quinta-feira, 25 de junho de 2026

CIA, mídia e empresários: as 4 fases do golpe brando contra o México

Para compreender o México de 2026, vale recordar que, em 1954, os Estados Unidos perpetraram um golpe de Estado contra Jacobo Arbenz, acontecimento que inaugurou a Guerra Fria interamericana após o Bogotazo de 1948, quando Jorge Eliécer Gaitán foi assassinado.

Nesse golpe, os Estados Unidos elaboraram o que podemos denominar de “manual do bom golpista”: o Plano PBSUCCESS. Na Guatemala, estiveram envolvidos a Agência Central de Inteligência (CIA), o Departamento de Estado, os meios de comunicação e forças sociais guatemaltecas que apoiaram o golpe. Esse fato deixou importantes lições que é pertinente recuperar para o caso mexicano em pleno 2026.

Algumas partes desse plano são:

>>> Passo 1. Pessoal e avaliação

>>> Passo 2. Condições preliminares

  • Que a chefia central atue em campo;
  • Criar tensões e baixas no interior do alvo;
  • Desacreditar o alvo em seu próprio país e no exterior;
  • Demonstrar a incapacidade do governo;
  • Iniciar a pressão econômica.

>>> Passo 3. Construção

  • Criar o máximo de antagonismo possível;
  • Impulsionar a vontade de resistência no interior do alvo;
  • Aplicar pressão econômica interna e externa para criar dificuldades;
  • Iniciar um programa de sabotagem passiva.

>>> Passo 4. Período crítico

  • Aplicar pressão econômica ao máximo;
  • Acentuar a dissidência no interior do alvo;
  • Campanha intensiva de rumores para gerar medo de guerra.

<><> A ofensiva contra o México

Avaliemos, então, o caso mexicano. Fase um, pessoal e avaliação: por meio de um vazamento ao Los Angeles Times e da reportagem do jornalista Steve Fisher, soube-se, em abril, que a CIA operava em Chihuahua. A governadora María Eugenia Campos abriu as portas ao intervencionismo e chegou a ceder à agência um andar da controversa Torre Centinela. A governadora, fiel ao Partido Ação Nacional (PAN), construiu a torre da ingerência com superfaturamento e falta de transparência.

Fase dois, condições preliminares: as tensões e baixas no interior do alvo têm nome e sobrenome: o governador licenciado Rubén Rocha e o senador Enrique Inzunza, apontados pelo Departamento de Justiça por supostos vínculos com o narcotráfico. Acusação que, até o momento, não conta com provas. E, após um novo vazamento da embaixada chefiada pelo ex-boina-verde Ronald Johnson (especialista em operações especiais e guerra psicológica), agora miram a retirada do visto dos governadores de Sonora e Tamaulipas.

Três dos seis estados fronteiriços. Além disso, deixam em aberto a possibilidade de retirada do visto do senador Adán Augusto López. Os governadores de Sonora e Tamaulipas já desmentiram as acusações. O que vemos é que estão mirando elos que consideram frágeis na cadeia de comando, avançando de baixo para cima na estrutura de governo.

A operação de descrédito contra o governo mexicano, dentro e fora do país, começou há meses. Fiel aos seus conhecimentos em operações especiais, o embaixador Johnson iniciou, de forma lenta, mas constante, uma ofensiva por meio de veículos de comunicação estrangeiros (Financial Times, The New York Times, The Washington Post, The Wall Street Journal, The Economist) e da imprensa nacional.

Na narrativa favorável ao intervencionismo, são mobilizadas três matrizes de opinião, articuladas com outras narrativas subjacentes: “o narcotráfico governa amplos territórios do país”, “há uma crise de segurança” e “os políticos no governo são corruptos e têm vínculos com o narcotráfico”.

Enfrentamos novamente a narrativa do narcogoverno, do narcopartido, algo que já havia sido ensaiado em 2024. Com essa narrativa, pretende-se impor a ideia da incapacidade das autoridades mexicanas de governar o país e comprometer sua viabilidade política com vistas às eleições de 2027.

Fase três, a construção. É nesse ponto que se encontra, por exemplo, o antagonismo buscado pelas forças conservadoras nacionais e estrangeiras, que difundiram a narrativa da suposta separação entre a presidente Claudia Sheinbaum e Andrés Manuel López Obrador.

Mas também a divisão, ou a tentativa de romper os vínculos entre o governo e o povo.

Ou, por exemplo, a ruptura com determinados grupos sociais e movimentos sociais: os coletivos de familiares de desaparecidos, o magistério e outros grupos sociais contrários à Copa do Mundo da FIFA de 2026.

Cada grupo possui reivindicações legítimas, mas que, segundo essa interpretação, estariam sendo instrumentalizadas pela direita nacional e internacional para aprofundar a divisão social.

Impulsionar a vontade de resistência no interior é um passo que Larry Rubin, da American Society, e empresários estadunidenses e mexicanos deram, como ficou evidenciado na coletiva da presidente Sheinbaum em 9 de junho.

No setor empresarial, houve quem incitasse a deixar para trás as manifestações pacíficas e conclamasse ao uso da violência.

No caso de Rubin, ele mantém contato com um ex-agente da CIA com atuação no México: Rick de la Torre, integrante da empresa Tower Strategy LLC, que esteve presente no jantar de gala do qual participaram políticos da oposição e empresários.

O exposto é um exemplo claro de que estamos diante de uma revolução colorida, na qual se busca um golpe brando com enorme apoio dos meios de comunicação nacionais e estrangeiros, que reiteram as narrativas de narcogoverno, crise de segurança e crise econômica.

Adicionalmente, emprega-se pressão econômica interna e externa por meio da dívida, das tarifas e da revisão do Tratado entre México, Estados Unidos e Canadá (T-MEC), assim como por meio de pressões fiscais, caso o empresariado mexicano não pague impostos. Mas também aqui o capital financeiro entra em campo, pressionando a bolsa de valores, a estabilidade do peso, induzindo a inflação e aproveitando acontecimentos geopolíticos internacionais.

A fase quatro, o período crítico. Nós a conheceremos já durante a Copa do Mundo de Futebol. Veremos se as diferentes forças contrárias ocuparão seu lugar histórico. Os partidos de oposição, PAN e Partido Revolucionário Institucional (PRI), já demonstraram que estão abertos à ingerência e à sua vocação antipatriótica, à busca de um Maximiliano de Habsburgo em pleno século XXI e a sentar-se à mesa com o que há de mais retrógrado na direita nacional e estrangeira.

Os empresários, essa burguesia rentista estrangeirizada e mais ianque do que mexicana, estão divididos; alguns demonstram confiança no governo do México. Outros, simplesmente, apostam no intervencionismo. Embora tenham prometido investimentos, é importante que os realizem, mas também que paguem seus impostos; do contrário, abre-se outra frente de pressão, a fiscal, que incide sobre as finanças no restante de 2026, mas sobretudo em 2027, ano eleitoral.

A campanha intensiva de rumores para gerar medo de guerra pode ser vista todos os dias e em praticamente todos os meios de comunicação hegemônicos e corporativos. A invasão dos Estados Unidos ao México é um cenário que há muito tempo habita o inconsciente do povo mexicano. No entanto, na Venezuela eles já testaram outra metodologia: o sequestro; agora tentam aplicá-la em Havana e querem replicá-la na Bolívia contra Evo Morales.

O golpismo de hoje não consiste na invasão, como ocorria no século XIX; consiste no sequestro de um presidente, de um líder ou de uma liderança feminina; consiste no uso efetivo dos meios de comunicação e do lawfare, ou seja, da utilização da Justiça por razões geopolíticas.

Como afirmou, em sua última carta, um líder incontestável como López Obrador, isso ocorre por interesses mesquinhos de “puxa-sacos, manipuladores, caciquilhos, aproveitadores, ladrões, penetras, rábulas, especuladores, filibusteiros, potentados, carreiristas ou malvados”. Os de cá e os de lá.

Mas, na América Latina e no Caribe, não são os Estados Unidos que têm a última palavra; são os povos. São as mães e os pais das pessoas desaparecidas, os jovens que lutam, os operários que transformam as matérias-primas, os professores e as professoras, aqueles que defendem suas comunidades e territórios, as comunidades indígenas, as donas de casa, a classe trabalhadora mexicana que atua no setor de serviços, o motorista de aplicativo.

É o povo do México que, em sua longa história e diversidade, lutou por liberdade, soberania e democracia e deu demonstrações de que, diante de invasões de potências estrangeiras, foi capaz de expulsá-las e derrotá-las. Querem-nos divididos, em conflito uns com os outros, porque um povo dividido é mais suscetível ao controle. O desafio é a união na diversidade.

¨      Entre laboratórios e refinarias, Cuba avança para transformar petróleo pesado em saída energética

As refinarias cubanas voltaram ao centro da atenção midiática desde que anunciaram, em abril último, os primeiros êxitos com petróleo nacional. No início de junho, a usina localizada em Santiago de Cuba voltou a suscitar expectativa ao informar, em um segundo ensaio, o refino de 20 mil toneladas de petróleo cubano, conhecido por sua elevada densidade.

O interesse da população por essas notícias deriva, de maneira lógica, do amplo histórico de crises energéticas, limitações tecnológicas e econômicas e tensões políticas que o país acumula. Os longos e frequentes apagões da atualidade são apenas mais uma evidência dos problemas acumulados nesse campo.

A esse histórico somaram-se a inclusão da estatal Unión Cuba Petróleo (Cupet), em 11 de junho, na lista de empresas cubanas sancionadas pelos Estados Unidos, e a revogação, em Miami-Dade, da licença da empresa Vanguard Energy para exportar combustíveis a empresas privadas e instituições civis de Cuba.

Nesse contexto de cerco total aos combustíveis que seu vizinho do norte impõe a este país do Caribe — apenas um navio-tanque russo o atravessou desde janeiro —, Cuba acelerou a busca de alternativas para o refino de petróleo nacional, caracterizado por sua alta viscosidade e elevado teor de enxofre corrosivo, mas que se tornou uma tábua de salvação energética em meio à tormenta.

Diante da impossibilidade de processá-lo para obter gasolina e outros derivados, esse petróleo bruto pesado ficou, desde os anos 1990, restrito ao uso como combustível direto e pouco eficiente nas termelétricas. Como custo inevitável, a infraestrutura industrial da geração de eletricidade acumulou um desgaste maior, que hoje se evidencia nas frequentes falhas das termelétricas cubanas.

<><> Termoconversão cubana

O estatal Centro de Investigações do Petróleo (Ceinpet) publicou recentemente uma inovação tecnológica para refinar o petróleo bruto cubano, a fim de utilizá-lo de forma mais ampla. Com o nome de termoconversão, a novidade foi anunciada pelo presidente Miguel Díaz-Canel em pessoa, durante uma reunião do Conselho Nacional de Inovação, no final de abril.

“Rompemos um critério, um tabu que existia no país, de que o petróleo nacional não podia ser refinado, não podia ser utilizado em outras coisas, e praticamente o tínhamos condenado a ser usado apenas em um grupo de termelétricas”, afirmou o mandatário.

Por termoconversão, o Ceinpet denomina um processo de aquecimento controlado para melhorar as propriedades do petróleo bruto pesado e extrapesado, característico da faixa norte do oeste de Cuba.

De acordo com informações oferecidas pelo diretor adjunto da Cupet, Irenaldo Pérez, esse processo permite reduzir compostos complexos do petróleo bruto e melhorar sua fluidez, sem necessidade de misturá-lo com nafta, solução aplicada até o momento para facilitar tanto a extração nos poços quanto seu processamento.

Com a inovação do Ceinpet, a Cupet se propõe agora a investir em uma usina piloto na refinaria Sergio Soto, na província central de Sancti Spíritus.

<><> Nafta de Santiago

Quase simultaneamente ao anúncio do Ceinpet, a Refinaria Hermanos Díaz informou a realização de ensaios para processar petróleo bruto cubano e produzir nafta. Com experiência prévia no refino de petróleo pesado importado, a indústria adotou uma fórmula tecnológica para reduzir a viscosidade do petróleo cubano e, assim, torná-lo mais adequado ao processamento.

“Fizemos um primeiro teste com o petróleo nacional no mês de março; obtivemos nafta, diesel e óleo combustível e, sobretudo, não foi interrompida a exploração de nossas jazidas petrolíferas”, disse a diretora-geral da refinaria, Irene Barbado.

Continua após o anúncio

Em um segundo ensaio, anunciado no início de junho, a refinaria de Santiago conseguiu, “com resultados superiores ao primeiro desta fase piloto, a produção de nafta solvente para nossos poços e óleo combustível”, a partir de petróleo cubano.

A diretora reconheceu que esse diesel não cumpre todos os requisitos para comercialização, “razão pela qual se tornou necessário misturá-lo com um de ótimas características para assim possibilitar seu uso”.

É sua produção de nafta, no entanto, que adquiriu valor estratégico atualmente. Esse derivado, empregado para reduzir a viscosidade do petróleo pesado nacional, permitiu manter ativas as jazidas petrolíferas de Cuba em momentos nos quais o país não pôde continuar importando petróleo nem nafta de outros países.

Embora o combustível cubano cubra apenas cerca de 40% das necessidades energéticas nacionais, é o único disponível atualmente, quando o bloqueio extremo dos Estados Unidos veta sua importação de qualquer outro país.

A refinaria de Santiago realiza esses ensaios com petróleo da região central de Cuba, menos pesado e agressivo do que o da faixa costeira de Matanzas, a leste de Havana, onde se encontram as maiores jazidas do país.

Projetada para processar petróleos leves, o maior desafio dessa indústria é a adaptação tecnológica para o refino de petróleo nacional que possui, além de alta viscosidade, elevados níveis de enxofre e acidez. (2026).

 

Fonte: Contralínea - Tradução: Isabelle Paiva/IPS/Diálogos do Sul Global

 

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