 12.707.117.
Em
termos percentuais, o ultradireitista alcançou 49,66%, e o candidato
progressista, 48,7%, com 99,7% das 122 mil mesas eleitorais do país e do
exterior informadas, de acordo com a Registradoria Nacional do Estado Civil,
autoridade eleitoral colombiana.
Até
esta terça-feira (23), a página oficial em que deveriam ser divulgados os dados
do escrutínio do segundo turno estava indisponível. Por isso, os únicos
números públicos consolidados eram os do pré-conteo, que não tem caráter
vinculante segundo a legislação eleitoral colombiana.
Outro
dado relevante é que, em 21 de junho, votaram 2,3 milhões de colombianos a mais
do que no primeiro turno, realizado em 31 de maio, totalizando 25.658.433
eleitores. Trata-se de um número significativo, pois rompeu a barreira da
abstenção na Colômbia, historicamente situada em 52%; no domingo, 64% do
eleitorado compareceu às urnas.
Embora
a pré-contagem não tenha caráter vinculante, De la Espriella reagiu em sua
conta no X (ex-Twitter) reivindicando a vitória na eleição: “quase 13 milhões
de colombianos depositaram sua confiança em José Manuel Restrepo (candidato a
vice-presidente) e no Tigre (como ele se autodenomina) e neste grande sonho
chamado Pátria Milagre (nome dado a seu programa de governo”.
Ele
comentou em sua conta no X que falou por telefone com o presidente dos Estados
Unidos, Donald Trump, que, segundo disse, “me parabenizou e ofereceu todo o
apoio à Colômbia”.
O
secretário de Estado, Marco Rubio, confirmou que Trump telefonou para De la
Espriella para parabenizá-lo por sua vitória. Ao felicitar De la Espriella,
Rubio afirmou que “o governo do presidente Trump espera trabalhar estreitamente
com sua administração, que assumirá o poder, para promover nossa cooperação em
matéria de segurança bilateral e regional, pôr fim à imigração ilegal para os
Estados Unidos e fortalecer os vínculos econômicos entre os dois países. Graças
à nossa estreita cooperação bilateral e sob a liderança do presidente eleito De
la Espriella, os melhores dias da Colômbia ainda estão por vir”.
“Hoje é
um grande dia, vamos para a apuração e vamos com a mobilização social”,
declarou Cepeda, após advertir que “não nos deixaremos intimidar por ameaças;
nossa luta política hoje está ao lado do povo e não permitiremos que haja
retrocessos nas conquistas sociais alcançadas”.
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Ameaças preocupam opositores
Muitos
setores políticos e analistas ficaram alarmados com as recentes declarações de
De la Espriella e lembraram, com espanto, o genocídio contra a União Patriótica
(UP), partido de esquerda que foi exterminado a tiros pela violência
paramilitar, em conivência com integrantes do Exército Nacional, nas décadas de
1980 e 1990. Também trouxeram à memória os chamados “falsos positivos”, ou
execuções extrajudiciais, durante o governo do ultradireitista Álvaro Uribe
Vélez (2002-2010).
“Ao
senhor De la Espriella quero dizer que ele não nos assusta; nós somos calejados
nessas lutas e derrotamos muitos políticos violentos”, sentenciou Cepeda, que
aproveitou uma coletiva de imprensa para fazer um chamado ao diálogo nacional:
“Essa é a minha proposta; o país não pode ser devolvido à violência”,
ressaltou.
“Essas
frases, na Colômbia, são perigosas e, evidentemente, muito mais quando são
ditas pelo próximo presidente da Colômbia”, afirmou Rodrigo Rojas, sociólogo e
pesquisador social, em sua conta no X (ex-Twitter), ao recordar que o pai de
Iván Cepeda, o senador da UP Manuel Cepeda Vargas, foi assassinado e que, anos
depois, o caso foi declarado crime de Estado pela Comissão Interamericana de
Direitos Humanos (CIDH).
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Mesas questionadas aumentam
Por
outro lado, as dúvidas sobre os resultados eleitorais tiveram um novo capítulo.
Embora tenha dito aceitar o resultado da pré-contagem dos votos, Iván Cepeda
ampliou as impugnações de 37 mil para mais de 57 mil mesas de votação, das 122
mil habilitadas na Colômbia e no exterior.
Apesar
da narrativa dos meios corporativos, que já apresentam Abelardo de la Espriella
como presidente eleito, o Pacto Histórico exigiu um rápido esclarecimento sobre
suas impugnações e pediu aos juízes que analisem uma a uma as reclamações,
incluindo os formulários nos quais os votos foram registrados nas mesas
eleitorais.
Até
esta terça-feira (23), a página oficial destinada à divulgação dos resultados
do escrutínio do segundo turno permanecia
indisponível.
Assim, os únicos dados públicos consolidados continuavam sendo os da
pré-contagem, enquanto o escrutínio oficial seguia em andamento.
“A
conferência do escrutínio deve ser feita materialmente, voto por voto, com toda
a calma e rigor; aí será observado o caráter democrático de nossas
instituições, porque impugnar é um direito para verificar os resultados quando
há dúvidas”, disse Cepeda na entrevista coletiva de imprensa, advertindo que,
enquanto não forem conhecidos os resultados finais do escrutínio, “não se pode
dizer que a Colômbia já tem presidente”.
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Mensagem ao Congresso
Além
das declarações consideradas ameaçadoras pela esquerda, incluindo o presidente
Gustavo Petro, o ultradireitista Abelardo de la Espriella, em uma carta,
ameaçou os congressistas eleitos em 8 de março, aos quais convocou a trabalhar
pelo bem “do povo da Colômbia e a compreender a gravidade do momento nacional”.
De la
Espriella foi explícito ao afirmar que “se alguns setores do Congresso
renunciarem a essa responsabilidade e traírem o mandato cidadão, encontrarão um
governo de origem popular”.
Vários
parlamentares eleitos, inclusive do partido majoritário Pacto Histórico, que
vão tomar posse em 20 de julho, reagiram ao que consideram “uma ameaça velada
de fechamento do Congresso ou de convocação de uma constituinte”.
“Que
respeite a separação dos poderes”, anteciparam vários parlamentares da esquerda
e do centro político ao comentar o documento do presidente eleito, em uma
demonstração de como poderão ser as relações entre presidente e Congresso no
período 2026-2030.
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Escudo das Américas
Os
países membros do chamado grupo Escudo das Américas, cuja cúpula ocorreu nos
Estados Unidos em dezembro de 2025, fizeram sentir sua influência sobre o
processo eleitoral colombiano.
Como se
se tratasse de uma ação articulada, começaram a enviar mensagens de apoio a De
la Espriella, numa tentativa de legitimar sua vitória na pré-contagem diante da
margem estreita registrada entre os candidatos.
O
presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, renovou seu apoio a De la
Espriella por meio de sua rede social e disse: “Parabéns ao ‘Tigre’, Abelardo
de la Espriella, o novo presidente da Colômbia.
Foi uma
honra oferecer meu apoio a ele, e espero trabalhar juntos para construir uma
relação sólida entre a Colômbia e os Estados Unidos da América, que trará novos
níveis de grandeza para ambos os países”.
Na
Colômbia existem sete bases militares estadunidenses que, durante o governo do
presidente Gustavo Petro, tiveram pouca atividade operacional, pois as relações
com Washington se concentraram especificamente na luta contra o narcotráfico,
mas com ênfase na substituição dos cultivos de folha de coca.
De la
Espriella, em seu programa de governo e em reiteradas declarações, afirmou que
“uma vez empossado, no dia 8 de agosto, no dia seguinte enviaria aviões para
fumigar os cultivos ilícitos”.
No
mesmo sentido de Trump, outros mandatários latino-americanos integrantes do
Escudo das Américas enviaram mensagens de apoio a De la Espriella.
“O leão
e o tigre rugem na América Latina!!! Parabenizo enormemente Abelardo de la
Espriella por sua histórica vitória na Colômbia”, escreveu no X o presidente da
Argentina, Javier Milei.
No
mesmo tom se pronunciaram os presidentes do Chile, Paraguai, Equador e Costa
Rica, além da candidata presidencial peruana Keiko Fujimori. Todos expressaram
apoio e disposição para colaborar futuramente em projetos comuns para a América
Latina.
Fonte:
La Jornada/Diálogos do Sul Global

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