quinta-feira, 25 de junho de 2026

Democracia trumpista? Diante de derrota iminente, Trump tenta impedir direito de minorias ao voto

No autoproclamado país campeão da democracia, o presidente Donald Trump e seus aliados estão buscando suprimir o voto de milhões de seus opositores políticos e, sem qualquer evidência, acusam imigrantes indocumentados de ameaçar a integridade do sistema eleitoral, como parte de uma grande fraude que teria transformado os Estados Unidos em um “país de terceiro mundo” — tudo isso sem qualquer prova.

No momento em que enfrenta projeções e previsões de que o Partido Republicano perderá o controle de pelo menos uma das duas Casas do Congresso nas eleições de meio de mandato previstas para novembro, o presidente Donald Trump está promovendo o redesenho dos mapas dos distritos eleitorais, “depurando” eleitores registrados do cadastro eleitoral e impulsionando medidas para dificultar o voto de minorias e de imigrantes com direito ao voto, tudo para suprimir o sufrágio efetivo de setores que costumam votar em opositores da agenda conservadora da Casa Branca.

Esse esforço de Trump e de seus aliados no Legislativo federal, nas assembleias estaduais e na Suprema Corte está, na prática, desmontando leis e outras conquistas de movimentos que garantiram a participação e a representação política das minorias neste país ao longo dos últimos 70 anos, criticam defensores dos direitos e das liberdades civis.

Em 17 de junho, Trump declarou que não irá sancionar uma legislação aprovada de forma bipartidária para autorizar programas de espionagem das agências de inteligência até que o Congresso aprovasse um projeto de lei que proíbe os eleitores de votar na próxima eleição caso não apresentem documentos específicos de identificação, comprovem sua cidadania e votem presencialmente, em vez de pelo correio, como atualmente é permitido em vários estados.

As medidas são criticadas porque buscam restringir a participação eleitoral e até mesmo alguns senadores republicanos comentaram que alguns dos requisitos previstos na proposta “Lei para Salvar a América” (SAVE Act), promovida pelo presidente, não funcionarão.

Nos Estados Unidos, as eleições são realizadas sob regras e autoridades estaduais, mesmo quando se trata de eleições para cargos federais, incluindo as legislativas e presidenciais. Repetidamente, Trump tentou impor regras federais para restringir o voto em todos os estados. “A SAVE Act impõe exigências significativas às pessoas que buscam se registrar como eleitores e aos governos estaduais”, explicou Juan Proaño, diretor-executivo da organização de voto latino LULAC, em depoimento recente ao Congresso. “Essa legislação privará de direitos eleitorais dezenas de milhões de eleitores”, advertiu.

Metade dos norte-americanos não possui passaporte, e milhões de outros não sabem onde estão suas certidões de nascimento, informa o Brennan Center for Justice. Em resposta à acusação recorrente de Trump de que não cidadãos e outras pessoas sem direito ao voto estão depositando votos nas urnas, o Brennan Center investigou 23,5 milhões de votos registrados em 42 distritos diferentes em todo os Estados Unidos, nas eleições de 2016, e detectou apenas 30 casos em que um voto não era válido — uma taxa de erro de 0,00013%.

Na eleição presidencial de 2020, em que Trump insistiu que houve uma fraude em massa, incluindo votos de imigrantes indocumentados e manipulação da apuração, razão pela qual jamais aceitou sua derrota, nenhum dos 62 processos apresentados por ele e seus aliados prosperou, sendo quase todos rejeitados por falta de provas. Ainda assim, o presidente insiste até hoje que toda derrota sua e dos candidatos que apoia é resultado de fraude.

A LULAC, que liderou diversas ações judiciais no Arizona, Texas e Iowa contra exigências adicionais de identificação para votar, afirma ter uma preocupação particular de que latinos, afro-americanos e pessoas de baixa renda tenham seu direito ao voto negado. Proaño afirma que a razão desses esforços é alterar os resultados eleitorais. “Dados atuais do censo estimam que 65,2 milhões de latinos residem nos Estados Unidos.

Desses, 81% podem votar. Em um número crescente de estados, a população de eleitores latinos supera a margem de votos que decidiu a eleição presidencial de 2020.” Ele lembrou que “os latinos também são alvo de esforços que fazem parte de uma longa história de discriminação eleitoral”.

Enquanto tenta impulsionar seu projeto de lei, Trump tem utilizado seus poderes executivos para emitir ordens ao serviço postal a fim de que não entregue cédulas de votação enviadas pelo correio a qualquer pessoa que não esteja registrada no cadastro eleitoral federal — uma exigência difícil de cumprir para muitos, já que os cadastros eleitorais são elaborados, em grande parte, em nível estadual.

Cerca de 22 estados permitem que determinados eleitores votem pelo correio, especialmente pessoas com deficiência, aqueles que estarão viajando no dia da eleição ou idosos.

“A ordem, flagrantemente inconstitucional, que ataca o voto pelo correio já está sendo implementada e deve ser bloqueada imediatamente”, afirmou a União Americana pelas Liberdades Civis (ACLU) em uma nova ação judicial apresentada aos tribunais na quarta-feira.

A maior mudança no processo eleitoral norte-americano poderá resultar de uma decisão da maioria conservadora da Suprema Corte, proferida em abril, segundo a qual os estados não têm a obrigação de considerar a questão racial ao estabelecer os distritos eleitorais, o que, na prática, anula a Lei dos Direitos de Voto de 1965 — uma das maiores conquistas do movimento pelos direitos civis neste país.

Essa lei reverteu todo tipo de medida — desde testes de alfabetização até impostos eleitorais e distritos legislativos desenhados para marginalizar o voto dos afro-americanos e da população de baixa renda. “A Suprema Corte recentemente proferiu uma decisão que abre caminho para que estados e governos locais criem mapas eleitorais discriminatórios”, acusa a ACLU.

Dez estados redesenharam seus mapas de distritos eleitorais desde abril, em grande medida para favorecer os republicanos e marginalizar o voto da oposição. “A redefinição dos distritos realmente tornou o mapa da Câmara dos Representantes mais favorável aos republicanos”, explicou Kyle Kondik, do Centro para Política da Universidade da Virgínia.

“De modo geral, esse esforço de redesenho dos distritos envolveu dois estados que o fizeram em benefício dos democratas e oito em benefício dos republicanos.” Apesar dessas mudanças, Kondik afirmou que as projeções continuam favoráveis aos democratas na Câmara dos Representantes e, possivelmente, também no Senado.

Ao mesmo tempo, esses esforços para manipular os distritos eleitorais encontraram resistência em nível estadual por parte de republicanos na Geórgia e em Indiana, onde essas iniciativas foram derrotadas pelas assembleias legislativas estaduais, provocando a ira de Trump.

¨      “Fazer as malas”: De la Espriella se declara vencedor sem resultado oficial e ameaça esquerda

Horas depois de celebrar sua vantagem na pré-contagem dos votos, o ultradireitista Abelardo de la Espriella ameaçou a esquerda com uma frase que acendeu o alerta na campanha de Iván Cepeda, seu opositor nas eleições colombianas.

De la Espriella disse: “o tigre morde forte e pode morder ainda mais forte”. Cepeda perguntou: “o que quis dizer o senhor De la Espriella?” 

“Ele tem um discurso ambíguo — continuou —, fala em respeito e, logo em seguida, diz para prepararem as malas. Para quê?”

<><> Dados da pré-contagem

Segundo a pré-contagem, De la Espriella derrotou o candidato de esquerda do Pacto Histórico, Iván Cepeda, ao obter 12.956.941 votos contra 12.707.117. 

Em termos percentuais, o ultradireitista alcançou 49,66%, e o candidato progressista, 48,7%, com 99,7% das 122 mil mesas eleitorais do país e do exterior informadas, de acordo com a Registradoria Nacional do Estado Civil, autoridade eleitoral colombiana.

Até esta terça-feira (23), a página oficial em que deveriam ser divulgados os dados do escrutínio do segundo turno estava indisponível. Por isso, os únicos números públicos consolidados eram os do pré-conteo, que não tem caráter vinculante segundo a legislação eleitoral colombiana.

Outro dado relevante é que, em 21 de junho, votaram 2,3 milhões de colombianos a mais do que no primeiro turno, realizado em 31 de maio, totalizando 25.658.433 eleitores. Trata-se de um número significativo, pois rompeu a barreira da abstenção na Colômbia, historicamente situada em 52%; no domingo, 64% do eleitorado compareceu às urnas.

Embora a pré-contagem não tenha caráter vinculante, De la Espriella reagiu em sua conta no X (ex-Twitter) reivindicando a vitória na eleição: “quase 13 milhões de colombianos depositaram sua confiança em José Manuel Restrepo (candidato a vice-presidente) e no Tigre (como ele se autodenomina) e neste grande sonho chamado Pátria Milagre (nome dado a seu programa de governo”.

Ele comentou em sua conta no X que falou por telefone com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que, segundo disse, “me parabenizou e ofereceu todo o apoio à Colômbia”.

O secretário de Estado, Marco Rubio, confirmou que Trump telefonou para De la Espriella para parabenizá-lo por sua vitória. Ao felicitar De la Espriella, Rubio afirmou que “o governo do presidente Trump espera trabalhar estreitamente com sua administração, que assumirá o poder, para promover nossa cooperação em matéria de segurança bilateral e regional, pôr fim à imigração ilegal para os Estados Unidos e fortalecer os vínculos econômicos entre os dois países. Graças à nossa estreita cooperação bilateral e sob a liderança do presidente eleito De la Espriella, os melhores dias da Colômbia ainda estão por vir”.

“Hoje é um grande dia, vamos para a apuração e vamos com a mobilização social”, declarou Cepeda, após advertir que “não nos deixaremos intimidar por ameaças; nossa luta política hoje está ao lado do povo e não permitiremos que haja retrocessos nas conquistas sociais alcançadas”.

<><> Ameaças preocupam opositores

Muitos setores políticos e analistas ficaram alarmados com as recentes declarações de De la Espriella e lembraram, com espanto, o genocídio contra a União Patriótica (UP), partido de esquerda que foi exterminado a tiros pela violência paramilitar, em conivência com integrantes do Exército Nacional, nas décadas de 1980 e 1990. Também trouxeram à memória os chamados “falsos positivos”, ou execuções extrajudiciais, durante o governo do ultradireitista Álvaro Uribe Vélez (2002-2010).

“Ao senhor De la Espriella quero dizer que ele não nos assusta; nós somos calejados nessas lutas e derrotamos muitos políticos violentos”, sentenciou Cepeda, que aproveitou uma coletiva de imprensa para fazer um chamado ao diálogo nacional: “Essa é a minha proposta; o país não pode ser devolvido à violência”, ressaltou.

“Essas frases, na Colômbia, são perigosas e, evidentemente, muito mais quando são ditas pelo próximo presidente da Colômbia”, afirmou Rodrigo Rojas, sociólogo e pesquisador social, em sua conta no X (ex-Twitter), ao recordar que o pai de Iván Cepeda, o senador da UP Manuel Cepeda Vargas, foi assassinado e que, anos depois, o caso foi declarado crime de Estado pela Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH).

<><> Mesas questionadas aumentam 

Por outro lado, as dúvidas sobre os resultados eleitorais tiveram um novo capítulo. Embora tenha dito aceitar o resultado da pré-contagem dos votos, Iván Cepeda ampliou as impugnações de 37 mil para mais de 57 mil mesas de votação, das 122 mil habilitadas na Colômbia e no exterior.

Apesar da narrativa dos meios corporativos, que já apresentam Abelardo de la Espriella como presidente eleito, o Pacto Histórico exigiu um rápido esclarecimento sobre suas impugnações e pediu aos juízes que analisem uma a uma as reclamações, incluindo os formulários nos quais os votos foram registrados nas mesas eleitorais.

Até esta terça-feira (23), a página oficial destinada à divulgação dos resultados do escrutínio do segundo turno permanecia indisponível. Assim, os únicos dados públicos consolidados continuavam sendo os da pré-contagem, enquanto o escrutínio oficial seguia em andamento.

“A conferência do escrutínio deve ser feita materialmente, voto por voto, com toda a calma e rigor; aí será observado o caráter democrático de nossas instituições, porque impugnar é um direito para verificar os resultados quando há dúvidas”, disse Cepeda na entrevista coletiva de imprensa, advertindo que, enquanto não forem conhecidos os resultados finais do escrutínio, “não se pode dizer que a Colômbia já tem presidente”.

<><> Mensagem ao Congresso

Além das declarações consideradas ameaçadoras pela esquerda, incluindo o presidente Gustavo Petro, o ultradireitista Abelardo de la Espriella, em uma carta, ameaçou os congressistas eleitos em 8 de março, aos quais convocou a trabalhar pelo bem “do povo da Colômbia e a compreender a gravidade do momento nacional”.

De la Espriella foi explícito ao afirmar que “se alguns setores do Congresso renunciarem a essa responsabilidade e traírem o mandato cidadão, encontrarão um governo de origem popular”.

Vários parlamentares eleitos, inclusive do partido majoritário Pacto Histórico, que vão tomar posse em 20 de julho, reagiram ao que consideram “uma ameaça velada de fechamento do Congresso ou de convocação de uma constituinte”.

“Que respeite a separação dos poderes”, anteciparam vários parlamentares da esquerda e do centro político ao comentar o documento do presidente eleito, em uma demonstração de como poderão ser as relações entre presidente e Congresso no período 2026-2030.

<><> Escudo das Américas

Os países membros do chamado grupo Escudo das Américas, cuja cúpula ocorreu nos Estados Unidos em dezembro de 2025, fizeram sentir sua influência sobre o processo eleitoral colombiano.

Como se se tratasse de uma ação articulada, começaram a enviar mensagens de apoio a De la Espriella, numa tentativa de legitimar sua vitória na pré-contagem diante da margem estreita registrada entre os candidatos.

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, renovou seu apoio a De la Espriella por meio de sua rede social e disse: “Parabéns ao ‘Tigre’, Abelardo de la Espriella, o novo presidente da Colômbia.

Foi uma honra oferecer meu apoio a ele, e espero trabalhar juntos para construir uma relação sólida entre a Colômbia e os Estados Unidos da América, que trará novos níveis de grandeza para ambos os países”.

Na Colômbia existem sete bases militares estadunidenses que, durante o governo do presidente Gustavo Petro, tiveram pouca atividade operacional, pois as relações com Washington se concentraram especificamente na luta contra o narcotráfico, mas com ênfase na substituição dos cultivos de folha de coca.

De la Espriella, em seu programa de governo e em reiteradas declarações, afirmou que “uma vez empossado, no dia 8 de agosto, no dia seguinte enviaria aviões para fumigar os cultivos ilícitos”.

No mesmo sentido de Trump, outros mandatários latino-americanos integrantes do Escudo das Américas enviaram mensagens de apoio a De la Espriella.

“O leão e o tigre rugem na América Latina!!! Parabenizo enormemente Abelardo de la Espriella por sua histórica vitória na Colômbia”, escreveu no X o presidente da Argentina, Javier Milei.

No mesmo tom se pronunciaram os presidentes do Chile, Paraguai, Equador e Costa Rica, além da candidata presidencial peruana Keiko Fujimori. Todos expressaram apoio e disposição para colaborar futuramente em projetos comuns para a América Latina.

 

Fonte: La Jornada/Diálogos do Sul Global

 

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