É
hora de pensar a reconstrução do país
O
cientista político Marcos Nobre fez a melhor distinção para explicar a
polarização política no país: é entre aqueles contra e a favor dos instrumentos
de distribuição de renda nascidos com a Constituição de 1988.
O país
exibe, ainda, alguns dos maiores indicadores de concentração de renda do mundo.
O que chama a atenção de observadores de fora é o fato de jamais ter eclodido
uma rebelião popular. E o motivo foram os amortecedores criados pela
Constituição de 1988: o SUS (Sistema Único de Saúde), o BPC (Benefício de
Prestação Continuada), o ensino público gratuito em todos os níveis, mais
recentemente as cotas sociais.
De um
lado, houve a criação de um colchão social. De outro, permitiu-se empurrar com
a barriga reformas relevantes. Agora, está-se chegando a um impasse. Há um
desânimo claro em toda a população e, as amarras da política monetária/fiscal
em breve tirará até os recursos destinados às políticas sociais.
É hora
de se contentar apenas em impedir a volta da ultradireita e começar a se pensar
em um projeto de reconstrução nacional. E, nele, as recuperar as políticas
participativas da Constituinte.
Anos
atrás, o Roosevelt Institute promoveu uma discussão sobre como salvar a
democracia contemporânea. A conclusão surpreendeu: não bastava proteger as
instituições existentes; era necessário aprofundar a democracia. Seus
pesquisadores saíram em busca de experiências bem-sucedidas no mundo ocidental
e encontraram poucas referências relevantes. O exemplo mais avançado acabou
surgindo em um país que eles sequer costumavam incluir no chamado mundo
ocidental: o Brasil.
A
referência eram as Conferências Nacionais, mecanismos que permitiam a
participação direta da sociedade na formulação de políticas públicas. Elas eram
fruto de uma concepção mais ampla inscrita na Constituição de 1988, que criou
uma das arquiteturas de participação social mais ambiciosas do planeta.
A
Constituição não se limitou a restabelecer eleições livres após a ditadura. Ela
procurou construir mecanismos permanentes de controle da sociedade sobre o
Estado. Em diversos capítulos, constitucionalizou o princípio da participação
popular como diretriz obrigatória das políticas públicas e remeteu à legislação
complementar a criação de conselhos responsáveis pela fiscalização, formulação
e acompanhamento dessas políticas.
Os
exemplos mais relevantes estão espalhados por toda a Carta.
Na
seguridade social (artigo 194), instituiu-se um modelo de gestão quadripartite,
com participação de trabalhadores, empregadores, aposentados e governo. Era
talvez o desenho mais ambicioso da Constituição, concebendo a administração da
seguridade como um espaço compartilhado de decisão.
Na
saúde (artigo 198), a participação da comunidade foi definida como uma das
diretrizes estruturantes do Sistema Único de Saúde. A Lei 8.142, de 1990,
regulamentou o dispositivo por meio dos Conselhos de Saúde, deliberativos e
paritários.
Na
assistência social (artigo 204), a Constituição determinou a participação da
população, por meio de organizações representativas, tanto na formulação quanto
no controle das ações governamentais. A Lei Orgânica da Assistência Social, de
1993, deu origem ao Conselho Nacional de Assistência Social e a seus
correspondentes estaduais e municipais.
Na
política para crianças e adolescentes, a Constituição inspirou a criação dos
Conselhos dos Direitos e dos Conselhos Tutelares, posteriormente regulamentados
pelo Estatuto da Criança e do Adolescente.
Na
educação, os princípios da gestão democrática do ensino público e do
planejamento nacional fundamentaram os diversos conselhos educacionais e os
mecanismos de controle dos fundos públicos do setor.
A
lógica era comum a todos eles: criar formas institucionalizadas de controle
social. A democracia não terminaria no voto. A sociedade participaria
permanentemente da formulação, fiscalização e avaliação das políticas públicas.
Tratava-se de um contrapoder institucionalizado, concebido para equilibrar o
peso das burocracias estatais e dos interesses privados.
As
Conferências Nacionais representaram o ponto mais avançado dessa experiência.
Reuniam representantes da sociedade civil, especialistas, gestores e movimentos
sociais para discutir diretrizes de políticas públicas em escala nacional. Em
diversos momentos, suas resoluções influenciaram diretamente programas
governamentais e legislações setoriais. Foram elas que chamaram a atenção dos
pesquisadores estrangeiros ao demonstrar que era possível ampliar a democracia
para além dos mecanismos representativos tradicionais.
Mas
essa arquitetura nasceu com uma fragilidade estrutural.
Os
conselhos deliberavam sobre políticas e fundos públicos, mas não controlavam
efetivamente as fontes de financiamento desses fundos. Sua capacidade de
intervenção dependia da preservação dos recursos destinados às áreas sob sua
supervisão.
A
primeira grande fissura surgiu em 1994, com a criação do Fundo Social de
Emergência, posteriormente transformado em Fundo de Estabilização Fiscal e
depois em Desvinculação das Receitas da União (DRU). O mecanismo permitiu ao
governo federal utilizar recursos originalmente vinculados à seguridade social
para outras finalidades orçamentárias.
A
partir dali, os conselhos passaram a discutir políticas cujos recursos poderiam
ser deslocados por decisões tomadas fora de sua esfera de influência.
O caso
do Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (CONSEA) tornou-se
emblemático dessa vulnerabilidade institucional.
Criado
em 1993 no governo Itamar Franco, sob forte influência da mobilização liderada
por Betinho, o CONSEA incorporava integralmente o espírito da Constituição de
1988. Vinculado diretamente à Presidência da República, possuía uma composição
singular: apenas um terço de representantes governamentais e dois terços de
representantes da sociedade civil organizada. Sua presidência era exercida por
um representante da própria sociedade.
Era uma
experiência inédita de compartilhamento de poder entre Estado e sociedade.
Dois
anos depois, o conselho foi extinto e substituído pelo programa Comunidade
Solidária, coordenado pela primeira-dama Ruth Cardoso e estruturado em torno de
parcerias e programas específicos. O episódio revelou uma verdade elementar:
instituições criadas por decreto presidencial vivem e morrem por decreto
presidencial.
Ao
longo dos anos, os mecanismos participativos seguiram trajetórias semelhantes.
Alguns
foram progressivamente esvaziados, como ocorreu em diversas áreas da saúde.
Outros jamais desempenharam o papel previsto originalmente, como o Conselho de
Comunicação Social. Alguns acabaram capturados pelos próprios setores que
deveriam fiscalizar, fenômeno semelhante ao observado em diversas agências
reguladoras. Outros simplesmente não saíram do papel ou permaneceram marginais
ao processo decisório.
Enquanto
isso, uma modalidade diferente de controle institucional ganhava força.
A
Emenda Constitucional nº 45, da Reforma do Judiciário de 2004, criou o Conselho
Nacional de Justiça (CNJ) e o Conselho Nacional do Ministério Público (CNMP).
Ambos surgiram com a missão de fiscalizar corporações historicamente
refratárias ao controle externo.
Mas
existe uma diferença fundamental entre esses órgãos e os mecanismos previstos
pela Constituição de 1988.
Os
conselhos concebidos pela Constituinte expressavam o controle social da
sociedade sobre o Estado. O CNJ e o CNMP representam formas de supervisão
institucional exercidas dentro do próprio aparato estatal. São mecanismos
relevantes, mas pertencem a uma lógica distinta.
O
paradoxo é que os instrumentos de participação popular previstos pela
Constituição perderam força ao longo do tempo, enquanto se fortaleceram
mecanismos corporativos de autocontrole ou de controle entre corporações, com
pouquíssima vontade de regular seus pares. E mesmo esses mecanismos passaram
recentemente a sofrer pressões crescentes, especialmente por parte do Congresso
Nacional.
A
trajetória dos conselhos revela, assim, uma das contradições centrais da Nova
República. A Constituição de 1988 procurou criar mecanismos permanentes para
ampliar a influência da sociedade sobre o Estado. No entanto, tais mecanismos
foram concebidos sem autonomia financeira e sem proteção institucional
suficiente para resistir às mudanças de governo, às disputas orçamentárias e ao
avanço do corporativismo.
O
resultado foi um processo gradual de desconstituição da democracia
participativa.
Hoje, o
debate sobre o fortalecimento da democracia brasileira não deveria se limitar à
defesa das instituições existentes. O desafio é recuperar a ideia original da
Constituinte: criar formas efetivas de controle social capazes de equilibrar o
poder crescente das corporações públicas e privadas. E, urgentemente, criar um
Conselho Nacional de Segurança Pública e um Conselho Nacional de Defesa.
Afinal,
o problema contemporâneo não é a ausência de mecanismos de controle. É a
ausência de mecanismos pelos quais a própria sociedade possa controlar aqueles
que exercem o poder.
• Gestão e imaginação: como o Brasil se
construiu fora da quadratura da macroeconomia
A
gestão pública no Brasil enfrenta dois problemas cruciais: excesso de juros e
escassez de imaginação.
O país
quebrado dos anos 1950, sem recursos internos e sem divisas em dólares,
conseguiu mudar a rota do crescimento à base de gestão e imaginação. O mesmo se
deu com o país dos anos 1960.
Vejamos
alguns exemplos históricos da imaginação criadora.
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1. O BNDE e o adicional do Imposto de Renda
Getúlio
Vargas decide criar o BNDE (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico) como
contrapartida brasileira ao aporte do BIRD para infraestrutura no país. Mas
onde encontrar recursos? Conto essa história na biografia que escrevi do
embaixador Walther Moreira Salles:
“A
comissão motivou a criação do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico
(BNDE) como instrumento da contrapartida brasileira. Caberia ao banco assumir
compromissos em nome do Tesouro — caso contrário, cada projeto aprovado teria
de passar pelo Congresso, num procedimento burocrático incompatível com a
agilidade requerida. Ary Torres, engenheiro gaúcho, paulista por adoção,
primeiro presidente do BNDE, empenhou-se na montagem do banco. Junto com o BNDE
foram criados, em 1952, o Banco do Nordeste e, em 1953, a Superintendência do
Plano de Valorização Econômica da Amazônia (SPVEA). A fonte de recursos do BNDE
foi um adicional do Imposto de Renda, discutido na casa de Wolf Klabin, em
Araras, distrito de Petrópolis. Da reunião, de mais de um dia, participaram
Wolf, Lafer, Eugênio Gudin, Bulhões, Walther e Glycon de Paiva. Coube a Glycon
efetuar os cálculos do projeto de aumento do IR. A partir desses estudos, o
banco começou efetivamente a funcionar.”
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2. A capitalização da Petrobras
Vargas
decide criar a Petrobras. Como capitalizá-la? Recorreu à criatividade de Jesus
Soares Pereira, cearense de Assaré, membro da assessoria econômica do governo.
Soares Pereira vinculou o imposto único sobre combustíveis e lubrificantes à
capitalização da empresa: as cotas do tributo destinadas a estados e municípios
foram convertidas em ações da Petrobras, e os estados e municípios em cujos
territórios houvesse jazidas recebiam ações em pagamento. Uma capitalização de
base fiscal, sem desembolso do Tesouro.
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3. A indústria automobilística de JK
JK
decide instituir a indústria automobilística. Como financiá-la? Recorreu a um
conjunto de medidas engenhosas, previstas no Plano de Metas.
A
reserva de mercado já vinha sendo armada. Antes, Dutra obrigara a importação de
veículos via SKD a vir acompanhada de autopeças fabricadas no Brasil (baterias,
retentores, pneus, molas); o segundo governo Vargas criou a Comissão de
Desenvolvimento Industrial, proibindo a importação de componentes com similar
nacional; e em 1953 Vargas proibiu a importação de veículos completamente
montados (CBU), fortalecendo o setor. Foi essa reserva que tornou o
investimento privado atraente.
Sobre
essa base, JK montou o plano de metas do setor. Parte do capital das montadoras
teria de ser nacional — e com isso conseguiu a adesão do capital financeiro
brasileiro. Depois, viria a nacionalização progressiva das autopeças: mais um
campo aberto à transição do capital.
Os
investidores das primeiras fábricas foram empreendedores imigrantes — Kasinski
(Cofap), Mindlin (Metal Leve), a família Sabó —, que reinvestiram capital
comercial, sobretudo do ramo importador, na indústria, sob a proteção tarifária
do Estado e, na fase JK, ao lado de multinacionais que aportaram tecnologia e
capital. O Estado financiou o ambiente, não as fábricas.
Levantou-se
a base industrial brasileira passando ao largo das restrições orçamentárias.
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4. A remodelação da economia com o PAEG
Embora
servisse a um golpe de Estado — o de 1964 —, o PAEG foi uma revolução,
conduzida por Roberto Campos. Algumas medidas dependeram de Atos
Institucionais; mas a maior parte foi de construção habilidosa, voltada à
negociação com as forças econômicas.
Primeiro,
o PAEG instituiu a correção monetária nos contratos imobiliários de interesse
social e criou o Sistema Financeiro da Habitação e o Banco Nacional da
Habitação (BNH). Havia dois problemas a resolver: a estabilidade dos
trabalhadores (instituída por Vargas), que praticamente impedia a demissão; e a
falta de funding para o financiamento habitacional. Criou-se, então, a opção de
o trabalhador escolher entre o antigo regime e o novo, com uma conta no FGTS
(Fundo de Garantia do Tempo de Serviço). Os depósitos das empresas no FGTS
deram o lastro para os financiamentos habitacionais — uma engenharia que
resolveu, de uma só tacada, a flexibilização trabalhista e o funding da casa
própria.
O PAEG
previu, inclusive, uma reforma agrária bem mais avançada do que a de governos
posteriores. Apadrinhada por Roberto Campos no âmbito do programa, foi
coordenada por Paulo de Assis Ribeiro — principal ideólogo da proposta
reformista do IPES e, depois, primeiro presidente do IBRA —, tendo entre seus
redatores José Gomes da Silva, vindo da Revisão Agrária paulista. Acabou
emperrando na aliança dos militares com os ruralistas.
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5. A privatização social, dos anos 90
Quando
teve início a privatização, ainda no governo Collor, encampei a proposta de
Paulo Rabello de Castro das “moedas sociais”, um modelo de privatização pela
qual o governo converteria as dívidas com o INSS e os fundos de previdência
emitindo moedas sociais que permitiriam a fundos de trabalhadores participarem
da privatização.
A
proposta foi atropelada pelos interesses, especialmente do governo FHC, de
facilitar negócios para grupos como Opportunity, Lemann, Jereissati.
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Conclusão
O
grande problema do país, a partir do Cruzado, foi entregar as soluções aos
macroeconomistas. Tudo se resumiu a restrições orçamentárias, a leis de
responsabilidade fiscal emburrecedoras, a dogmas sobre política monetária e
cambial. E os governos foram ou de negociata — como Temer e Bolsonaro-Guedes —
ou temerosos até de olhar torto para o mercado, como Lula.
É hora
de começar a sair do enquadramento terrível da macroeconomia financeira. Não se
está recomendando loucuras fiscais. Mas é preciso entender que a construção de
um país exige imaginação criadora — a capacidade de buscar alternativas fora da
quadratura do círculo da macroeconomia..
Fonte:
Por Luís Nassif, no Jornal GGN

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