Coreomania:
a bizarra epidemia de dança em Aachen
Há 652
anos, a cidade de Aachen, na atual Alemanha, servia de palco a um dos fenômenos
mais intrigantes e enigmáticos da era medieval. Sem qualquer razão aparente,
centenas de moradores da cidade saíram às ruas e começaram a dançar de forma
frenética, incontrolável e supostamente involuntária.
Os
dançarinos pulavam, rodopiavam, gritavam, alucinavam e continuavam bailando por
horas a fio. Dançavam até os pés sangrarem e só paravam quando colapsavam de
exaustão. Alguns, literalmente, dançaram até a morte.
Os
populares que observavam o curioso acontecimento logo se juntavam à multidão
dançante. De Aachen, o fenômeno se espalhou por Bélgica, Holanda e França,
afetando milhares de pessoas. Tinha início assim um dos maiores surtos de
coreomania (ou “epidemia de dança”) da história.
Por ter
começado em 24 de junho, Dia de João Batista, o fenômeno ficou conhecido como
“Dança de São João”. Muitas hipóteses foram formuladas para elucidar o
misterioso evento, mas até hoje não há uma explicação consensual.
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Primeiras ocorrências
A
epidemia de dança de Aachen é uma entre várias ocorrências de coreomania
registradas na Europa ao longo da história. Conforme Eugène Louis Backman e
Dorothy Schullian, o surto mais antigo do qual se tem notícia teria ocorrido
ainda no século 7, mas as informações sobre esse episódio são escassas e
conflitantes.
Uma
crônica datada do século 11 oferece uma explicação sobrenatural para o
fenômeno. O texto relata um episódio que teria acontecido em Kölbigk, um
pequeno vilarejo nos arredores de Bernburg, na Saxônia. Em dezembro de 1021, um
grupo de 18 pessoas teria se reunido em frente à igreja da aldeia e começado a
cantar e a dançar em roda, atrapalhando as cerimônias religiosas da véspera de
Natal.
Incomodado
com o barulho, o padre do vilarejo ordenou aos dançarinos que voltassem para
suas casas, mas foi completamente ignorado. Furioso, o sacerdote lançou uma
maldição sobre o grupo, condenando-os a dançar por um ano inteiro, sem parar. A
praga teria funcionado e os bailarinos só conseguiram se libertar do frenesi no
Natal do ano seguinte.
Outros
episódios ocorreram nos séculos 13 e 14. Em 1237, na região alemã da Turíngia,
um grupo de crianças caminhou por 20 quilômetros, indo da cidade de Erfurt até
Arnstadt. Ao longo do trajeto, pulavam, dançavam e cantavam, completamente
incapazes de despertar do transe.
Em
1278, outro evento ocorreu em Maastricht, no sul da Holanda. Tomadas pela
compulsão, 200 pessoas dançaram por várias horas em cima de uma ponte sobre o
Rio Mosa. Sobrecarregada, a estrutura acabou colapsando e várias pessoas
morreram afogadas. Os sobreviventes foram socorridos em uma capela dedicada a
São Vito — justificando o epíteto de “Dança de São Vito”, outro sinônimo para
coreomania.
A
região alemã de Lusácia, na fronteira com a Boêmia, registrou um surto de dança
em 1360. Mulheres e meninas começaram a vagar pela região, dançando e gritando
incontrolavelmente enquanto carregavam uma imagem da Virgem Maria.
O
fenômeno também atingiu o sul da Itália, onde a sua causa era popularmente
atribuída à picada da tarântula-do-mediterrâneo. As vítimas entravam em um
estado de enorme agitação e sentiam uma compulsão irresistível para dançar.
Acreditava-se que a dança “expulsava” o veneno do corpo através do suor. Para
ajudar no processo, músicos eram incumbidos de executar canções rápidas e
animadas. Essa “terapia” daria origem ao ritmo folclórico que hoje conhecemos
como tarantela.
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A epidemia em Aachen
Até
meados do século 15, os surtos de dança eram relativamente pequenos, geralmente
envolvendo algumas dezenas de pessoas. Além disso, as crônicas coetâneas que
tratavam sobre esses eventos eram escassas, o que levou alguns historiadores a
considerarem os relatos de coreomania como lendas populares.
A
epidemia de dança ocorrida em Aachen em junho de 1374, no entanto, não deixa
dúvidas sobre sua veracidade. O episódio foi relatado por dezenas de cronistas
e registrado na documentação oficial de várias cidades.
O fato
ocorreu durante as celebrações litúrgicas do Dia de São João. A princípio,
pequenos grupos começaram a formar círculos e a dançar freneticamente de mãos
dadas, como se estivessem em transe, alheios ao que ocorria ao seu redor. As
rodas de dança foram aumentando com a chegada de mais populares e peregrinos ao
longo do dia. Logo, centenas de pessoas estavam dançando pela cidade.
Os
dançarinos batiam palmas, gritavam, giravam, gargalhavam, choravam copiosamente
e diziam coisas sem sentido. Estranhamente, a dança parecia ser involuntária.
As crônicas relatam que os participantes não conseguiam parar, como se
estivessem sendo forçados a dançar contra a própria vontade.
As
vítimas da epidemia imploravam por socorro, gemiam de dor, mas seguiam dançando
noite adentro, mesmo com os pés sangrando. Só conseguiam parar quando
desmaiavam de exaustão. Nesse momento, precisavam ser imobilizadas e amarradas
para que não fossem novamente acometidas pelo transe.
O
fenômeno foi descrito de forma detalhada pelo médico alemão Justus Friedrich
Karl Hecker no livro A Peste Negra e a Mania da Dança: “os participantes
formaram círculos de mãos dadas e, parecendo ter perdido todo o controle dos
sentidos, continuavam dançando, indiferentes aos espectadores, por horas a fio,
em delírio selvagem, até que finalmente caíam no chão exaustos. Queixavam-se
então de extrema opressão e gemiam como se estivessem sofrendo da agonia de
morte, até serem envoltos em panos apertados em volta da cintura,
recuperando-se em seguida e permanecendo sem queixas até o próximo ataque”.
Cronistas
registraram que os dançarinos relatavam visões terríveis e, em alguns casos, se
comportavam de forma violenta, animalesca ou obscena. Em “Decani Tongrensis”,
Radulphus de Rivo afirmou que as pessoas afetadas “entoavam cânticos
pronunciando nomes de demônios nunca antes ouvidos”.
Alguns
dos dançarinos se autoflagelavam, acreditando que estavam possuídos por
entidades malignas. Outros ficaram extremamente violentos, agredindo
gratuitamente os moradores da cidade. Houve ainda casos de dançarinos que
desenvolveram uma peculiar aversão pela cor vermelha.
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Novos surtos
O surto
de dança se prolongou por várias semanas e logo começou a afetar as cidades
vizinhas. Em Trier, os dançarinos causaram escândalo quando ficaram nus, usando
apenas guirlandas de flores na cabeça. Em seguida, eles se entregaram a uma
gigantesca orgia em uma floresta nos arredores da cidade.
A
epidemia de dança continuou se espalhando, afetando várias cidades e aldeias ao
longo dos rios Reno e Mosela. Episódios semelhantes ocorreram em Colônia,
Liège, Utrecht, Tongeren, Metz, Estrasburgo e outras localidades hoje situadas
na França, na Bélgica e nos Países Baixos. Estima-se que dezenas de milhares de
pessoas foram afetadas.
O
fenômeno causou perplexidade e alarmou a Igreja Católica e os governos locais.
As autoridades tentaram combater a epidemia isolando os dançarinos para evitar
a “contaminação”. Acreditando que as vítimas do surto estavam possuídas por
demônios, os padres realizavam sessões de exorcismo. Não raramente, esses
procedimentos descambavam para a tortura, com os dançarinos sendo acorrentados,
espancados e afogados em barris de água.
O
fenômeno em Aachen foi debelado após alguns meses, mas outros episódios
voltariam a afetar a Europa periodicamente, como os surtos ocorridos em
Augusburgo (1381), Zurique e Schaffhausen (1428).
Uma das
mais graves epidemias de dança eclodiu em Estrasburgo em julho de 1518, quando
centenas de populares se juntaram a uma mulher chamada Frau Troffea e dançaram
por várias semanas. Conforme relatos do período, o episódio teria resultado em
várias mortes por infarto ou esgotamento físico.
Ainda
no século 16, a epidemia atingiu Basileia (1536) e Anhalt (1551). Os surtos
ainda apareceriam de forma isolada até meados do século 17, quando o fenômeno
das “epidemias de dança” desapareceu por completo.
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Possíveis explicações
As
causas da coreomania são um mistério até hoje. À época, os religiosos
interpretavam que o fenômeno era causado por influência demoníaca ou como uma
punição divina pelos pecados da humanidade.
Paracelso,
um dos expoentes da “Revolução Médica” do Renascimento, foi um dos primeiros
autores a rejeitar uma explicação espiritual para as epidemias de dança,
priorizando a busca por causas fisiológicas. O médico suíço acreditava que o
surto era causado pelo “sangue superaquecido” das vítimas, que resultaria em
movimentos involuntários e frenéticos.
Alguns
estudiosos tentaram atribuir a epidemia de dança à coreia reumática de
Sydenham, um transtorno neurológico que causa tremores, movimentos
involuntários e alterações comportamentais. Os sintomas da doença, entretanto,
não se encaixam nos padrões observados durante os surtos de coreomania.
Outros
autores contemporâneos sugerem que a coreomania pode ter sido uma epidemia de
ergotismo, uma intoxicação causada pelo fungo “Claviceps purpurea”, que
contamina cereais como o centeio. A hipótese explicaria as alucinações e os
espasmos, mas não ajudaria a elucidar a maioria dos sintomas. Além disso, nem
todas as regiões afetadas eram produtoras ou consumidoras de centeio.
Entre
as explicações contemporâneas mais aceitas estão as hipóteses de histeria
coletiva ou de uma doença psicogênica em massa. Os surtos, afinal, costumavam
ocorrer em contextos de crise social, marcados por estresse profundo e extremo
sofrimento psíquico.
No
século 14, a epidemia de peste bubônica havia dizimado cerca de um terço da
população europeia, deixando uma sociedade traumatizada, empobrecida, tomada
pelo pânico e imersa em questionamentos religiosos e existenciais. A “dança”
poderia ter funcionado como um instrumento de catarse coletiva, através da qual
os participantes tinham a oportunidade de “extravasar” emoções, frustrações e
medos reprimidos.
Fonte:
Por Estevam Silva, em Opera Mundi

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