sexta-feira, 26 de junho de 2026

Coreomania: a bizarra epidemia de dança em Aachen

Há 652 anos, a cidade de Aachen, na atual Alemanha, servia de palco a um dos fenômenos mais intrigantes e enigmáticos da era medieval. Sem qualquer razão aparente, centenas de moradores da cidade saíram às ruas e começaram a dançar de forma frenética, incontrolável e supostamente involuntária.

Os dançarinos pulavam, rodopiavam, gritavam, alucinavam e continuavam bailando por horas a fio. Dançavam até os pés sangrarem e só paravam quando colapsavam de exaustão. Alguns, literalmente, dançaram até a morte.

Os populares que observavam o curioso acontecimento logo se juntavam à multidão dançante. De Aachen, o fenômeno se espalhou por Bélgica, Holanda e França, afetando milhares de pessoas. Tinha início assim um dos maiores surtos de coreomania (ou “epidemia de dança”) da história.

Por ter começado em 24 de junho, Dia de João Batista, o fenômeno ficou conhecido como “Dança de São João”. Muitas hipóteses foram formuladas para elucidar o misterioso evento, mas até hoje não há uma explicação consensual.

<><> Primeiras ocorrências

A epidemia de dança de Aachen é uma entre várias ocorrências de coreomania registradas na Europa ao longo da história. Conforme Eugène Louis Backman e Dorothy Schullian, o surto mais antigo do qual se tem notícia teria ocorrido ainda no século 7, mas as informações sobre esse episódio são escassas e conflitantes.

Uma crônica datada do século 11 oferece uma explicação sobrenatural para o fenômeno. O texto relata um episódio que teria acontecido em Kölbigk, um pequeno vilarejo nos arredores de Bernburg, na Saxônia. Em dezembro de 1021, um grupo de 18 pessoas teria se reunido em frente à igreja da aldeia e começado a cantar e a dançar em roda, atrapalhando as cerimônias religiosas da véspera de Natal.

Incomodado com o barulho, o padre do vilarejo ordenou aos dançarinos que voltassem para suas casas, mas foi completamente ignorado. Furioso, o sacerdote lançou uma maldição sobre o grupo, condenando-os a dançar por um ano inteiro, sem parar. A praga teria funcionado e os bailarinos só conseguiram se libertar do frenesi no Natal do ano seguinte.

Outros episódios ocorreram nos séculos 13 e 14. Em 1237, na região alemã da Turíngia, um grupo de crianças caminhou por 20 quilômetros, indo da cidade de Erfurt até Arnstadt. Ao longo do trajeto, pulavam, dançavam e cantavam, completamente incapazes de despertar do transe.

Em 1278, outro evento ocorreu em Maastricht, no sul da Holanda. Tomadas pela compulsão, 200 pessoas dançaram por várias horas em cima de uma ponte sobre o Rio Mosa. Sobrecarregada, a estrutura acabou colapsando e várias pessoas morreram afogadas. Os sobreviventes foram socorridos em uma capela dedicada a São Vito — justificando o epíteto de “Dança de São Vito”, outro sinônimo para coreomania.

A região alemã de Lusácia, na fronteira com a Boêmia, registrou um surto de dança em 1360. Mulheres e meninas começaram a vagar pela região, dançando e gritando incontrolavelmente enquanto carregavam uma imagem da Virgem Maria.

O fenômeno também atingiu o sul da Itália, onde a sua causa era popularmente atribuída à picada da tarântula-do-mediterrâneo. As vítimas entravam em um estado de enorme agitação e sentiam uma compulsão irresistível para dançar. Acreditava-se que a dança “expulsava” o veneno do corpo através do suor. Para ajudar no processo, músicos eram incumbidos de executar canções rápidas e animadas. Essa “terapia” daria origem ao ritmo folclórico que hoje conhecemos como tarantela.

<><> A epidemia em Aachen

Até meados do século 15, os surtos de dança eram relativamente pequenos, geralmente envolvendo algumas dezenas de pessoas. Além disso, as crônicas coetâneas que tratavam sobre esses eventos eram escassas, o que levou alguns historiadores a considerarem os relatos de coreomania como lendas populares.

A epidemia de dança ocorrida em Aachen em junho de 1374, no entanto, não deixa dúvidas sobre sua veracidade. O episódio foi relatado por dezenas de cronistas e registrado na documentação oficial de várias cidades.

O fato ocorreu durante as celebrações litúrgicas do Dia de São João. A princípio, pequenos grupos começaram a formar círculos e a dançar freneticamente de mãos dadas, como se estivessem em transe, alheios ao que ocorria ao seu redor. As rodas de dança foram aumentando com a chegada de mais populares e peregrinos ao longo do dia. Logo, centenas de pessoas estavam dançando pela cidade.

Os dançarinos batiam palmas, gritavam, giravam, gargalhavam, choravam copiosamente e diziam coisas sem sentido. Estranhamente, a dança parecia ser involuntária. As crônicas relatam que os participantes não conseguiam parar, como se estivessem sendo forçados a dançar contra a própria vontade.

As vítimas da epidemia imploravam por socorro, gemiam de dor, mas seguiam dançando noite adentro, mesmo com os pés sangrando. Só conseguiam parar quando desmaiavam de exaustão. Nesse momento, precisavam ser imobilizadas e amarradas para que não fossem novamente acometidas pelo transe.

O fenômeno foi descrito de forma detalhada pelo médico alemão Justus Friedrich Karl Hecker no livro A Peste Negra e a Mania da Dança: “os participantes formaram círculos de mãos dadas e, parecendo ter perdido todo o controle dos sentidos, continuavam dançando, indiferentes aos espectadores, por horas a fio, em delírio selvagem, até que finalmente caíam no chão exaustos. Queixavam-se então de extrema opressão e gemiam como se estivessem sofrendo da agonia de morte, até serem envoltos em panos apertados em volta da cintura, recuperando-se em seguida e permanecendo sem queixas até o próximo ataque”.

Cronistas registraram que os dançarinos relatavam visões terríveis e, em alguns casos, se comportavam de forma violenta, animalesca ou obscena. Em “Decani Tongrensis”, Radulphus de Rivo afirmou que as pessoas afetadas “entoavam cânticos pronunciando nomes de demônios nunca antes ouvidos”.

Alguns dos dançarinos se autoflagelavam, acreditando que estavam possuídos por entidades malignas. Outros ficaram extremamente violentos, agredindo gratuitamente os moradores da cidade. Houve ainda casos de dançarinos que desenvolveram uma peculiar aversão pela cor vermelha.

<><> Novos surtos

O surto de dança se prolongou por várias semanas e logo começou a afetar as cidades vizinhas. Em Trier, os dançarinos causaram escândalo quando ficaram nus, usando apenas guirlandas de flores na cabeça. Em seguida, eles se entregaram a uma gigantesca orgia em uma floresta nos arredores da cidade.

A epidemia de dança continuou se espalhando, afetando várias cidades e aldeias ao longo dos rios Reno e Mosela. Episódios semelhantes ocorreram em Colônia, Liège, Utrecht, Tongeren, Metz, Estrasburgo e outras localidades hoje situadas na França, na Bélgica e nos Países Baixos. Estima-se que dezenas de milhares de pessoas foram afetadas.

O fenômeno causou perplexidade e alarmou a Igreja Católica e os governos locais. As autoridades tentaram combater a epidemia isolando os dançarinos para evitar a “contaminação”. Acreditando que as vítimas do surto estavam possuídas por demônios, os padres realizavam sessões de exorcismo. Não raramente, esses procedimentos descambavam para a tortura, com os dançarinos sendo acorrentados, espancados e afogados em barris de água.

O fenômeno em Aachen foi debelado após alguns meses, mas outros episódios voltariam a afetar a Europa periodicamente, como os surtos ocorridos em Augusburgo (1381), Zurique e Schaffhausen (1428).

Uma das mais graves epidemias de dança eclodiu em Estrasburgo em julho de 1518, quando centenas de populares se juntaram a uma mulher chamada Frau Troffea e dançaram por várias semanas. Conforme relatos do período, o episódio teria resultado em várias mortes por infarto ou esgotamento físico.

Ainda no século 16, a epidemia atingiu Basileia (1536) e Anhalt (1551). Os surtos ainda apareceriam de forma isolada até meados do século 17, quando o fenômeno das “epidemias de dança” desapareceu por completo.

<><> Possíveis explicações

As causas da coreomania são um mistério até hoje. À época, os religiosos interpretavam que o fenômeno era causado por influência demoníaca ou como uma punição divina pelos pecados da humanidade.

Paracelso, um dos expoentes da “Revolução Médica” do Renascimento, foi um dos primeiros autores a rejeitar uma explicação espiritual para as epidemias de dança, priorizando a busca por causas fisiológicas. O médico suíço acreditava que o surto era causado pelo “sangue superaquecido” das vítimas, que resultaria em movimentos involuntários e frenéticos.

Alguns estudiosos tentaram atribuir a epidemia de dança à coreia reumática de Sydenham, um transtorno neurológico que causa tremores, movimentos involuntários e alterações comportamentais. Os sintomas da doença, entretanto, não se encaixam nos padrões observados durante os surtos de coreomania.

Outros autores contemporâneos sugerem que a coreomania pode ter sido uma epidemia de ergotismo, uma intoxicação causada pelo fungo “Claviceps purpurea”, que contamina cereais como o centeio. A hipótese explicaria as alucinações e os espasmos, mas não ajudaria a elucidar a maioria dos sintomas. Além disso, nem todas as regiões afetadas eram produtoras ou consumidoras de centeio.

Entre as explicações contemporâneas mais aceitas estão as hipóteses de histeria coletiva ou de uma doença psicogênica em massa. Os surtos, afinal, costumavam ocorrer em contextos de crise social, marcados por estresse profundo e extremo sofrimento psíquico.

No século 14, a epidemia de peste bubônica havia dizimado cerca de um terço da população europeia, deixando uma sociedade traumatizada, empobrecida, tomada pelo pânico e imersa em questionamentos religiosos e existenciais. A “dança” poderia ter funcionado como um instrumento de catarse coletiva, através da qual os participantes tinham a oportunidade de “extravasar” emoções, frustrações e medos reprimidos.

 

Fonte: Por Estevam Silva, em Opera Mundi

 

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