Restringir
celulares como restringimos o cigarro
A
rápida disseminação de smartphones, especialmente a partir de 2010, transformou
profundamente a nossa forma de viver e se relacionar – com evidências
crescentes de que a presença constante destes dispositivos em nosso dia a dia
traz repercussões sérias na atenção, no aprendizado e na saúde mental,
especialmente entre os mais jovens.
Nesse
cenário, o Brasil tem ganhado evidência. Estamos entre os países mais
conectados do mundo: passamos em média mais de 9 horas por dia diante das
telas, e 36% das crianças de 6 a 8 anos já possuem celular próprio. Antes mesmo
da alfabetização plena, já estamos inserindo a infância em uma rotina
hiperconectada. Porém, será essa a cultura digital que queremos para nós?
Sociedades
científicas alertam para limites claros: a Organização Mundial da Saúde (OMS)
recomenda ausência total de telas para crianças menores de 2 anos, e no máximo
1 hora diária até os 5 anos. Já dos 6 aos 10 anos, a Sociedade Brasileira de
Pediatria sugere até 2 horas diárias, limite que se estende para 3 horas dos 11
aos 18 anos.
Importante
lembrar que, em adolescentes, há evidências de aumento significativo de riscos
à saúde mental quando o tempo de tela ultrapassa 4 horas/dia. Por outro lado,
estudos indicam que reduzir apenas uma hora de tela por dia já se associa à
melhora do humor e à redução de sintomas ansiosos.
Mas
parece que estamos nadando contra a corrente. Nos últimos 10 anos, em diversos
países do mundo, foram registrados crescimentos alarmantes de sintomas de
ansiedade, depressão e taxas de suicídio – principalmente entre os mais jovens.
Só no Brasil, entre 2013 e 2023, houve crescimento de cerca de 1.000% nos casos
de ansiedade e depressão entre jovens e adolescentes, conforme dados da Rede de
Atenção Psicossocial do SUS. Pela primeira vez na história, inclusive, os
índices de ansiedade entre jovens superaram os de adultos. E sabe o que aparece
recorrentemente como um fator associado a esses aumentos? O uso excessivo da
tecnologia.
Diante
desse contexto, será que não deveríamos estimular espaços livres de celulares
como fizemos com o cigarro?
Vale
lembrar que o tabaco foi associado durante décadas a status, glamour e até
benefícios à saúde, apesar das evidências de seus malefícios. Na década de
1980, o cigarro ainda era usado livremente em aviões e salas de aula. Sua
restrição exigiu tempo, ciência e políticas públicas consistentes.
Portanto,
a pergunta que se impõe é: será que não naturalizamos hoje, de forma
semelhante, o uso irrestrito dos smartphones? Será que a restrição ao uso de
celulares em alguns locais de convívio não poderia fomentar novas culturas em
prol do bem-estar social?
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Celulares nas escolas
Uma
política pública importante nesse sentido foi a Lei 15.100/2025 – que
restringiu o uso dos dispositivos digitais nas escolas do Brasil. Porém, em
visitas recentes a escolas de São Paulo, algo me chamou atenção: mesmo com a
proibição, muitos adolescentes seguiam com os aparelhos em mãos, navegando em
redes sociais e checando mensagens em sala. Diante desta cena, algumas
perguntas que surgiram foram: quais os grandes desafios de implementação da lei
e como maximizar seus efeitos?
Em
pesquisa recente conduzida pelo autor, com apoio do CNPq, foram entrevistados
73 professores e alunos do ensino fundamental e médio, e entre os resultados,
quase 70% da amostra relatou melhora nas interações sociais e na aprendizagem
após a restrição digital nas escolas. Porém, mais de 70% defendeu ajustes na
lei. A conclusão do estudo foi clara: a política tem potencial positivo, mas a
proibição total tende a ser insuficiente se não acompanhada de diálogo e
educação. Outra pesquisa recente sobre o assunto – da Frente Parlamentar Mista
da Educação –, que entrevistou 2.840 alunos, também constatou que a restrição
ao uso de celulares nas escolas fez 80% dos estudantes prestarem mais atenção
às aulas.
Experiências
internacionais seguem caminhos semelhantes. Diversos países europeus adotam
escolas livres de celular associadas à educação digital desde a infância. O
debate, portanto, é para recuperar experiências humanas essenciais. Pois mesmo
hiperconectados, nunca nos sentimos tão sozinhos. Pesquisa global da Ipsos
mostra o Brasil entre os países com maior sensação de solidão. Espaços
coletivos foram ocupados por telas, reduzindo o encontro, o olhar, a espera, a
escuta, o existir sem performar. Estamos presentes fisicamente, mas ausentes
nas relações.
Na
tentativa de criar novas práticas digitais, vale destacar que o comportamento
dos adultos é um dos principais fatores que estimula o uso excessivo pelos mais
novos. Ou seja, quando pais, professores e familiares estão muito conectados,
normalizamos a ideia de que o celular é mais importante do que a presença do
outro. E isso produz efeitos profundos sobre o convívio social.
Nesse
sentido, se o cigarro precisou ser restringido em ambientes coletivos para
proteger a saúde física, é razoável reconhecer que o uso irrestrito de
celulares também exige limites claros para resguardar a nossa saúde mental. Não
se trata de demonizar a tecnologia, mas de reconhecer que ambientes como
escolas, salas de aula e outros espaços de convivência precisam ser
intencionalmente desenhados para favorecer a presença, a atenção.
Defender
espaços de desconexão, portanto, não é um retrocesso, mas um avanço
civilizatório. É afirmar que nem todo tempo deve ser capturado por
notificações, nem toda relação é mediada por algoritmos. Em um mundo saturado
de estímulos, criar ilhas de presença pode ser uma política pública simples,
mas potente, para proteger a infância, a saúde mental e a vida em comum. No
limite, o centro da questão não é a tecnologia, mas que tipo de sociedade
queremos sustentar, e o quanto estamos dispostos a defendê-la.
Fonte:
Por Felipe Azevedo Moretti, em Outra Saúde

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