Trump
e eleições no Brasil: Celso Amorim diz que tentativa de intervenção pode ter
efeito contrário
A
decisão do governo dos Estados Unidos de designar as
facções criminosas PCC e CV como entidades terroristas e a ameaça de
imposição de novas tarifas sobre produtos
brasileiros logo após a visita do senador e pré-candidato Flávio Bolsonaro (PL-RJ) ao
presidente Donald Trump acendeu o
alerta de aliados do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). A quatro meses das
eleições presidenciais, assessores próximos a Lula avaliam que as medidas já
seriam uma tentativa de os EUA interferirem no processo eleitoral brasileiro. As
suspeitas ficaram ainda mais fortes após a divulgação de uma entrevista de
Trump ao site Axios, divulgada no dia 19 de junho. Na entrevista, Trump afirmou
que o presidente Lula é uma pessoa "volátil" e que o Brasil teria se
tornado um lugar "perigoso".
Para o
embaixador Celso Amorim, assessor especial da Presidência da República para
assuntos internacionais, apesar de todos esses fatores, o governo Trump não
deverá tentar interferir diretamente nas eleições do Brasil. Amorim é um dos
principais conselheiros de Lula no tema. "Tentar interferir pode ter um
efeito contrário, mas eu não creio que vá haver uma interferência tão direta.
Mas temos que ficar alertas porque não é só o presidente (que pode fazer isso).
Há outros interesses econômicos que se movem. A gente sabe disso e já ocorreu
no passado. Então, temos que ficar alertas, sem ficar apavorados", disse
Amorim em entrevista à BBC News Brasil concedida na terça-feira (23/6), em seu
gabinete, no Palácio do Planalto.
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Confira abaixo os principais trechos da entrevista:
·
Na semana passada, o presidente Trump disse que o
presidente Lula é volátil. Como o senhor avalia essa afirmação e o que ela
significa para a relação entre os dois líderes?
Celso
Amorim - As
palavras o vento leva. São voláteis elas próprias. Acho que não merecem um
comentário mais profundo. Não é uma afirmação política. Nós todos sabemos que o
presidente Trump fala muito assim, espontaneamente. Já falou outras coisas. Não
vou dramatizar isso, não.
·
Nas últimas semanas tivemos designação das facções
brasileiras como organizações terroristas e a possibilidade de um novo
tarifaço. Mudou o clima nas relações entre Estados Unidos e Brasil?
Amorim
- Não
sei se mudou. Todas essas questões já estavam em andamento de alguma maneira. A
nossa preocupação é que quando falamos em terrorismo, parece que estamos
diminuindo (a importância do tema). Como disse o presidente Lula, essas facções
fazem o terror contra a população brasileira. O que a gente não quer é que essa
designação sirva de pretexto para uma intervenção, seja econômica, seja
financeira, ou até militar. O Brasil quer cooperar com os Estados Unidos e com
a Europa para combater o crime organizado. É uma prioridade, aliás, que o
presidente Lula levou para o presidente Trump. O que eu vejo é o risco de isso
ser utilizado, como foi em relação a outros países, como pretexto ou motivo
para uma intervenção. Isso é perigoso.
·
Vários integrantes da oposição, não apenas o senador
Flávio Bolsonaro, afirmam que essa é uma posição de leniência do governo
brasileiro com o crime organizado...
Amorim
- Não,
absolutamente. Internamente, você pode até tratá-las (as facções) da forma que
quiser tratar e com todo rigor. Mas o Brasil e o povo brasileiro não querem que
outros países venham intervir aqui a pretexto seja do que for. Eu me preocupo
bastante, para falar a verdade, com uma nova definição geopolítica de áreas de
influência. O Brasil não quer não quer caber no quintal de ninguém. Nós
queremos ter um relacionamento amplo. Por isso nós criamos os Brics. Por isso o
Brasil quer um G20 (grupo das 20 maiores economias do mundo) forte.
·
Nos últimos meses as relações entre Brasil e EUA tiveram
um tarifaço, aplicação de sanções a autoridades, depois uma aproximação entre
Lula e Trump, remoção de algumas tarifas e algumas sanções. E agora, temos a
designação de PCC e CV como entidades terroristas e a ameaça de novas sanções.
É um novo momento das relações entre os dois países?
Amorim
- Os
Estados Unidos são uma superpotência e as superpotências têm, às vezes, a
tendência a agir unilateralmente. Mas, muitas vezes, elas percebem também que
isso não é bom e que é melhor ter uma relação de cooperação. O que eu quero
para o Brasil com relação aos Estados Unidos, como com relação a outros países,
à China ou outro, é ter uma relação de cooperação, uma relação baseada na
igualdade jurídica dos Estados. O resto são flutuações ou, se você quiser,
volatilidades.
·
O senhor já dá como certas a aplicação de novas tarifas
pelo governo norte-americano (os EUA querem impor sobretaxas retaliando
práticas do Brasil que supostamente oneram o comércio norte-americano, em áreas
como comércio digital, desmatamento ilegal, propriedade intelectual e por
falhas em proibir e fiscalizar a exportação de mercadorias produzidas com
trabalho análogo à escravidão)?
Amorim
- Não
estou participando diretamente da negociação. Ontem mesmo recebi aqui o
ministro vice-ministro estrangeiro porque ele é um dos países que tem
legislação trabalhista mais avançada e também está acusado de ter trabalho
semiescravo. Vamos esperar o bom senso predomine.
·
E como o senhor classifica a atuação dos Bolsonaro...
Amorim
- Sobre
os Bolsonaro eu não vou entrar. Não é a minha área.
·
Pergunto porque eles têm tido uma atuação dentro do
Departamento de Estado que tem ou não influenciado a relação entre os dois
países...
Amorim
- É
importante que os Estados Unidos saibam perceber que o Brasil é muito maior do
que isso e que lidem com o Brasil levando em conta a necessidade de nós termos
um regime democrático, um regime que tem a liberdade de expressão mas onde
também há regras e que é um país voltado para um sistema multilateral que não
fica, digamos, com bandeira de ninguém. Nem da China, nem da Rússia, nem dos
Estados Unidos.
·
O presidente Trump demonstrou apoio a candidatos
disputando eleições, seja na Europa, seja na América do Sul. O caso mais
recente na Colômbia. O senhor teme que os Estados Unidos ou que o presidente
Trump influencie ou tente influenciar as eleições brasileiras neste ano?
Amorim
- Temer
é uma palavra que eu não gosto de usar. A gente tem que ter consciência de que
coisas desse tipo as vezes ocorrem. Como o presidente disse, é uma coisa ter
simpatia. Ele pode simpatizar mais com quem quiser. Outra coisa é interferir
através de meios que não são éticos ou legais. Isso não creio que ele vai fazer
porque o Brasil é um país muito importante e eu acho que a própria maneira como
ele recebeu o presidente Lula também demonstra que ele também tem respeito pelo
Brasil.
·
Tem vários analistas que avaliam que a designação do PCC
e Comando Vermelho como organizações terroristas e a imposição de tarifas já
são tentativas de interferência no processo eleitoral. O senhor vê dessa forma?
Amorim
- Eu
não sei porque tentativas de intervenção no processo eleitoral podem ter efeito
contrário. Backfire, como se diz em inglês. O brasileiro é muito
consciente da sua soberania. Somos um país grande, importante e não podemos
ficar submetidos a ninguém. Tentar interferir pode ter um efeito contrário, mas
eu não creio que vá haver uma interferência tão direta. Mas temos que ficar
alertas, porque não é só o presidente (que pode fazer isso). Há outros
interesses econômicos que se movem. A gente sabe disso e já ocorreu no passado.
Então temos que ficar alertas, sem ficar apavorados.
·
Na Colômbia, houve a vitória do candidato de direita nas
eleições presidenciais, Abelardo de la Espriella. Por que, na sua
avaliação, a direita vem avançando na América do Sul?
Amorim
- Acho
que há uma série de flutuações. Há uma classe média que, às vezes, se sente
ameaçada pela proteção aos mais pobres. Há mudanças na estrutura do trabalho,
menos sindicatos. E há também muito medo do crime. Eu acho que o combate ao
crime organizado tem que ser uma prioridade. Já é uma prioridade e deve ser
ainda mais porque a questão da segurança pesa muito e ela é manipulada pela
direita. A direita manipula isso para suprimir a democracia, como já tentou
fazer antes no Brasil.
·
Mas isso também não é, de alguma forma, resultado da
percepção da população de que governos de esquerda não combatem bem o crime
organizado?
Amorim
- Não
sei. Acho que não é uma coisa assim de esquerda ou de direita. É o que está
acontecendo naquele momento, né? É como dizem na Itália: "Piove, governo
ladro" ("Chove, governo ladrão", em tradução livre). Quer dizer
que se está acontecendo qualquer coisa, pra muita gente, a culpa é do governo.
Mas eu acho que não é assim.
·
Mas esses governos de direita defendem agendas como
construção de megapresídios e tratamento mais duro em relação às facções, que
não vão necessariamente na direção daquilo que o governo brasileiro defende. O
surgimento desse chamado "círculo de fogo" de países governados pela
direita afeta a posição do Brasil de liderança regional?
Amorim
- Eu
acho que o Brasil tem que ser pragmático e trabalhar porque a integração
sul-americana é uma coisa para o longo e médio prazo. Se formos olhar nossas
estatísticas, apesar das dificuldades, nosso comércio com a América Latina e
Caribe é maior do que com os Estados Unidos. Nós temos que continuar
desenvolvendo, cooperando, sem entrar (em assuntos internos). Deixe que cada
país resolva (seus problemas) à sua maneira, da forma que achar melhor. Nós
queremos que respeitem a nossa soberania e nós também respeitamos a soberania
deles, mesmo quando não concordamos com certas medidas.
·
A posição de liderança do Brasil na região fica
comprometida com o crescimento de governos de direita na América do Sul?
Amorim
- Em
primeiro lugar, liderança não é um objetivo. A gente age da maneira que a gente
acha melhor. E o Brasil é um país que tem muito peso. O Brasil é metade da
América do Sul, seja em população, seja em território, seja em PIB. O Brasil
terá, fatalmente, um peso nisso tudo. E se a gente tratar de fortalecer a nossa
democracia e mostrar que através da nossa democracia nós estamos tendo
resultados positivos, isso vai ter um peso no resto da região. Agora, às vezes
leva tempo, há flutuações, mas nós acreditamos que dentro dessas flutuações, no
médio prazo, hoje a América Latina e a América do Sul é muito mais interligada
do que era mesmo com todas as diferenças. Nós compramos gás da Argentina e não
quero saber o que o presidente da Argentina pensa. A gente criou uma linha de
transmissão que permite ao Paraguai a produzir manufaturas que não estava
produzindo antes. Nós temos uma relação com o Chile e vamos manter e com Peru
para fazer na América do Sul o que na América do Norte ocorreu no século 19, que
foi a ligação entre o Oceano Pacífico e o Oceano Atlântico. Temos que fazer a
coisa certa. "Do the right thing", como diz o cineasta
norte-americano (menção a Spike Lee).
·
O acordo entre o Mercosul e a União Europeia entrou em
vigor neste ano, mas logo depois, o bloco europeu impôs uma série de restrições
à exportação de produtos brasileiros. Quão confiável a União Europeia é hoje
como parceiro econômico?
Amorim
- A
União Europeia é sempre um parceiro difícil. Nós temos que negociar. É o
importante parceiro comercial. O Brasil valoriza muito uma relação que seja
multilateral. Para fortalecer o multilateralismo, não podemos comerciar só com
a China ou só com os Estados Unidos. A União Europeia, dentro desse contexto, é
muito importante. Agora, a União Europeia tem esse hábito de criar padrões e,
uma vez que ela cria o padrão, quer que todo mundo siga o mesmo padrão. Na
minha opinião, não é correto. Isso precisa ser discutido multilateralmente.
·
Como o senhor vê esse novo momento da Venezuela sob o governo
de Delcy Rodrigues?
Amorim
- Você
está me fazendo uma pergunta muito difícil. Eu não sei como é que vai caminhar.
Obviamente que nós condenamos tudo o que aconteceu: o sequestro do presidente (Nicolás Maduro) e o julgamento dele
de acordo com leis americanas. Eu não posso julgar a Delcy Rodrigues. Não sei o
que ela pode fazer e o que não pode. Mas eu sinto que há uma preocupação não só
no Brasil, mas em geral, de como (o país vai) caminhar e sobre como como
caminha a situação na Venezuela. Não me cabe dizer o que acontecerá
·
Não temos capacidade de ver hoje a Venezuela sob a tutela
dos Estados Unidos? É como o senhor vê?
Amorim
- Eu
não vou fazer qualificações que sejam detrimentais. Eu vejo tudo muito
complexo. Obviamente, há uma limitação. Não há a menor dúvida. Todo mundo vê
isso. Mas eu tenho a expectativa de que (a Venezuela) possa, em algum momento,
recuperar uma maior autonomia nas decisões. Agora, eu não tenho como julgar o
que a presidenta interina está fazendo ou deixando de fazer. E ela sabe,
levando em conta todos os fatores. Eu não sei. É muito complexo. Em Cuba
também. Você vê que há reformas econômicas, cujos detalhes eu não conheço, mas
que a abrem para investimento estrangeiro. Como se fará isso sem que Cuba se
torne um país totalmente tutelado? É um desafio.
·
Numa palestra recente, o senhor disse que sem proteção
digital não há soberania sobre as decisões de um país. Na última semana, o
Brasil foi alvo de pelo menos dois ataques hacker significativos. Qual sua
avaliação sobre a capacidade de proteção digital do Brasil?
Celso
Amorim - Acho
que nós temos que ter uma proteção cada vez maior, inclusive na área da
cibernética. A cada dia que você lê um artigo e tem uma coisa nova. Fui
ministro da Defesa e sei da importância da defesa cibernética. Só que hoje é
uma coisa muito mais importante, inclusive com elementos muito mais avançados.
·
O senhor também defende bastante a regulação das big
techs e este é um tema contencioso no Brasil e no exterior. Qual o perigo que o
senhor vê em uma não-regulamentação das big techs?
Amorim
– O
perigo é elas interferirem diretamente na política. Não é uma influência apenas
intelectual e discursiva, mas é algo mais passional que acaba influenciando no
comportamento das pessoas. Eu acho que há um grande perigo de falsificação da
realidade. Uma coisa é liberdade de expressão, outra coisa é a mentira. Eu acho
que isso é um dos problemas graves que nós já tínhamos, mas que hoje é muito
mais importante.
·
O senhor teme que esse assunto, que é defesa do Brasil
por uma regulação, seja instrumentalizada no debate com os Estados Unidos e o
senhor acha que isso está acontecendo?
Amorim
– Não
estamos fazendo nada de contestação aos Estados Unidos. É natural que o Brasil
tenha a sua maneira de ver as coisas. Nós não temos que seguir em tudo ou em
muitas outra coisas os Estados Unidos. Por exemplo, o governo Trump, é contra o
multilateralismo e nós somos a favor. Vamos trabalhar dentro da nossa
independência. O Brasil tem personalidade própria. O Brasil é um grande país e
vai procurar fazer as alianças possíveis. Não temos nada contra ou o governo
Trump, em tese, mas temos que defender os nossos interesses.
·
O Brasil hoje não tem nenhuma das grandes empresas
relacionadas à inteligência artificial. Na sua avaliação, o Brasil hoje está
preparado para essa revolução?
Amorim
- Isso
aí é uma preparação muito recente. Eu não vou dizer que nós estamos
engatinhando porque já estamos andando um pouquinho. O fato de nós termos
consciência disso, de estarmos discutindo isso, já é um grande passo.
Obviamente, há questões preocupantes e também não é claro como podem ser
substituídos certos serviços prestados por algumas dessas empresas. Mas a gente
tem que trabalhar nesse sentido. Eu acho que uma das coisas que a gente pode
buscar é uma certa diversificação também de parceiros.
·
O governo brasileiro defende a agregação de valor dos
minerais críticos no Brasil, mas a maior parte ainda sai sem agregação de
valor. O Brasil perdeu o bonde da revolução dos minerais críticos?
Amorim
- Acho
que há tempo ainda para recuperar. Obviamente, se a gente deixasse o laissez
faire, iríamos perder totalmente. Mas a questão não é só a agregação de
valor. Ela é importante. Eu não sou um técnico, mas eu intuo. A gente não
precisa ser meteorologista para saber em quê direção o vento está soprando. É
preciso definir as nossas necessidades em saúde, educação, defesa. Com todas
essas questões, os elementos das terras raras são fundamentais. O Brasil é um
país muito grande, com muitos recursos. Não sabemos como pode ser o futuro. Não
temos inimigos imediatos, não temos guerra há 150 anos, mas a gente precisa
estar preparado para se defender. Temos que ter capacidade de dissuasão e isso
envolve, certamente, seja na aviação moderna, nas armas defensivas, ter acesso
a materiais de primeiríssima qualidade e que não são abundantes (...)Temos que
protegê-las (terras raras) como protegemos o petróleo (...) Elas são mais
importante que o petróleo, é quase como o urânio. É o meio termo entre o
petróleo e o urânio.
·
O senhor acha que os minerais críticos serão tão
importantes quanto o petróleo?
Amorim
- No
futuro, acho que podem ser até mais porque a tendência é que elas possam
substituir o petróleo como fontes ou equipamentos para outros combustíveis
(...) As terras raras entram como componentes de supercomputadores para uso em
supercomputadores e em armamentos de defesa. São fundamentais.
·
Os Estados Unidos lançaram uma iniciativa e vêm falando a
respeito do assunto, numa perspectiva de quererem que determinados países se
tornem fornecedores exclusivos para os Estados Unidos ou preferenciais. É
interessante ao Brasil ser um fornecedor exclusivo ou preferencial dos Estados
Unidos?
Amorim
- Não
é interessante ao Brasil ser fornecedor exclusivo para ninguém. Acho que o
Brasil deve trabalhar de maneira diversificada. É o que nos garantiu no
comércio quando houve medidas protecionistas de um lado ou de outro. Volto a
dizer: o problema principal é definir as nossas necessidades. Precisamos
beneficiar aqui para atender às nossas necessidades nos mais variados campos em
que a tecnologia de informação e comunicação estão presente. Quando se começou
a pensar no petróleo, nós não estávamos pensando em exportar petróleo. Agora, o
Brasil também exporta. Mas o importante é você atender às suas necessidades sem
depender de um fornecedor externo.
·
Agora, na sua avaliação, essa definição de necessidades
está ocorrendo na velocidade que é necessária?
Amorim
– Temos
esse projeto de lei, ainda falta a aprovação final de um conselho (sobre
minerais críticos) ligado à Presidência e é muito importante que seja ligado à
presidência, como era no passado a Comissão de Energia Nuclear. É preciso que
haja uma definição política do uso das terras raras. O beneficiamento, é
lógico, é importante. Não estou dizendo que a gente não pode exportar nada.
Podemos, mas a partir da nossa capacidade de definir aquilo que a gente precisa
para questões estratégicas brasileiras.
·
Nos últimos meses, uma empresa norte-americana comprou
uma empresa que opera a única mina de terras raras fora da Ásia e que fica no
Brasil. Na sua avaliação, pelo fato de essa mina ser a única fora da Ásia a
explorar terras raras, o governo brasileiro deveria ter poder de veto para uma
transação como essa?
Amorim
– Acho
que no futuro a gente deveria ter capacidade de olhar e, sim... veto... é uma
palavra pesada. Não precisa ser veto. É uma questão de definir o que você vai
fazer em função do que você precisa naquele momento. Deixar comprometida toda a
sua capacidade de produção de terras raras ou de minerais críticos para um
governo estrangeiro, qualquer um que seja — não temos nada contra Estados
Unidos, não é isso —, acho que é perigoso. Não havia no Brasil uma consciência
de que é importante para o nosso desenvolvimento (...) Acho que precisamos ter
essa capacidade de dizer não e dizer: "Agora não posso (exportar). Eu
estou precisando desse elemento". Não é vetar um país ou outro. É uma
questão de você ter capacidade de definir as suas necessidades, como é com o
urânio. O Brasil não exporta urânio livremente. Acho que as terras raras terão
um papel semelhante.
Fonte:
BBC News Brasil

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